quinta-feira, 8 de abril de 2010

António Setas. O casamento do Alvarenga. Trazia más notícias, «Aconteceu uma desgraça, senhor Alvarenga


Nas vésperas da boda, a “El Dorado” enviou uma equipa de especialistas ao solar a fim de montar os enormes toldos decorativos, que serviriam de abrigo aos convidados em caso de degradação súbita do tempo, dispor como deve ser as mesas e as cadeiras almofadadas e apresentar as amostras de tecidos finos que decorariam as mesas e os balcões frigoríficos transparentes. Com tais adornos foi proposta uma ementa que os Alvarenga aceitaram: acepites, aperitivos, punche, cassolette de bacalhau dourado, lombinhos de Miranda do Douro com cogumelos do bosque e uma “bearnaise”, fruta, pastelaria fina, moka e digestivos. A mãe Paulina foi a única a torcer o nariz, faltavam os camarões.

Como combinado, os convidados tinham encontro marcado no átrio da igreja de Sto. Antão, erguida no alto do monte com o mesmo nome, sítio famoso pela quantidade e singular beleza das suas amendoeiras, a descerem muito juntas pelo monte e a correr pela várzea que se estende até ao mar, numa paisagem tão linda que não havia ano que a terra não a namorasse e a vestisse de flores brancas, que se abriam em Abril.

Os Alvarenga, assim como a família da noiva, os Miranda, que tinham cedido de coração a sangrar e um sorriso amarelo nos lábios a pressões financeiras irresistíveis, iam em traje de cerimónia, smoking e vestido comprido de rigor. O restante povo, amigos, amigos dos amigos, penduras, penduras dos penduras, tal qual como pensavam ser, o melhor possível, com o que de mais requintado havia nos seus guarda-roupas, ou na loja em que se alugam trajes para essas ocasiões.

À hora marcada, nem minuto a mais, nem minuto a menos, todos entraram na igreja. E o pai Alvarenga, ao dar com o Nunes, o pai da noiva, ainda a um tiro de fisga da igreja, o que permitia gracejar, vira-se para ele e pergunta, «Então ó Nunes, você acha mesmo que eu sou mulato?» O Nunes lançou-lhe uma mirada de soslaio, sorriu e disse, «Ouça lá, Pedro, então você acha que eu sou ostrogodo? Olhe bem para mim, eu sou árabe! Portugueses?... o que é isso?! Misturas, só misturas». Riram-se da piada e entraram na casa de Deus.

Missa cantada.
No momento em que o célebre Carlos d’Almeirim entoou as primeiras notas da Missa Solene de Armando Leça, obra de grande porte e indiscutível beleza que ninguém conhecia, a emoção calou a boca a muito boa gente que, de suspeitosa índole, esperava um altíssono fiasco à antiga portuguesa. Emoção essa que não se ficou pela missa, pois só atingiu os píncaros quando, depois de consumado o casamento, o famoso tenor atacou, maneira de dizer, porque de facto acariciou uma inesquecível Ave Maria de Gounot. «A missa mais bonita de toda a minha vida», confessou o pai Alvarenga, quase a chorar, ao sair da igreja.

O serviço de acepipes e aperitivos a abrir a boda começou à roda das seis da tarde, e já no terraço alto - o termo alto, servindo para o distinguir do terraço baixo, em frente à porta da cozinha, nas traseiras -, nos vastos relvados e à volta do lago artificial, atravessado pela ponte romântica, sem os cisnes, que tinham fugido aos primeiros latidos indignados do Nero, o idóneo pastor alemão do pai Alvarenga, havia um mundo de gente entretida numa cavaqueira que se desejava descontraída, mas não era, porque o cenário montado pelos homens da “El Dorado” impunha uma surdina.

Senão imagine-se: três toldos que só vistos nos filmes de Cecil B. De Mille, tipo Quo Vadis, a sobrepujar dezenas de mesas recobertas de toalhas bordadas no mais puro linho do Minho, louças de finíssima porcelana, talheres de prata, copos de tamanho decrescente e alinhados, compondo uma espécie de flauta de Pã, guardanapos artisticamente dobrados abertos em leque, e grinaldas de balsaminas, dálias e isabel-entre-sonhos a realçar a alvura do linho.

Por toda a parte flores e mais flores, em grandes jarros, a separar as mesas, a esconder os suportes dos toldos, rosas solitárias debruçadas numa vénia a iguarias mais requintadas, expostas nos balcões frigoríficos transparentes e nos aparadores, e, erectos como girafas surpreendidas pelo fotógrafo à cata de folhas nos altos ramos das árvores, camisa branca, laçarote cor-de-vinho, colete e calças pretas, cada um no seu devido lugar, os empregados de mesa, que não destoavam do maître-d’hotel, comprimido num smoking azul-petróleo. Ponderado pois era o tom da conversa.

Servidos o vinho do Porto, o punche e os aperitivos, coisa de uma hora mais tarde já só havia cerveja, sumos e batatas fritas. Posto ao corrente do facto, o pai Alvarenga mandou chamar o responsável da “El Dorado”, el Ejecutivo, e pediu explicações. Este assegurou que estava tudo a chegar, vinhos, punche, aperitivos, digestivos e molhos para acompanhar as carnes. Era uma questão de minutos, tudo seria resolvido, estavam a caminho.

Entretanto, os noivos e uma parte da família tinham-se sentado à mesa de honra a conversar, e prolongava-se a sessão de fotografias na ponte romântica. Os minutos voaram a grande velocidade, enquanto que de bebidas e molhos, nenhuma novidade. Às tantas, viu-se el Ejecutivo quase a correr em direcção ao velho Alvarenga.

Trazia más notícias, «Aconteceu uma desgraça, senhor Alvarenga, a nossa carrinha teve um acidente e perdeu-se tudo o que trazíamos para o banquete», fez uma pausa para respirar e continuou, «não se preocupe, telefonámos para a Central e já está outra a caminho». «Mas há vinho ou não há vinho?», perguntou o velho, «Viño há, mas não lhega...», «Então você não disse que ia chegar?!», «Si...», «Então podemos começar a jantar». Sem dar tempo a mais conversas fez um gesto amplo, o que chegou para que toda a gente acorresse às mesas e se sentasse à espera dos petiscos. Contrariado, o maître-d’hotel deu as suas ordens.
(continua...)

Imagem: http://bertini.files.wordpress.com/2007/08/images1.jpg

A modesta contribuição da Igreja de Angola no desenvolvimento económico e social


A Igreja tem tanta experiência secular, que se torna imprescindível no apoio e extirpação da corrupção em Angola. A igreja é uma mais-valia, é um bom exemplo a seguir. Bem-haja!

«A Igreja Está Ao Serviço Do Poder? - Domingos da Cruz

Brasil - Ponto prévio. A abordagem a que nos propómos, é seqüência do artigo anterior, «deus vendeu a sua alma ao diabo!» De acordo com a vocação e missão da igreja, ela deve tomar posições claras em relação ao estado do país e da forma como está a ser conduzido. Por exemplo, o bispo do Congo Democrático D. Joseph Malula confrontou o poder instaurado por Mobutu, opondo-se de forma clara. Não poucas vezes a conferência episcopal congolesa agiu em uníssono. Mais recentemente o episcopado Namibiano, em conseqüência das lamentações do povo em relação aos gastos avultados do presidente nas suas viagens, teve que ir ao encontro do presidente manifestando a posição do povo e assumiram que também concordam com a visão dos Namibianos.

Fonte: CLUB-K.NET


Nos últimos dias, há um ambiente de tensão entre a igreja Católica Zambiana(arcebispo de Lusaka, Telesphore Mpundu e o padre Frank Bwalya ) e o poder, pelo facto de criticar severamente a corrupção durante o consulado do presidente Rupiah Banda. A história regista vários exemplos da necessária e pronta intervenção da igreja para repôr a justiça, a paz, a verdade e a reconciliação. O papa João Paulo II sempre se opôs ao comunismo e contribuiu para a sua queda. Apoiou também os grupos de pressão na Polônia até a instauração da democracia participativa.
Não podíamos deixar de citar Dalai Lama, que usa da sua força enquanto líder espiritual, para libertar o povo tibetano do regime Chinês, com todos os riscos que isto comporta.

Ainda no continente negro, temos uma personalidade de elevado respeito mundial, Desmond Tutu, que tem uma intervenção clara quando se põe em causa a pessoa. Entre várias, a mais recente foi a sua visão sobre o Zimbábue, ao afirmar que R. Mughabe deve ser derrubado do poder. De acordo com algumas críticas, não se pode transformar a igreja num oponente ao governo. Sim, concordamos. Nunca foi esta a nossa pretensão. Simplesmente fomos mal entendidos. O que nós queremos é que a igreja não se silencie perante as injustiças, sob pena de perder a sua identidade. E o mais grave, que a igreja não esteja fundidida com o poder, para o poder e em poder!
De acordo com a sociologia política africana, muitas vezes nos momentos de crises políticas e sociais, só a igreja favoreceu a resolução das querelas com sua experiência de mãe e mestra da humanidade. Preocupa-nos saber, que num país como Angola, onde as sementes do ódio e de convulsões sociais são implantadas todos os dias, não tenha reserva moral capaz de ser solução para possíveis sublevações ou para prevenir.
Tal como afirmamos, o fim do conflito militar causou desestabilidade financeira à igreja, e não só. Mas se quisermos ser rigorosos e partirmos do pressuposto segundo o qual, a paz é a tranquilidade na ordem, e mais: se termos em conta que as dimensões da verdadeira paz, da paz de facto, então, a conclusão razoável é que Angola continua em guerra, uma guerra pura e dura. Por isso, o desafio da paz continua. Está ai, a espera de profetas nos dias de hoje.
«(…) um país com uma democracia débil, governantes altamente corruptos e criminosos, índices elevadíssimos de intolerância política, falta de transparência, instituições inoperantes, exclusão social e partidarização das instituições, justiça extremamente parcial, etnicismo exacerbado, governo máfia, intelectuais frouxos, governantes sem formação, população extremamente armada, partidos do «funje» como diria Belarmino Van-Dúnem, que só esperam o dinheiro que é-lhes de direito, autoridades tradicionais do MPLA, assimetrias regionais (...) A conclusão lógica e razoável» é que de facto estamos em guerra, e a paz é mais do que urgente, por isso, há muito trabalho para Igreja hoje… Não têm porquê descansar.
Sempre que houver injustiça e miséria, a paz é sempre actual. Tendo como pano de fundo a crise em que está mergulhada a hieraquia, arrastadando consigo alguns sacerdotes que estão bem identificados, seria bom os leigos tomarem consciência do perigo da teologia descendente – ou seja – alguns que estão no topo salvam o povo através dos ritos a que estão habilitados como consequêcia da ordenação sacerdotal ou episcopal. Esta gente já nao merece a nossa confianca, por isso, a nossa relação com Deus é essencialmente pessoal, sem perder de vista a dimensão comunitária da nossa fé, mas não tendo mais estes senhores como referências. Ninguém salva ninguém. Só Jesus salva. Mais ninguém! Esta miséria estende-se também às igrejas Protestantes e as seitas(grupos religiosos independentes). Também abriram as portas das suas igrejas para fazer campanha. Receberam ofertas publicamente com toda a publicidade eleitoral que convinha ao patrão. Entre elas citemos algumas: Igreja Universal do Reino de Deus, Assembleia de Deus Pentecostal, Igreja Metodista Unida, etc. Nestas, muitos pastores e bispos também foram agraciados com carros, casas e quantias em dinheiro. Um dos casos mais emplemático foi o envolvimento a nú e crú do reverendo, Antunes Wambo que usou da sua influência como líder da Juventude Cristã para fazer campanha a favor da classe opressora.

De acordo com uma entrevista que condecedeu ao Semanário Folha 8, e recuperada pelo Jornal On-line Club K, revelou que estava discontente com o MPLA pelo facto de não o recompensar tal como esperava, tendo afirmado que o grupo do poder não convém, porque concede benesses aos que não merecem.

Por outro lado, Antunes Wambo trabalhou directamente com Pitra Neto, o então vice- presidente do MPLA, no cabinete para cidadania e sociedade civil do partido. Com base nas suas palavras proferidas na Radio Despertar, num debate onde participamos, assume-se como membro do MPLA e quer assumir um cargo de chefia!
Ainda no quadro das eleições legislativas de 4, 5 e 6 de Setembro 2008, de uma forma geral notamos uma autêntica prostituição política (também) dos bispos protestantes. José Quipungo, bispo da igreja metodista unidade de Malanje e representante da região leste, numa entrevista que concedeu ao jornal A Capital proferiu as seguintes palavras: «Eu sou do MPLA desde manha até a noite» No dia 5 de Setembro no momento de depositar o seu voto na urna, em directo, pela TPA, disse: «Votem no partido do coracão, eu já votei». Só estas evidencias bastam, para não falar da vergonha que é o Dom Emilio de Carvalho, Gaspar João Domingos e seus acólitos.
O processo constituinte foi outro momentos onde verificamos claramente a colagem da igreja angolana ao poder, ao condenarem a UNITA pelo facto de abandonar a assembleia, ao manifestarem adesão a proposta C, proposta ilegal que Eduardo dos Santos introduziu, fazendo mais uma vez o que é de costume, uso e abuso do poder, mesmo assim teve os aplausos dos bispos. Eis a posicão lapidar do bispo da igreja Tocoista, D. Afonso Nunes: «...manifestamos ao Presidente os nossos agradecimentos pela forma sábia e clarividente como tem conduzido os destinos do nosso país».
Sendo a hierarqui da igreja católica um aliado do poder, também não perderam de vista o control da rádio ecclesia, e por isso, a censura é já uma prática quando se trata de matérias críticas ao parceiro – o regime – tal como se pode provar:

A direcção da rádio Ecclesia censurou o programa Discurso Directo, que transmitiria em reposição extratos da comunicação feita por Marcolino Moco em Benguela no debate a quinta-feira, um espaço que reúne quinzenalmente convidados e o público local para dissertação sobre temas de interesse actual, promovido pela organização cívica local OMUNGA.

(...) as pressões vieram de dois sentidos. Um veio através da via ministerial que contactou directamente os responsáveis da rádio sobre quem entre outras coisas, começou por acusar de prazenteira pelo discurso satírico do ex- Primeiro Ministro de Angola, quando tecia críticas contra o actual presidente da República que no interesse próprio tem adiado a realização plena da democracia. O outro caminho que foi usado terá sido o contacto directo com influentes figuras de topo na igreja, que ordenaram depois que o programa não fosse mais transmitido em reposição, às 20 horas de quarta-feira como é habitual.
O teatro e a instrumentalização da hirarquia não para por aqui. O Cientista político Nelson Pestana Bonavena foi expulso do Instituto Superior Joao Paulo II, pertencente a Igreja Católica, pelo facto de ser uma personalidade crítica ao regime. De acordo com a midia, o regime pressionou os bispos para o retirarem e os bispos por sua vez pressionaram o Reitor, Frei Joao Domingos, que ficou muito mal na fotografia, tendo em conta o prestigio que grangiou pela sociedade por causa das suas posições proféticas anteriores. Importa frisar, que o Reitor dismentiu que o professor tinha sido expulso, afirmando que lhe foi pedido para oucupar outro cargo na instituição, que não de professor por razões pedagógicas e rendimento dos alunos. Alguns líderes religiosos manifestam-se insatisfeitos pelo facto do governo angolano tomar algumas decisões que tem a ver com esta área (religiosa) sem os consultar. Esta reclamação na nossa perspectiva perde sentido porque a igreja hoje está ao serviço do poder.
A igreja, ou melhor os lideres religiosos já não têm autoridade moral perante as autoridades políticas porque partilham os mesmos actos, comem dos mesmos dinheiros roubado, se não vejamos, quem aceita ofertas de corrupto, de ladrão é o que? A resposta é uma conseqüência lógica e evidente…!!! Nesta senda, o Secretário geral do CICA, reverendo Luis Nguimbe foi até colocado na lista de candidatos a deputado do MPLA, posição número 8. Talvez por vergonha renunciou. De acordo com a midia foi colocado sem ser consultado! Essa é boa. Agora líderes religiosos são tratados como trapos por causa do dinheiro. O que é que o dinheiro não faz? Outra situação grave é a posição que o bispo de Cabinda tem tomado em relação a violação dos direitos humanos.

(…)De acordo com as informações veiculadas por alguns midias, (…) que a actual liderança de Cabinda no plano religioso não tem sido uma personalidade que favoreça a diminuição do enfurecer dos Cabindas, porque em muitas ocasiões entrou em colisão com os relatórios referentes a violação dos direitos humanos no enclave (e não só), dando a entender que está a tomar partido, quando o clérigo deve ser factor aglutinador, equidistante e estar acima das partes. A extinta Npalabanda sempre publicou relatórios chocantes em relação a forma como as FAAs e a policia tratam os cidadãos daquela zona e em muitas ocasiões o bispo desmentiu, quando na verdade haviam provas fotográficas horripilantes.
Não podiamos deixar de citar o padre Apolonio Graciano que se serve das suas homilias para se lançar contra os críticos do regime. Chegou até ao pico da bestialidade ao dizer que em Angola não há pobres porque as pessoas têm Rav4, telemóveis e parabólicas. Enfim, as suas homilias são de um autentico comissário político do partido-estado. Não é por caso que chegou a afirmar que se alguém não gosta das suas pregações que se retirasse da igreja!

Porém, durante um periodo da nossa história, que vai de 1975-2002 a Igreja esteve de facto ao serviço do povo e de Deus, hoje pelos sucessivos factos visíveis e por investigar, nota-se claramente que ela é do poder e para o poder, dai a seguinte questão: a igreja angolana está ao serviço de Deus, do povo ou do poder ?»

quarta-feira, 7 de abril de 2010

A Ocidente do Paraíso (40). Operar em campanha é totalmente diferente do estar instalado nos gabinetes.


Esse colega “mais velho” ficaria mais uns dias para que a passagem de testemunho se assegurasse devidamente, e iria no próximo MVL. Era tudo muito diferente da instrução que recebemos aquando na especialidade, e sentia algum receio. Operar em campanha é totalmente diferente do estar instalado nos gabinetes. Como era eu que tinha melhor classificação, seria o adjunto do furriel Moreira. Éramos oito telegrafistas. Quatro de transmissões de engenharia e quatro de transmissões de infantaria. A diferença entre engenharia e infantaria residia em que os primeiros eram fixos, ficavam no aquartelamento, e os outros carregavam os rádios quando os seus pelotões se movimentassem. Existiam dois operadores de cripto que dependiam directamente apenas de duas pessoas: o Moreira e o comandante da companhia. Esta tinha por nome CCAV 3418, Companhia de Cavalaria nº 3418. Não, não tínhamos cavalos.

A nossa rede de rádio chamava-se ALTA, e dependíamos do batalhão que estava situado no Toto. Era daqui que recebíamos e lhes enviávamos todo o tráfego através de mensagens orais em alfabeto fonético ou cifradas.
O aquartelamento localizava-se no alto de um monte. À entrada ficava o posto de rádio, para a esquerda e no mesmo edifício as instalações dos furriéis. Mais à esquerda e separados, ficavam os oficiais e depois a sua messe. Havia um intervalo vazio, formado por um vale profundo e de difícil acesso. Havia a enfermaria, depois o refeitório, o depósito de géneros, e as nossas casernas. O balneário tinha água continuamente. Ela vinha de uma nascente situada a cerca de quinhentos metros e que servia de regadio a uma plantação de um fazendeiro.
Num outro monte próximo estavam instalados alguns lança-morteiros em posições estratégicas apontados para locais considerados perigosos, no caso de nos atacarem. Como era um monte de dimensões consideráveis mas muito mais afastado.

Na picada que conduzia ao aquartelamento ficavam as instalações de um fazendeiro. Tinha cerca de cinquenta trabalhadores que viviam em condições deploráveis… e uma mulher. Por causa dela, as cenas de pancadaria eram frequentes. Quando o fazendeiro conhecia estas ocorrências castigava-os violentamente. Nós, militares, estávamos terminantemente proibidos de nos intrometermos nos assuntos civis. Era o deixa-correr.

A nossa companhia constituía-se em cinco pelotões. Quatro, pelo vulgarmente dito, de atiradores, e o restante, pelos especialistas vulgarmente chamados de aramistas, porque permaneciam sempre no interior do arame farpado. Mais tarde, juntou-se um pelotão de naturais de Angola. Além do comandante, o capitão Valadas, haviam três alferes: o Lopes, o Santos e o Pereira que ficou pouco tempo entre nós, devido a ter partido uma perna no decorrer de um jogo de futebol.
Os dias passavam. A paisagem com os montes à nossa volta, e a vegetação, já se tornavam cansativos porque não havia mais nada para observar.

Imagem: Emblema da CCAV 3418
http://www.agbmorais.com/angola.htm

António Setas. O casamento do Alvarenga. Dezenas de filhos que tinha deixado a sós com as mães negras e mulatas do sul de Angola


O buril do zé-povinho tem destas coisas, talhar no barro de que são feitos os homens rugas mais profundas do que as que a realidade lavra e menosprezar a beleza das feições. E se por certo julgavam os miraltões que os Alvarenga de santos não tinham nada, e que o pai se comportava como um soba prepotente, esquecido das dezenas de filhos que tinha deixado a sós com as mães negras e mulatas do sul de Angola, que o filho não devia grande coisa à inteligência, e que a Carla, moça por demais independente para o gosto da família, era senhora de plantio fértil, sim, mas trabalhado na cama, e qualquer cama lhe servia porventura aparecesse macho endinheirado que sucumbisse aos seus encantos, menos autêntico não era o espírito batalhador do pai, e, mais que tudo, o valor da mãe, que sempre fez fronte à adversidade e lutou anos a fio para dar o pão nosso de cada dia aos filhotes, sem olvidar que a fortuna da família quadruplicou de um dia para o outro graças à sua argúcia, quando todo o dinheiro que tinham de lado foi trocado, durante uma breve estadia em Saurimo, por puríssimos diamantes adquiridos ao preço da uva mijona.

Agora, com o casamento do Paulo, juntar-se-ia ao núcleo familiar uma frágil donzela, Lia, de pele branquíssima, lábios carmim e virgindade duvidosa, mas com evidentes qualidades para acalentar desejos palpáveis. «Virgem? Só se for nas orelhas», dizia o pai Alvarenga. Contudo, esta delicada questão já tinha sido ultrapassada mercê dos chorudos benefícios a tirar do casamento. A família da noiva ficava praticamente de tanga. Uma estúpida cláusula do testamento do avô da noiva, ex-senhor de todos os bens familiares, terras, prédios e quotas em empresas de renome, privilegiava de modo incompreensível a “netinha adorada”, muito em breve de maior idade.

Os herdeiros preteridos entretinham um ruminar de boi bravo perante essa loucura, “dum velho caquéctico que aos oitenta e tal anos dava vinte escudos, uma fortuna!, às moças da sua quinta de Chaves para receber um beijinho, e se desfazia em baba diante dum pechisbeque”. Ir à boda e comer à mesa dessa... dessa banda de portugueses de segunda, angolanos, e ainda por cima eram mulatos e traficantes de diamantes?!...Nem pensar! Preferiam morrer.

Farófias! Deixa andar, a caravana não vai parar por tão pouco. Muito mais importante era acertar os últimos pormenores da cerimónia, entre os quais, à parte os camarões, que mais cedo ou mais tarde haviam de aparecer, sobressaía o ritual religioso - atenção, missa cantada! -, que teria lugar na igreja de Sto. Antão, verdadeira peça de museu, classificada Monumento Nacional de Portugal. Só que os cantores de Sto. Antão... «Peço desculpa», disse a mãe Paulina, «não quero!, fífias, é às resmas». E olha o Paulo a levantar o dedo, «Posso falar com o Carlos, se quiserem...», «Qual Carlos?» perguntou o pai. «O Carlos d’Almeirim, é um dos melhores tenores da Europa», «Tu conheces?», «Conheço, e bem!», «Trás o homem, custe o que custar».

Seguiu-se um subtil e breve momento de prazer, silencioso, como se o dinheiro fosse coisa que se pudesse saborear (e é), interrompido pelo pai, «Eu!... Eu tenho duas surpresas, vocês vão ver», «Quais?» perguntou a mãe, «Esperem. Surpresas são surpresas», rematou o velho, velho “soba”.

Camarões “assim!”, é que não havia maneira de encontrar, tudo o resto seguia os seus trâmites. Uma firma espanhola especialista na organização de banquetes, a “El Dorado”, que se instalara em Portugal depois da formação da CEE, inundando o mercado luso ao ponto de tirar o pão francês da boca dos portugueses para lhes fornecer outro, imitado dos mesmos franceses, e dos italianos, e dos gregos, a preços baixíssimos, foi contratada para se ocupar de tudo, desde a recepção dos convidados, aperitivo, banquete, digestivos, seguros contra tudo e mais alguma coisa, até à ambulância! «Ambulância!!?», fez a mãe, que tinha contactado a sobredita empresa, «Sim, há sempre pessoas que exageram, por vezes casos graves. Connosco não há problemas, temos uma ambulância». «E referências?» perguntou a Carla, suspicaz. Paf! Uma resma de extractos de jornais e revistas em cima da mesa, com um charabiá comum, «...e apreciámos de sobremaneira a subtil aliança de aromas e sabores, assim como o serviço impecável, omnipresentes no banquete de Sua Excelência». Concludente. Assinaram.

Já que se obstinavam na minúcia, quedava-se um pequeno, mas não menos importante pormenor a apurar: em que sítio seriam tiradas as fotografias? Aqui? Acolá? Além?...«Não, senhor!» cortou o pai, «vamos fazer uma ponte. Romântica, ‘tás a ver?... Dum lado ao outro da piscina. Basta esconder o mosaico com areia e uns vasos de flores, e a piscina é um lago. Ah! é preciso pelo menos dois cisnes, não se esqueçam, são importantes os cisnes». Em menos duma semana a ponte foi levantada, um assombro de madeira de cerejeira, teck e acácia, com incrustações de meranti a formar arabescos à moda antiga, trabalhada a preceito.

Imagem:
http://www.ibiblio.org/wm/paint/auth/renoir/land/dejeuner-canotiers/renoir.dejeuner-canotiers.jpg

A Ocidente do Paraíso (39). Num estava escrito: «E se mais mata houvera lá chegara.»


Os dias passavam e o Vera Cruz prosseguia na secular rota marítima. A bordo nada havia para assinalar. A rotina era confrangedora, exceptuando de vez em quando a distracção que os peixes voadores proporcionavam. Um dos nossos furriéis informou-nos, que quando chegássemos à zona do Equador sentiríamos mudança climática devido ao calor. De facto assim foi. O tempo quente instalou-se a bordo. Quanto mais navegávamos, sentíamos o desconforto devido à humidade que se colava nos nossos corpos. Luanda aproximava-se.

CAPÍTULO IV
A GUERRA

Luanda, Angola, 9 de Agosto de 1971

Atracámos. As escadas, fazendo lembrar uma ponte levadiça desceram. Enquanto descíamos para terra, algumas senhoras do Movimento Nacional Feminino ofereciam-nos um estojo com um isqueiro, o famoso – Ronsom da picada – um pincel, um tubo com creme para barbear e algumas lâminas, que cortavam tudo menos a barba. Depois de uma curta viagem até ao Grafanil, ficámos à espera do MVL-Movimento de Viaturas Ligeiras, efectuado por motoristas civis que em camiões nos levariam ao destino. As camas eram de cimento e apenas guardadas por um tecto também cimentado. Quase ao ar livre. O desconforto era evidente.

Os camiões chegaram. Mais uma viagem com destino à Quibala do Norte. Fui num camião que carregava parte dos nossos pertences. Consegui desenrascar-me num local sentado em cima da carga. Muito desconfortável, instalei-me o melhor que era possível. Parámos no Caxito. Fiquei surpreendido com a quantidade de crianças que nos pediam algo. Atirei-lhes com alguns pacotes de bolacha da minha caixa de ração. Prosseguimos viagem. A paisagem até ao nosso destino tinha capim muito alto. Vi pela primeira vez os misteriosos embondeiros. O asfalto já terminara, passámos por mangueiras cujos ramos batiam na viatura. Aproveitei e colhi muitas que ia comendo pelo caminho.

Agora eram picadas que constantemente faziam baloiçar o camião. Continuar sentado tornava-se um grande incómodo. À medida que penetrávamos pelo mato denso, comecei a pensar que estávamos em terra de ninguém, porque não se avistava nenhuma habitação, nem seres humanos. E se rebentasse alguma mina?! Ou se fossemos atacados, porque o local era ideal para isso? Instintivamente segurei com mais cuidado na G3. Concentrei-me nos barulhos e nos movimentos da vegetação. A viagem nunca mais acabava. Ia literalmente todo partido, exausto... finalmente chegámos. Durante um horrível ano esta seria a minha nova casa.

Fomos recebidos com grande festa, porque a companhia que íamos render aguardava impaciente a nossa chegada. Tinham terminado a sua comissão de serviço. Chamaram-nos de periquitos devido a sermos novatos nestas andanças. Dois cartazes chamaram-me a atenção. Num estava escrito: «E se mais mata houvera lá chegara.» No outro: «A nossa força é o arroz com salsichas.»
Os rostos duros que observava apresentavam cansaço, velhice precoce de veteranos. O furriel Moreira instruiu-me, que os veteranos me aguardavam no posto de rádio para eu receber os equipamentos e as instruções de manuseamento.

terça-feira, 6 de abril de 2010

General de Angola é sócio de empresa aérea brasileira


Ex-ministro de obras do país africano, Higino Carneiro se une a ex-empresário de livro infantil para viabilizar a Puma Air

SEGUNDA-FEIRA, 5 DE ABRIL DE 2010

Após adquirir 20% do capital do grupo do Pará, Carneiro planeja transformá-lo em companhia internacional e voar para Angola até junho

MARIANA BARBOSA.MARCIO AITH. DA REPORTAGEM LOCAL
Por anos o presidente Lula desejou ver uma companhia aérea nacional voando para o continente africano. O problema era a falta de interesse das grandes empresas brasileiras, como TAM, Gol e OceanAir.
O sonho do presidente agora ganha asas, graças ao general Higino Carneiro, um dos homens mais ricos de Angola. Apelidado em seu país de Bulldozer ("trator"), Carneiro era, até o início do ano, ministro de Obras Públicas.

Após adquirir uma fatia de uma empresa regional paraense, a Puma Air, Carneiro prepara-se para transformá-la em uma companhia aérea internacional -a empresa pretende até junho voar para Angola.
A façanha veio da união entre uma das várias empresas de Carneiro, a Angola Air Services, e o empresário brasileiro Gleison Gambogi de Souza -até 2005, dono de um negócio de franquia de livros infantis.
Formalmente, Gambogi detém 80% da empresa. A participação da AAS, de Carneiro, ficou limitada a 20%, o teto legal para a participação de estrangeiros no setor.

Gambogi conta que conheceu Carneiro em Angola, onde viveu os últimos cinco anos. O empresário foi para o país africano pela primeira vez em 2004 "prestar consultoria" para a empreiteira Metro Europa. Virou sócio e vice-presidente da empreiteira. Foi quando estreitou laços com Carneiro.
"Chegamos a ter uma carteira de US$ 1 bilhão em obras em Angola", disse Gambogi. "Fiz minha vida empresarial em Angola e, para o Brasil, estou nascendo agora. Mas vocês vão ouvir falar muito de mim."
Para ganhar tempo, a Puma decidiu por não montar uma estrutura operacional, mas alugar da Gol/VRG um Boeing- 767, com tripulação e tudo, numa modalidade de aluguel conhecida como "wetlease".

Confiantes de que terão todas as autorizações concedidas pela Anac (Agência Nacional de Aviação Civil), os sócios da Puma já providenciaram a pintura do avião, que se encontra no hangar de manutenção da Gol em Belo Horizonte.
Como as regras brasileiras não permitem que uma empresa se aventure no espaço aéreo internacional sem que tenha experiência no mercado doméstico, a Puma foi obrigada a montar primeiro uma operação doméstica e passar pelo processo de certificação para realizar voos regulares com aviões de grande porte.

Como já tinha base no Pará, a Puma escolheu a rota Guarulhos-Macapá-Belém. O voo também será feito com um avião da Gol, um Boeing-737.
Por conta do risco envolvido no negócio, os contratos firmados entre a Gol e a Puma, segundo a Folha apurou, preveem pagamento antecipado.
A Puma nasceu com capital social de R$ 5 milhões. Gambogi diz ter investido R$ 25 milhões, sendo 20% de Angola e o restante "do próprio bolso."

Dentro dos pleitos feitos pela Puma ao governo brasileiro está a dispensa de apresentar um atestado de segurança operacional chamado Iosa, concedido pela Iata (Associação Internacional de Transporte Aéreo).
"Como a operação será feita pela Gol/VRG, entendemos que podemos voar com o Iosa da VRG. A Iata já deu o aval dela; cabe à Anac dizer sim ou não", disse Gambogi.

A Anac confirma que recebeu a solicitação da Puma para voar com o Iosa da VRG, mas informa que só vai começar a analisar o caso depois que a Puma obtiver a autorização e iniciar a operação no mercado doméstico. O Iosa é o mais abrangente compêndio de segurança aérea do mundo.
POSTADO POR BLOG DO JAM ÀS 12:20

Imagem: FOLHA 8

António Setas. O casamento do Alvarenga. Dinheiro era tanto que não valia a pena contar.


O pai estava sentado à mesa da sala grande, quase sempre fechada porque a pequena dava e sobrava para as lides do dia a dia, quando mandou chamar o filho, o Paulo, que se casava daí a uns dias. O Paulo veio, fez uma vénia, e vai o pai, «Já tens a lista dos convidados?», «Sim, pai», «Vai buscá-la». O filho foi. Havia duzentos e trinta convidados, trinta a mais do que as que constavam no orçamento, e logo o pai, sem papas na língua, «Há trinta a mais, tens que cortar», estendeu o braço para lhe devolver a lista e precisou, «Quando chegares aos duzentos, avisa». O Paulo ficou a olhar para a lista, depois olhou para o pai com olhos de burro em pé com medo da chibatada, até que lá emitiu um, « Sim, pai», seguido duma vénia, que lhe deram coragem suficiente para virar as costas e chegar até à porta, no momento preciso em que ouvia a voz grave do velho numa última ordem, «Quero a lista esta noite».

A lista com o nome dos duzentos convidados foi entregue no dia seguinte ao tipógrafo depois do Paulo ter feito o que o pai pedira. Não foi fácil riscar trinta nomes queridos dessa lista que, na sua opinião, já de si era exígua. A mãe e a Carla, a irmã, ajudaram, «Esse aí, não, corta», dizia uma delas, e o Paulo cortava.
Anunciava-se a boda, mas faltavam os camarões. Era uma obsessão. A mãe, mestiça angolana, neta de colonos de Trás-os-Montes, não podia imaginar boda sem camarões, e quando lhe apresentavam os crustáceos do mercado bradava aos céus, «Será que não há camarões dignos desse nome nesta terra!? Eu quero camarões de Angola... ou de Moçambique!, tanto faz», levantava as mãos com os indicadores em riste e mostrava o tamanho, «Assim!»

“Esta terra” era Miraltã, estação termal algarvia situada a dois passos de Vilamoura, no sul de Portugal, onde eles viviam há anos, depois de terem saído de Angola quando o país se tornou independente. Estavam ricos. Dinheiro era tanto que não valia a pena contar; a casa em que viviam era um solar, espécie de pequeno castelo restaurado e transformado em residência de luxo; carros na garagem eram cinco, entre os quais um Rolls-Royce amarelo, orgulho de toda a família; à volta do solar, jardins, dois terraços, uma piscina olímpica, terreno relvado até ao limiar do admirável pomar e dos campos de amendoeiras a estenderem-se até ao horizonte. E um “court” de ténis.

Mas, por mais ricos e ufanos que fossem, seriam sempre os “africanos” de Miraltã. A cor mate da pele, o sotaque e mesmo o que comiam, tão picante que era de arrancar o céu, da boca de um cristão, impediam-lhes de serem considerados filhos daquela terra. E eles, muito não-te-rales, «Os miraltões são miraltões, não é?, nós somos os Alvarenga. Qual é a maka?!».
Na riposta a tanta altivez, as más-línguas diziam que os Alvarenga eram da família dos “pê-éfes”. O pai, chamado Pedro, era o finca-pé, ou melhor, o finca-tolas, quando as coisas não lhe agradavam era à cabeçada que resolvia os problema, o que o tinha levado a fugir a grande velocidade de Angola por altura da Dipanda; o filho, Paulo, o fortalhão, e ainda por cima parvo; a mãe, Paulina, pretensiosa e forreta; a filha mais nova, Carla, apesar do seu nome não começar por pê, tinha a reputação de ser “puta e folhidona”.

(continua)

segunda-feira, 5 de abril de 2010

A Ocidente do Paraíso (38). Apenas pretendia estudar. Ler muito e com isso satisfazer as minhas dúvidas constantes. Sentia-me muito feliz com isso.




Já estava completamente restabelecido, e alguns colegas que me visitaram disseram-me que tive sorte, porque adoeci no fim da especialidade. Caso contrário teria que a repetir. Aliás esse era também o meu receio. Como havia um enfermeiro que nos facilitava a vida a troco de uma gorjeta, apeteceu-me beber cerveja, que aqui era a Super Bock, e que podíamos afirmar era a cerveja nacional do Porto. Também pedi um prego no pão. Quando a encomenda chegou, depois de comer e beber senti-me como novo. Impacientemente aguardava o dia da saída, o que acabou por acontecer. No regimento, informaram-me dos últimos acontecimentos. Dentro de poucos dias acabaria a especialidade. Depois disso seria enviado para outro local. Entretanto veio a ordem de mobilização. O meu destino seria Angola. Mas antes faria parte de uma companhia que já estava a formar-se em Santa Margarida.

Que ironia do destino, Santa Margarida ficava próximo do Tramagal. Antes, tive o cuidado de informar a Belita por carta. Aparentemente mostrou satisfação, mas eu mantinha as minhas reservas. Apesar de tudo era minha prima. Dir-se-ia que a proximidade era para me despedir dela. A outra ironia era o Mota para Moçambique, o Quitério para a Guiné e eu para Angola. Será que a PIDE sabia do nosso relacionamento e enviou cada um para um local distante para que não pudéssemos estar juntos? Ou foi apenas mera coincidência? Nunca o saberei.

Mais quinze dias de campo a viver em tendas para nos prepararmos – como diziam – para a guerra em Angola. Despedi-me da Belita e do seu namorado, que sabedor da nossa relação não a deixava um só momento. Ele evitava falar comigo. Na presença da minha tia, durante um momento em que estivemos sós, ela chamou a atenção da Belita dizendo que não gostava nada dele, e que me preferia. Que não iria dar muita atenção a esse homem porque era muito maldoso.

Acabadas as despedidas, o navio Vera Cruz já estava atracado à nossa espera, para mais uma viagem rumo a Angola. Promoveram-me a primeiro-cabo radiotelegrafista devido à pontuação dos testes finais. Antes, fui à praça do Cais do Sodré, e comprei uma grande quantidade de caracóis pequenos e grandes, oregos, e uma caixa de camarão que cozinhei para todos, como sendo a despedida final. O meu pai e a minha mãe faziam questão de ir ao embarque. Recusei e expliquei-lhes que isso me entristeceria muito. De facto, quando o Vera Cruz lentamente iniciou as manobras para se libertar e encontrar mais espaço para navegar, uma multidão na amurada saudava com lenços brancos agitando-os com as mãos, no que eram retribuídos em terra. Isto fez-me lembrar os navios bacalhoeiros que partiam na faina da pesca do bacalhau.

Soube depois que o destino em Angola era São Salvador do Congo. Mas não era verdade. Por motivos de segurança, quando se questionava o nosso destino a resposta era essa. Confesso que gostaria de ver os meus pais em terra. Não resisti e as lágrimas vieram-me aos olhos. Será que nunca mais os verei? Uma grande tristeza se apoderou de mim. Quando voltaria a ver a minha acolhedora casa? Os meus irmãos e irmãs? Os meus amigos? Enfim, tudo abandonado pela força das circunstâncias. Até quando? Mas que mal fiz? Apenas pretendia estudar. Ler muito e com isso satisfazer as minhas dúvidas constantes. Sentia-me muito feliz com isso. E para onde ia não existiam livros.

domingo, 4 de abril de 2010

A Ocidente do Paraíso (37). Que a guerra estava perdida, era só ver o que estava a acontecer na Guiné.


Nas últimas aulas práticas com os rádios, o primeiro-sargento ensinava-nos a tirar os bigodes do assobio do som até obter uma boa sintonia. Na caserna, o Neves disse-me em segredo que se preparava para fugir. Não iria sozinho, outros o acompanhariam. Iria para o exílio. Convidou-me também para o acompanhar na fuga. Que a guerra estava perdida, era só ver o que estava a acontecer na Guiné. E como éramos antifascistas, o nosso dever era defender os povos das colónias, e não combater contra eles. Disse-lhe as razões porque não iria. Expliquei-lhe o que o Quitério me tinha dito. Fez-me prometer que guardaria segredo, e pediu-me a minha morada para depois me escrever. Em pouco tempo seríamos mobilizados para combater os patriotas das colónias, e até lá já estaria bem longe. Poucos dias depois não apareceu mais. Alguns sabedores comentavam: «Mais um que fugiu.»

Mais um amigo que nunca mais veria. A sua fuga estava consumada. De novo me senti só e melancólico. Vi que seria sempre assim durante o resto da minha vida.
Novamente fui atacado pela amigdalite crónica. Há vários meses que tal não me acontecia. A doença era devida à profissão de electricista, por causa do pó constante que me acompanhava, quando tinha que alargar as passagens das paredes de tijolos para colocar os tubos plásticos. O ambiente que me cercava estava sempre muito saturado de pó. Cheguei ao ponto de apenas passado um mês, voltar a infectar-me. O médico disse-me para fazer operação às amígdalas no Hospital do Trabalho. Tudo estava preparado para isso. Esperei quase quatro horas no hospital e ninguém me ligava. Esperei mais um bocado. Abandonei o local. Acho que ainda hoje devem estar à minha espera.

Consegui curar-me por meios próprios. Um deles foi justamente abandonar os ambientes de pó. Mas mesmo assim caí outra vez. Há três dias prostrado na cama da caserna, o ouvido doía-me. Mastigar ou engolir o que quer que fosse provocava-me fortes dores. Não conseguia comer nem beber. Já tinham dito ao aspirante o que se passava comigo. Ele não tomava nenhuma decisão. Pensei que devido aos acontecimentos anteriores me deixaria morrer. Perante a pressão dos meus colegas veio ver-me. Enviou-me para a enfermaria. Lá, verificaram que o meu estado de saúde merecia internamento. Enviaram-me para o Hospital Militar do Porto onde fiquei internado. Devido ao meu aspecto perguntaram-me porque razão só agora tinha chegado. Falar era-me doloroso. Mas pelo sim pelo não, preferi guardar silêncio devido às represálias que o aspirante exerceria sobre mim.

Permaneci lá cerca de duas semanas. O ambiente era militarizado claro. Não podia sair do local onde me encontrava. A única distracção que tinha era olhar pela janela e ver o pátio que havia em frente. Infelizmente não tinha ninguém com quem conversar. Como sempre as conversas habituais eram sempre sobre futebol. Confesso que nunca perdi tempo com coisas futebolísticas. Sempre considerei, e considero que é uma pura perda de tempo. Mas é necessário para os governos entreterem os seus povos e desviarem-lhes a atenção dos imensos problemas que um país tem. Afinal de contas é bom recordar que o futebol é um império empresarial. É necessário embrutecer as populações. E quanto mais futebol, melhor.

Canção do exílio. Gonçalves Dias

"Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar - sozinho, à noite -
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá."

Imagem: Gonçalves Dias
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Gonçalves_Dias.jpg


sexta-feira, 2 de abril de 2010

A Ocidente do Paraíso (36). Pensei que era devido a isso que os vinhos do Porto são excelentes.


Estávamos no início da aula a aguardar pelo aspirante. Ele chegou e ocupou o seu lugar. Olhou-nos quase todos um a um e perguntou:
- Quem é que é casado?
Eram apenas uns três que responderam afirmativamente.
- E as vossas esposas são-lhes fiéis?
Todos responderam que sim.
- Tem a certeza?!
Pelos vistos ele queria causar-nos algum embaraço.
- Não, não temos. Elas estão longe, e aqui não sabemos o que fazem neste momento.
- E se forem traídos… o que farão?!
Ninguém respondeu. Então virou-se para mim como inquisidor que exige uma resposta. Pensei, mas porquê eu?! Suspeitei que já lhe teria chegado algo aos ouvidos dos nossos debates religiosos na caserna.
- Meu aspirante, se eu apanhar a minha esposa com outro… mando-a passear nas calmas.
- Continua a viver com ela como cornudo?!
- Não meu aspirante, separamo-nos e cada um segue a sua vida.
- Eu dou-lhe uma carga de porrada que ficará internada no hospital durante várias semanas, ou mato-a!
- Mas, meu aspirante, não sou dono da vagina dela. Ela é que sabe o que fazer com ela.
O homem ficou vermelho:
- Você não passa de um parvalhão. São vocês que estão a estragar Portugal. Com essas visões progressistas estão a inundar-nos com o vosso marxismo. Estão a adulterar os nossos costumes. Todo o homem traído tem direito a defender a sua honra... você devia era ir já para a prisão.
Fiquei apreensivo. Acho que a partir de agora ele seria também mais um inimigo. Depois, na caserna, o Neves alentou-me: «enquanto existirem indivíduos destes, Portugal nunca irá para a frente»

Era o auge invernal. Na caserna a humidade estava muito alta. A água escorria pelas paredes. Pensei que era devido a isso que os vinhos do Porto são excelentes. A minha respiração começou a sofrer as consequências e a bronquite atacou-me com força. Lembrei-me da minha mãe quando um irmão meu ainda pequeno caiu na Ribeira do Caldeirão no Tramagal e foi – segundo ela – salvo graças a um xarope de nome Bonquitina. Comprei-o, tomei-o, mas não conseguia melhorar porque o frio e a humidade continuavam intensificados. Ademais lembrei-me que a família tinha bronquite congénita, com um irmão e irmã asmáticos. A dificuldade de respirar aumentou-me.

Mesmo assim, pela manhã ao raiar do dia fui para o refeitório buscar o leite com café quente que me faria bem. Cheguei a meio da subida e a respiração faltou-me... não conseguia respirar... senti que ia morrer. O meu último pensamento de despedida foi para a minha mãe, depois para o meu pai. Mas a respiração voltou, consegui recuperar um pouco de ar. Embrulhado numa manta arrastei-me e consegui chegar. Quem estava de oficial de dia era o nosso aspirante. Disse-lhe o que me estava a acontecer e com o recipiente na mão pedi-lhe autorização para o encher. Olhou-me com desprezo e vi nos seus olhos desejos de vingança.
- Não, e saia daqui imediatamente!

Ainda hoje esses momentos me perseguem. De facto existem pessoas cuja malvadez serve de passatempo apenas para fazerem mal. Sentem-se felizes com o infortúnio dos outros. Mas o xarope Bronquitina fez-me bem, melhorei e voltei à normalidade.

Imagem: http://i.s8.com.br/images/emporium/cover/img3/232873_2.jpg

As mulheres que marcaram Savimbi



Luanda - A Unita, na pessoa do seu presidente, JMS, demonstrou com uma estrutura de poder, marcada por nuances tradicionais e por querelas palacianas, pôde colocar a mulher nas situações mais extremas e caricatas.
Recebido via Emai. EXPRESSO
Para a questão em análise, não se trata de um conflito entre a instituição da família tradicional, assente na poligamia, e a moderna, que postula pela família monogâmica com os valores a si adstritos. Trata-se do uso, do abuso e da crucificação da mulher, em consequência de um poder autocrático que por vezes, e não foram poucas, mostrou ter perdido o controlo da situação.

As mulheres de Jonas Savimbi dividem-se em aquelas que mais amou - e assumiu como “primeira-dama”, mas que também, por razões que se desconhecem mais odiou -, as amantes, que teve filhos com algumas delas, e outras, fruto de relações fortuitas, cujo segredos elas guardam a sete chaves.
O gosto desmesurado pelas mulheres, provavelmente ter-se-á incrementado em JMS aquando da sua passagem pelo Instituto Currie do Dôndi, dado os problemas que, na infância, foi criando em Lopitanga, no Andulo, aldeia onde nasceu. Foi no Instituto Currie do Dôndi onde se fez consciente da relação que poderia existir entre o poder e o sexo.
A primeira mulher com a qual JMS teve uma relação aparentemente normal, foi Estela Maungo, (uma sul-africana, pouco falada e quase desconhecida) de cuja relação nasceram Nanike Sakaita (actualmente a viver em Acra com o marido Ganês), Helena Ndumbu Sakaita (que vive em Ile-de-France) e Rosa Chikumbu Malheiro (que reside nos Estados Unidos da América). Destas filhas, a destacar apenas Nanike pelo desentendimento com o pai por discordar do seu relacionamento com Sandra Kalufele.

Vinona Savimbi foi a primeira mulher assumida por JMS como primeira-dama, sobretudo na véspera da independência e nos anos que se seguiram. Mulher discreta, pouco ou quase nada reza sobe ela para além do facto de, na “Longa Marcha”, ter manifestado um poder premonitor, ao prever num sonho, um grande ataque a ser perpetrado pelas forças do Mpla e pelos Cubanos, na região de Cassingo, no Sul de Angola. Também se fala dela pelos conhecimentos que detinha sobre a flora, sobretudo para diferenciar os cogumelos comestíveis dos venenosos. Conta-se que, na “Longa Marcha”, os soldados que colhiam cogumelos sem a consultar acabavam por enlouquecer para, finalmente, perecerem envenenados.

O que Vinona Savimbi não previu, na altura, foi o fim que a esperava assim como a utilização, pelo Mpla, dos seus filhos contra o pai. Vinona teve três filhos com JMS, dois dos quais se tornaram famosos pelo facto de o Mpla os ter utilizado para justificar, aos olhos do país e do mundo, a “necessária eliminação física de Jonas Savimbi”. Estes filhos são Araújo Domingos Sakaita, que foi coagido a ir a Luanda, em 1999, a partir de Lomé Togo (vive em Luanda e padece de perturbações mentais) e Anacleto Kajita Ululi Sakaita (vive actualmente em Luanda) que, em 2000, apenas com quinze anos foi obrigado pela Segurança do Mpla (Serviços de Inteligência Externa) a seguir as peugadas do irmão a partir de Abijan. Muito associado aos filhos de Vinona está um outro filho de JMS, Eloi Sassandaly Sakaita, por ter driblado um dos agente do SIE, Casimiro da Silva, afecto à embaixada da Nigéria que, às ordens do seu chefe sediado em Lomé, General Miala, pretendia também levá-lo a Luanda.

Uma questão que à partida se pode levantar, e que demonstra que casa arrumada é necessária se quisermos meter ordem na rua, é o porquê do interesse de Miala pelos filhos de Vinona, ao ponto de ele ter disponibilizado, para os dois, o quarto das próprias filhas. A razão é óbvia: o Mpla, na pessoa de Miala, no seu plano para convencer a opinião pública nacional e internacional de que, a eliminação física de JMS era um mal necessário, até exigido pelos próprios filhos, apenas poderia contar nesta cartada com os rebentos de Vinona.

Não se sabe ao certo quais foram as divergências entre Vinona e Jonas Malheiro Savimbi embora se suspeite de este ter estado por detrás da sua morte em 1984. As opiniões dividem-se entre os que afirmam que ela se suicidou, os que dizem ter morrido num incêndio que devastou a sua cubata e os que dizem que, acusada de feitiçaria, sucumbira na queima das bruxas. Fosse como fosse, isso foi o suficiente para o Mpla meter na boca de Araújo Sakaita algo ignóbil que se podia vir de uma política suja, culturalmente anacrónica, própria da liderança de José Eduardo dos Santos. “A Unita é Jonas Savimbi” e “sem Savimbi não haverá guerra em Angola” foram as palavras de Araújo Sakaita na televisão popular de Angola, sob o espanto e desagrado dos angolanos, inclusivamente de alguns afectos ao Mpla, ao que JES retorquiu: se o filho defende a morte do pai quem somos nós para dizer que não.

Puro cinismo gerado nas ruelas dos musseques.
Muito antes da morte de Vinona, já haviam surgido no seio da Unita alguns sinais de lutas pelo poder, algo legítimo e normal em qualquer organização política não fosse o facto de estas terem tido, pelo meio, problemas de mulheres. Foi o que sucedeu em 1981 quando, pela primeira vez, se falou duma intentona para destituir Jonas Savimbi, cujos cabecilhas eram Valdemar Pires Chindondo, Ornelas Sangumba e Samuel Chiwale. Os contornos dessa acusação viriam, no entanto, a ser questionados pelo facto de, logo após o assassinato de Valdemar Pires Chindondo, a sua esposa Alda Juliana Paulo Sachiambo “Aninhas” e o filho passarem a fazer parte do clã Savimbi. Foi também sintomático o facto de Aninhas ter sido eleita como Presidente da Organização Feminina da Unita (Lima) em 1984 ano em que morreu Vinona Savimbi.

Em 2007, com as sanções da ONU para com a Unita a vigorarem, o porta-voz da embaixada de Angola em Portugal (José Ribeiro) veio a terreiro, quase fora de si, dizer que as sanções não estavam sendo cumpridas pela Comunidade dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) por terem emitido um passaporte e dado nacionalidade togolesa a um dos membros da Unita. Este membro da Unita era Pedro Sachiambo Sakaita (Pepé) que é filho de Valdemar Chindondo, mas a quem Savimbi decidira, não se sabe por que razão, atribuir o apelido Sakaita.

Em paralelo com estes acontecimentos, Jonas Malheiro Savimbi afeiçoava-se a uma outra mulher, cujo desfecho foi o mais trágico de sempre e marcou, pela negativa, a história da Unita e beliscou, como nunca, a sua imagem. E não é de descurar a hipótese de a recusa de JMS a um exílio dourado, também esteja condicionada aos acontecimentos que andaram à volta desta mulher. De nomeAna Paulino, natural de Kachiungo, província do Huambo, era uma jovem elegante, linda e inteligente que através de uma bolsa patrocinada pelos serviços secretos franceses, tirou, em Paris, um curso de Secretariado. Ana era noiva de Tito Chingunji.

De regresso a Jamba, Jonas Savimbi viria a arrebatá-la da forma mais insensata, desafiadora e altiva. Ao arrepio dos tormentos de Tito Chingunji, JMS converteu Ana Paulino na primeira-dama com a qual passou a ser vista nas capitais da América e da Europa. Da relação entre Jonas Savimbi e Ana Paulino nascerem cinco filhos que vivem quase todos na França. Um deles é Dório de Rolão Preto Sakatu Sakaita, com o qual Savimbi nutria uma grande devoção e confidenciou, via satélite, na véspera da sua morte. Se Jonas Malheiro Savimbi nunca veio a ter problemas políticos com os filhos nascidos desta relação, o mesmo não sucedeu com as suas cunhadas, sobrinhas de Ana Paulino Savimbi. A primeira foi Raquel Matos, que, aquando da ida de Ana Paulino (tia), à França, Savimbi amigou-se com ela e, mais tarde libertou-a, enviando-a para Londres a fim de fazer um curso superior.

Raquel Matos é, nada mais nada menos que Romy, a esposa de Tito Chingunji, que acabaria por morrer com ele, muito mais tarde, nos anos 90. Pelo sim e pelo não, as peripécias à volta dos familiares de Ana Paulino não terminaram por aí. Depois da relação com Raquel Matos, JMS estabelece uma nova relação com outra sobrinha de Ana Paulino, Navimibi Matos, com a qual teve uma filha, Celita Navimibi Sakaita. Navimbi Matos acabaria por morrer em 1981, queimada viva, num dia em que Savimbi dizia que ficaria na história da Unita como o “Setembro Vermelho”, mas que condicionou sobremaneira a imagem da própria Unita, ou seja, a queima das bruxas.

Como não há duas sem três, Jonas Savimbi viria, numa fase em que a idade, o cansaço da guerra, e as frustrações o afectavam, sobretudo as suas faculdades mentais, a atirar-se a uma outra sobrinha de Ana Paulino Savimbi, Sandra Kalufelo (com a qual teve um filho, Muangai), na altura, uma simples adolescente. O mais caricato foi que Jonas Savimbi, algo impensável no passado, chegou a atribuir a Sandra alguns poderes financeiros e mesmo militares. E seria esta Sandra que mais tarde, ao criar uma série de intrigas, acabaria por influenciá-lo na morte da tia, Ana Paulino Savimbi. Recorde-se que esta foi enterrada viva numa toca de animais, logo depois da perda do Bailundo e do Andulo, por JMS também recear que viesse a ser capturada pelas tropas das FAA.

Outras mulheres não menos importantes para Jonas Malheiro Savimbi foram: Catarina Massanga (Mãe Catarina) que vive actualmente em Luanda no Projecto Nova Vida. De etnia Chokwe, e natural do Moxico, granjeia até ao momento um grande respeito por parte dos membros dessa organização política que a consideram uma mulher de grande dignidade. Catarina Massanga teve um filho com Jonas Savimbi, Rafael Massanga Sakaita Savimbi, que passou pela França, Costa de Marfim e Gana onde acabou por formar-se em Gestão e Administração de Empresas. Constou na proposta, das últimas legislativas, de deputados da Unita ao parlamento angolano e ainda é visto por alguns como uma promessa para a futura liderança política da Unita. Outra mulher é Valentina Seke, provavelmente a menos falada, mas que ficou conhecida por ter estado com Jonas Savimbi no dia da sua morte, ter sido ferida e vista na Televisão subnutrida e aos prantos aquando do funeral do marido. Foram esses os caminhos porque passaram essas mulheres que tiveram que suportar o insuportável, quer para salvarem as suas vidas, quer para viverem as glórias de serem mulheres de um líder, quer ainda por pensarem que agindo assim estariam provavelmente a lutar contra o espectro da solidão feminina.

Nota: outras mulheres de Jonas Savimbi:
Esposas:
a) Catarina Natcheya, é a viúva mais velha de Jonas Savimbi e tem relações de parentesco (irmã) com Toya Chivukuvuku;
b) Cândida Gato, também irmã de Toya Chivukuvuku, foi esposa de Beto Gato, irmão de Lukamba, que teve de se refugiar nos Estados Unidos da América ao notar a aproximação de JMS à sua esposa. Tem uma filha com Jonas Savimbi e, mesmo depois da morte de Beto Gato, ainda continua a viver nos Estados Unidos da América;
c) Teresa,a“escurinha”
d) Alzira (mestiça de Calulo);
Amantes:
a) Domingas Pedro (irmã do general Kalias Pedro, vive actualmente em Portugal onde está casada com um S. Tomense);
b) Olinda Kulanda, ex-locutora da Worgan, morreu no Bailundo em 1998, envolta num grande misticismo;
c) Etelvina Vasconcelos (reside actualmente na Suíça depois de passar pela Costa do Marfim, na qualidade de estudante);
d) Lúcia Wandy Lutukuta (foi militar da Unita);
e) Mizinha Chipongue, trabalhou no protocolo da presidência;
f) Chica; foi oficial da Brinde com a patente de Major;
g) Elsa Matias (uma jovem da Jamba);
h) Kwayela Moreira (mestiça, estudante na Jamba);
i) Maria Ekulika (funcionária do protocolo, apareceu morta de modo estranho);
j) Joana (foi morta por ter transmitido a JMS uma doença sexualmente transmissível;
l) Eunice Sapassa, acusada de feitiçaria, foi morta no processo “Setembro Vermelho” ou “Queima das Bruxas”;
m) Tina Brito, uma mestiça para quem JMS tinha uma afeição muito grande, mas que acabou por ser morta por fuzilamento por se ter recusado em provocar um aborto. Note-se que JMS não queria filhos mestiços;
n) Gina Kassanje, morta por ciúmes;
o) Cândida, morta por ter enviado uma carta de amor interceptada pela Brinde;
p) Sessa Puna, ex-esposa de Miguel Nzau Puna. Acabaria por ser morta por ter servido de intermediária entre Cândida e o referido amante,
q) Aurora acabaria por ser abandonada depois de ter sobrevivido por na altura, não passar de uma adolescente e ser demasiado bela, a uma acusação de feitiçaria, vive agora em Luanda;
r) Edna Álvaro (amigou-se com Savimbi, logo após as eleições de 1992 e viveu com JMS no Bailundo e Andulo, do qual teve um filho).

O secular fim dos tempos da hipocrisia


«No qual se assegura que os abusos pederastas estão protegidos pelo “segredo do Santo Ofício”.
Vítimas de abusos nos EUA querem sentar Papa no banco dos réus

01.04.2010 - 22:13 Por PÚBLICO
O Vaticano está a preparar a defesa do Papa nos Estados Unidos, num caso em que três cidadãos do estado de Kentucky querem levá-lo ao banco dos réus.

A acusação é de negligência e encobrimento de abusos sexuais por padres, quando o actual chefe da Igreja Católica era cardeal e prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. É o primeiro caso em que vítimas procuram sentar directamente o Vaticano no banco dos réus, segundo o diário espanhol El País.

Os advogados do Vaticano defenderão, segundo documentos consultados pela Associated Press, que Bento XVI tem imunidade devido à sua condição de chefe de Estado, um argumento anteriormente aceite pela Justiça num caso no Texas, em 2005.

O defensor dos queixosos, William McMurray, citado pelo El País, considera que o argumento não é válido. “No caso do Texas, o Papa foi acusado directamente dos abusos. Este caso é diferente: é acusada uma pessoa, Joseph Ratzinger, de ter encoberto abusos e de ter protegido abusadores quando era cardeal e responsável pela supervisão dos bispos”.O advogado pretende que a acção se converta numa queixa colectiva de todas as vítimas de abuso sexual por sacerdotes nos EUA.

Entre os elementos de acusação, o advogado inclui o documento conhecido como Crimen Sollicitationis, emitido pela Congregação em 1962, no qual se assegura que os abusos pederastas estão protegidos pelo “segredo do Santo Ofício”. Os advogados do Papa defenderão que, na linguagem do Vaticano, este texto não recomenda expressamente aos bispos que não avisem as autoridades dos abusos sexuais.

O Vaticano argumentará também que os membros da Conferência Episcopal dos EUA não são assalariados da Cúria Romana e que, por isso, este não pode ser considerado como o responsável último pelas suas decisões.

Para Filippo di Giacomo, padre e especialista em direito canónico, a tentativa de incriminar directamente o Vaticano “é uma idiotice”.

“A Igreja não é uma multinacional do tabaco. Não se pode acusar o Santo Padre dos delitos de alguns padres. Nós não somos seus empregados e ele não pode ser responsável por casos particulares. Cada bispo controla as suas dioceses”, disse, citado também pelo diário espanhol.»
Imagem: O Papa nas cerimónias pascais desta quinta-feira (Alessia Pierdomenico/Reuters)

quinta-feira, 1 de abril de 2010

A Ocidente do Paraíso (35). Achei piada e disse para mim mesmo que não conseguiria hipnotizar-me.


Um açoriano, que nunca consegui saber porquê, não gostava nada de mim. Por mais que tentasse a sua amizade, olhava-me sempre com ódio e desprezo. Comecei a pensar que não batia bem da cabeça. Depois de acabar uma guarda aproximou-se de mim, apontou-me a arma e disse-me que me ia matar. Claro que levei a coisa para a brincadeira. Mas ele insistia, e colocou uma bala na câmara. Vi o seu dedo pressionar ligeiramente o gatilho, e enquanto me aproximava dele, também ele se afastava. Convenci-me que ia disparar. Depois parou, poisou a arma e afastou-se. Disseram-me para fazer queixa dele porque era um tipo perigoso. Não o fiz, porque isso destruiria a sua vida para sempre. Mas a partir daí fiquei sempre com ele debaixo de olho. O Neves sugeriu que ele era adepto do Padre, e que me odiava devido às críticas que eu fazia à religião. O Neves colocou a sua mão esquerda sobre o meu ombro direito e revelou-me:
- Amanhã vou-te trazer um bom livro!

Ele morava nas imediações do regimento e devido a isso andava sempre com livros que trazia da sua casa. De qualquer modo carregava sempre um que lia nos momentos disponíveis. O livro que me trouxe era muito volumoso, a História da Filosofia Ocidental de Bertrand Russell. Não sabia se teria tempo para o ler. Aproveitei as noites quando saíamos do regimento. Como a porta de armas encerrava à uma da manhã, quem se distraísse ficava na rua. Aconteceu com alguns.
Ficava no Arcádia com o pesado volume até ao encerramento. Não dormia o suficiente. Algumas vezes nas aulas adormecia a escrever o morse. Despertava assustado e via riscos na folha de papel. Mesmo assim consegui ler o volumoso livro.

Quando o cabo Silva se ausentava deixava um de nós a dirigir a aula, que passava a base aérea. Fazíamos aviões de papel, lançávamo-los para o espaço e lá iam eles a voarem. Ficava sempre alguém a vigiar para não sermos surpreendidos. Um dia alguém se esqueceu de vigiar ou fez de propósito. De repente o cabo Silva aparece e vê o espaço da sala de aulas inundado de aviões. Ficámos todos em pânico à espera do pior:
- É a última vez que vos aviso, da próxima sereis todos fodidos. Também não me quero chatear porque estou quase na disponibilidade. A partir de amanhã estais mais fodidos ainda, porque me vou ausentar uns dias. Serei substituído pelo nosso aspirante e aviso-os que à mínima coisa ele lhes dá logo uma piçada.
Ficámos muito apreensivos porque o aspirante nos tratava com desprezo.

Tínhamos um colega que era hipnotizador. Conseguiu convencer o aspirante a fazer uma sessão de hipnotismo. Pensei que era mais um desses charlatães de feiras. Mas o certo é que primeiro pôs um de nós a miar, outro a ladrar, e ainda outro a imitar um porco. A assistência ria muito com este espectáculo. Achei piada e disse para mim mesmo que não conseguiria hipnotizar-me. Ofereci-me como mais um voluntário. Depois de um grande esforço o homem não conseguiu e desistiu, desculpando-se que com este não conseguia. E perguntou-me porquê: Respondi-lhe que apenas tinha ordenado ao meu cérebro que a minha força de vontade era superior à dele.

Imagem: http://www.traca.com.br/livro/374409/historia-da-filosofia-ocidental-livro-1

ANJOS E LUBANGO (fim)


E Lubango sente-se como o cidadão vitimado pelos constantes assaltos da juventude, que aldrabada pelas promessas de uma má vida melhor, arrasam os outros que ainda conseguem trabalhar, porque os libertadores jazem incólumes na protecção de milhares de seguranças e polícias especiais. Porque quem governa vive numa insegurança total e completa.
- Ah! Não vou ficar aqui toda a vida a olhar para a noite. Os demolidores deixaram cair este CD portátil. Vou kizombar, rasgar uns bons nices bocados, xinguilar não adianta. Lembro-me que os colonos meus amigos quando fugiram, preveniram-me que não valia a pena trabalhar na terra, porque depois de estar bem recheada com a frutada, apareceriam eles que a espoliariam. Os da nomenclatura não gostam de trabalhar, para quê, existindo tanta pobre gente à mão de semear que tão facilmente se podem espoliar. Não lhes liguei, agora dou-lhes toda a razão. Fui e continuarei assim sempre muito parvo (?). Pedir um empréstimo bancário (?!). É desistir! Só se for para importar cerveja. Os bancos não arriscam fazer empréstimos a médio prazo, quanto mais a longo. Também, com o piano deles sem teclas, sem sistema. É fácil ludibriar analfabetos, essa do sem sistema é a melhor invenção bancária para não deixar sair dinheiro. Sempre sem sistema para pagamentos mas para recebimentos funciona muito bem, sim senhor! Consideram que investir na agricultura não lhes dá lucros, que é uma pura perda de tempo. Porque quando chegam as chuvas as culturas destroem-se. Depois há que fazer novo empréstimo. O lucro tem que ser imediato, caso contrário… não deixam nada.

E Lubango, de contentamento pela miséria oferecida pelo seu MPLA, ainda crê que é um dom divino o seu MPLA governar-se, do seu sol, da sua terra, da sua miserável vida. E reza para que o seu comandante dos comandantes tenha longa vida. Mas o seu estômago desperta e aqui se vê a verdade das verdades.
- Sinto-me muito cansado e com fome. Nem sei onde dormitar… não me deixaram uma só tenda, mesmo que rasgada já me safava. Disseram-me que depois iria morar algures aí para algum estendal, tendal… vou apanhar um bocado de capim e fazer um casebre. Esses do MPLA nascem e querem tudo só para eles. Nascem infectados com a doença do dinheiro. Bom, vou ver se consigo vender alguma coisa na rua. Espero que os fiscais não apareçam, porque a sua missão é também espoliar-nos. Que grande merda esta, nem ao menos um Robin dos Bosques temos para nos defender. Ou carregar sacos às costas, ou vender água fresca para viver. Arranjar uns papelões para dormir… tenho que desenrascar-me. O MPLA disse que não me abandonaria, mas já estou de saco cheio dessa conversa. Os leigos da oposição é que não. O MPLA goza-os de tal maneira que interiormente rio-me tanto, tanto, que acabo por confessar que assim não dá… deixa-os andar até abrirem os olhos, se o conseguirem. E os seus conselheiros dão-lhes maus conselhos e só aparecem onde há dinheiro à vista. Os príncipes estão muito ocupados com os seus negócios, vivem num mundo distante. O reino é deles, por isso vivem-no e repartem-no. Além disso nada mais existe. Fazem por parecer cultos, mas estão tão ocultos… como se não existissem. Não gostam que os perturbem, a não ser que lhes levem um bom negócio. Eles são a lei e nela repousam, e tudo mais que os contrarie ilegaliza-se. Ninguém é capaz de os abordar, pois o seu poder é imenso. É um MPLA imperador. Aqui não há peixes pequenos, só grandes tubarões. E quem lá entrar jamais sai, é que não existe porta das traseiras. Porque têm um cemitério particular muito mal iluminado, para que não se possam ver as inscrições das lápides. As amarguras dos miseráveis nunca são escutadas, mas os latidos dos cães escutam-se com muita atenção.

E Lubango lembrou-se que o mais cansativo, o que cansa mesmo de verdade é a mais pura fome e a espoliação.
- Cavar, cavar de dia e de noite à procura de diamantes que depois de encontrados se ocultam. As minas são propriedade real do MPLA, disso ninguém duvida. Dançam, pulam, pululam de contentes porque já não há espaço nos cofres para colocarem as riquezas. Para viver neste reino é necessário matar, vigarizar e espoliar. São estas as leis que funcionam. Quem não as cumprir não lhes sobrevive. Só o oculto permanece e não se pode desvendar. Tudo se lhes permite para obterem o pão. Às populações, além da espoliação, os porretes e os camartelos, isto é que é o seu pão. Os milhões de esfomeados em vão suspiram ao governo dos desgovernados. Nada temem e nada receiam, porque os seus exércitos não dormem, estão sempre de atalaia e reforçados no Orçamento Geral do Estado. Ai dos prevaricadores! Apesar disso não dormem descansados. Vivem na perturbação constante de um levante, porque duas malditas rádios e semanários democráticos atiram tudo para fora, não deixam passar nada. E como vingança acusam-nos de democratas malvados, de maldita democracia que denuncia constantemente os corruptos. É por isso que eles não gostam dos democratas e, claro, da democracia.

O Especular Imobiliário do MPLA foi em auxílio do seu vassalo, e disse ao Lubango:
- Não sei se aguentas o que te vou dizer, mas digo-te algumas verdades. Comeste e bebeste com muitos. Emprestastes o teu dinheiro e agora não te querem saber. Só mesmo um Lubango!.. edificaram empresas com o teu dinheiro… ajudaste muita gente?! Pareces o Lubango bíblico. Nunca vi nem conheci um idiota como tu. E alguns ainda aparecem e levam algumas bananas que por milagre se salvaram. Quem te mandou confiar no MPLA? Milhões confiaram nele e vê como estão. A morrerem à fome!.. o MPLA disse que tens que esperar mais trinta, cinquenta anos para saíres da miséria… e que depois de morto ressuscitará e virá salvar-nos uma vez mais do imperialismo internacional. Morto ou vivo nunca desiste da espoliação petrolífera e diamantífera. É aqui que está a continuação da nossa luta… percebes meu parvalhão?!

Entretanto o Especulador Imobiliário deu parecer aos arquitectos e engenheiros portugueses, brasileiros e chineses que construíam um bruto condomínio, brutas torres e prédios nas terras que já não eram do Lubango. Serviriam também para alegrar, para lazer da nobreza do MPLA. Para passarem brutos fins-de-semana na fuga da agitação da cidade demolida, da barulheira e da anarquia dos desempregados esfomeados sem lei.

Perto, algumas cobras oposicionistas, descontentes, rastejavam à procura de local mais aprazível para respirarem. Sentiam-se, estavam de facto e de jure deslocadas nas suas próprias tocas. Iam bem fodidas. O Especulador Imobiliário continua a desvendar os males do mundo ao grande idiota Lubango.
- A questão fundamental da vida é a utilidade pública, esta grande descoberta de todos os tempos. A maldita invenção que os homens fizeram – o dinheiro –. Porra meu! Acorda pá! Já viste a quanto está o metro quadrado de terreno... 2.500.00 dólares! Uma colossal fortuna. Ó Lubango, não sei se tás a ver como se ganha dinheiro sem trabalhar! Aqui não há população, o que manda é o dólar. A negralhada que se lixe… que morram prá aí! Puta que os pariu!!! O dinheiro dá muita satisfação a quem o possui e que nunca se satisfaz, quer sempre mais e mais. Fica obcecado… como uma ideia fixa… torna-se numa doença. A pessoa deixa de ser humana, vira uma desumanidade ilimitada. É o vale-tudo. Daí não desmagnetiza o seu pensamento. No fim vem a loucura, a neurose a necessitar de urgente tratamento psiquiátrico. Provoca guerras para obter mais e mais até à destruição do Lubango, de Angola, do Planeta… da Humanidade. Provoca uma grave contradição: O dinheiro resolve muitos problemas, mas quanto mais abundante mais problemas trás. É isto a origem da maldade.

O Especulador Imobiliário vai ao seu Hummer acabadinho de importar com o dinheiro do petróleo do povo. Retira-lhe a caixa térmica, abre-a. Diminui-lhe uma garrafa geladíssima de Dom Perignon com cinco anos de idade. Convida o Lubango mas este recusa-se com a cabeça. Satisfaz-se com uma farta golada. Reconta a exercitação ao Lubango.
- Sabes Lubango… o nosso MPLA é como um universo-ilha. Nele, os ricos são fábricas de lixo. Os seus lares produzem-no em abundância porque têm muito para consumirem. E obrigam-nos a rastejarmos no que a sua ira produz. Nem as plantas e os animais lhes escapam. Quando a consciência da Natureza se revolta, chamam-lhe calamidade natural... e as vítimas são imensas… os seres humanos que escapam vivem dispersos, na fuga incerta, permanente. A Natureza sussurra os seus segredos, mas já ninguém os entende ou finge não entender. Aparece-nos em visões à noite e desaba em cima de nós, precisamente quando estamos no sono mais profundo. Acordamos espantados e estremecemos perante tal poder. Os espíritos vagueiam à nossa volta, poucos povos já os entendem. O vento fala-nos, previne-nos, mas os nossos olhos já nada vêem. Vencemos, porque tudo e todos corrompemos.
Finalmente, a palavra de ordem é: VAMOS DEMOLIR ANGOLA!

Imagem: morrodamaianaga.blogspot.com/

República dos Golpes de Estado


É esta a nova designação da Guiné-Bissau:
República dos Golpes de Estado.

Mas esta independência sem energia eléctrica nunca mais acaba?!


As trevas adensam-se. O que era deixou de o ser. A selvajaria prevalece, fria, insensível, fortificada.

Não sei porque demora a hora de encomendarem as suas almas ao TPI-Tribunal Penal Internacional, pelas violações, pilhagens e campos de concentração para o que já era população.

Luanda. Mapa das demolições da energia eléctrica
Março 2010
31Mar10 das 06.56 às 16.50. 30Mar 11.02-21.45. 29Mar 15.28-16.05. 27Mar 18.57-23.50. 26Mar 12.26-13.14, 14.03-15.58, 18.13-23.50. 25Mar 21.14-01.34 do dia 26Mar. 24Mar 09.20-10.08 do dia 25Mar. 23Mar 12.39-12.44. 22Mar 00.30-05.00,17.30-18.44. 21Mar 05.34-15.22. 19Mar 19.06-21.58.17Mar 02.25- 02.52.16Mar 10.45-14.51, 19.31 às 19.40.15Mar 01.30-05.30. 13Mar 18.47-22.25. 06Mar 10.21-16.48. 03Mar 11.35-13.40. 01Mar 14.00-16.52.

Estas interrupções de energia eléctrica não são descontadas.
Também durante duas semanas deixaram-nos com a tensão entre 110 a 170 volts, devido aos trabalhos da empresa demolidora portuguesa TEIXEIRA DUARTE SA.

Imagem: anúncio da nossa ministra das Trevas, em 17 de Novembro 2009.

Parabéns Folhinha!


Faço parte do primeiro grupo de escribas que em 1995 deu corpo ao Folha8, o nosso “Folhinha”, numa altura em que acabávamos de perder o Ricardo de Mello (RM), vítima da intolerância endémica, que se mantém até aos dias de hoje, tendo apenas os seus mentores mudado de táctica, com a utilização de métodos menos violentos.

http://morrodamaianga.blogspot.com/2010/03/parabens-folhinha.html

O Folha 8, na sequência do prematuro desaparecimento do pioneiro e temerário Imparcial Fax do Ricardo de Mello, surge na altura como a única referência da emergente imprensa livre da tutela político-partidária do recente passado monolítico que ainda era demasiado presente.
Era e lamentavelmente continua a ser, depois de todos estes anos, com todas as mudanças cosméticas que se conhecem, mas que não resistem ao primeiro abalo, como ficou novamente bem evidente, com o caso das demolições no Lubango e em Benguela e as intervenções musculadas dos respectivos governos locais, sob o olhar silencioso do poder executivo central.
Há 15 anos, o assassinato até hoje não esclarecido de RM, foi um claro aviso à navegação de todos quantos se movimentavam no território dos “médias” com outros propósitos menos concordantes com a orientação geral do Big Brother.
O sanguinário aviso, pelos vistos, não funcionou como era suposto, quando foi programado.
Não foi suficientemente convincente, porque mais forte e determinada já era a vontade de continuar a fazer o jornalismo livre de qualquer correia de transmissão, averso a qualquer colete-de-forças, alérgico a qualquer rolha ou mordaça.
Nada mais seria como dantes. E não foi mesmo.
Menos de um ano depois da tragédia que abalou o jornalismo angolano com o assassinato de Ricardo Mello, surgia nas bancas o Folha-8, que de lá para cá, com todos os altos e baixos que se conhecem, nunca mais se calou.
O “Folhinha” é importante destacar aqui, abriu caminho à criação dos outros semanários que viriam dar corpo ao que é actualmente o dinâmico e interventivo segmento da imprensa privada angolana, sem dúvida um dos mais autênticos, independentes e produtivos pilares da nossa imberbe e decepcionante democracia.
É pois inegável e incontornável a importância do projecto que Wiliam Tonet soube criar com o apoio de todos nós, os seus co-fundadores, no contexto da própria história da evolução do jornalismo angolano rumo a sua afirmação como um espaço de liberdade, independência, seriedade e responsabilidade.
Do lado que nos compete, é bom reconhecer nesta hora de balanço, trata-se de uma evolução que ainda está longe de estar concluída de forma satisfatória. Continuamos a ser confrontados com demasiados amargos de boca que hoje já não se deveriam justificar e que só nos podem aconselhar a sermos cada vez mais profissionais, que é a única ferramenta que os jornalistas têm ao seu alcance para vencerem a batalha da sua própria credibilização.
Mil edições e 15 anos depois, o Folha 8 está aí bem vivo.
Parabéns!
(Este texto foi publicado no Folha8 na sequência de um pedido que me foi formulado pela sua direcção no âmbito do aniversário assinalado pela referida publicação)