terça-feira, 9 de março de 2010

A Ocidente do Paraíso (17). A que seria a maior fábrica de cervejas em Vialonga, a Sociedade Central de Cervejas.


Mudei-me para uma empresa que pagava melhor. Tinham uma obra gigantesca e andavam à caça de trabalhadores especializados. Enviaram-me para a que seria a maior fábrica de cervejas em Vialonga, a Sociedade Central de Cervejas. Havia um prazo para a sua conclusão, e à entrada afixado num letreiro estavam os dias que restavam. Trabalhava-se de dia e de noite, sábados, domingos e feriados.

Responsabilizaram-me pela instalação da iluminação da sala de desenho, e também pela instalação dos telefones internos dos gabinetes administrativos. Quando não levava comida, e como alguém teve a ideia de improvisar um barraco grande que servia peixe frito quase intragável em bocados de papel dos sacos de cimento, o vinho não faltava, e lá almoçava e me safava. Quando a obra acabou o seu proprietário recebeu a medalha de comendador.

Um colega disse-me que estavam a construir vários prédios próximo de Cabo Ruivo e pagavam bem. Aceitei a proposta e com um aprendiz instalava tubos plásticos nos sulcos abertos das paredes. Verifiquei que o meu trabalho era mais lento que o dos meus colegas, e o encarregado criticou-me. Fui observar como eles trabalhavam, especialmente o tal que diziam ser o mais rápido de todos. Alarmado, vi que não era trabalho bem feito, porque os tubos eram colocados de qualquer maneira, com curvas muito apertadas onde depois os fios passariam com dificuldade. E as uniões colocadas nos tubos não respeitavam as regras.

Ou eram muito largas, ou restos de tubo mais largo com folgas que permitiriam mais tarde a infiltração de humidade ou água, e dando origem a incêndios. O que era necessário era acabar o trabalho de qualquer maneira, e desleixei-me um pouco. Lembrei-me que os mestres que me ensinaram a profissão eram muito exigentes na perfeição, e aqui isso não tinha qualquer valor.

O patrão disse-me que era urgente estender um cabo numa residência no Campo Pequeno e que seria trabalho para pouco tempo. Deu-me a morada e no outro dia de manhã lá estava para efectuar o serviço. O cliente explicou-me o trabalho que deveria ser feito, mas não se tratava só de estender um cabo, era trabalho por toda a casa, e incluía uma revisão à instalação. Ia tomando nota dos materiais necessários, e o cliente alterava constantemente as suas preocupações, não sabia o que queria, e o tempo ia passando.

Aparece o patrão. Depois de um bom dia, pergunta-me se o trabalho já estava terminado. Queria-lhe responder, mas não consegui. Levei uma chuva de palavrões, eu queria explicar mas ele não me deixava, e o tom de voz tornou-se insuportável, respondi-lhe simplesmente:
- Olhe vá à merda!!!

Peguei nas minhas ferramentas, e desalentado fui-me sentar num dos bancos existentes no Campo Pequeno. Acendi um cigarro, e fiquei longo tempo a meditar como seria a minha vida a seguir, pois que o serviço militar aproximava-se, e criminosamente já ninguém empregava trabalhadores nestas condições. A minha condição de desempregado avistava-se.

Imagem: Aqui enchiam-se latas com a cerveja Sagres Zer0%
http://www.cervejasdomundo.com/Central_de_Cervejas.htm

Apocalipse do Apóstolo S. Quase Cinquenta Anos (Fim)


A Católica do Vaticano primeiro excomungou o padre Raul Tati de Cabinda, depois foi o correspondente da Rádio Ecclesia no Namibe, Armando Chicoca, depois foi o professor universitário Nelson Pestana (Bonavena) do Instituto Superior João Paulo II. A seguir será o Campeão Nacional da Liberdade Justino Pinto de Andrade?! Decididamente a Igreja de Angola abandonou os escravos e passajou-se para o outro lado… para os romanos. Mas não, Justino Pinto de Andrade nota-se que está comedido, que mudou o tom. Está pretensamente crítico. De qualquer modo acabarão por silenciá-lo, o que será assim como uma profecia de Nostradamus… o fim da democracia em Luanda. Quem confia na Igreja cai num precipício. Esta Igreja da hipocrisia milenar que sempre nos revende por um barril de petróleo, para os bispos e os seus andores garantirem a reforma assegurada na velhice.

Por isso os partidos políticos em Luanda parecem tribos, e em consequência não é a intolerância política. É a consonância da política tribalista. E não dá mais para culpabilizar Jonas Savimbi porque ele não é certamente e porque já não bate assim. O, ou que, quem será então!? É a experiência de quase cinquenta anos dos lidadores da governação. Até a energia eléctrica o Politburo nos espolia.

O Politburo desviou-a para o campeonato dos estádios do futebol dele, essa tralha a que chamam agora CAN2010 dos prédios e similares em qualquer local onde exista um terreno. O Politburo rouba-nos, suga-nos tudo. Que mais sabe ele fazer? Nada, a não ser guerra. E prepara outra para acabar com tudo o que é oposição. Por causa do golpe de estado dele do Plano C, mas não a ganhará porque as hordas de esfomeados rodeiam e pilham para sobreviverem.

É medonho como se roubam os trabalhadores com um à vontade jamais igualado. Conforme noticiado na Rádio Ecclésia, a empresa portuguesa ARC não pagou aos trabalhadores. Dezembro, antes do Natal, acabaram a obra em Luanda e os seus irresponsáveis fugiram para Portugal com o dinheiro dos trabalhadores angolanos. Não, não vale a pena! Isto é África, é Angola, não tem qualquer valor.

Então, porque é que o trabalhador trabalha e recebe somente no fim do mês? Mas isto está completamente errado! É desumano e explora o trabalhador. Isto tem que ser alterado. E o trabalhador receber no início de cada mês antes de trabalhar. Isto para evitar que o patrão chegue ao fim do mês e não lhe pague, inventando mil e uma desculpa. E o Politburo não tem percepção do que se passa à sua volta. Não sai do castelo, é como Sidarta Gautama, o Buda, que quando saiu do seu castelo pela primeira vez e viu tanta miséria à sua volta, não quis mais para lá regressar.

Pela compostura parece que os bispos da CEAST têm o cartão de militantes do MPLA. E com muita fé e devoção oremos para que os cofres do MPLA lhes abençoem. Os da Igreja mundial são muito humanos e como tal: numa mão uma flor na outra uma fogueira. Numa mão uma cruz, na outra os campos de concentração do Politburo. Nos rostos um sorriso angelical, nas costas um esgar demoníaco.

Entre a nossa oposição e o Papa Bento XVI não existe nenhuma diferença. Apenas se limitam a lerem comunicados de ocasião. São como as interferências nas comunicações. A oposição, se desejar sair deste colonialismo tem que fazer manifestações e greves. Lutarem por melhores condições, porque apenas com palavras isso é snobismo, puro devaneio. Que futuro espera os governantes africanos? Circularão por aí como párias sem destino?
Quem convive com a outra barulheira musical não saudável, o pior veículo de poluição sonora que existe no mundo? É claro… são algumas igrejas. Entretanto a voz de Salif Keita ecoa, apresenta-se, sente-se em tudo e em todos. É vibratória, conciliatória.

Para quando a criação de comités para a salvação de Luanda, Angola, e do planeta? Haverá que declarar guerra aos poderes da destruição instituída? Mais outro terrorismo que nos espera?!

Para quem não entende das coisas convém explicar que ainda nos mantemos na ditadura do proletariado marxista-leninista. Apesar de perder a sua identidade cultural, o angolano mantém inalterável a componente do seu imaginário: as festas dia e noite, das quais é exímio trabalhador destacado.

Imagem: http://morrodamaianga.blogspot.com/

Biografia de Manuel Alegre


Todos os membros da equipa “Azoreans” leram a obra Cão Como Nós. Foi o primeiro contacto com a escrita deste autor e pareceu-nos que Manuel Alegre é um escritor atento e sensível às circunstâncias, aos seres e pessoas que o rodeiam. Procurámos conhecer mais informação sobre este escritor contemporâneo e sobre a sua obra. Pela pesquisa efectuada, concluímos que ele é um defensor da Liberdade, um homem que acredita no Homem. Traçamos aqui o retrato de um homem que sempre se sentiu determinado a mudar o destino do seu país. Pela leitura do livro, apercebemo-nos de que ele é leal ao seu espírito e aos outros, pois “ Um dono nunca abandona o seu cão”.

http://caocomonos-azoreans.blogs.sapo.pt/533.html

Nascido em Águeda, em 12 de Maio de 1936, Manuel Alegre de Melo Duarte estudou Direito na Universidade de Coimbra, onde demonstrou ser um dinâmico dirigente estudantil. Desde jovem revelou o seu espírito interventivo, activo e enérgico em áreas variadas como a cultura, o desporto e a política. Fundou o CITAC- Centro de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra, foi também membro do TEUC- Teatro de Estudantes da Universidade de Coimbra. Jovem enérgico, desportista foi campeão nacional de natação e atleta internacional da Associação Académica de Coimbra. Apoiou a candidatura do General Humberto Delgado. Também foi dirigente do jornal A Briosa, redactor da revista Vértice e ainda colaborador de Via Latina.
Por ter um espírito crítico, por ser defensor da mudança e avesso à ditadura e à guerra colonial, foi chamado a prestar serviço militar pelo regime de Salazar, em 1961, sendo colocado nos Açores. Em 1962, é destacado para Angola, onde dirige uma tentativa pioneira de revolta militar. Foi preso pela PIDE em Luanda, em 1963, durante 6 meses. Na cadeia, conhece escritores angolanos como Luandino Vieira, António Jacinto e António Cardoso. De regresso a Portugal, é-lhe imposta residência fixa em Coimbra, acaba por passar à clandestinidade e vai para o exílio em 1964, residindo em Argel, durante dez anos. Aqui manteve-se leal ao seu espírito de liberdade e tornou-se dirigente da Frente Patriótica de Libertação Nacional. Aos microfones da emissora A Voz da Liberdade, a sua voz converte-se num símbolo de resistência e liberdade. Apesar das tentativas do regime ditatorial para calar a sua voz, os seus dois primeiros livros (apreendidos pela censura), Praça da Canção (1965) e O Canto e as Armas (1967), passam de mão em mão em cópias clandestinas, manuscritas ou dactilografadas. O seu desejo de liberdade, transmitido nos seus poemas encontra voz em dois cantores, Zeca Afonso e Adriano Correia de Oliveira, que cantaram os mais emblemáticos poemas da luta pela liberdade. Manuel Alegre regressa a Portugal em 2 de Maio de 1974, alguns dias depois da Revolução de 25 de Abril.
Integra o Partido Socialista e com Mário Soares incentiva as grandes mobilizações populares que permitem a consolidação da democracia e a aprovação da Constituição de 1976, sendo o redactor do seu preâmbulo.
Político activo, foi deputado por Coimbra em todas as eleições desde 1975 até 2002, deu a sua contribuição no I Governo Constitucional de Mário Soares e, candidatou-se por Lisboa a partir de 2005. Desde 1974, foi um dirigente emblemático do PS, já exerceu o cargo de Vice-Presidente da Assembleia da República e por diversas vezes foi membro do Conselho de Estado (de 1996 e 2002 e de novo em 2005). Foi candidato a Secretário-geral do PS em 2004.
É sócio da Classe de Letras da Academia das Ciências, eleito em Março de 2005.
Sobre a sua obra poética, Eduardo Lourenço afirmou que “sugere espontaneamente aos ouvidos (...) a forma, entre todas arquétipa, da viagem, do viajante ou, talvez melhor, peregrinante”. É de destacar alguns títulos da sua vasta obra: O livro Senhora das Tempestades, que inclui o poema com o mesmo nome, e que Vítor Manuel Aguiar e Silva considerou “uma das mais belas odes escritas na língua portuguesa”; os romances Alma e A Terceira Rosa, este último premiado por duas vezes. De acordo com uma estudiosa da sua obra, Paola Mildonian, Manuel Alegre “canta a dor e o amor da história com acentos universais, com uma linguagem que (...) recupera em cada sílaba os quase três milénios da poesia ocidental”. No Livro do Português Errante, Manuel Alegre, segundo Paula Morão, emociona e desassossega: “depõe nas nossas mãos frágeis as palavras, rosto do mundo, faz de nós portugueses errantes e deixa-nos o dom maior (...) — os seus poemas”. O seu livro, Cão Como Nós, vai na 15ª edição.

Refira-se que a obra de Manuel Alegre tem sido estudada em Universidades de diversos países, nomeadamente, Bélgica, Itália, França, Brasil.

O trabalho de Manuel Alegre tem sido homenageado com variadas condecorações: A Grã-Cruz da Ordem da Liberdade, Comenda da Ordem de Isabel, a Católica e Medalha de Mérito do Conselho da Europa, de que é Membro Honorário; Medalha da Cidade de Veneza, por ocasião do Convénio Internacional “La Porta d’Oriente — Viaggi e Poesia” (Novembro de 1999).

O reconhecimento das suas obras foi-lhe demonstrado através dos seguintes Prémios literários:
1998 - Prémio de Literatura Infantil António Botto, pelo livro As Naus de Verde Pinho
1998 - Prémio da Crítica Literária atribuído pela Secção Portuguesa da Associação Internacional de Críticos Literários, pelo livro Senhora das Tempestades
1998 - Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores, patrocinado pelos CTT, pelo livro Senhora das Tempestades
1999 - Prémio Pessoa, patrocinado pelo jornal Expresso e importante referência no panorama cultural português, pelo conjunto da Obra Poética, editada em 1999
1999 - Prémio Fernando Namora, patrocinado pela Sociedade Estoril-Sol, pelo livro A Terceira Rosa

ALEGRE, Manuel. Biografia de Manuel Alegre. Acedido em: 9, Fevereiro, 2006. Manuel Alegre: http://www.manuelalegre.com/index.php?area=1500

Imagem: http://wehavekaosinthegarden.files.wordpress.com/2008/11/manuel-alegre-dom-alegrote.jpg

De onde surgiram tantos ateus?


Uma pesquisa na Universidade de Oxford mostrou que cerca de 48% dos estudantes não acreditam em Deus. Talvez isso não seja tão surpreendente – a maioria das pessoas acreditam que ateus sejam bem instruídos, principalmente os de Oxford que têm como professor o ícone do ateísmo Richard Dawkins.

Mas há algumas curiosidades sobre isso quando a “população amostral” da pesquisa é o mundo e suas diferentes culturas, não Oxford. Estudos mostraram que há, sim, uma relação entre estudo e a fé em Deus, mas que o ateísmo é mais forte naqueles que têm apenas o ensino médio completo do que naqueles com nível superior completo.

A pesquisa também indicou que as pessoas com mais estudo tendem a acreditarem em coisas mais estranhas. 29% das pessoas com apenas o nível fundamental completo acreditavam em telepatia, contra 51,8% das pessoas com nível superior completo.

Essas pesquisas mostraram, também, que a questão religiosa não depende apenas do nível educacional, mas do sexo, do tipo de cultura e da idade dos entrevistados. Então os não-ateus podem ficar aliviados: já não há mais a crença de que eles sejam menos inteligentes que os ateus.

Fonte: http://www.newscientist.com/article/mg20527506.100-where-do-atheists-come-from.html?full=true

http://hypescience.com/de-onde-surgiram-tantos-ateus/?utm_source=feedburner&utm_medium=email&utm_campaign=Feed:+feedburner/xgpv+(HypeScience)

HYPESCIENCE

segunda-feira, 8 de março de 2010

Luanda atingiu dois zeros


Imobiliário vende-se. CASAS p/demolir c/plano de massas no centro.
(Anúncio publicado no Jornal de Angola do dia 03 de Março de 2010, página treze)

Que futuro aterrador!

domingo, 7 de março de 2010

A Ocidente do Paraíso (16). Além do meu pai era o único que trabalhava. No total éramos dez almas. Desisti dos estudos.


Comecei a estudar electrónica por correspondência. O meu pai pagava as mensalidades. Já ia bem avançado e necessitava de construir um detector de incêndios. A célula fotoeléctrica era muito dispendiosa e aconteceu o que receava: o meu pai já não tinha meios financeiros suficientes para pagar as mensalidades e mais os materiais das experiências práticas. Acabou-se o curso.

Com esforço pessoal consegui emprego como aprendiz de electricista… a partir do zero aprender uma profissão. Enviaram-me para o Ministério da Justiça, no Terreiro do Paço, que estava em reconstrução. A minha função consistia em ir buscar tubos de plástico, rolos de fio de cobre, dar o alicate universal, o alicate de corte, enfim, assistir em tudo o que o oficial electricista necessitava.

Quando chegava a hora do almoço preparava a mesa improvisada. Colocava os pratos, talheres, descascava batatas, preparava o bacalhau e acendia a fogueira para a que era chamada a comida dos pobres. Vários meses aqui trabalhei, e com o estudo dos manuais dos componentes que estavam a ser montados evoluí rapidamente na minha nova profissão.

Passei grande sacrifício quando me enviaram para trabalhar na instalação eléctrica de uma grande panificação em Arrentela, do outro lado do Tejo. Levantava-me às cinco da manhã, e com chuva e frio de rachar ia a pé até à rotunda do Relógio apanhar o primeiro autocarro para o Cais do Sodré. Depois embarcava no cacilheiro e chegado à outra margem apanhava o autocarro que me transportava até Arrentela.

O cómico da questão é que nós pagávamos os transportes do nosso bolso, e quando chegava o dia dos vencimentos, o patrão retribuía-nos o dinheiro gasto nas passagens a título de subsídio de transporte. Na realidade não era nenhum subsídio, não havia nenhum gasto. Era um investimento que nós fazíamos à empresa, um empréstimo avultado porque éramos um número muito considerável de trabalhadores, e com isso a empresa obtinha um lucro considerável.

Pelo tempo já decorrido obtive a carteira profissional de ajudante de electricista, o que me permitia efectuar vários trabalhos sob minha responsabilidade. Aproveitei os ganhos e matriculei-me na Escola Industrial Marquês de Pombal, em Belém, à noite. Durante alguns meses lá estudei, mas o esforço era muito intenso, a distância muito longa, o tempo para estudar era muito escasso, e afinal o dinheiro também não chegava para pagar tantas despesas, porque a minha família também dependia de mim. Além do meu pai era o único que trabalhava. No total éramos dez almas. Desisti dos estudos.

Imagem: http://odivelas-lisboa.olx.pt/a-selva-autor-ferreira-de-castro-iid-75416656

sábado, 6 de março de 2010

A Ocidente do Paraíso (15). Não é por acaso que as grandes fortunas surgem. Quem é muito rico, roubou muito.


Depois despedi-me, com mágoa é verdade, mas já não tinha dúvidas que Wanzeller era um perfeito vigarista. Com ar paternal disse-me:
- Nunca te esqueças que foi graças a mim que conheces todas as ruas de Lisboa, que aprendeste a andar de eléctrico. Eras quase analfabeto quando te conhecemos, fui eu que te ensinei a beber uma ginjinha com elas, e a beber um copo de dois e de três com uma sandes quando estávamos muito apressados. Fui eu que te ensinei tudo o que agora sabes, fui eu quem te preparou para a vida, e poderia ensinar-te ainda mais, mas como me vais abandonar, e isso é grande ingratidão da tua parte, depois de tudo o que fizemos por ti. Por isso pensa bem porque acho que te vais arrepender. Tu és como um filho para nós, gostamos muito de ti. Sempre insisti para estudares mas tu nunca o quisestes. Já que não queres estudar, então aprende a ser um homem.

As palavras eram muito convincentes, mas um ser humano não vive de palavras. Vive sim, mas só depois de se alimentar. Não é possível falar convenientemente sem alimentação. E tudo acabou. A divida que se comprometeu a pagar ao meu pai de quase dois anos, uma pequena fortuna para nós, nunca foi cumprida.

De facto quando um patrão faz muitas promessas a um empregado, e o seu falar é doce, meigo, terno, de muita amizade, e muita música, acreditem que ele está apenas a ser falso. Não é por acaso que as grandes fortunas surgem. Quem é muito rico, roubou muito.

Verdadeiramente nunca conheci ninguém que sendo honesto enriquecesse, e o mundo acabará no caos porque a invasão dos novos bárbaros impiedosos e protegidos por leis internacionais, tem permissão legal para escravizar qualquer trabalhador à escala planetária. Sim, à escala planetária porque quando o próximo planeta for colonizado, serão os famintos que para lá irão extrair os minérios. Tudo em nome da civilização e da descoberta de novos mundos.

Seremos controlados por pulseiras, por coleiras em nome da electrónica. Seremos vigiados por satélites, seremos os novos escravos, seremos exterminados lentamente. Os clones avançarão como exércitos e humanos só restarão meia dúzia, esses que actualmente dominam o mundo, e regressaremos à Idade Média, ao seu sistema social, a um novo reinado em que o senhor do novo castelo do universo reinará por milhões de anos. E nos escravos planetários nascerá uma nova religião. Um novo Cristo surgirá a anunciar que todos os planetas receberão a boa nova do novo evangelho.

Desempregado e sem dinheiro o meu pai diz-me que conseguirá colocação na OGMA-Oficinas Gerais de Material Aeronáutico, porque assim poderei escapar à mobilização para o Ultramar. Coisa que nunca consegui e o meu pai nunca me explicou porque tal sucedeu, apesar das inúmeras promessas que aprenderia a ser mecânico de aviões.

Imagem: http://editora-afrodite.blogspot.com/2006/11/antologia-do-conto-fantstico-portugus.html

Voltaire. E que a inquisição é o auge da piedade e tolerância humanas.


Ele não queria dar aos padres o prazer de vê-lo queimando ou sofrendo. Sobre cada questão que ele se retratava, ele escreveu:

http://www.mphp.org/racionalismo/voltaire---robert-g.-ingersoll.html

"Eles dizem que eu devo me retratar. Espontaneamente. Eu irei declarar que Pascal está sempre certo. Que se São Marcos e São Lucas se contradizem entre si, esta é apenas mais uma prova da verdade da religião para aqueles que entendem dessas coisas; e que uma outra bela prova da religião é que ela é ininteligível. Eu irei declarar que todos os padres são gentis e descompromissados; que os jesuítas são pessoas honestas; que os monges nem são orgulhosos nem dados à intriga; e que o cheiro deles é agradável. E que a inquisição é o auge da piedade e tolerância humanas. Enfim, direi que tudo o que eles desejam de mim é, que eles me vejam repousar, porque eles não iriam perseguir um homem que "não tenha feito nada de mal a alguém".

Ele deu cada dia de sua vida maravilhosa para socorrer os oprimidos, proteger os indefesos, reverter os infames decretos, resgatar os inocentes, reformar as leis da França, eliminar a tortura, abrandar os corações dos padres, iluminar os juizes, instruir os reis, civilizar o povo, e banir dos corações dos homens o desejo e o amor pela guerra.

Vocês podem pensar que eu já disse demais; que eu coloquei este homem muito no alto. Vejamos o que Goethe, o grande alemão, disse sobre este homem:

"Se você deseja profundidade, imaginação, gênio, gosto, razão, sensibilidade, filosofia, originalidade, natureza, retidão, imaginação, flexibilidade, precisão, arte, abundância, variedade, fertilidade, calor, magia, charme, graça, força, e uma visão com a agudeza de uma águia, vasto conhecimento, instrução, excelência, urbanidade, suavidade, delicadeza, correção, pureza, clareza, eloqüência, harmonia, brilho, rapidez, alegria, sublimidade, universalidade, perfeição de fato, preste atenção em Voltaire".

Ate mesmo Carlyle, aquele terrier escocês, com seu rosnado de urso marrom, que atacava humilhando, como sempre supus, porque ele odiava os rivais, foi forçado a admitir que Voltaire desferiu o golpe de morte na moderna superstição.

É o dever de cada homem destruir as superstições de sua época, e na verdade há milhares de homens e mulheres, pais e mães que repudiam de todo o coração crenças na superstição, e mesmo assim permitem que essas mentiras sejam ensinadas aos seus filhos. Eles permitem que a imaginação dos filhos seja envenenada pelo dogma da tortura eterna. Eles permitem que pessoas arrogantes e ignorantes, professores mansos e tolos, semeiem as sementes da barbárie nas mentes de seus filhos. Sementes que encherão seus corações de medo e dor. Nada é mais importante para um ser humano do que viver livre e sem medo.

É muito melhor ser um homem mortal e livre do que ser um escravo eterno.

Pais e mães devem fazer tudo o que podem para manter seus filhos livres. Eles devem ensiná-los a duvidar, investigar, questionar, e todo pai e mãe deve saber que em cada berço de cada criança rasteja a serpente da superstição.

A ORDEM DA NATUREZA
Naquela época, os crentes em Deus fingiam que o plano ou a ordem na natureza não era cruel; que os pequenos eram sacrificados em beneficio dos maiores; que enquanto a vida vivia da vida, enquanto animais viviam de animais, e enquanto o homem era o soberano entre todos, ainda assim o poderoso vivia do fraco. Sendo assim, uma vida inferior era sacrificada para que a superior sobrevivesse. Este argumento satisfazia a muitos. Entretanto havia milhares que não entendiam por que os fracos deveriam ser sacrificados, ou por que a felicidade teria de nascer da dor. Mas desde o advento do microscópio, desde que o homem teve a oportunidade de observar os seres muito pequenos, assim como os infinitamente grandes, ele percebeu que estavam enganados quando pensavam que só os grande viviam às custas dos menores.

Agora se sabe que as vidas de animais visíveis são passiveis de ser, e em muitos casos são, destruídas por seres inferiores; que o próprio homem é destruído por micróbios; os bacilos, os minúsculos seres; nós descobrimos que, para salvar os pequenos germes causadores da febre amarela, milhões de seres vivos morrem; e que países inteiros foram dizimados por essas minúsculas bestas causadoras da cólera. E nós sabemos que existem animais, ou chamem como quiserem, que vivem do tecido cardíaco humano, e outros que preferem os pulmões, e outros de paladar tão requintado que dão preferência ao nervo óptico, e quando já destruíram a visão num olho, têm habilidade suficiente de perfurar a cartilagem nasal e atacar o outro olho. E então nós encontramos o outro lado da questão. À primeira vista, o maior parecia viver às custas do menor, mas numa analise mais cuidadosa, percebemos que os menores vivem às custas dos maiores.

sexta-feira, 5 de março de 2010

A Ocidente do Paraíso (14). A Rosa de Sharon com os seus seios a aleitar um esfomeado


A Noémia, perante o meu gosto de ler teve a ideia de me oferecer um livro. O meu primeiro livro de verdadeira leitura, a Antologia do Conto Fantástico Português. Li-o e reli-o, mas a pensar porque diabo me ofereceu ela este livro, tão diferente das leituras que até então tinha lido? Seria porque eu vivia no fantástico? No irreal? Ou teria ela, apenas ela, devido à sua formação em germânicas aperceber-se da minha personalidade? Por mais que tentasse compreender, o certo é que nunca o consegui.

Acho que era apenas para uma introdução à literatura portuguesa do conto fantástico. Para mim era um volume considerável, pois continha muitos contos de vários autores portugueses. Depois ofereceu-me outro livro, A Selva, de Ferreira de Castro, aqui sim, fiquei impressionado com a vida que este homem viveu e sofreu nos seringais do Brasil, e o mais surpreendente é que tinha apenas a quarta classe, era um autodidacta.

Fiquei muito pensativo desde esse momento. Afinal existiram portugueses que não tiveram meios para estudar, e conseguiram ser grandes escritores. Isso deu-me uma grande força na alma. A Noémia ofereceu-me outro livro, As Vinhas da Ira, de John Steinbeck. Admirei nesta obra a descrição que o autor faz de um cágado, e a Rosa de Sharon com os seus seios a aleitar um esfomeado, mas sobretudo as descrições da grande depressão que para mim eram novidade, pois que me iniciava no conhecimento das coisas.

Já colocava algumas questões pertinentes aos Wanzeller. Já começava a ter um rumo político, já sentia alguma revolta, já sentia alguma percepção perante as diferenças de classes sociais. As minhas questões eram respondidas com: «que eu deveria estudar».

Acontecia que os meus salários continuavam a não serem pagos. Quase há um ano… Quando o Wanzeller recebia o dinheiro dos clientes na minha presença, dizia-me que tinha de pagar os estudos dos filhos e o luxo de casa, porque parecia mal se não vivessem assim. Também tinha que comprar boas roupas devido à condição social que aparentemente ocupavam. Dizia-me para esperar um pouco mais, que no próximo fornecimento aos clientes pagaria a minha dívida. A situação mantinha-se, o meu pai disse-me para sair desse trabalho porque me estavam a explorar. Transmiti a preocupação do meu pai ao Wanzeller, e de imediato ele disse-me que iria falar com o meu pai.

Foi, e deixou um cartão de visita em poder do meu pai, que já ia em mais de um ano de dívida, uma pequena fortuna, e no cartão declarava o valor, e que se comprometia a pagá-la muito rapidamente. Implorava ao meu pai para que evitasse a todo o custo a queixa, a denúncia junto de alguém competente, porque não queria escândalos.

O meu pai concordou e passaram-se mais três meses e nada. Perante a exploração a que me sujeitavam e ainda o facto de constantemente me apelidarem de mariazinha, e insistirem que era um filho de casa, o meu pai insistiu para abandonar o emprego. Assim fiz, Wanzeller tentou convencer-me do contrário, afirmando que iria pagar dentro de três dias, o que não aconteceu.

Imagem: http://www.wook.pt/ficha/as-vinhas-da-ira/a/id/198622

Apocalipse do Apóstolo S. Quase Cinquenta Anos (2)


Os aterradores e desgraçados mentais manobram os sons das colunas para que as paredes, as janelas e os vidros estremeçam. A esta junção alcoólica parece juntar-se a grande orquestra de Luanda... a selva devidamente legalizada? Ninguém consegue acabar com o barulhento martírio das festas que agora são de dia e de noite? Só sabem viver com barulho infernal? É que não se consegue dormir, e claro, nem trabalhar. E ao mesmo tempo as motas circulam de escapes livres, imitam as AK-47, fazem muitos tiroteios e disparam os alarmes dos carros.

É o único divertimento que lhes resta ou moverem-se em grupos com facas, garrafas partidas e promoverem o terror. Outros andam com cães e amedrontam as pobres mulheres vendedoras e espoliam-nas acossando-lhes as feras caninas. Significa que já não há polícia. Junta-se a isto o ainda progressivo envenenamento do fumo dos geradores. Finalmente a selvajaria legalizou-se? O Governo apoia-a? Está tudo tão irreal, tão infernal. Perante o crime constante da poluição sonora e ambiental de geradores que funcionam dia e noite, com desprezo pelos moradores próximos.

A Lei diz-lhes que o importante é facturar e a população para martirizar. Onde não há lei, o senhor das trevas impera e o caos nos desespera nesta nação da quimera. Entretanto a Rádio Despertar noticia que a Conduril, uma empresa de construção civil portuguesa, enviou para o desemprego mais de mil trabalhadores. Mais miséria, mais fome e mais desestabilização social saltam à vista. Entretanto algumas vozes governamentais garantem que estão a criar empregos.

Sem energia eléctrica e sem água continua-se com a construção anárquica dos tais monumentos de utilidade pública. Sem electricidade e sem água que serventia oferecem tais desalmadas construções? Servem para explodir a caldeira da locomotiva a vapor da governação sem nenhuma solução. O mais importante é anarquizar, depois logo se vê! Eis a Pátria dos desempregados edificada. E contra milhões deles ninguém combate. Só as sanguessugas o fazem. Estamos perante a habitual anarquia total e completa numa Nação sem futuro. Roída pelos ratos que teimam em não abandonarem o navio da infausta governação.

Os geradores da negociata destroem e fazem impossível viver em Luanda. Não há prédios, terraços, nada que suporte a existência de geradores disseminados como uma epidemia desconhecida. Temos que nos equipar com máscaras de gás. Isto é uma verdadeira guerra química. Isto é crime contra a Humanidade. Diariamente há incêndios por causa dos geradores e velas de cera. Eis Angola e a sua democracia africana do nada funciona.

O fumo dos geradores faz-nos muito bem à saúde. Purifica os pulmões e tonifica o coração e combate a acidez sanguínea. Faz leveza no andar e mantêm o corpo jovem sem necessidade de procurar a eterna Fonte da Juventude. Viva saudável! Aspire o fumo de três ou mais geradores diariamente. Dá elasticidade nos vasos sanguíneos. É que a energia eléctrica corrompeu-se e na prática não funciona, não existe, nunca mais ressuscitou. Angola realizou um grande acontecimento do futebol africano. Depois de esbanjar milhões de dólares em estádios e demais estruturas, eis que desponta finalmente o CAN 2011 e seguintes da tragédia da fome. Um povo independente que necessita mendigar o pagamento do seu salário.

quinta-feira, 4 de março de 2010

A Ocidente do Paraíso (13). Como é que eu poderia estudar, se já há dois meses não me pagavam os salários.


Com esforço e poupanças e também com a ajuda do meu pai, que foi promovido no serviço – passou a bagageiro na TAP – o que lhe permitia já algum desafogo financeiro. Ele dizia que não era o dinheiro do vencimento que o sustentava, mas as inúmeras gorjetas que os passageiros lhe ofereciam pelos serviços de carregamento das suas bagagens.

Várias moedas que depois de juntas no fim do mês cambiavam-se. Também conseguiu crédito num merceeiro amigo de Moscavide. Ele enviava-nos todos os meses um carro bem carregado de comida. O leite e o pão eram colocados à porta todos os dias bem cedo. Também a pagar no fim do mês.

Comprei a colecção completa, salvo erro da Porto Editora, dos livros Quer Saber? Tratava de muitos temas desde, a História do Dinheiro, até a Mozart, Beethoven, etc. Comecei a aprender muita coisa, a entrar no desconhecido, a sair da ignorância. Depois também comprei a colecção completa do Fantomas, mas só li metade devido à repetição cansativa da personagem, e lamentei o dinheiro gasto. Entretanto Wanzeller muda-se para Queluz, nas proximidades de Sintra, um local muito mais calmo. Uma habitação com apenas dois andares, mas com grande arrecadação na cave e um, pode-se dizer, vasto quintal, que lhe permitia aí instalar a sua fábrica.

Mais um jovem foi contratado e incumbiram-me de lhe ensinar as técnicas de fabricação. A produção aumentou e os clientes também, especialmente as molas para a roupa que os clientes muito apreciavam, pois que eram de boa qualidade. O nosso principal cliente era a Polux, na Rua dos Fanqueiros. Tinha direito a frequentar e a almoçar na casa, a conviver com a família, pois consideravam-me como um filho. A Noémia, licenciada em germânicas, ensinou-me a contar em três línguas, de um até dez. Em alemão, inglês, e francês. Queria despertar-me para as línguas estrangeiras.

De posse da minha colecção Quer Saber? Comecei a devorar um a um os muitos volumes que compunham esta pequena enciclopédia do saber. Andava sempre com um deles na mão, e quando lia perdia-me, alheava-me de tudo. De tal modo me concentrava na leitura que me esquecia do que tinha de fazer.

Para comprar a matéria-prima para abastecer a fábrica em arame, ia ao Rocha Pereira Amado & Latino, na rua da Prata, e os plásticos na Polux, na rua dos Fanqueiros. Depois ia para a estação do Rossio apanhar o comboio com destino a Queluz. Assim que entrava no comboio e me sentava, a primeira coisa que fazia era ler, e de tão hipnotizado algumas vezes ia parar numa ou noutra estação mais adiante e uma vez fui parar a… Sintra.

Perante estes acontecimentos os Wanzeller começaram a mostrar muita preocupação. Deram-me muitas reprimendas, lições de moral mas acabaram por se cansarem, e disseram-me finalmente:
- Assim como és… distraído… nunca serás ninguém na vida! O conselho que te damos é que estudes, e tenta formar-te porque só assim te darão valor. Se não mudares o teu comportamento serás sempre um frustrado, um revoltado contra a sociedade!
Ouvi em silêncio e fiquei a pensar como é que eu poderia estudar, se já há dois meses não me pagavam os salários.

Imagem: http://www.leiloes.net/LIVRO-DE-LEITURA-DA-3-CLASSE-1958-PORTO-EDITORA-4-ED,name,35442079,auction_id,auction_details#largeimg

Apocalipse do Apóstolo S. Quase Cinquenta Anos (1)


E os mais velhos lembram-nos num constante lamento: «Nem os colonos nos faziam isto. Onde estávamos eles respeitavam-mos. Não nos faziam assim»
E contudo ela, Angola, reduz-se a pó.
"Toda a gente sabe que é a especulação e os ‘hedge funds' que estão a puxar pelo mercado.» (Primeiro-ministro grego, George Papandreou)

Revelação da FAMÍLIA para mostrar aos esfomeados as mais desgraças que certamente mais advirão. E enviou-as pelos seus anormais buldogues. E como sempre testemunharemos mais estas profecias, porque o tempo da Nova Vida está conflituante, muito distante! Para as dezoito províncias miséria e fome sejam convosco. E mais jura a FAMÍLIA que é, que era, e que será, e mais os seus espíritos, que certamente também nos atormentarão.

É a síntese da habitual saudação do nosso príncipe, do nosso mais sábio, do nosso rei da nossa terra! Eis que tudo continuará enevoado e de cegos inundado. A FAMÍLIA é o nosso princípio e o nosso fim, porque é todo-poderosa. A FAMÍLIA abastece-se das incomensuráveis espoliações dos desangolanizados e reordena-lhes na Ilha do Mussulo e na outra da Cazanga que mantenham a miséria das províncias.

É possível em 2010 um país sobreviver sem energia eléctrica? Se o mesmo Poder teimoso é incapaz, não há dúvidas de que o é, de fornecer energia eléctrica, então torna-se impossível de fornecer mais seja o que for, porque nos dias de hoje não é possível viver sem electricidade. E daí o também ser impossível ao Poder nos governar. Quanto mais tempo o Poder permanecer, padecerá o estertor das ondas humanas nestes campos dos deserdados. Por aqui, bem governar é condomínios muralhar para neles habitar, sossegar.

E a Europa e os EUA procedem, parecem a Igreja. Comentam palavras, apenas meios discursos. Apoiam o Poder para deliberadamente exterminarem o povo angolano? Afinal o colonialismo e a escravidão agora têm outro nome: democracia. A História é, são, as revoluções periódicas quando o embuste social da fome se torna insuportável. E para continuarem com o ultraje odiento de nos despojarem de tudo, escondem-se no último invento: a democracia. Que outro sistema político implantarão a seguir? Provavelmente clones muito obedientes, democráticos... a clonocracia!

Os apagões do poder apagado, brutalizam-nos até à grande desgraça final. O MPLA já não é partido, é uma fábrica de geradores. Tem muita gente a mais, muitos parasitas, como tal ninguém trabalha e por isso não funciona. O importante é destruir, e que nascerá das ruínas? Que pátria cantaremos com tantos ineptos forjados nas universidades das ruas?! Cantaremos as mortes das morgues quotidianas. Resta-nos a fuga para a morte da incompetência popular generalizada. A liberdade do mwangolé está nos caixotes do lixo. «Não! Já não se chama Luanda!» «Então como é que se chama?!» «Agora é… outro Haiti.»
O que faremos com as multidões de analfabetos que os revolucionários universalizaram nas universidades selvagens?
Luanda só para geradores. Como se fosse possível uma empresa, um banco funcionarem permanentemente com geradores. É horroroso só de pensar nos hospitais. Isto é matar as pequenas empresas que não têm possibilidades de sobrevivência.

É exterminar uma nação, um povo, e regra geral tudo o que seja actividade empresarial. Têm que chamar os brancos ou entregar Angola à China – parece que já acontece – porque está demonstrada a inépcia, a incapacidade no trabalho. Com tanta boçalidade não se vai a lado nenhum. Depois, servindo-se do oportunismo exageram: até importam jardineiros portugueses.

Depois seguir-se-á a importação de empregados para limparem o lixo de Luanda. É que tal já aconteceu há vários anos com os filipinos. Há o risco do colapso geral ou já o atingimos? Porque abrem-se as janelas e entra, respiramos fumo dos geradores. É esta a vergonha do Continente Africano e mundial.

Luanda, apagões e Lei Seca, Fevereiro 2010


O legado marxista-leninista permanece como um entorpecente que nos inebria a alma – que parece já se foi – só restam alguns resquícios. O recalcamento deste marxismo-leninismo é: destruir-nos! Hoje, quinta-feira 04 de Março, até os senhores da EPAL, a Empresa da Água (?) de Luanda, deram uma conferência de imprensa para justificarem a falta grave da água que extermina Luanda. Mas para quê conferenciar se isso da destruição da água já vêm dos quase longos, demoníacos e teimosos cinquenta anos de funesto poder. O conferenciando significa que a água se evaporará definitivamente?

O estado da energia eléctrica está sem solução à vista. Não havendo solução para isto também não existirão soluções para mais nada. A não ser o saque de tudo o que é ou não são Instituições. Mas uma dúvida sistemática me fica: para que será o préstimo do empréstimo de um Bilião de dólares do FMI? Para renovar a corrupção e o saque do BNA, Banco Nacional de Angola? Para pagamentos de mais facturas fictícias das legalizadas e continuadas empresas fantasmas?

E contudo ela, Luanda, reduz-se a pó.

Apagões, Fevereiro 2010
26Fev10 das 15.48 às 22.51. 24Fev10 das 19.00 às 20.25. 23Fev10 das 19.08 às 02.44. 20Fev10 das 20.08 às 18.10 do dia 22Fev10. 19Fev10 das 02.00 às 16.15 e das 21.11 às 23.20 (BDE). 18 Fev10 das 06.17 às 06.44. 17Fev10 das 19.15 às 22.30 e das 23.21 às 23.32. 16Fev10 das 21.05 às 21.29. 13Fev10 das 23.00 às 17.27 do dia 14Fev10, (BDE). 11Fev10 das 21.55 às 22.05. 10Fev10 das 13.46 às 19.25. 08Fev10 das 13.10 às 13.40. 03Fev10 das 23.30 às 00.50 do dia 06Fev10.

BDE. Brigadas da Destruição da Electricidade. São jovens com alicates nas mãos que destroem os condutores eléctricos inovando curtos-circuitos e posteriores incêndios. Tudo na mais revolucionária impunidade.
Delenda Luanda.

Jornal de Angola, 15 de Fevereiro de 2010


Porta-estandarte do marxismo-leninismo e órgão oficial da nova Constituição

Julião Mateus Paulo “Dino Matross”. O MPLA aposta na construção do país em todos os sentidos. O MPLA sempre esteve ao lado do povo.

Primeiro secretário do MPLA garante. Em Angola Cabinda é baluarte das mudanças.

No sector da energia está em curso a construção de duas subestações eléctricas, de 400 e 200 KV, que vão levar energia eléctrica ao município de Viana (Luanda).

Editorial. Carnaval da III República. De Cabinda ao Cunene, angolanos de todos os estratos sociais saem à rua por ocasião do Carnaval que, pela sua beleza e pelo número de pessoas que mobiliza, suscita também o interesse de cidadãos de outros países.

Para o presente ano. Procura mundial do petróleo foi revista em alta pela AIE

Inovação. Responsável empresarial destaca importância das tecnologias da informação na economia.

Precisa-se de correctores de imóveis

Chuva impediu fiéis de assistirem ao culto dominical. Cidade de Luanda acordou encharcada.

Na província da Lunda-Sul. Água para todos no Alto-Chicapa

Direcção do Movimento Espontâneo toma posse no Huambo

Muandumba discursa no dia do ministério. Desporto ajuda a manter a paz

Chuva não impede desfile do Carnaval dos infantis






Títulos do FOLHA 8, número 996 de 27 de Fevereiro de 2010


Companhia de comandos em conflito com generais
MPLA e a Luta de Libertação Nacional. Agostinho Neto e Savimbi, quem traiu
Savimbi continua presente
Tânia Burity em escândalo
Caso Frescura. Sentença pode cair a qualquer momento
A nova Constituição é uma espécie de espoliação generalizada
O Cavaleiro Epok, O Petrolífero (18). Reino Jingola, algures no Golfo da Guiné

Sociedade anónima (III)
Direitos humanos em Angola. Um puxão de orelhas
Como avaliar os níveis de pobreza num país “Tabulação empírica”
Cuchi-Menongue. Os católicos e a sobrevivência
Advogados contra injustiças
Casas destruídas não indemnizadas
Fogo queima mais de um milhão de dólares. Católicos discutem ensino com ministro. Vita Vemba apela intervenção da sociedade no combate à malária.
Aniversário da Polícia exibe disciplina no pensamento das altas patentes.

Asilo: Mauritânea e Sudão lideram pedidos
Folha familiar. Quarto arrumado recupera harmonia no lar
Parlamento da RDC recusa projecto de energia da SADC
O capital humano. Investimento de sete mil milhões de dólares
FAA. Descontentamento crescente
Empresa DSL. Funcionários foram expulsos por reclamar salários
Top Secreto. Tudo pó Zé, nada pó “Ngola”. O teorema da “Pizza”
A Quente. Analtina, a voz do Brasil é ela! O inferno no “paraíso” da Ilha. A vitória confiscada.
Urbanizando. A desterritorialização do município do Cuchi: no tempo e no espaço.
Ética & Existência. Este governo é uma “máfia”!
Guiné-Bissau. Militares contornam a lei e dão golpe silencioso

Do outro lado do Oceano. Higiene, um assunto constrangedor
Psicologia & Você. Sexualidade: a disfunção eréctil
Canto da leitura. Os Imbangala e os Portugueses
Ciência & Educação. Os desafios dos sindicatos e o novo Governo
Espaço poético. Cultura. Angolanos participaram na criação dos E.U.A.
Depois do Carnaval. Opiniões e reacções
Mitosofia. A propósito da Constituição Angolana.
A literatura na busca dos falantes. Pontuar com regra é indispensável. E o caso de Saramago?
Para onde vamos











quarta-feira, 3 de março de 2010

A Ocidente do Paraíso (12). Dava-me uma lata de um galão e uma mangueira, e apontava para outro Austin Cooper S


Depois, através de pequenas engrenagens metálicas procedia-se à feitura das molas, dos cabides e dos suportes para os ferros de engomar. O dono desta original fábrica doméstica era descendente de judeus holandeses, os Wanzeller. O segredo já vinha de família. Vieram para Portugal fugitivos da Holanda por causa dos nazis e aqui ficaram. A esposa Licínia, a filha Noémia, e o filho Carlos Alberto eram donos de grande cultura e intelecto. Na realidade devo-lhes a iniciação nos grandes mestres da literatura mundial.

Nova mudança de casa. Finalmente e definitivamente para Olivais-Sul, Encarnação, arredores de Lisboa, com quatro andares. Eram as casas prometidas por Salazar para os pobres, que mediante pequenas prestações mensais, ao fim de vinte anos seriam entregues aos moradores. Um bairro bonito, bem estruturado, bem arborizado, com floresta e piscina.

Com grandes espaços livres, um liceu, escola, banco, supermercado, com um senão. Falta de mais espaços para actividades desportivas. Os jogos de futebol disputavam-se na rua asfaltada, à noite. Quando um carro circulava éramos obrigados a interromper a partida, e o carro nívea, azul e branco da polícia perseguia-nos a toda a hora.

O Jorge, mecânico, dizia-me para aguardar que já ia buscar o Austin Cooper S de um cliente, e depois ia-mos dar umas voltas por aí. Só que tínhamos que roubar gasolina, porque estes carros consumiam muito combustível. O Jorge, conhecedor das redondezas sabia onde estariam os abastecedores com gasolina da melhor qualidade, no bairro da Encarnação. E lá pelas três da manhã quando todos estavam a dormir, dava-me uma lata de um galão e uma mangueira, e apontava para outro Austin Cooper S, chamando-me a atenção de que: «Esse aí está bem abastecido, e o tampão é fácil de abrir.»

Aproximava-me então para o reabastecimento. Tudo estava bem iluminado, e receava que se alguém me descobrisse, não sei como seria, pois que era muito fácil ficarmos encurralados. Mas nas várias vezes que abastecemos por este método, por sorte nunca fomos surpreendidos. Depois mergulhávamos na noite. O Jorge ia sempre ter com a namorada dele, ali para os lados de Moscavide. Ela estava sempre à espera dele, sempre preparada a qualquer hora da noite.

Ela gostava imenso dele, e como tinha uma irmã, vinham as duas muito felizes porque iam passear de carro, mas tinham que voltar antes do amanhecer para iludir os pais como se não se tivessem ausentado de casa. Depois parávamos num local bem escondido, e o carro ficava com roupas espalhadas por todo o lado. Fazíamos amor até ficarmos cansados, e depois as nossas namoradas procuravam os biquínis, os soutiens e o resto da roupa. Tinham uma grande preocupação de arranjar os cabelos e alisar a roupa amarrotada.

Depois íamos comer pão quente com manteiga e beber uma garrafa de leite nas bombas de combustível da SACOR, na Encarnação, que também tinha restaurante. Muito rápidos íamos levá-las a casa, depois era eu. O Jorge ensinou-me que para entrar em casa sem ninguém dar conta, tinha que meter a chave muito devagarinho na fechadura e ir rodando lentamente, ao mesmo tempo que segurava no puxador da porta, levantando-a para evitar as folgas. Assim evitava-se o ranger e o chiar gótico quando se abre uma porta. Depois em passos muito leves ia para a cama. As nossas namoradas não necessitavam destes cuidados, porque entravam pela janela que antes deixaram encostada. Tudo ficava em segredo, só nós é que sabíamos.
Imagem:
http://www.azmengineering.com/sales/classic-cars/cars/images/AustinCooperS-Mk1/120-2024_IMG.jpg

A nova Constituição é uma espécie de espoliação generalizada (Fim)


O que interessa são as vendas. As populações que morram nos pátios da fome. Isto é também um crime contra a Humanidade porque fundamentalmente atiram com as mulheres para a subserviência da prostituição, à sua violação sistemática como escravas sexuais. E na continuação das pirâmides Angola segue a outra edificação, agora com presidentes faraós. Angola não tem energia eléctrica.

Na realidade está no caos económico e social porque espoliada, como sempre, por meia dúzia de endocolonialistas. Está um oásis para as companhias petrolíferas. As populações seguem os cortejos das seculares filas indianas para os campos negreiros da morte. Não é por acaso que as petrolíferas têm grandes lucros, tesouros escondidos… é isto o marxismo-leninismo angolano.

Quase cinquenta anos de poder ilimitado, com petróleo e diamantes mas sem universidades, deram ao povo angolano uma característica peculiar: o infame analfabetismo que o conduziu à boçalidade, à idiotice e canalhice. E isto não é uma floresta não, é uma selva profunda. Não há porto para este barco. O governo ainda não zarpou, continua ancorado, encalhado.

Há meia centúria que prometem a verdura da agricultura, mas não conseguem plantar, apenas nos prantear. Só plantam prédios destoados, despersonalizados numa Nação de poetas sem noção. Radicais acompanhados por sorrateiros Familiais. O governo está como uma barcaça hipotecada. Fundiu-se na lava do vulcão que alimentou e criou. É um governo gulagui, um governo incendiário. Agora com o assédio e a desgraça dos prédios e dos estádios deles, a água sumiu e os pátios também.

É só para eles e para os prédios e estádios deles. Enquanto eles nos governarem, os campos de concentração deles continuarão até nos exterminarem. Isto não é um governo, é uma quadrilha de dráculas com castelos impuros, dissolutos e sangrentos. E todos os vampiros mundiais aqui desembarcam e logo instalam currais. Aqui já deixaram de existir gentes, só agentes, onde só sobrevivem porcos e indigentes. Isto não é um país, é um palácio rodeado de campos de concentração e um jardim zoológico com espécies animais em vias de extinção.

E quantos mais analfabetos se formarem muito melhor. É muito fácil governá-los. Basta dar-lhes umas porretadas para lhes lembrar quem manda e quem deve obedecer. E todos os que estão no poder são forçosamente inteligentes e eleitos pelos seus deuses. E com o apoio e bênção da Santa Igreja governa-se em nome de Deus deportando a demoníaca população para as tendas dos zangos.

Governar é deportar as populações e em campos da morte as concentrar. Alteraram a História porque quando a população chegou os governantes e a FAMÍLIA reinante já cá estavam, tudo era deles. Por isso a população é inoportuna, está a mais. Está onde não pertence. Nesta democracia o crime compensa.

«O governo de Napoleão III foi marcado por uma forte militarização na Argélia e quebrou o sistema de propriedade tribal nativa, fixando árabes e berberes em minifúndios e aumentando a miséria dos agricultores. Em 1870, a região da Kabilia revoltou-se. Reprimida a insurreição, os colonos franceses apossaram-se de 500.000 hectares em detrimento da população árabe. No início do século XX, 1918, um grupo de intelectuais árabes, “os Jovens Argelinos” se organizam baseando-se em idéias nacionalistas, reivindicando melhorias para a população árabe. Nos anos 30 já se falava em supressão do governo francês e igualdade entre nativos e europeus, mas foi após a II Guerra Mundial que os problemas argelinos agravaram-se, pois, na medida em que a França deu aos colonos o direito de se estabelecerem nas melhores terras, quando mais de 1.500.000 famílias berberes não possuíam terras, provocou êxodo rural e miséria, agravando-se os problemas nas áreas metropolitanas e fazendo com que um décimo da população vivesse, então, da caridade pública. Nesse ambiente surge a chamada “Questão Argelina”, um dos maiores problemas internacionais do pós-guerra. Em maio de 1945 houve uma grande chacina de civis argelinos por soldados franceses, no massacre de Setif. A repressão francesa é intensa, militares admitem entre 6 e 8 mil mortos, nacionalistas falam de quarenta a cinqüenta mil. Em 1º de novembro de 1954, foi anunciada oficialmente a revolução argelina.» *
* In Albert Camus http://www.espacoacademico.com.br/013/13cpraxedes.htm






terça-feira, 2 de março de 2010

A nova Constituição é uma espécie de espoliação generalizada (2)


Claro que o indigenato aproveitou e proclamou a independência. Apenas com palavras os indígenas felicíssimos atiram-se ao saque canibalizando tudo o que é colonial. Depois de tudo arrasado e perdidos em quase cinquenta anos dizem que os colonos destruíram tudo. Para se diferenciarem do colonialismo pintaram-no e proclamaram-se marxistas-leninistas. E corajosamente confessam que vivem imensamente felizes.

Os chefes indígenas bem aperaltados de fatos e gravatas de marca ficam como que tragicómicos no travesti angolano. Daqui afundar-se-á o novo homem. Na tribuna de honra os espectadores aplaudem os gladiadores que retribuem a destruição de milhentos casebres e de todos os pátios existentes ou inventados. O mais importante é a espoliação e a condução à miséria de milhões de escravos.

Os ecologistas do betão são como os cães ferozes que mutilam as pessoas. Perante tanta beleza, não sei como é possível viver numa paisagem natural com betão próximo. O betão é inimigo da civilização. E nesta leva, tudo o que é empresário é mercenário.

Mais parecem a velha senhora dos engenhos. O colonialismo agora com nova tecnologia disfarça-se mas nada mudou, continua tudo na mesma, ou piorou?! Há pessoas que teimam na incompetência da governação e não se demitem. Curiosamente acham-se insubstituíveis. A vitória final do marxismo-leninismo é a criação da pátria de tuberculosos.

O marxista-leninista é muito cuidadoso. Quando executa o OGE, Orçamento Geral do Estado, onde é que ele aposta? Evidentemente na repressão da população e da oposição. Investe nas forças da sua defesa e da sua segurança para o protegerem. Onde há eleições, lá está o marxista-leninista com maioria absoluta. O método nunca falha, é infalível. É o regresso em força do marxismo-leninismo.

E uma onda marxista-leninista varre a cidade de Luanda. As empresas estrangeiras já estão ao lado da corrupção e esta também tem muitas moradas. Como pode um poder arrogar-se ao direito de independente onde nada funciona?! Famosa é a acusação da governação sobre o aumento constante da criminalidade. Mas quando em poucos meses se despedem mais de cem mil trabalhadores, quase todos jovens, o que se espera? Tranquilidade? Não, violência de ainda colonizados e esfomeados.

Sem garantias mínimas de sobrevivência. Tratados como selvagens, como lixo. Assim nunca existirá paz social. Primeiro é necessário acabar com o colonialismo, depois pensar-se em país normal, independente. É necessário proclamar a luta pela independência de Angola.

Em Angola o mais importante são os lucros fabulosos das companhias petrolíferas, incluindo a estatal Sonangol. Se notarem bem, quantos mais lucros têm, mais miséria acomete a população. E porquê!? Porque a cobiça e ganância são de tal monta que os protagonistas de tais enredos se desumanizam pela avidez dos dólares. Transformam-se em loucos, psicopatas, e na selvajaria da aniquilação do semelhante para que não hajam gastos dos seus lucros.

A Ocidente do Paraíso (11). Achei que devia ver um filme de caubóis, daqueles que prometiam muita pancadaria com os índios


O meu pai foi mesmo pedir-lhe satisfações, e por entre desculpas e promessas de amizade acabaram a beber uns copos, e os pedreiros a jurarem que me tratariam com o devido respeito. O salário era pago à semana e já ganhava algo considerável. Quando recebia entregava tudo à minha mãe. Ela dava-me alguma quantia que me permitia já uma certa independência. Também era ela que me comprava a roupa. Assim já ia ao cinema, jogava matraquilhos nas feiras, bebia gasosa… e comecei a fumar. Algumas moças já me lançavam olhares lascivos, mas nunca me comprometia por timidez. A minha mãe dizia-me que o dinheiro que ganhava já dava para o pão de casa, porque filhos eram oito, e eu era o mais velho.

Num sábado depois de receber o meu salário, achei que devia ver um filme de caubóis, daqueles que prometiam muita pancadaria com os índios, conforme os cartazes de propaganda afixados. O filme creio que se intitulava Emboscada do Perigo, e terminava com muito dinheiro a ser lançado ao ar, e o herói enquanto beijava a sua amada, dizia: «Tu e eu vamos para Sonora.»
Claro, cheios de dinheiro que até dava para espalhar pelo ar.

Havia um senão. É que depois do filme tinha que passar por uma azinhaga cerca da meia-noite, ladeada por muros de pedra altos, e ao circular qualquer um seria presa fácil de assaltantes que segundo informações já tinham emboscado algumas vítimas. Destemido movi-me por entre a noite, não sem antes ter colocado o dinheiro nos sapatos, e preparado um canivete de ponta muito afiada para o que desse e viesse.

Como um grande aventureiro avancei. Para espantar o medo assobiava durante o trajecto tentando convencer que se me assaltassem mataria quem quer que fosse que me atacasse. Quando cheguei ao fim da azinhaga não queria acreditar, estava salvo.
Entreguei o dinheiro à minha mãe e contei-lhe tudo o que se passou, e como já era muito tarde fui-me deitar.

Mais uma vez mudámos de casa. Não me recordo o nome do local, era ali para os lados de Loures. Lembro-me que a habitação tinha três andares. Ficava no alto de uma colina e quando chovia era complicado sair ou entrar. Lama por todo o lado arrastada pelas águas devido às construções que estavam a ser efectuadas, e as terras acordadas do seu longo silêncio libertavam-se e daí o deixarem-se arrastar pela rua abaixo.

Acabei por conhecer o Ludovino que depois me propôs se eu queria ir trabalhar num ambiente familiar, porque ele ia sair para a sua terra natal, e o seu patrão pediu-lhe para arranjar alguém de confiança, que fosse honesto e trabalhador. Combinámos e no outro dia lá fui com ele apresentar-me. Fui aceite. O local de trabalho situava-se na rua Maria aos Anjos, e era servido pela rede de eléctricos de Lisboa. Ficava num quinto andar de um prédio.

O meu trabalho era fabricar cabides, suportes de ferros de engomar e molas para a roupa. Havia uma maquineta artesanal em madeira montada na cozinha. Pendurava-se um rolo de arame e na extremidade que se arrastava à mão, havia uma marca onde com uma lima se cortava o rolo de arame em pedaços, que depois recebiam tubos de plástico previamente fervidos até amolecerem o suficiente para serem enfiados nos arames cortados à medida.

segunda-feira, 1 de março de 2010

A Ocidente do Paraíso (10). Os soldados aproveitavam-se da miséria e em troca da sopa as mulheres prostituíam-se.


O pior era quando o filme acabava e de regresso a casa punha-me numa correia louca porque o homem invisível perseguia-me. Mas não desistia quando chegava o dia da sua emissão, e lá ia assistir mais uma vez. Novamente no regresso a casa o terror aumentava, as correrias também, porque não existia iluminação pelo caminho nem nas habitações. Nunca pensei que um filme me metesse tanto medo.

A minha mãe disse-me que no quartel dos militares, não me lembra o nome, à noite davam sopa e que ia lá muita gente, na maioria mulheres. Deu-me uma panela. Quando lá cheguei já se encontravam algumas mulheres à porta, outras estavam num local próximo, escuro, resguardado pelo arvoredo. Ouvi murmúrios de prazer, aproximei-me e vi que os militares estavam em cima delas. Os soldados aproveitavam-se da miséria e em troca da sopa as mulheres prostituíam-se. Entretanto um soldado viu-me e correu comigo dali. Perguntou-me onde estava a minha mãe, mostrava nervosismo, aflito por pensar que ela estaria ali. Disse-lhe que não, que não estava, que vim sozinho. O soldado tratou de me despachar, encheu a minha panela, e disse-me que se eu quisesse mais sopa, teria que vir com a minha mãe.

A minha mãe gostou da sopa, eu, a minha irmã e os meus dois irmãos também. Ainda estava bem quentinha. Disse-lhe que para nos darem mais sopa ela teria que lá ir. E ela foi, mas quando se apercebeu do que os soldados queriam nunca mais lá apareceu. Confessou-me depois: «Que para conseguirem sopa as mulheres tinham que fazer poucas-vergonhas, e eu não sou mulher para fazer isso.»

Aos nove anos acabei a quarta classe da instrução primária. O Horácio, meu colega habitual das brincadeiras de caubóis, tinha cerca de dezoito anos, arranjou-me emprego na construção civil. Falou com o meu pai. Disse-lhe que como eu tinha acabado de fazer a quarta classe, também me poderia arranjar emprego e o meu pai concordou.

E lá fui na companhia do Horácio para o meu primeiro emprego. O local ficava muito distante, tinha o nome de Telheiras, onde edificavam muitas construções. Primeiro tínhamos que chegar ao quartel do Regimento de Artilharia, depois apanhar uma azinhaga e passar por inúmeros terrenos baldios. Quando chovia parecia um milagre chegar ao local de trabalho, porque os pés enterravam-se de tal modo na terra barrenta, que para os retirar constituía um pesado fardo.

No início custou-me a entender o porquê de uma criança com nove anos sujeitar-se a trabalho tão pesado, que consistia em carregar baldes de massa pelas escadas do prédio em construção, para que o pedreiro edificasse as paredes com os tijolos que eu também carregava. Mas logo notaram que eu não conseguia carregar um balde de massa. Perante o esforço descomunal que efectuava, e perante o olhar do encarregado da obra, alguém gritou que a criança não podia com o balde, e assim passei a carregá-lo pela metade. Tive sorte, porque já estava para ir para o olho da rua. Em pouco tempo cheguei a ajudante de pedreiro, já edificava paredes com tijolos perante a satisfação do meu mestre.

Depois passei a ajudante de ladrilhador, profissão mais digna e mais bem paga. Antes disso levei várias chapadas na cara. Um pedreiro zangado comigo por ter passado para esta profissão, considerou isso como um acto de desprezo da minha parte. Depois do almoço regado com muito vinho tinto, resolveu atirar-me do segundo andar para cima da massa no rés-do-chão. Perante o meu choro e ameaças de que iria queixar-me ao meu pai, ele ainda me deu mais bofetadas.

Imagem: discosetc.blogspot.com/2009/09/h-g-wells-1897

A nova Constituição é uma espécie de espoliação generalizada (1)


Prédio da 4ª Conservatória na Avenida do Brasil em frente ao Hotel Relaxe. Espoliaram-lhe o pátio e arrancaram às pressas com uma obra do Estado. No mais puro retorno ao retrógrado colonialismo. Sem nenhuma licença de construção mas, não é por acaso que se culminou o advento da III República e da Constituição C, os garantes desta ferocíssima endocolonização.
Eu roubo-te, tu roubas-me, ele rouba-nos. Isto é que é viver?!

«E as universidades em Angola, nem nas cem melhores de África se encontram» é a prova da miséria intelectual da actual e futura angolanidade. E a população de tanto espoliada aguarda ansiosa a vinda de Deus para que se faça justiça. O MPLA está a criar uma classe de animais tão selvagens que muito dificilmente se livrará deles. «A vida é um dom, vai por altos e baixos» Aqui em Luanda só vai por baixos e muitos baixios.

E a luz e a água?! Isso era no tempo dos brancos, e eles já cá não estão. A falsa governação e os seus apoiantes, ferrenhos defensores da democracia parte casebres e gatunagem de pátios lembram-nos os saudosos tempos do Poder Popular. Não nos esqueçamos também das companhias petrolíferas e suas subsidiárias que devem ser investigadas por atentados ao meio ambiente.

Apesar de ter dois ou três edifícios de luxo que servem as elites do poder, para dar a entender que é o Dubai africano, Luanda na realidade está devastada pela erosão do poder político estratificado quase há cinquenta anos. Luanda não é uma cidade, é um campo de refugiados tipicamente africano. Angola segue os trilhos colonialistas.

«A sociedade colonial compreende os estrangeiros de origem metropolitana, isto é, do país colonizador, os europeus ou de raça branca não-metropolitanos e os não europeus, geralmente de origem asiática, os coloured ou homens de cor. Os grupos não desempenham o mesmo papel na colônia mas cada um deles tem preeminência sobre os autóctones. O de origem metropolitana é o mais ativo, pois cabe a ele a função de dominar política, econômica e espiritualmente.

Suas atribuições podem ser classificadas da seguinte maneira: a administração dirige a colônia segundo a política colonial; as companhias comerciais e industriais assumem a exploração da produção, afim de organizar os lucros em benefício da metrópole, processo chamado de pilhagem da sociedade dominada; por fim, as missões cristãs, encarregadas da educação dos colonizados, da conversão de suas almas e de seu encaminhamento progressivo ao universo do dominador. Os brancos não metropolitanos e os asiáticos (coloured) dedicam-se a atividades comerciais intermediárias.» (MUNANGA, 1988: 10-11)*

O governo português nomeou um governador-geral indígena. Na Província de Angola o novo governador-geral nomeou chefes de posto para as cidades. Tudo está corroído, corrompido. A metrópole lava as mãos porque já deu autonomia às suas províncias coloniais. Envia mais colonos que aproveitam bem o saque antes que venha aí outra autodeterminação. Salazar não autorizava a corrupção, agora com a autonomia estes colonos roubam como querem e como lhes apetece. É isso! O indígena renasce para a escravidão do branco sob a batuta negra.

Luanda. Bebé de «zungueira» morto por oficial da Polícia


Um bebé de poucos meses morreu na quarta-feira, 24, no Bairro de S. Paulo, município do Sambizanga, após ter sido atingido com um porrete, arremessado por um inspector, de três estrelas, da Polícia Nacional, conhecido por «Mau Mau».


Segundo testemunhas, a criança, que estava às costas da progenitora, teve morte imediata, ao ser acertado na cabeça pelo bastão, quando «Mau Mau» tentava bater na mãe, cujo nome não foi possível apurar. «Ele está sempre a dar corrida às senhoras e a bater nelas», disse ao Semanário Angolense um comerciante local, que pediu o anonimato.

Após a tragédia, as «zungueiras» foram apossadas de um sentimento de revolta e proferiram palavras hostis e de repúdio contra os agentes da corporação. O cenário de todos os dias na zona de S. Paulo é de efectivos da Polícia e da Fiscalização a perseguirem os vendedores ambulantes, apreendendo-os e aos respectivos artigos.

Em muitos casos, as «zungueiras» não escapam à acção do cassetete. Circunstantes contaram a este jornal que «Mau Mau» está detido na Divisão do Sambizanga, mas não o pôde apurar, pois na Divisão do Sambizanga ninguém se dispõe a falar sobre o assunto.

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