Residente neste
meu sítio, “à mesa do café”, durante cerca de meio ano, “Angola: a terceira
alternativa” nem por isso deixou de despertar interesses convergentes e
divergentes, após a sua apresentação, no dia 7 do corrente mês de Agosto,
mediante um texto analítico do amigo e extraordinário intelectual Justino Pinto
de Andrade, que lhe dissecou a essência. Mais uma vez se prova a persistente
importância do livro físico, perante um mundo aparentemente avassalado pela
febre das bem-vindas novas tecnologias.
Entre opiniões
convergentes (refiro-me a comentários nas redes sociais) com as ideias que
deixo no texto há os que, no entanto, as consideram insuficientes e pouco
amadurecidas. Compreendo. Na leitura diagonal que se faz no primeiro dia da
compra de um livro, não repararam os que esperavam por um tratado de Filosofia
ou Ciência Política, que se trata apenas de uma reflexão concreta de um cidadão
que é jurista (e político, com certeza!) que parte de questões muito concretas
como estas: porque se torturam, reiteradamente, manifestantes pacíficos, num
país democrático; como é que um país deve “aceitar como normal” que próximos de
uma liderança que se obstina a permanecer indefinidamente no poder, enriqueça
alegremente, aparentemente, à custa do erário público, sem poder questionar-se
sobre as origens de tão avultadas somas; como aceitar que à luz do dia,
tribunais sejam “obrigados” a tomar decisões que deixam o seu prestígio
completamente de rastos, num país democrático e de direito? Isso são apenas
algumas questões entre dezenas que, na minha óptica, podem comprometer o futuro
de Angola que deveria evitar novas revoluções, num futuro próximo ou distante
que, nestas circunstâncias, são inevitávies!
Também não
repararam, comentadores bem-intencionados (porque também os vi, os que apenas
cumprem a missão de desviar leitores do que se pretende passar) que a minha
“terceira alternativa” não é um programa político mas sim, apenas uma proposta
de método de negociação política e social, para evitar que a mudança que se
impõe seja feita por métodos revolucionários, no sentido negativo, experiências
que já vivemos dramaticamente, em Angola, com resultados que se arrastam até
hoje, e que vemos lá fora a criar novos dramas!
Repetindo,
“Angola: a terceira alternativa” é uma proposta de negociação. Não é nem
tratado de filosofia política nem um programa político. Programas políticos
estão em debate na campanha que corre. Mas lá está, se não se segura, já se vê
ela a ser assolada por uma onda de “primeira alternativa”: o medo de perder (o
que será de nós se perdermos!?), a ameaça velada quando não mesmo ostensiva; e
a pouca vergonha de voltar a accionar mecanismos de partido-estado, que estão
hoje ao serviço de uma só pessoa e sua pequena corte.
Numa situação de
“terceira alternativa” os contendores lutam até ao limite para ganhar, mas
não se borram de medo com a possibilidade de perder, quase perdendo a cabeça. E
isso não é utopia nenhuma como alguém pretendeu; vive-se hoje mesmo em países
africanos e outros do terceiro mundo que até poderiam estar mais atrasados que
nós. Estivéssemos nós em 1992. Não. Estamos na segunda década do Século XXI,
com dez anos de paz consolidada.
A minha
“terceira alternativa” é ela própria minha própria autocrítica que pertenço,
incomodamente, a uma geração de políticos que só sabe apontar erros aos outros,
nas grandes questões da construção complexa de um Estado moderno em África.
Quanto muito, amnistiar os outros pelas suas faltas graves, esquecendo as
nossas, que nos julgamos de santos. Autocrítica que não faz mal a ninguém. Se
fizesse mal não teríamos um ANC a reconhecer – para contribuir para a paz
sustentável, na chamada Comissão da Verdade e Reconciliação Nacional – os seus
próprios erros, durante a gloriosa luta travada contra as injustiças do
apartheit, na África do Sul.
Por isso, a “minha
terceira alternativa” que não tem a ver só com eleições, mas também considera o
valor das eleições, saiu muito bem antes destas eleições, para as quais tece
algumas considerações. Para aprofundamentos, haverá “todo o tempo do Mundo”,
depois desta e de outras eleições, se o Criador o quiser e os homens o
permitirem.
“Angola: a
terceira alternativa” é apenas um “manifesto” – como diz o Justino – de
ideias. O que posso concluir a partir de algumas críticas mais severas que eu
li, é que muito boa gente em Angola já não acredita em ideias: ou acção ou o
repouso silencioso dos mortos.
Mas eu acredito na
força das ideias. Nelson Mandela esteve enjaulado durante 27 anos, e foi Chefe
de Estado apenas 5 anos, mas as suas ideias estão na base da construção da nova
África do Sul. Jean Monnet, com base nas lições da II Guerra Mundial, criou uma
ideia e nasceu a União Europeia. União Europeia que é claramente uma
alternativa à prevalência de guerras que a partir do cadinho do antigo Império
Romano, se espalhavam violentas, transformadas em grandes guerras mundiais. Só
para falar de dois exemplos.
Acções, por vezes
pouco reflectidas, é o que temos tido demais em Angola.
Que haja boas
acções. Mas que haja o debate de ideias. Por isso continuo aqui, à minha “Mesa
do Café”.
Luanda, 11 de Agosto de 2012Imagem: Aléxia Gamito

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