quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Eleições, ideias e minha “terceira alternativa” - - Marcolino Moco



Residente neste meu sítio, “à mesa do café”, durante cerca de meio ano, “Angola: a terceira alternativa” nem por isso deixou de despertar interesses convergentes e divergentes, após a sua apresentação, no dia 7 do corrente mês de Agosto, mediante um texto analítico do amigo e extraordinário intelectual Justino Pinto de Andrade, que lhe dissecou a essência. Mais uma vez se prova a persistente importância do livro físico, perante um mundo aparentemente avassalado pela febre das bem-vindas novas tecnologias.
Entre opiniões convergentes (refiro-me a comentários nas redes sociais) com as ideias que deixo no texto há os que, no entanto, as consideram insuficientes e pouco amadurecidas. Compreendo. Na leitura diagonal que se faz no primeiro dia da compra de um livro, não repararam os que esperavam por um tratado de Filosofia ou Ciência Política, que se trata apenas de uma reflexão concreta de um cidadão que é jurista (e político, com certeza!) que parte de questões muito concretas como estas: porque se torturam, reiteradamente, manifestantes pacíficos, num país democrático; como é que um país deve “aceitar como normal” que próximos de uma liderança que se obstina a permanecer indefinidamente no poder, enriqueça alegremente, aparentemente, à custa do erário público, sem poder questionar-se sobre as origens de tão avultadas somas; como aceitar que à luz do dia, tribunais sejam “obrigados” a tomar decisões que deixam o seu prestígio completamente de rastos, num país democrático e de direito? Isso são apenas algumas questões entre dezenas que, na minha óptica, podem comprometer o futuro de Angola que deveria evitar novas revoluções, num futuro próximo ou distante que, nestas circunstâncias, são inevitávies!
Também não repararam, comentadores bem-intencionados (porque também os vi, os que apenas cumprem a missão de desviar leitores do que se pretende passar) que a minha “terceira alternativa” não é um programa político mas sim, apenas uma proposta de método de negociação política e social, para evitar que a mudança que se impõe seja feita por métodos revolucionários, no sentido negativo, experiências que já vivemos dramaticamente, em Angola, com resultados que se arrastam até hoje, e que vemos lá fora a criar novos dramas!
Repetindo, “Angola: a terceira alternativa” é uma proposta de negociação. Não é nem tratado de filosofia política nem um programa político. Programas políticos estão em debate na campanha que corre. Mas lá está, se não se segura, já se vê ela a ser assolada por uma onda de “primeira alternativa”: o medo de perder (o que será de nós se perdermos!?), a ameaça velada quando não mesmo ostensiva; e a pouca vergonha de voltar a accionar mecanismos de partido-estado, que estão hoje ao serviço de uma só pessoa e sua pequena corte.
Numa situação de “terceira alternativa” os contendores lutam até ao limite para ganhar, mas não se borram de medo com a possibilidade de perder, quase perdendo a cabeça. E isso não é utopia nenhuma como alguém pretendeu; vive-se hoje mesmo em países africanos e outros do terceiro mundo que até poderiam estar mais atrasados que nós. Estivéssemos nós em 1992. Não. Estamos na segunda década do Século XXI, com dez anos de paz consolidada.

 A minha “terceira alternativa” é ela própria minha própria autocrítica que pertenço, incomodamente, a uma geração de políticos que só sabe apontar erros aos outros, nas grandes questões da construção complexa de um Estado moderno em África. Quanto muito, amnistiar os outros pelas suas faltas graves, esquecendo as nossas, que nos julgamos de santos. Autocrítica que não faz mal a ninguém. Se fizesse mal não teríamos um ANC a reconhecer – para contribuir para a paz sustentável, na chamada Comissão da Verdade e Reconciliação Nacional – os seus próprios erros, durante a gloriosa luta travada contra as injustiças do apartheit, na África do Sul. 
Por isso, a “minha terceira alternativa” que não tem a ver só com eleições, mas também considera o valor das eleições, saiu muito bem antes destas eleições, para as quais tece algumas considerações. Para aprofundamentos, haverá “todo o tempo do Mundo”, depois desta e de outras eleições, se o Criador o quiser e os homens o permitirem.
“Angola: a terceira alternativa” é apenas um “manifesto” – como diz o Justino – de ideias. O que posso concluir a partir de algumas críticas mais severas que eu li, é que muito boa gente em Angola já não acredita em ideias: ou acção ou o repouso silencioso dos mortos.
Mas eu acredito na força das ideias. Nelson Mandela esteve enjaulado durante 27 anos, e foi Chefe de Estado apenas 5 anos, mas as suas ideias estão na base da construção da nova África do Sul. Jean Monnet, com base nas lições da II Guerra Mundial, criou uma ideia e nasceu a União Europeia. União Europeia que é claramente uma alternativa à prevalência de guerras que a partir do cadinho do antigo Império Romano, se espalhavam violentas, transformadas em grandes guerras mundiais. Só para falar de dois exemplos.
Acções, por vezes pouco reflectidas, é o que temos tido demais em Angola.
Que haja boas acções. Mas que haja o debate de ideias. Por isso continuo aqui, à minha “Mesa do Café”.
 Luanda, 11 de Agosto de 2012
Imagem: Aléxia Gamito

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