quinta-feira, 22 de abril de 2010

A Ocidente do Paraíso (50). Vivemos num mundo onde precisamos nos esconder para fazer amor! Enquanto a violência é praticada em plena luz do dia. John



De repente, por cima de nós, ouvimos o barulho de um avião que voava em círculos a baixa altitude. Era uma avioneta DO27, (Dornier). Sentimos algum receio porque não sabíamos da sua presença. Subiu bem alto, e de repente em queda livre veio na nossa direcção. Alguns fugiram em pânico. Estabilizou e executou várias acrobacias. Um espectáculo digno de se ver. Tirei várias fotos. Pensei que a enviaram pelo comando para nos distrair, mas não. Depois de aterrar, chegou próximo de nós o homem que a pilotava – era um oficial piloto aviador – e abraçou demoradamente um furriel da nossa companhia, o Sanches, que o aguardava. O Sanches era familiar do Comandante-chefe da Região Militar de Angola. Demoraram cerca de meia hora a conversar, depois o aviador foi-se embora. Fez mais algumas acrobacias e no fim abanou as asas em sinal de despedida. Tinha vindo aqui de propósito para cumprimentar o seu amigo.

A picada que a engenharia abria já ia distante. Para lhes acompanhar o passo, tínhamos que sair deste local e montar um acampamento de tendas mais à frente. Antes da partida tirei algumas fotos dos bagos dos cafeeiros, que estavam muito bonitos, com uma cor muito provocante.
Novamente a preparar as bagagens para mais uma viagem. A engenharia tinha preparado um local de terra, devidamente nivelado, e à sua volta levantou uma muralha de terra que nos servia de protecção.

Tomávamos banho em regadores suspensos de uma estrutura de madeira improvisada. A água carregava-se a balde de um camião cisterna.
O pó era insuportável e penetrava a todo o momento pelas aberturas das tendas. Quando o pão não ficava resguardado, parecia que tinha sido cozinhado com pó. As formigas não perdoavam, e tudo o que era comida desaparecia. Tínhamos que colocar um prato com água, e no meio um recipiente, onde em cima deste colocávamos as sobras das refeições, que depois aproveitávamos enquanto aguardávamos pelo rancho.

Sentado na minha cama, todos os momentos livres dedicava-os à leitura. Parava para descansar quando as dores me acometiam as costas devido a tão incómoda posição. Nunca li tanto como nestes meses. As deslocações frequentes de um lado para o outro começaram a cansar-me. Já não desfazia a bagagem, apenas tirava o que necessitava, e depois quando de nova abalada, arrumava tudo no mesmo sítio.
Outra vez de partida para novo acampamento, porque a engenharia já ia mais além. Depois a nossa missão terminaria. Tinham-se passado vários meses, e o tempo da nossa comissão quase chegava ao fim. A odisseia da CCAV 3418 prosseguia para o destino final, Balacende.

Vivemos num mundo onde precisamos nos esconder para fazer amor! Enquanto a violência é praticada em plena luz do dia. John Lennon

Imagem: http://www.bush-planes.com/images/TopDornierRight.jpg

22Abr10. Os bancos. Diário dos últimos dias de Luanda


Os bancos dão crédito a quê e a quem?! Eles estão ao serviço da FAMÍLIA, e mais ninguém, os tais 7% de depositantes.

São eles que desgraçaram, e insistem na desgraça das nossas vidas.
São tão pantanosos… isto não dá para alargar, porque está demasiado infestado de podridão.

Um pobre exemplo: são eles que financiam a destruição dos casebres, das casas, das cubatas, daquelas do pau-a-pique… e dos bens ganhos pelas poupanças ao longo do tempo, etc. Para depois construírem lá os condomínios, as torres, os prédios, e mais etc.

Ora, aqui reside o não aumento dos depósitos. Isto constitui uma monstruosidade… se destroem o modus vivendi das populações, forçando-as às tendas, deixa de haver poupanças, logo não há dinheiro para depositar.

E a população não mete lá o dinheiro porque os bancos não funcionam, não são credíveis. E depois com o que se passa actualmente com mais uma Experiência de Filadélfia da nossa engenharia financeira corrupta… mas que grande roubalheira.

Estão sempre no: «estamos sem sistema.» Há aqui um outro aspecto também muito importante a considerar: a energia eléctrica não funciona, podemos ir mais longe e afirmar categoricamente a sua não existência. Não é possível um banco trabalhar sem a energia da EDEL. É que as redes informáticas sempre a trabalharem com geradores 24 sobre 24 horas, apresentam um pormenor técnico: Os cinquenta ciclos da corrente alterna não fornecidos, provocam derrames cerebrais nos circuitos das redes informáticas… é por isso que bastas vezes surge o elementar: «estamos sem sistema. Não é possível o coração do sistema económico, os bancos, funcionarem ininterruptamente com geradores.

E também, talvez fundamentalmente, estamos enxameados de economistas (?). Ora, onde existe sabedoria a mais…

De qualquer modo, a função principal dos bancos em Angola é espoliar-nos o mais possível e impossível.

Mais um novo-rico. António Maurício entrou na FESA… e não mais dela sairá.


Empresário angolano preside à Construtora do Tâmega com 38%
O empresário angolano António Maurício preside à Construtora do Tâmega, detendo cerca de 38% do capital, confirmou ao Económico fonte oficial da empresa.

Nuno Miguel Silva 20/04/10 18:05 DIÁRIO ECONÓMICO


A Finertec detém mais 38% do capital da Construtora do Tâmega. Esta empresa lançou uma OPA, concluída em 2009, para retirar a empresa de bolsa (segundo mercado). Na altura, diversos analistas adiantaram que a Finertec é uma ‘holding' controlada ou associada a capitais angolanos.
Segundo diversas notícias entretanto divulgadas, a Finertec resulta de um grupo de capitais angolanos, liderado por José Brás da Silva, que, alegadamente, tem negócios nos sectores da energia, imobiliário e finanças.
Questionada pelo Económico sobre a composição da estrutura accionista da Finertec, fonte oficial da ‘holding' respondeu apenas que "a Finertec é uma S.A."
A mesma fonte acrescentou que "os outros 24% da CT pertencem a antigos accionistas da empresa como o Eng. José Fonseca e o Eng. Joaquim Mota, por exemplo". José Fonseca e Joaquim Mota são das famílias fundadoras da Construtora do Tâmega, criada em 1946.
O novo presidente da Construtora do Tâmega, António Maurício é um dos empresários angolanos mais influentes, estando estritamente ligado ao presidente e à família de José Eduardo dos Santos. É vice-presidente da Fundação José Eduardo dos Santos (FESA), uma instituição apontada por muitos como o veículo do MPLA (o partido no poder em Luanda), para o sector empresarial. António Maurício é também o presidente da ‘holding' Suninvest, uma das mais poderosas do aparelho estatal angolano.
A Construtora do Tâmega já há vários anos que é alvo de queixas de diversos fornecedores por pagamentos em atraso. A empresa, em muitos casos, tem superado, a situação com a emissão de letras sobre as respectivas dívidas. No plano internacional, também há notícias de semi-paralisação das frentes de obra por falta de meios financeiros, como na Mauritânia.
Desde 2007, a Construtora do Tâmega deixou de pagar quotas de sócio na AECOPS - Associação de Empresas de Construção e Obras Públicas, pelo que foi suspensa em 2008, situação que se mantém desde essa data.

A Experiência de Filadélfia


Os cientistas da corrupção angolana, cotados como os melhores do mundo, criaram um método engenhoso de transferirem os biliões de dólares que roubam. Inventaram uma versão da Experiência de Filadélfia, carregam o navio Eldridge,,, e os biliões vão para outra dimensão, num buraco do tempo.


«A Sonangol e o Triângulo das Bermudas
Anónimo disse...
Dadá,
Não sei se mencionaste o "triângulo das Bermudas" pelas suas razões históricas ou se fizeste uma ligação ao que realmente se passa com a nossa relação com as Bermudas.
1. Caso não saiba, as Bermudas eram um destino favorito para desvio de dinheiros para fora de Angola (desconfio por aconselhamento daquele tipo de advogados ingleses e portugueses).
2. A Sonangol normalmente regista os seus aviões nas Bermudas e a AAA (também da Sonangol) tem muito património nas Bermudas, assim como sociedades receptoras de fundos de origem em Angola.
22 de Março de 2010 14:38» in MORRO DA MAIANGA


Imagem: FOLHA 8

quarta-feira, 21 de abril de 2010

A Ocidente do Paraíso (49). O fazendeiro veio de Luanda propositadamente para castigar alguns dos seus trabalhadores... à paulada.


Um contraste cómico era a nossa postura de disciplina em relação ao vestuário e aprumo, sempre impostos pelo nosso capitão. No pelotão de engenharia era: Farta cabeleira, camisa fora dos calções, botas com os atacadores soltos, enfim, cada um vestido de acordo com a conjuntura. O nosso capitão devia estar muito chateado com isto, mas não podia fazer nada. Inclusive, o pessoal da engenharia dizia que se os chateassem que se iam embora, e que chamassem outros, pois que estavam fartos de trabalhar e as condições laborais eram indignas.

Sabedores disto, os altos comandos preferiam fechar os olhos. Ao contrário da Quibala do Norte onde ficávamos no alto de uma montanha, aqui ficávamos num vale rodeado de montanhas. A vista geral circundante do posto de rádio era uma grande montanha. A minha cama situava-se junto à porta. Quando me sentava, olhava sempre para a mesma paisagem. Um local muito estreito e deprimente.
Entretanto, o meu pai enviou-me um pequeno rádiogravador. Um furriel emprestou-me uma cassete com uma música que não me cansava de a ouvir. Acho que a melodia se adequava exactamente à paisagem.

Tell her to reap it in a sickle of leather
(War bellows, blazing in scarlet battalions)
Parsley, sage, rosemary, and thyme
(Generals order their soldiers to kill)
And to gather it all in a bunch of heather
(And to fight for a cause they've long ago forgotten)
Then she'll be a true love of mine

Diga-lhe que colha isto com uma foice
(Guerra berra, enquanto brilhando em batalhões escarlate)
Salsa, salva, alecrim, e tomilho
(Os generais ordenam que os soldados matem)
E juntar tudo em um grupo de urze
(E lutar para uma causa eles esqueceram há muito tempo)
Então ela será um verdadeiro amor meu
(Simon & Garfunkel. Scarborough Fair.)
Tradução livre.


E sempre, ao escutar esta música, vem-me sempre à memória este local. As colinas e a sua vegetação.

Já tinha muitos livros para ler. Quase todos os alferes e furriéis carregaram malas com livros, para que o tempo que restava não fosse tão desagradável. Na generalidade eram romances de autores consagrados. Lia-os até à exaustão.

Um incidente veio quebrar a monotonia. O fazendeiro veio de Luanda propositadamente para castigar alguns dos seus trabalhadores... à paulada. Isto deixou-nos tão revoltados que nos apeteceu matar o homem, se não fossem os alferes que nos dissuadiram.
No outro dia os cães do fazendeiro ganiam de forma estranha. Um a um morriam em grande agonia. Morreram todos envenenados. Alguém lhes deu comida envenenada, e nunca se soube quem foi o autor ou autores. Foi sem dúvida uma vingança. Pensei que o nosso comando iria tomar medidas severas contra nós. Mas não, preferiram o silêncio, fingindo que não sabiam de nada.

Imagem: cortesia do furriel luís Filipe

21Abr10. Diário dos últimos dias de Luanda


É outra Argélia. Os franceses chegaram, reforçaram-se, nos espoliam, nos silenciam, nos prendem. Removeram-nos do direito ancestral da terra, é toda deles, tudo é deles. Só falta a célebre ordem do atirar em tudo o que se mexer. Outra vez nos chamam beduínos.

Angola é uma imensa propriedade privada, e como tal vende-se a quem a quiser comprar. O terrífico sistema marxista-leninista não acabou, apenas de óleo mudou.

Os escravos querem-se muito bem comportados nos imensos campos de concentração improvisados em Angola. É que, sem oposição o inimigo rompe as muralhas da cidade, invade-a e toma-a. Mesmo com o chicote nos lombos, a oposição fomenta o habitual: pois, você roubou o dinheiro do partido, tem que ser preso e julgado. Pois, mas você também roubou, e também vai para a prisão. Todos querem poder para roubar. Angola está uma poderosa quadrilha nacional e internacional de gatunagem tal, que todo o gatuno desterra-se para ela, instala-se paradisiacamente porque enriquece muito rápido… a lavar dinheiro.

Se não existem manifestações para enfrentar o poder, ele fortalecerá a sua postura com mais espoliações, porque não existe quem lhe faça frente.

É salutar transferir o Muro das Lamentações para aqui, porque o mwangole trabalha 24 sobre 24 horas a lamentar-se.

Mas quando é que acabam com a escravatura e passam para a condição de homens livres? Adormeceram, e até aqui ainda têm um longo caminho a percorrer. A anarquia generalizou-se a tal ponto, que os jovens dão tiros com os escapes das motas como se fossem armas, dia e noite, instituindo-nos mais um inferno e ninguém liga, porque estão todos surdos. Ou os cérebros não reagem, porque já deixaram de funcionar. Está tudo tão natural, tão anormal.

Estes novos-ricos atraem o Efeito Borboleta. Já não se lembram de nada, o que é também elementar, antinatural.

«Anónimo disse...
De facto estamos cativos das concessionarias todas que estao de maos dadas com os donos da terra, por isso, por mais reclamemosm as concessionaria nao ligam alguma. Nao 'e so a Vauco. A Toyota 'e a pior de todas, sobretudo em relacao aos carros Toyota Fortunner cujos discos de embraiagem avariam de 15 em 15 dias e, se o proprietario reclama, 'e obrigado a fazer teste de conducao. O carro, seja prado VX, GX ou Fortunner sai da revisao com as correias a chiarem... A tOYOTA de Angola nao da cavaco a ninguem, desde a sua administracao a area atendimento as reclamacoes dos clientes, a tal senhora Stela. Nao cumprem as orientacoes da Toyota do Japao. 'E uma vergonha para Angola onde as multinacionais 'e que impoem as regras, adormecendo todas as autoridades do pais...
16 de Abril de 2010 21:30» In morrodamaianga.blogspot.com/

Escravos angolanos, LIBERTAI-VOS!

Imagem: FOLHA 8

terça-feira, 20 de abril de 2010

Autoridades Interditam Líder Da OMUNGA No Aeroporto De Luanda



Terça, 20 Abril 2010 15:50
Luanda - Foi “cassado” por cerca das 13h (do dia 20 de Abril de 2010), pelos Serviços de Migração de Angola, o passaporte do coordenador da OMUNGA, Sr José Patrocinio, quando acabava de regressar do Quénia, onde foi participar numa Conferencia sobre Direitos Humanos, promovida pelo Fórum “Espaços Africa dos Direitos Humanos”.


Regime do MPLA apreende passaporte do activista
A organização OMUNGA tem-se preocupado com a defesa dos interesses das populações, nomeadamente, dos desalojados e é membro Comité Africano dos Direitos Humanos da União Africana.

O passaporte retirado arbitrariamente após passar a fronteira foi entrega a um funcionário dos SME. As entidades recusaramm-se a dizer o motivo de tal acto e nem sequer pretendiam ouvi-lo perguntar sobre o assunto. Na entrega do passaporte foi referido que tinha havido “engano”.

Durante a semana passada a sede da Associação foi fotografada por um carro de cor branca que logo que localizado pôs-se em fuga.

Tratam-se de actos que visam submeter a Associação e seus membros sob tensão e ameaça permanentes com vista a desestimula-los na defesa dos grupos mais vulneráveis, através da violação dos direitos do cidadão e das Associações. Este acto põe em causa a sinceridade do pedido de desculpas do Ministro da Administração Interna, pois afinal aqueles que no uso dos seus direitos democráticos defendem as populações são alvo de restrições inadmissíveis por parte das autoridades, no caso, agora, centrais.

13h30 – Antes do fim da redação dessa nota somos informados que ao passar pela Alfandega o passaporte de José Patrocinio voltou a ser apreendido e a sua bagagem está a ser alvo de inpecção minuciosa. Aguarda-se pelo evoluir dos acontecimentos.
Comissão Instaladora do Bloco Democrático
Coordenador

Telefone Sr Patrocinio: 917212135
Omunga: 272221535 (Benguela)

A Ocidente do Paraíso (48). E a CCAV 3418 continuava a sua odisseia.


Um sargento reuniu um grupo de voluntários para caçar pacaças. Ofereci-me e lá fomos. Chegámos a um local onde elas habitualmente pastavam. O sargento avisou-nos solenemente que ninguém daria tiro com G3, porque tinha uma caçadeira adequada. Um palerma desobedeceu à ordem, e quando viu uma pacaça deu-lhe tiros com a G3. Resultado… o animal ferido investiu de repente como querendo varrer tudo à sua frente. Quando me apercebi do perigo e do barulho que o animal fazia, pois que o chão tremia, por instinto coloquei-me atrás do tronco de uma árvore, e vi-o passar numa louca correria. Mas o sargento estava atento mais à frente, e com tiros certeiros da sua caçadeira acabou por abatê-la. Ao jantar tivemos bifes de pacaça com arroz, e demos graças a Deus por tão boa comida.

O MVL continuava retido. As viaturas civis muito carregadas avançavam um pouco e depois tornavam a enterrar. As mensagens que recebíamos diziam que a berliet, com a direcção toda virada para a esquerda deslizava para a direita, como se o chão estivesse inundado de manteiga. Até que tal imbróglio chegou ao conhecimento do Comandante-Chefe da Região Militar de Angola. As ordens que deu eram que o MVL deveria avançar de imediato. Foram enviados helicópteros com pessoal da engenharia, e a coluna avançou e chegou ao seu destino. Para grandes males, grandes remédios.

Pela última vez acompanhei um dos nossos pelotões em mais uma patrulha como fotógrafo de guerra. Poucas vezes carregávamos o colchão de borracha, porque em progressão se torna muito pesado. Como cama utilizávamos um pano de tenda que estendíamos no chão. No solo abundavam pedras pontiagudas que nos causavam dor, e que apenas nos deixavam dormir um pouco. Por azar caiu uma chuvada a meio da noite. Os ponches pouco serviram para nos abrigar. Quando rompeu o dia estávamos encharcados, e sem dormir parecíamos autómatos descontrolados.

A companhia que nos permitiu sair deste martírio chegou, mas era apenas uma rotação. Eles ficavam, e nós íamos com destino ao Quixico. Um ano de isolamento no mato abala qualquer um.

Não existem caminhos para a paz. A paz é o caminho. (Mahatma Gandhi. (Grande Alma).

E a CCAV 3418 continuava a sua odisseia. A característica principal do Quixico, era uma grande fazenda de café. Comecei a concluir que todas as localidades situadas no Norte de Angola tinham a sua origem em grandes fazendas de cafeeiros. Soube também que toda esta grande área tinha o nome de Dembos.
Um pormenor curioso era que apenas as comunicações situavam-se num pequeno monte. Tínhamos instalações só para nós. Ao contrário da Quibala do Norte, quando estávamos de serviço à noite, de dia não conseguíamos dormir, porque nas casernas faziam tanto barulho que em grande parte se devia a isso a alteração do nosso sistema nervoso.

Todas as instalações em que agora nos encontrávamos pertenciam a um grande fazendeiro. Em frente às comunicações estendia-se uma picada em linha recta. Era a via principal de entrada e saída. Mais em frente, do lado direito, ficavam as instalações dos nossos chefes, separadas do restante pessoal. Eram dois armazéns de café improvisados para o efeito. Em frente, ao fundo, distinguiam-se perfeitamente grandes campos para secagem do café. Mais afastado, num local isolado, sobressaía uma pista de aviação. Haviam civis da OPVDCA-Organização Provincial de Voluntários da Defesa Civil de Angola, que protegiam as instalações e os trabalhadores da fazenda.

A nossa missão consistia em proteger um pelotão de engenharia, que abria uma grande picada em direcção a Salazar (hoje Ndalatando). Saíam de manhã, trabalhavam na desmatação, depois nivelavam o solo e passavam-lhe com o cilindro. Estavam devidamente apoiados pela JAEA-Junta Autónoma de Estradas de Angola, com pessoal civil. No fim do dia enviavam uma mensagem com a posição, km tal.

Imagem: cortesia do furriel Luís Filipe

20Abr10. Diário dos últimos dias de Luanda


Banco Millennium Angola, um banco da morte reinante.
Os bancos nasceram para arruinarem as nossas vidas. Trapaceiros por excelência, invadem-nos as almas e os nossos lares para nos espoliarem o que resta dos nossos bens gloriosamente conquistados. Corrompem e mandatam governos para saquearem as populações. Contratam pistoleiros financeiros para nos arrebatarem… mas mais o quê?! Se os empregos também nos espoliaram?

Os bancos são a nossa miséria. São a nossa atípica desesperança. Os bancos são quadrilhas universais que nos impõem a lei moderna de Lynch: quem a um banco recorrer será sumariamente linchado.

Conforme email persistentemente nos enviado, em Angola, um desses linchadores é o Banco Millennium Angola, várias vezes aqui denunciado pela insistência diabólica do linchamento causado pela poluição sonora e gás envenenador produzidos pelo gerador que trabalha 24 sobre 24 horas. Está ilegalmente nas traseiras do prédio 109 da rua Rei Katyavala 109, em Luanda. É isto a lei de Lynch que ainda vai funcionando em Luanda, em Angola. Mas acredito que brevemente as coisas mudarão. Porque é impossível padecer, permanecer como nos tempos da Argélia do colonialismo francês.

Os assaltos multiplicam-se a cada dia, a cada ápice. Os esfaimados defendem-se da fome bancária como lobos para não perecerem. O reino do petróleo não lhes pertence. Há muito que os bancos se vampirizam com os terrenos e casebres que nos espoliam.

Imagem: FOLHA 8

Professores, vamos deixar de dar aulas. Vamos todos treinar a selecção nacional!!!!!


Professores: Kzs 216. 000. 00 ou mais...
Manuel José euros 170.000
Ervé Renard euros 100.000
veja a tabela
Discrepâncias nos ordenados

Fonte: Email

Eles (os estrangeiros) comem tudo...

Pelo que os últimos seleccionadores nacionais auferiram nos últimos oito anos, está claro que no consulado de Justino Fernandes guia-se por uma espécie de «complexo
de estrangeiro». Ou seja, os técnicos expatriados ganham absurdamente muito mais do que
os seus colegas nativos. E a questão que se coloca não é que os estrangeiros não mereçam
tanto.

O problema é que os angolanos merecem muito mais do que a miséria que costumam embolsar. Eis a relação dos salários (aproximados, diga-se) dos seleccionadores desde que Justino
Fernandes assumiu a presidência da FAF em 2000, já lá vai uma longa década:

Nome Nacionalidade
Ordenado em USD Carlos Alhinho (2000) Luso-Caboverdiano 10.000,00 Mário Calado (2000-2002)
Angolano 5.000,00 Ismael Kurtz (2002-2003) Brasileiro 15.000,00 Oliveira Gonçalves (2003-2008)
Angolano 18.000,00 (*) Mabi de Almeida (2008-2009) Angolano 13.000,00 Manuel José (2009-2010)
Português 170.000,00 Hervé Renard (2010-...) Francês 100.000,00 (*)

Começou com USD 10 mil, depois passou para USD 13 mil e chegou aos USD 18 mil, após ter qualificado a selecção nacional para o primeiro Campeonato do Mundo da sua história. Apresentado quinta-feira última, 8, na sede
da Federação Angolana de Futebol (FAF) como novo seleccionador nacional durante os próximos
dois anos (com mais dois de opção, se os resultados forem positivos), Hervé Renard é francês de
nacionalidade e tem 41 anos de idade, fazendo parte da nova geração de técnicos gauleses.

Antigo defesa do Vallauris (divisões secundárias) e do AS Cannes, primeira divisão onde disputou apenas
uma partida em 1990, Hervé Renard foi durante muito tempo conhecido no mundo do futebol apenas
como o adjunto do seu compatriota Claude Le Roy, o homem com quem trabalhou na selecção do Ghana
entre 2007 e 2008.

Com o técnico campeão africano de 1988 com os Camarões o novo seleccionador de Angola também serviu como assistente na China e no Cherbourg (dos escalões secundários franceses),
antes de treinar a China e o Vietname. Depois que o seu «mentor» saiu da selecção do Ghana após o
CAN’2008 que se disputou precisamente naquele país oeste-africano, Hervé Renard seguiu o seu caminho
a solo, tendo aceite um convite para dirigir a Zâmbia, com cuja equipa nacional chegou aos quartos de final
do CAN’2010, disputado em Janeiro passado em Angola.

Face à prestação dos «Cipolopolo» no CAN angolano
a cotação do francês subiu em espiral no mercado africano. Desse modo recebeu contrato

Imagem: Jornal do Brasil


Só o roubo os liberta. Só a fome nos liberta.


Movimentação de Fundos Angolanos Debatida no Senado Americano
Por João Santa Rita
05/02/2010

Uma comissão do Senado americana ouviu ontem detalhes sobre a movimentação de milhões de dólares de vários países africanos, incluindo Angola, em esquemas relacionados com o desvio e lavagem de fundos do governo.

Fonte: e-mail

O Senado americano está a estudar legislação para reduzir o uso de instituições americanas por dirigentes e funcionários corruptos. Numa audiência realizada ontem vários casos envolvendo Angola voltaram a ser abordados, nomeadamente a transferência de milhões de dólares por Pierre Falcone, o empresário a cumprir pena de prisão em França por tráfico de armas para Angola e que juntamente com os seus familiares terá usado 29 contas diferentes no Bank of America entre 1989 e 2007 para movimentar milhões de dólares em fundos que o relatório considera de suspeitos.

O comité do Senado que investigou a questão localizou 60 milhões de dólares em actividades que considera de suspeitas acrescentando que entre 1999 e 2007 Pierre Falcone esteve envolvido em inúmeras transacções suspeitas.
O Bank of America encerrou as contas de Falcone em 2007. William Fox,
do Bank of
America admitiu que o banco deveria ter actuado de melhor maneira no caso de Pierre Falcone que entre 1999 e 2003 recebeu em diversas das suas contas mais de seis milhões de dólares de clientes que não foram identificados. Outro caso que esteve em discussão foi um envolvendo uma tentativa do antigo presidente do banco nacional de Angola e antigo vice primeiro ministro Aguinaldo Jaime de transferir 50 milhões de dólares para uma conta privada através de bancos americanos.

Arvind Ganesan, director para questões empresariais na organização de direitos humanos Human Rights Watch acompanhou o caso e DISSE Á Voz da America que Aguinaldo Jaime "tentou transferir 50 milhões de dólares do banco central para os Estados Unidos sob pretexto de que se tratava de fundos para ajuda humanitária". "O banco nos Estados Unidos considerou a operação de suspeita e devolveu o dinheiro. Dois meses depois em Agosto de 2002 ele tentou a mesma coisa em conjunto com vários outros indivíduos. Mais uma vez o banco considerou isso de
suspeito, disse aquele especialista da Human Rights Watch. Ganesan disse que neste caso dois bancos americanos o Bank of America e o Citibank consideraram a operação de suspeita. O Citibank acabou mesmo por fechar os seus escritórios em Angola.

Outro banco que teria estado envolvido nas tentativas de Aguinaldo Jaime para transferir dinheiro foi o HSBC que teria sido também usado para a compra de títulos do tesouro americano por entidades angolanas. Na audiência de ontem Wecher Mandemaker, director para controlo de lavagem de fundos no HSBC, não pode contudo responder a questões sobre as relações do seu banco com o banco central de Angola e sobre actividades em bancos nas Bahamas. O HSBC disse não poder responder a perguntas sobre o uso de contas em bancos fora dos Estados Unidos pelos seus clientes devido entre outras questões ás leis de segredo bancário que existem nas Bahamas. Mandemaker disse ao comité do senado não saber se o HCB tem ligações com o Banco Nacional de Angola nas Bahamas algo que desagradou visivelmente a alguns dos senadores.

O senador Carl Levin disse ontem que a corrupção deve ser combatida em todos os locais porque destrói a lei, o desenvolvimento económico e a sociedade civil. Arvind Ganesan disse que a transferência ilícita de fundos afecta também o bem estar das populações dos países visados: Dando como exemplo o caso de Angola Ganesan recordou que a num relatório publicado pela sua organização em 2004 indicou que entre 1997 e 2002 - na altura em que Aguinaldo Jaime era ou director do banco central ou vice primeiro ministro - quatro mil e 220 milhões de dólares desapareceram.

Nesse mesmo período o gasto total para questões sociais e humanitárias em Angola foi de quatro mil e 270 milhões de dólares. " Durante esse mesmo período todos os principais padrões de desenvolvimento caíram. Quer seja saúde, ou educação ou outro serviço essencial ou necessidade
poderiam ter sido melhorados se os quatro mil milhões de dólares que desapareceram tivessem sido investidos no povo angolano em vez de terem sido esbanjados, mal administrados ou roubados," disse o especialista. Arvind Ganesan da Human Rights Watch disse ainda apoiar medidas para que os corretores de propriedades sejam obrigados a saber a proveniência de fundos usado na compra de propriedades nos Estados Unidos.

Imagem: FOLHA 8

segunda-feira, 19 de abril de 2010

A Ocidente do Paraíso (47). Mas qual quê… eram limões. Mas mesmo assim, serviram maravilhosamente para matar a sede.


As ruas que circundavam o batalhão eram de terra batida. O pó era tanto que caminhar tornava-se tormentoso. Chegava a trinta centímetros de altura. Ficávamos com o corpo como se tivéssemos tomado um banho de pó. Senti-me muito aliviado quando o capitão ordenou que regressássemos. Decididamente este local não era nada acolhedor.

Continuava com as minha fugas operacionais para poder tirar fotografias. Vi buracos de elefantes deixados quando caminhavam na terra barrenta. O azar seria enfiar um pé num deles e decerto sairia com uma perna partida.
A certa altura surgiu pânico entre nós porque alguém pisou uma grande serpente, o que originou uma grande correria. Ninguém se feriu. As moscas tsé-tsé perseguiam-nos. Não faziam nenhum barulho. Só se sentia comichão, que ao coçar fazia uma protuberância na pele. Felizmente não tivemos nenhum caso de infecção.

Quando surgia uma tempestade, por mais que fizéssemos, as nossas tendas inundavam-se, ou devastavam-se pela força avassaladora da ventania. E acontecia que os raios eram tão intensos, que tínhamos que largar as nossas armas para não sermos electrocutados.

Numa outra fuga operacional em que já não tínhamos água para beber, descobri entre quatro árvores um reservatório feito com as suas raízes. Aproveitei e coloquei alguma no cantil, desinfectando-a com vários comprimidos. Noutra altura, também sem água, descobrimos um pequeno lago imundo. Tentámos aproveitar a parte que parecia mais limpa, enchemos os cantis, desinfectámos e toca a beber.
Ou quando numa lavra abandonada encontrámos o que pareciam laranjas. Arranquei algumas e com a faca de mato tirei a casca. Seria bem óptimo, matar a sede com tal manjar. Mas qual quê… eram limões. Mas mesmo assim, serviram maravilhosamente para matar a sede.

Não gostava de frango. Quando serviam esta comida diziam que eu passava fome. Que nunca viram ninguém que não gostasse de frango. A questão era muito simples, parece-me. Quando era criança, no Tramagal ouve uma grande chuvada que arrastou centenas de frangos. Vi-os em decomposição com as larvas a acabarem os seus restos cadavéricos. A partir daí nunca mais consegui comer tudo o que fosse aves. Tentei algumas vezes vencer este constrangimento, mas sem êxito, porque sempre me ocasionava vómitos. O furriel vagomestre, quando se apercebeu da situação instruiu para me fazerem outra comida, que normalmente consistia em batatas fritas com bife.

Entretanto surgiu o nosso receio… o arroz com salsichas. Os que conseguiam cozinhavam outra comida. Haviam fogareiros a petróleo espalhados por toda a companhia. Claro que nós também tínhamos o nosso. De vez em quando fazíamos algumas iguarias devidamente regadas com cerveja. Mas o arroz com salsichas continuava. Depois soubemos o motivo. O MVL que transportava os géneros estava retido em Freitas Mornas, devido às intensas chuvas. Uma semana já se tinha passado e não sabíamos quando seria a sua chegada.

Imagem: cortesia do furriel Luís Filipe

sexta-feira, 16 de abril de 2010

A Ocidente do Paraíso (46). Os guerrilheiros até conseguiram roubar a roupa que estava estendida próxima do gabinete do comandante.


Uma das consequências disso foi o envio por via aérea de alimentos frescos por pequenos aviões fretados para o efeito. Sardinhas portuguesas, pimentos, carne, vinho fresco, etc. A nossa ração melhorou e o moral da tropa também. Isto era necessário, enquanto o comando procurava uma companhia para a nossa rotação. Naturalmente que grande parte do tempo era passado a jogar à sueca. Por vezes surgiam grandes discussões por causa das famosas renúncias, e não acabavam em pugilato quase por milagre. Mas também não se desconhecia que se isso acontecesse, caía-nos em cima o RDM-Regulamento de Disciplina Milita. Já prestes a terminar a comissão, era de bom-tom evitar a todo o custo incidentes desta natureza.

As nossas cadeiras construíam-se de forma original. Das barricas com aduelas, depois de terminado o seu conteúdo, serravam-se de tal modo que se transformavam em verdadeiras obras de arte da picada. Nunca consegui saber quem foi o seu inventor.
Decidi ser repórter de guerra. Para isso necessitava de uma máquina fotográfica, o que consegui através de um furriel quando de uma sua deslocação a Luanda. A máquina era em segunda mão. A sua embalagem de transporte era muito resistente, blindada, o que permitia suportar pancadas fortes. Era ideal para um ambiente de guerra. Consegui fotos com nitidez a meio metro de distância. Conclui que só tiraria fotos de slides. Acompanhei algumas vezes os pelotões, pois queria deixar algo para a posteridade.

Normalmente quando uma coluna saía, a primeira viatura era uma Berliet, que tinha sacos de areia debaixo e à frente. Era o rebenta minas. Atrás da cabine tinha uma protecção blindada para a instalação de uma metralhadora que podia disparar em todas as direcções. As caixas de munições espalhadas em todas as viaturas tinham um cordel amarrado para permitir que em caso de ataque se pudessem puxar, e assim ter acesso a mais munições. Esta ideia surgiu, devido a um pelotão que algures sofreu um ataque. Todos saltaram para o capim, e depois não tinham como chegar às munições que ficaram nas viaturas.

O capitão tinha que sair até Nambuangongo. Antes faria uma curta paragem em Zala. Para descacimbar também fui na coluna. Ao chegar a Zala dirigi-me para a área das comunicações. A primeira coisa que me informaram foi que assim que anoitecia, rebentava bruto tiroteio. Mas de vez em quando também de dia isso acontecia. Existiam protecções de sacos de areia à volta. Quando cheguei junto a uma das protecções, advertiram-me para me agachar porque poderia ser atingido.

Em Nambuangongo a situação não era melhor. Postaram vigias com binóculos que observavam atentamente todos os locais. Mas ao escurecer, era tal o tiroteio que ninguém vivia em paz. Os guerrilheiros até conseguiram roubar a roupa que estava estendida próxima do gabinete do comandante. A cadeira dele chegou a ser furada com alguns tiros. Por sorte ele não se encontrava lá nesse momento. Os guerrilheiros iludiam os vigias porque rastejavam pelo meio dos montes. Havia nas proximidades uma companhia de Flechas, e desconfiavam que eles lhes davam assistência.

Imagem: http://batalhao2833.blogspot.com/2009/10/meios-aereos.html

quinta-feira, 15 de abril de 2010

A Ocidente do Paraíso (45). Aconteceu que de um momento para o outro tornei-me colérico. Não suportava nada nem ninguém.


Por mais que se lhe falasse não dava ouvidos a ninguém. Alguém sugeriu que era melhor abatê-lo, mas surgiu o furriel do seu pelotão que enquanto falava, meteu bala na câmara da sua G3:
- Saia já daí, é uma ordem!
A resposta foi:
- Meu furriel, não se meta nisto, vou matá-los a todos!
O furriel não estava para perder mais tempo e gritou-lhe:
- Vou aí em cima ter consigo e se você tiver coragem pode matar-me. Enquanto o furriel se dispunha a subir, ele de repente saltou. O furriel aproximou-se e gritou-lhe mais una vez:
- Caralho, dê-me a merda da granada!!!
Ele afastou-se e lançou a granada para o pequeno vale que circundava as nossas instalações sem causar quaisquer estragos. Chegou junto do furriel a chorar copiosamente, e enquanto pedia desculpas abraçou-se ao que foi correspondido pelo furriel. Pareciam pai e filho. Depois foi transferido para outra companhia, nunca mais soubemos o que lhe aconteceu.

As tempestades violentas continuavam. Queria abraçar a Belita. Queria sair daqui a todo o custo. Mas Como?! Acho que perdi tudo, inclusive o seu amor. Nunca mais veria a sua beleza. Mas porque não nasci com asas para poder voar? Ao menos poderia planar e contemplar tanta beleza nocturna e depois regressar para o meu posto. Era assim que pensava quando estava de serviço à noite. Olhava para o horizonte e via o que pareciam explosões contínuas, porque iluminavam o céu de tal maneira, que parecia uma grande batalha sem vencidos nem vencedores.

Eram intensos jactos de luz alaranjada. Era o feitiço do céu angolano. Depois surgia uma grande invasão de borboletas pesadas a que dávamos o nome de aviões dakotas da noite. Durante um curto período da noite éramos iluminados por um gerador. A conservação dos alimentos fazia-se com frigoríficos a petróleo. Exceptuando isto, as baterias dos nossos equipamentos tinham que ser carregadas enquanto o gerador estivesse ligado. Depois de desligado, um silêncio profundo instalava-se quando chegava a hora de dormir.
Em serviço na época das chuvas, de candeeiro ligado no posto de rádio, uma multidão de insectos entrava. Bastava ter algo aberto, era quase impossível permanecer no local.

Durante a época do tempo seco faziam-se grandes queimadas para evitar que o capim crescesse e acoitasse o inimigo. Eram queimadas que chegavam a ser tão gigantescas, que podiam facilmente serem vistas à noite. Inspiravam-me grandes receios. Pareciam grandes cidades que ardiam sem qualquer controlo.

Aconteceu que de um momento para o outro tornei-me colérico. Não suportava nada nem ninguém. Quando me levantava e encarava sempre os mesmos rostos, cheguei ao ponto de desviar a cabeça para o outro lado. Já não falava, discutia e gritava em voz alta. À mínima coisa ficava fora de mim. Já não conseguia suportar o ambiente. Os meus colegas chamavam-me a atenção, mas em vão. Desejava apenas ficar só e que ninguém me incomodasse. Mas começaram a surgir mais casos. A presente situação tornava-se insustentável. Afinal de contas estava quase passado um ano e a solidão era um grande tormento. Quebrava-se apenas quando chegava o avião ou o MVL, de resto não tínhamos contacto com mais nada. O nosso comando começou a aperceber-se que era necessário mudarmos para outro local.

Imagem: http://jdelfes.files.wordpress.com/2009/01/borboletas-a.jpg

António Setas. O casamento do Alvarenga. Meu Deus, isto aqui já não há justiça... se fosse nos meus velhos tempos... em Angola».


Arte final do Alvarenga

De uma minúscula centelha, que nem grilo assaria, nasceu aquela chama forte, e nada podia agora impedir que ela destruísse tudo em redondo, até ao mar, se não houvesse intervenção dos bombeiros. Desfizeram-se os pares de dançarinos e os casais em folguedo à volta dos aparadores, e os que namoravam nos jardins levantaram as cabeças, intrigados, já a pensar que tinham sido descobertos. Carla indicou o caminho a seguir, e todos, ou quase todos, foram ver o que se passava.

De pronto, a mãe Paulina telefonou ao serviço de bombeiros, pois não havia água na mansão que apagasse tal labareda. Enquanto ela crescia, apareciam outros focos de incêndio. Propagavam-se, muito rápidos, a ameaçar a residência, e o pai Alvarenga, tão cheio de digestivos que só se aguentava em pé por teimosia dos nervos, tão grosso estava, pôs-se à procura d’el Ejecutivo. O anfitrião queria perguntar-lhe por que raio de cargas de água tanta desgraça lhe caía em cima em tão pouco tempo. Infelizmente, el Ejecutivo tinha caído de inopinada maneira logo após a sua crise de nervos, vítima duma repentina baixa de tensão, faltaram-lhe as pernas e estatelou-se no chão, desmaiado.

Dado o caso, substituía-o o maître-d’hotel, perturbadíssimo com os eventos e também prestes a cair, mas de bêbado. O pai Alvarenga encontrou-o a preparar um Porto Flip que não lhe tinha sido encomendado. Após uma breve troca de palavras incompreensíveis tanto para um como para o outro, o “flipado” maître-d’hotel fez um gesto de enfado inoportuno, o velho deu-lhe duas cabeçadas e foi preciso chamar a ambulância, pronta para qualquer eventualidade, tal como a “El Dorado” tinha prometido. Neste caso, de resto, tratava-se de eventualidades, porque a mãe Paulina também tinha desmaiado ao ver o sangue e os dentes do maître-d’hotel saírem-lhe pela boca depois da cabeçada que o marido lhe tinha dado. Uma sorte, a ambulância, já com o el Ejecutivo dentro, ainda não tinha saído da mansão. A Carla precipitou-se para ajudar os enfermeiros, atarefados a embarcar a mãe e o maître-d’hotel, e acompanhou-os na sua viatura até ao hospital de Faro.

Felizmente, nessa altura já os noivos se tinham retirado à inglesa e saboreavam a noite de núpcias longe das lides do dia-a-dia. Os convidados despediram-se civilmente e retiraram-se. O Carlos d’Almeirim também se foi à vida, livre como um rouxinol ocioso, à espera de um novo dia para poder ensaiar os seus trinados. Levou com ele doces recordações, o perfume da Carla, o seu ardor, a suavidade da sua pele, e um extraordinário dó de peito que se lhe escapou por entre as pernas. Uma hora de sexo inesquecível.

Ficaram na mansão os serviçais, os bombeiros, que trabalharam até às oito da manhã para apagar o fogo de palha, e o pai, derrotado - “Tanto dinheiro gasto para nada!” -, sentindo, a súbitas, que fazia parte da multidão de injustiçados do mundo inteiro, ao reparar que estavam a chegar à mansão os carros da polícia enviados pela “El Dorado. «Estragaram-me a boda, provocam-me, e lá porque respondo à provocação com uma cabeçada, vem agora a polícia chatear o pessoa!? ... Meu Deus, isto aqui já não há justiça... se fosse nos meus velhos tempos... em Angola».

FIM

Imagem: http://bertini.files.wordpress.com/2007/08/images1.jpg

Inverdade


Há cónegos que são corruptos num dia, e são bons. Há outros cónegos que são corruptos durante um ano, e são melhores. Há também outros cónegos que são corruptos durante muitos anos, e são muito bons. Mas, há ainda outros cónegos que são corruptos toda a vida… esses são os imprescindíveis.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

A Ocidente do Paraíso (44). Estamos aqui para passar o tempo e regressarmos todos vivos.


De vez em quando para mudar de ares formava-se uma coluna para irmos de passeio até ao Ambriz. Como tinha praia, durante dois ou três dias ali ficávamos. Aproveitei e lá me distraí duas vezes. Havia um restaurante improvisado, onde serviam batatas fritas com bife.
Numa das excursões que não fiz parte, o alferes levou o pessoal até ao rio Loge, e apanharam muitos lagostins com iscas de pão. Já no aquartelamento, os meus colegas disseram-me admirados que havia festa nos pelotões:
- Estão a comer marisco, apanharam uma tonelada de lagostim.
Fiquei contente, guloso só de pensar que ia degustar um bom petisco:
- Vamos lá roubar-lhes alguns?
- Eles não nos dão, dizem-nos que se quiserem vão lá apanhá-los. Esta comida não é para aramistas.
- Grandes sacanas de colegas, é o que são!

Entretanto chega uma mensagem a informar que havia uma grande actividade inimiga na nossa zona. O alferes Lopes comenta apreensivo:
- O melhor é não arranjarmos problemas. Se não nos metermos com eles, eles não se metem com a gente. Se não os atacarmos eles também não nos atacam. Estamos aqui para passar o tempo e regressarmos todos vivos.
Depois disto passei a utilizar um rádio da reserva, a escutar noutras frequências o que se estaria a passar com outras companhias. De vez em quando ouvia que foi accionada uma mina, e que haviam alguns feridos. Isto significava que a situação não era nada agradável.

O alferes Santos saiu com o seu pelotão para uma área de infiltração inimiga previamente determinada. A certa altura o seu operador de rádio comunicou-nos que havia intenso tiroteio. Ficámos atentos ao rádio e à espera do pior.
Depois, quando chegaram ao aquartelamento, as informações que nos deram eram muito confusas. Que tiveram recontros com o inimigo, mas que na realidade era apenas um pobre velho que foi abatido. Um dos batedores do pelotão baralhou tudo, de tal maneira que como era noite confundiram o velho com um grupo muito numeroso. As guerras têm destas situações. Alguma frustração apoderou-se de nós.

Algures ouvi o som de uma viola muito agradável. Fez-me lembrar o Zeca Afonso. Dirigi-me na sua direcção, intrigado de quem seria o trovador. Admirei-me... era o Tchipalanca, um dos integrantes do pelotão angolano. Era natural do Huambo e professor na vida civil. Perguntei-lhe que música estava a tocar e a cantar. Que era uma balada da zona Leste de Angola. Pedi-lhe mais:
- Gostei muito de ouvir, toca mais por favor.
A melodia dava-me grande contentamento. E de vez em quando ia para junto dele e pedia-lhe que tocasse algo do folclore angolano.

Uma mensagem acabada de chegar, informava que vinha para a nossa companhia no próximo MVL, de castigo, um soldado. Ele chegou e os seus registos diziam que a sua vida militar era só punições. Já tinha acabado o seu tempo de comissão. De punição em punição nunca mais sairia da tropa. Era considerado um elemento perigoso. À mínima altercação ameaçava de morte quem quer que fosse. Tinha socado alguns oficiais com tiros à mistura. Rapidamente o nosso ambiente alterou-se com algumas cenas de pancadaria na caserna. Poucos dias depois, numa noite fomos surpreendidos com uma grande algazarra no telhado da caserna. Ele estava com uma granada pronta para explodir e ameaçava lançá-la.

António Setas. O casamento do Alvarenga. Foi esse o momento escolhido por Carla para se eclipsar com o Carlos d’ Almeirim,


Arte final do Alvarenga

«E esses foguetes, é p’ra hoje ou p’rá manhã!!?» gritou o velho Alvarenga mal tudo entrou na ordem. Referia-se ao tal fogo anunciado pela Carla. Bom profissional, o mestre fogueteiro estava a postos, «Podemos começar?», «Mas ‘stás à espera de quê!?»

Alguns segundos mais tarde os jactos luminosos do fogo de artifício começaram a desenhar arabescos no espaço. Nasciam nos altos do céu estrelado, desciam lentamente, depois de se terem aberto em grinaldas multicolores, e iam morrer perto dos tetos das casas. Não havia alma que desviasse os olhos de tão belo espectáculo. O pai Alvarenga, feliz, digeria com dificuldade a alegria que lhe ia no peito. Havia gente que aplaudia.

Foi esse o momento escolhido por Carla para se eclipsar com o Carlos d’ Almeirim, como dois anjos assaltados pelo pecado, com medo de cair das nuvens, a olhar em redor. Deram uma volta pelo jardim, a disfarçar, e, no momento em que iam a entrar por uma das portas da ala direita da residência, a dita “porta do cavalo”, discreta, o “entarraxado” tenor parou e ficou um momento a olhar para o fogo de artifício. Centelhas rutilantes continuavam a acender-se no céu à laia de caleidoscópios gigantes, a surpreender os olhos dos convivas com sarabandas de formas e cores movediças. Não muito longe, aí a uns cem ou duzentos metros do terraço baixo, uma luzinha minúscula, branca, curiosamente imóvel, ainda que cintilante, como uma estrela muito baixa, intrigava o homem, que fez notar à Carla o estranho fenómeno, «Olha ali!».

Mas esta, apressada, a pensar unicamente nos momentos palpitantes que ia viver com um especialista do dó de peito, a apertar-lhe o braço e a dizer, «Deixa estar, é um fogo de Sto. André, é a época, olha ali!», a mostrar outra luz cintilante como uma estrela, e a puxá-lo pelo braço, quase que o empurrou para dentro de casa. E ele, também mordido pelo desejo forte de cometer o mais saboroso dos pecados mortais, esqueceu a estranha luz e deixou-se levar. Entraram na mansão sem ninguém os ver e só pararam na cama da Carla. E já que havia fogo de artifício lá fora, fizeram o deles nos lençóis, o Carlos d’ Almeirim com o lume nos dentros, e ela a acender-lhe o rastilho com toda a arte de fêmea sabida em artes de pirotecnia das almas, que ninguém lhe ensinou. Sabedoria nada.

Quando acabaram, saíram sorrateiramente pela mesma porta.
No traço alto reinava uma alegre confusão. Por vontade da mãe Paulina, ó surpresa!, travessas com camarões “assim!”, que, de que mares vinham não se sabe, tinham feito a sua aparição entre os pratos de sobremesa; o pai, estimulado pelos Alexandras do maître-d’hotel, perito em cocktails, estava cheio como uma pipa; el Ejecutivo tinha vomitado as tripas, por causa dos nervos; e os músicos tinham recomeçado a tocar. Desta vez lá vinham uns rocks e uns sambas mais atrevidos. Os digestivos desenlaçavam as atitudes dos mais inibidos e faziam estragos nas cachimónias mais desenvoltas, o ambiente era de festa.

Os noivos dançavam, a mãe Paulina dava um gosto ao pé, a pista estava cheia de gente. A Carla e o Carlos estavam para se meter no barulho, mas lembraram-se de ir ver nas traseiras da mansão se a luzinha que tinham visto ao entrar ainda cintilava. Não, não cintilava, era uma fogueira! A Carla nem tempo teve de puxar pelo parceiro, começou a correr em direcção ao terraço alto a gritar, «Fogo!! Fogo!!! Acudam, o palheiro está em fogo!!» E na pista de dança, à volta das mesas e dos aparadores, giraram as cabeças dos foliões numa tentativa para compreender uma frase de que só ouviam a tónica, fogo. « Fogo!? Qual fogo? Outra vez!?» Desta vez, porém, era fogo a sério. A luz cintilante que o tenor tinha descoberto coisa de uma hora antes, tão baixa e fraca que parecia fogo de Sto. André, era então rastilho de um fogo de palha. E eram dois mil, os molhos que ali estavam!

Imagem: http://sp6.fotolog.com/photo/6/26/63/anaisaura/1199705764_f.jpg

terça-feira, 13 de abril de 2010

A Ocidente do Paraíso (43). O capitão partiu para o Toto na companhia do troféu de guerra. Uma pobre jovem que entregariam à PIDE.


Não tive outra solução, queixei-me ao Moreira. Ele reuniu-nos e zangado chamou-nos a atenção. E o Pereira teve o desplante de continuar, de piorar a situação. Quando numa manhã entrei de serviço para o substituir e deparei com o espectáculo de pura provocação, chegámos a vias de facto. Era inevitável… lutámos. Talvez que ele não contasse que eu chegasse a este ponto. Depois de sofrer algumas escoriações começou a chorar estupidamente. Nunca mais nos falámos a não ser indirectamente. Limitei-me a culpar a guerra por este incidente que até nos causava inimizades.

De salientar um aspecto muito curioso. O Pereira conseguia passar o tempo a ler e a reler o mesmo jornal desportivo de tal modo que, chegava ao ponto de estarem a chamá-lo pelo rádio e ele não ouvia. Era necessário que algum de nós lhe chamasse a atenção, ou que pegássemos no micro e respondêssemos: «Informa!» Enquanto o operador do outro lado dizia que a manter-se a situação informaria o chefe do batalhão. E de vez em quando surgiam mensagens a informarem que foi punido tal e tal operador de outras companhias.

Quando o céu anunciava tempestade e vento, ia como voluntário, cansado de olhar sempre para a mesma paisagem. Oh! Como desejaria que a Belita estivesse aqui junto a mim para sempre. Se ela, ou eu, se nós pudéssemos voar que felizes seríamos. Ainda sinto o cheiro e o sabor do seu corpo que me acompanham todas as noites. Só receio que na ausência, depois reste apenas uma ténue recordação.

Enquanto vou permanecendo nas tempestades e nos ventos, nos abraços do além-amor perdidos nos tecidos intemporais que inventaram, e que incomodam o amar. As distâncias com o passar do tempo adiam a separação inevitável. As noites fincam-se nas masturbações das nossas almas desalmadas. E só renasce o de vez em quando, até que tudo repentinamente termina. As tempestades e os ventos passaram a ser a única companhia que me confortava e alentava. Ao contemplar o verde no alto das montanhas, via o meu sonho de amor perdido para sempre.

Um pelotão foi lançado numa operação. Comandado pelo alferes Santos interceptaram uma pequena coluna de guerrilha que carregava abastecimentos. Não houve tiroteio porque conseguiram fugir, mas para traz deixaram uma jovem que apanharam e trouxeram para o aquartelamento. Era muito magra e alta, parecia estar nos trinta anos. Apesar de mal trajada, com a camisola meio esfarrapada, notava-se que era bonita. Com ela vinha um carregamento considerável de liamba. O capitão partiu para o Toto na companhia do troféu de guerra. Uma pobre jovem que entregariam à PIDE.

Com o capitão ausente, alguém teve a ideia de experimentar fumar liamba. Não queria acreditar no que estava a acontecer. Primeiro foram os oficiais e furriéis, com um a vigiar, sem fumar, para que possíveis casos de reacções imprevisíveis fossem controlados. Depois deles foi a nossa vez com os furriéis a vigiarem-nos. Disseram-me que as sementes faziam mais efeito. Fiz um cigarro e fumei.

Depois senti sono e deitei-me. Surgiu-me uma visão maravilhosa da Belita. Estávamos no paraíso, rodeados de belas flores, ela estava num baloiço suspenso numa árvore. À nossa volta pairavam nuvens brancas transparentes. Enquanto empurrava o baloiço, ela sorria-me maravilhada. Sentia-me a pessoa mais feliz do mundo. Acho que dormi cerca de três horas, depois veio um apetite devorador. Uma vontade quase louca de comer. Tornei a fumar mais uma vez e veio a mesma visão, os mesmos sintomas. Garanti-me, que se droga é isto, nunca dependerei dela, e nunca suportarei ser dominado pelo irreal. Prefiro a realidade e nunca mais fumei. Um ou outro companheiro a quem perguntei se sentiram alguma coisa disseram-me que não. Um furriel explicou-nos que os sintomas são imprevisíveis nas pessoas.

António Setas. O casamento do Alvarenga. A Carla puxou pelo braço do Carlos d’ Almeirim


Arte final do Alvarenga

(Sem energia eléctrica, para quê insistir chamar-lhe país?!)

Saltou da pedra, correu para a mesa em que estava o bolo de casamento, empunhou o cutelo e a espátula, começou a servir os noivos e a família e fez um gesto amplo, encorajando os outros a juntarem-se a ela. Os convivas levantaram-se das cadeiras, primeiro a medo, depois cada vez mais à vontade, tomaram de assalto balcões e aparadores, e cada um deles se serviu à vontade de tudo quanto estava exposto. Os sorrisos transformaram-se em risos e estes em gargalhadas, esboçaram-se aventuras amorosas, fixaram-se encontros para o dia seguinte.

Até aí tudo tinha corrido bem.
Delicioso era a palavra mais badalada naquele improvisado palco gastronómico no momento em que o pai fez entrar os músicos, passe o paradoxo, pois eles saíram do solar com os instrumentos às costas e instalaram-se num singular estrado, a ponte romântica, da qual uma das balaustradas, amovível, tinha sido retirada à socapa enquanto decorria o serviço. Dispunham assim de espaço suficiente para albergar a orquestra: percussão, piano eléctrico, guitarra acústica e clarinete. Era a primeira surpresa do velho Alvarenga.

Os artistas instalaram-se e sem tardar atacaram melodias tipo “xarope para mais velhos ainda com sangue na guelra”, slows, rumbas, cha-cha-chás e swings da pré-história musical. Já lá iam as primeiras medidas de música e de digestivos, levantaram-se os noivos para um pé de dança. A Carla puxou pelo braço do Carlos d’ Almeirim, arrastou-o até à pista e era vê-los a dançar, agarrados um ao outro, acorreram mais dois ou três parezinhos e o ambiente ficou-se por tão parca confraria. É que o som ouvia-se mal e só se ouviam chavões “do antigamente”.

Rapidamente, o velho chegou à conclusão de que música tão mal parida – sem desrespeito pelos músicos, era uma questão de acústica -, não dava nada. Levantou-se da mesa de honra e foi ter com a Carla, nesse momento agarrada ao tenor a dançar uma “tarraxinha”, que ela tinha acabado de inventar, muito antes da que nos dias de hoje está na moda em Angola. Puxou-a pelo braço. Falou-lhe ao ouvido. E logo a moça, que embora não nutrisse qualquer apreço pelo pai lhe obedecia direitinho, despegou-se a custo do peito, do ventre, dos braços e das pernas do d’ Almeirim, fez um gesto aos músicos para pararem de tocar, subiu para a pedra que lhe tinha servido de poleiro alguns minutos antes, e anunciou, «Meus amigos, adivinhem!...Vamos ter...não! É uma surpresa. Atenção!... Fogo!! Fogoooo!!!»

A Carla tinha uma voz e uma presença que, como se diz na gíria do teatro, “irradia”. Falasse ela baixo no palco de uma boa sala, o som melodioso mas metálico da sua voz ouvir-se-ia distintamente na última fila. Em cima da pedra, de braços no ar e numa pose de Cassandra, a gritar, “Fogoooo!!!”, o que ela provocou foram arrepios na espinha de alguns convivas, «Fogo!? Meu Deus, qual fogo?!»

Sobreveio, porém, uma pausa inesperada. «Peço desculpa, um momento, por favor», pediu a Carla. Algo de anormal se passava no terraço baixo. Gente a sair e a entrar na cozinha, empunhando baldes e vassouras, a mãe Paulina a chorar, o pai a levantar-se da mesa e a acudir ao que parecia ser um desastre, gestos medrosos a apontar para o chão, e o velho, ao constatar in loco o sinistro, a largar um estridente, Merda!!!, seguido de uma boa dose de palavrões bem sentidos numa voz de barítono alemão. O finíssimo verniz da sua má educação tinha rebentado pelas costuras no momento certo, pois as suas fortes palavras resumiam por si o que se passava nesse momento . Os esgotos tinham-se entupido e as águas nauseabundas das condutas invadiam o terraço baixo, ameaçavam o alto, o lago romântico, os convidados, tudo. Urgia meter mãos à obra. O que foi feito graças às moças da cozinha, com a ajuda da mãe e dos gritos do pai, e as águas usadas foram desviadas para outros destinos menos chiques.
(continua)

Imagem: http://www.ibiblio.org/wm/paint/auth/renoir/land/dejeuner-canotiers/renoir.dejeuner-canotiers.jpg

sexta-feira, 9 de abril de 2010

A Ocidente do Paraíso (42). O nosso capitão iniciou um ciclo de uísque.


No seu gabinete, o alferes Santos, que era o segundo comandante, quando se reunia já não falava, gritava, ao ponto de chegarmos a pensar que a qualquer momento o Valadas seria agredido ou abatido. O nosso capitão iniciou um ciclo de uísque. Preocupados, assistíamos às suas incursões frequentes onde quer que fosse. Implicava com todos por tudo e por nada. Tornou-se tão desagradável, que quando alguém avisava que ele vinha a caminho, tudo fugia. Perante isto tive uma ideia. Arranquei uma folha de banda desenhada em que o herói gritava: «Vem aí os índios!!!»

Como os três pontos de exclamação lembravam os galões de capitão, tratei de sublinhá-los devidamente, e colei a folha no posto de rádio. O Valadas quando entrou com a ressaca do copo na cabeça viu a caricatura e disparou:
- Grandes punhetas, tirem-me já esta merda daqui!
Como era eu que estava de serviço, e depois do incidente dos livros pensei que desta vez não escaparia. Mas não me aconteceu nada. O furriel Moreira aconselhou-me para evitar provocações, porque o homem não andava bom da cabeça. Inclusive já tinha problemas com o fígado, e de vez em quando ia para Luanda em tratamento. O nosso comandante, definitivamente estava arrumado devido às comissões de serviço sucessivas. Estava no estado a que chamávamos cacimbado.

O cabo Pereira era meu colega. Como eu era o substituto do furriel Moreira, ele achava-se no direito de também dar ordens, o que era incorrecto. Sentia-se muito constrangido e frustrado. Todas as ordens que lhe dava, desprezava-as, não as cumpria. Chegou ao ponto de voltar todos contra mim. Quando notei isso, já tinha um ambiente muito desagradável à minha volta, que duraria até ao fim da comissão de serviço. Apesar do seu posto, era medíocre em tudo o que fazia. Não consegui entender como conseguiu a especialidade. Só provavelmente com cunha, o que os colegas comentavam em surdina. Este homem seria o meu inferno diário até ao fim da desmobilização.

O Moreira instruiu-me e facultou-me as NEPs-Normas de Execução Permanentes, que explicavam detalhadamente como gerir as comunicações. Fui procedendo de acordo com os seus preceitos. Um dos aspectos mais importantes eram as baterias que alimentavam o nosso rádio fixo RACAL, e os outros rádios móveis também da mesma marca. Isto devia-se à cooperação militar de Portugal com a África do Sul. Expliquei a todos que quando a bateria de trabalho – que era muito pesada, eram necessárias duas pessoas para a transportar – e que quando estivesse no mínimo de carga, substituírem-na pela outra que estava sempre a carregar no respectivo carregador, PROTRON.

Disto dependia a nossa sobrevivência, pois sem comunicações que seria de nós? Perante isto, o Pereira decidiu exactamente o contrário. Quando estava de serviço, colocava os pés calçados em cima da bateria. Carregada de lixo e pó tornava-se perigosa, pois podia explodir a qualquer momento devido a um curto-circuito. E para cúmulo, quando acabava o serviço deixava a bateria quase sem carga, a louça suja, restos de comida, lixo por todo o lado. Quem quiser que limpe. Os colegas chamaram-me a atenção. Falei com ele mas em vão.

Imagem: O Racal TR-28 era um aparelho milagroso, que salvou muitas vidas.
http://cc3413.files.wordpress.com/2009/04/foto-21.jpg

António Setas. O casamento do Alvarenga. Arte final do Alvarenga


Contrariado, o maître-d’hotel deu as suas ordens.
O serviço decorria numa lentidão que desse tempo à carrinha de chegar com as bebidas e os molhos. Veio o presunto, com uma gota de vinho do Porto, seguiu-se o delicioso bacalhau dourado, e já estava a ser servida a posta de lombo, sem molho, e o vinho a ser distribuído pelas mesas a conta-gotas, quando chegou a carrinha.

E logo o ambiente, que, apesar de tudo, não era mau, animou-se. Risos e sorrisos saltearam de mesa em mesa, e o bom humor cresceu. A alegrar a festa chegou o vinho. Aproximava-se a hora da sobremesa, que estava à vista nos balcões frigoríficos transparentes e nos aparadores adornados de flores e recobertos de tecidos finos. Genovesas, bavaroises, pudins, doces de ovos, bolos de amêndoa e achocolatados, ladeavam, como que súbditos da mesma gema, o impressionante bolo de noivado, uma obra-prima, escultura gravada na argamassa de ovos, farinha, chocolate e açúcar, representando a fachada do solar com o Rolls à porta, e os noivos, parecidíssimos, de braços estendidos para apanhar uma pomba branca, que até seria pecado comer.

Chegada a hora de atacar as guloseimas, depois das frutas, viu-se de novo el Ejecutivo, acompanhado por uma pequena falange de empregados de mesa, caminhando a passo rápido, mas elegante e discreto, em direcção ao pai Alvarenga. Olho vivo, o velho não o deixou chegar à mesa dos noivos, que, pela grandeza da cerimónia, tinham adoptado gestos estudados e debitavam frases feitas, aparentando-se mais a autómatos do que a seres humanos, e, amiúde, se imobilizavam, apostos, numa pose de manequins. «Boa coisa não é», pensou o pai.

E, como seria inconveniente desviar o casal homenageado de tão elegantes trejeitos, levantou-se para ir ao encontro do espanhol. «Qual é o problema?» perguntou. Gerou-se uma rezinga polifónica interrompida por um, “Calem-se!”, rouco e baixo d’el Ejecutivo, para não perturbar os convivas, felizmente distraídos a falar e a saborear vinhos do Minho e do Alentejo, logo seguido duma frase proferida à orelha do anfitrião, «Essos hijos de puta quieren volver a sus casas». Com a raiva, a frase tinha-lhe saído em espanhol. «Desculpe, estou muy nerbioso, justificou-se, «es que passa la média-noche», «Pedem dinheiro?», « Claro. Pero lo que quieren es sin embargo incompatible», « Quanto é? », « Pedem o que a empresa debe em horas suplementares, una fortuna», «Quanto é?!», «Mais de mil cuentos», «Não, isso não pago. Mande-os embora», fez um gesto a mostrar os convivas, «esses pançudos que se sirvam. Quer ver?... Carla!! Vem cá».

Os ditos pançudos, alertados pelo grito paterno, viraram-se para a Carla e viram-na a levantar-se da mesa que partilhava com Carlos d’ Almeirim, o tenor. Ficaram com o garfo na mão, imóvel, a meio caminho entre prato e boca, a apreciar a cena. A moça foi ter com o pai, estancou, estendeu a orelha para ouvir o que ele tinha a dizer e, passados uns breves momentos, enquanto el Ejecutivo recambiava para “sus casas” os empregados de mesa, saltou para cima duma das pedras decorativas do terraço alto, esticou-se toda e transmitiu em alta voz aos presentes a boa nova.

«Caros amigos, vivemos numa democracia, mas todos sabem que o bom desempenho duma democracia exige que cada um dê o seu contributo, verdade?!... Pois chegou a hora de darmos o nosso, chegou a hora de nos servirmos do que quisermos, ou melhor, do que pudermos!!»
(continua)

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quinta-feira, 8 de abril de 2010

A Ocidente do Paraíso (41). Advertiu-me que este tipo de literatura na sua companhia estava proibido. Isso depois foi muito comentado.


O chilrear das aves antes das tempestades, e depois o cheiro da humidade dos matos nunca esqueceremos. Os mortos que ficaram renascerão com a nossa presença no amarelo do findar dos dias. Ficarão felizes com o cheiro da terra, antes e depois do feitiço enviado pela tempestade que faz do dia noite.
As tempestades quando surgiam metiam medo. De repente o céu escurecia, uma grande ventania surgia, e mais do que numa ocasião tivemos que nos pendurar nos suportes do tecto de chapas, senão voariam com a força do vento. Depois disto o capitão Valadas conseguiu que fossem instaladas estruturas metálicas na nossa caserna, dessas modernas. O nosso conforto melhorou. Ordenou também que criássemos arruamentos ladeados de pedras, e que se regassem com cal. O alferes Lopes comentou que o nosso capitão estava por engano aqui colocado, que seria melhor empregue numa companhia de engenharia.

Recebemos uma mensagem dirigida a todas as companhias que nos deixou estupefactos. Um major do DBI-Divisão Base de Intendência, perseguiam-no acusado de avultados desvios, e quem tivesse conhecimento da sua existência que o detivesse imediatamente. E que a última vez fora visto em Henrique de Carvalho (hoje Saurimo).
O alferes Lopes explicou-nos que era devido a isso que os cigarros, a cerveja e outros produtos começaram a rarear entre nós. Comentei, segundo a trilogia da obra de Hans Helmut Kirst que li, que quando os alemães estavam na frente russa, um tenente alemão da logística conseguia negociar caviar e outros produtos, e assim oferecer um banquete aos oficiais alemães em plena frente de batalha. O Lopes acrescentou:
- Todas as guerras servem para negociar, em todo o lado existem oportunistas que enriquecem à custa das tropas.
Terminou com outro episódio:
- Um sargento do DBI foi surpreendido no quintal da sua casa em Luanda, com grandes quantidades de bacalhau enterradas.
Claro que com estes episódios a nossa revolta e descontentamento aumentavam. Os comentários não cessavam:
- Nós aqui a sofrermos e os chicos a enriquecerem à nossa custa. Podem ficar com a nossa parte de Angola porque não a queremos.

Tinha alguns livros marxistas. Um deles era o Capital e outras obras de Marx e Engels. Coloquei-os na estante do nosso posto de rádio. Não ficaram lá muito tempo. O Valadas aparecia amiúde, observava o ambiente, e dava-nos ordens rigorosas de que não queria ninguém estranho no nosso ambiente. Isso causava-nos imensos transtornos com qualquer que fosse, como é evidente. Tratava-se de manter o sigilo das comunicações. Mas assim que viu os títulos dos livros na estante, perguntou de quem eram. Respondi que me pertenciam. Simplesmente sem quaisquer explicações retirou-os e levou-os. Advertiu-me que este tipo de literatura na sua companhia estava proibido. Isto depois foi muito comentado. Os alferes e furriéis quando tomaram conhecimento ficaram apreensivos. Devido a este facto e outras palermices, a relação com o Valadas esfriou.

Imagem: http://www.culturabrasil.pro.br/marx.htm