quarta-feira, 12 de maio de 2010

Os bancos são divinos, devemos orar por eles


Há sim senhor uma conjura mundial que nos governa, espolia e oprime. A Santa Igreja é o mais miserável de humano que existe desde sempre. Uma quadrilha disfarçada de homens eleitos por Deus. Como é possível esta gente viver no nosso seio, e ainda nos darem lições de moral? Banqueiros disfarçados de Igreja. Creio que não falta muito para a derrocada que se avizinha. Parece que já se pode entender bem a causa de tanta revolta ao longo da história.

Este é o mais hediondo poder que reside e nos escraviza no céu e na terra.

«ESTE LIVRO
As cartas secretas de um monsenhor importante
Um interminável arquivo de documentos confidenciais e inéditos (estratos bancários, cartas, relatórios confidenciais, actas do conselho de administração, balanços secretos do IOR*, cópias de transferências e referências «codificadas» a contas).

recursos.wook.pt/recurso?&id=1602664

Foi este o material que me permitiu penetrar nos segredos do Vaticano e aos quais tive acesso por vontade expressa do monsenhor Renato Dardozzi (1922-2003), uma das figuras mais importantes na gestão das finanças da Igreja, de 1974 até final da década de 1990. Durante mais de vinte anos, Dardozzi foi um dos poucos, pouquíssimos, monsenhores presentes nas reuniões confidenciais dos colaboradores mais próximos do pontífice sobre as delicadas tramas da Santa Sé.

Horas passadas nas saletas de portas duplas entre estuque trabalhado, veludo e alusões para pôr de pé arrojadas operações em nome da Igreja, desactivar autênticas bombas financeiras, abafar escândalos e afastar prelados sem escrúpulos apenas a um nível abaixo do santo padre. O caso dos acontecimentos ocorridos com o Ambrosiano nos tempos do arcebispo Paul Marcinkus parecia encerrado mas, de tempos a tempos, este regressa envolto, como sempre, sob um manto de silêncio. O Vaticano desenvolve os seus negócios na absoluta discrição, protegendo a delicada relação entre a teocracia que representa e o dinheiro.

As intensas actividades da holding da Santa Sé representam um dos segredos mais bem guardados do mundo. Até o balanço consolidado da Igreja, divulgado todos os anos em Julho, apresenta somente dados genéricos. Este silêncio é intencional e preservado todos os dias, a todo o custo. Apesar da discrição, esta ausência de informações, que fomenta os rumores, permanece todavia uma das regras de ouro dos banqueiros das sotainas compridas, os quais são bem mais reservados do que os seus esquivos colegas laicos. O silêncio protege toda a sua economia e, portanto, também os negócios mais discutíveis que caracterizam a vida financeira da Igreja Romana. O silêncio protege a relação de confiança com os fiéis, evitando assim os estragos do passado mais recente.

Enfim, o silêncio é indispensável para que o grupo de cardeais possa consolidar o poder que eles próprios representam, sobretudo depois dos escândalos da Banca Privata Italiana de Michele Sindona, do Ambrosiano de Roberto Calvi e do IOR com o arcebispo Paul Marcinkus. Escândalos que comprometeram a imagem da Igreja Romana e que ocuparam João Paulo II durante vinte anos numa cansativa obra de reabilitação depois de mortes misteriosas, como a de Albino Luciani, papa por trinta e três dias, e a do próprio Sindona, envenenado na prisão com uma chávena de café fumegante aromatizado com cianeto. E os homicídios por resolver, como o de Calvi, encontrado morto debaixo da Ponte Blackfriars, em Londres.

Escândalos que não deviam, nem devem, repetir-se para não ofuscar a relação de confiança que existe entre quem é crente e quem difunde a palavra de Deus. Se, pelo contrário, este silêncio fosse novamente quebrado, se as finanças do Vaticano se libertassem por um só momento do jugo da hipocrisia, por um lado, e do preconceito, por outro, as repercussões sobre a legitimidade do seu papel e utilidade seriam imprevisíveis, bem como os custos para a sua imagem. Assim, por detrás das paredes do Vaticano é o silêncio que impera sempre que as operações dos banqueiros do papa, arcebispos ou purpurados, fazendo uso do dinheiro dos fiéis, se tornam arrojadas, ou até ilegais. O IOR continua a ser um dos lugares mais inacessíveis e é a custo que o Vaticano admite a sua existência. Nas páginas oficiais da Santa Sé não se fala nisso, nem sequer é feita qualquer referência.
É como se as finanças do Vaticano não existissem.

Agora todos devem ficar a saber
O próprio monsenhor Dardozzi tinha feito do silêncio uma regra de vida. Nunca fez uma declaração, entrevista ou fotografia. Nem sequer uma citação. O seu interminável arquivo, que reconstrói, a partir de dentro, os acontecimentos financeiros mais inquietantes da Igreja Romana, não poderia ter sido tornado público antes. É somente depois da sua morte que Dardozzi abandona o caminho obscuro que traçou para si durante toda a sua vida. Eis a sua última vontade testamentária: «Tornar públicos estes documentos para que todos saibam o que aconteceu.» Perceber quem é Dardozzi torna-se indispensável para avaliar os mais de quatro mil documentos recolhidos em vinte anos de actividade no Vaticano.

Nascido em Parma em 1922, chega ao sacerdócio tardiamente. É apenas em 1973, com cinquenta e um anos completados, que descobre a sua própria vocação, é ordenado sacerdote e apresenta-se à Santa Sé com um currículo de prestígio. Licenciado em matemática, engenharia, filosofia e teologia, renuncia, em favor da Igreja, a uma brilhante carreira no grupo STET (telecomunicações), o qual já o via na direcção-geral da SIP e director da Scuola Superiore per le Telecomunicazioni Reiss Romoli. Dardozzi fala fluentemente cinco línguas, frequenta o jet set internacional e conhece o secretário de Estado Agostino Casaroli através do padre R. Arnou, abade teólogo com quem colaborou na feitura de várias obras.

A relação pessoal e o entrosamento total com Casaroli, dominus do aparelho do Vaticano nos anos de Karol Wojtyla, bem como as suas competências profissionais e a sua discrição, fazem com que venha a ter uma ascensão rápida. Dardozzi age sob delegação directa do ministério-chave do Vaticano, a Secretaria de Estado, o braço operativo do pontífice. É precisamente após o convite da Secretaria de Estado, em 1974, que começa a sua colaboração com a Santa Sé. Goza de livre acesso aos segredos do IOR.

Casaroli envolve-o, desde logo, nos negócios do Ambrosiano, confiando-lhe os cargos de controlo económico e financeiro, até que o leva a participar, como conselheiro, nos trabalhos da comissão bilateral, constituída juntamente com o Estado italiano, para a averiguação da verdade na derrocada financeira da banca de Calvi. Normalmente, à quinta-feira ao almoço despe o vestuário burguês, veste o talar preto e comprido e dirige-se aos aposentos do papa. É um dos poucos italianos convidados para a mesa de João Paulo II, o qual prefere comensais polacos.

A actividade de vigilância de Dardozzi prossegue também com o sucessor de Casaroli, o cardeal secretário de Estado Angelo Sodano. Em 1985 torna-se director da Pontifícia Academia das Ciências e chanceler em 1996. Alia assim o controlo dos negócios menos apresentáveis da década de 1990 ao compromisso do alto estudo científico, começando pelo estudo da Questão Galileana, por vontade do santo padre e que teve ressonância a nível mundial, e pressionando o então cardeal Joseph Ratzinger, prefeito da Congregação da Fé, a aprofundar o conhecimento das cartas de Galileu. Para cada um dos acontecimentos financeiros que acompanha, Dardozzi recolhe documentos e toma notas, guardando-os em pastas de cartolina amarela criadas para o efeito, conservadas e entregues a mim pelas pessoas a quem o mesmo monsenhor as confiou, pessoas essas que hoje, pelas razões óbvias, preferem manter o anonimato.

Fazer regressar a Itália estas cartas e encontrar um lugar adequado para pôr a salvo este património de informações não foi tarefa fácil. A operação desenvolveu-se em duas fases. A primeira, mais trabalhosa, exigiu meses de deslocações para digitalizar todas as cartas, reuni-las em CD-ROM e trabalho de pesquisa; depois, carregar os documentos para a página que hoje é pública e acessível a todos (www.chiarelettere.it, na opção Vaticano S.p.A.). A segunda, mais perigosa, consistiu em fazer regressar os documentos originais a Itália: o arquivo encontrava-se em local seguro na Suíça, no cantão de Ticino, guardado por alguém que não sabia que o tinha, na vizinhança de um cruzamento de auto-estrada.

Parti de Milão numa madrugada no final do Verão de 2008. Duas malas Samsonite de quarenta quilos aguardavam-me além-fronteira. A entrega foi rápida. Um café com a aldeã idosa que para minha sorte nunca desce às caves das casas da sua quinta. Regressado a Itália, começou o trabalho. Este não é um livro contra o Vaticano; é um livro que relata os factos cometidos por homens que gozaram de uma confiança mal depositada. Pretende ser um testemunho relativamente a tudo o que acontece para lá da Colunata de São Pedro, para lá das divisas azul-cobalto da Guarda Suíça.

Pretende, sobretudo, relatar a realidade opaca da finança do Vaticano com base nos documentos de quem, entre as décadas de 1970 e de 1990, viveu na primeira pessoa todos os grandes acontecimentos que abalaram o Vaticano, a Itália e o mundo inteiro. Na primeira parte reconstitui-se a gestão das finanças do Vaticano passo a passo com base nas cartas secretas de Dardozzi. Uma vez fechado o arquivo de Dardozzi, na segunda parte, resultado de factos e de testemunhos inéditos, relata-se as operações financeiras arrojadas e que terão levado monsenhores e prelados a apoiar o nascimento de um novo grande partido do centro, depois da queda da Democrazia Cristiana, e até a reciclar dinheiro da Máfia.»

* Uma das instituições financeiras mais importantes do Vaticano. (NR)
Imagem: http://adignidadedadiferenca.blogs.sapo.pt/

terça-feira, 11 de maio de 2010

Não se concebia tanta espoliação


Há séculos que as igrejas abundam em África e as populações cada vez mais se afundam na miséria.

Povo abandonado é povo espoliado

Esta é a história da civilização da propensão à gatunice

Angola, isto já não é roubar. É o expoente máximo da selvajaria económica

Há homens que fazem obras de beleza extraordinária, outros destroem-nas

Não entendo! Quanto mais desenvolvimento tecnológico, mais miséria. A tecnologia é um subterfúgio para espoliar e desalojar as populações.

Não há nenhuma diferença entre as igrejas e os bancos, ambos são investidos pelos poderes divinos. São os representantes de Deus na Terra.

Imagem: http://www.overmundo.com.br/banco/inps-charge

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Negócios da primeira-dama de vento em popa


Ela também já terá amealhado o seu quinhão, especulando-se, além do envolvimento na Imporáfrica, o assalto a um espaço dos Correios, na baixa de Luanda.

Semanário AGORA

Os luandenses endinheirados já têm uma alternativa para cuidar da beleza, com a entrada em funcionamento do centro de estética Deana, em frente às bombas de combustível da Avenida Marginal. Mesmo com preços que não podem ser para qualquer bolso, o estabelecimento supostamente detido pela primeira-dama, com vista para o mar, tem registado casa cheia.

Por exemplo, para quem queira aprimorar o físico, existe um ginásio, com quatro opções de pagamento mensal, fixado em 400 dólares, trimestral em 900 dólares e semestral, de 1.270 dólares. Optando por uma frequência anual, o cliente terá de desembolsar 2.070 dólares, convertíveis em kwanzas ao câmbio de 99 por cada unidade da nota verde.

As massagens também não são para qualquer pé descalço. Os preços nesta área são a doer: por uma massagem tailandesa, o cliente terá de pagar 13.500 kz, ao passo que do tipo remodelador terá de compensar com 3.750 kz (cerca de 140 e 45 dólares, respectivamente). Existe ainda uma tabela expressa por minuto de 30 a 120 com preços que variam de 50 a 180 dólares.

O Day Spa possui igualmente um restaurante sofisticado no terraço que serve almoços de segunda à sexta-feira, sobretudo saladas e pratos quentes, bem como sobremesas, podendo o cliente escolher um dos grelhados à disposição. Por tudo isso está fixado um preço único e acessível de 5.300 kz. Desejando um ambiente menos requintado, o freguês poderá optar pelo rodízio de pizzas e massas servido também de segunda à sexta-feira por 2.950 kz no rés-do-chão. No restaurante Bay Side, com gerência brasileira, um fino custa 350kz.

Um empregado de mesa, abordado pelo repórter disse que as mesas ficam quase sempre lotadas ao almoço, devido aos funcionários da Sonangol que trabalham nas imediações. “Isto não é para qualquer um é para quem tem gosto e dinheiro”, comenta o mesmo empregado, formado na praça.

Além da Imporáfrica e da Deana da marginal, a esposa do PR, terá também interesses num sofisticado salão de beleza com o mesmo nome na rua Joaquim Kapango no Maculusso, além de outros investimentos imobiliários. “A tendência é ficar com a zona dos Correios. É mais certo que estes venham a desaparecer ou transferidos para um outro edifício provavelmente a construir. Nota-se que existe uma tendência voraz de se derrubarem as construções antigas para em seu lugar surgirem novos e modernos edifícios”, disse um funcionário público, alertando que o passado histórico da cidade está a desaparecer.

Com o desaparecimento do património de Luanda, e a julgar pelo avanço de obras novas em construções seculares na baixa luandense é provável que o Day Spa, com a multiplicidade de serviços, venha a conquistar outras paredes das imediações.

Imagem: morrodamaianga.blogspot.com/

Vamos fazer assim, uma espécie de intolerância zero chinesa


Costuma dizer-se não haver fumo sem fogo, mas a ser verdade este fumo, então estaremos mesmo a caminhar para o medo do fogo e as queimaduras, poderão ser do terceiro grau.

FOLHA 8

Segundo consta dos corredores da administração Dos Santos, na medida em que estamos a frequentar muita gente da China, vamos mazé fazer como eles, e neste momento já estará a preparar-se através do ministério de tutela, não se sabendo se sob proposta de um bajulador militante ou do ministro e ou do secretário de Estado, uma lei visando limitar o acesso à Internet, a exemplo do que ocorreu na China.

Assim vários operadores poderiam ser barrados de entrar no correio electrónico dos internautas angolanos, para a nossa frustração geral, ante o “efeito amarelo”, melhor, chinês com o Google e Hotmail.

Será o esplendor da ditadura se o gabinete de Dos Santos assim agir, mas seguramente poderá aguçar um amplo movimento de contestação, com capacidade de recrutar “soldados” noutros exércitos de descontentes. Até lá vamos todos esperar para ver…

Imagem: “Hum! Só mais um grande escândalo para que a minha popularidade atinja 100%”.
http://www.chargeseditoriais.com/

domingo, 9 de maio de 2010

Este é o fim Pepetela. Vivemos, ardemos neste Inferno


Ingenuamente lutámos, colocámos o poder numa bandeja disfarçada de punhais, de bárbaros escondidos. Que nos roubaram a independência e tudo nos espoliaram. Inauguraram-nos com a exemplar, a mais brutal selvajaria.

«Fazendo um rock triste, vamos, sim
Matar, matar, matar, matar, matar, matar»

Como acaba de noticiar o semanário AGORA… já encetámos o canibalismo?! E a seguir?! Vivemos no Inferno!
Temos que renovar, reparar o tremendo erro que cometemos. Estamos sempre prontos, dispostos, o tempo é nosso grande amigo, é-nos terno e eterno.


«O Fim
Este é o fim
Belo amigo
Este é o fim
Meu único amigo, o fim
Dos nossos elaborados planos, o fim
De tudo que permanece, o fim
Sem salvação ou surpresa, o fim
Eu nunca olharei em seus olhos... de novo
Você pode imaginar o que será?
Tão sem limites e livre
Precisando desesperadamente... de alguma... mão de estranho
Numa terra desesperada?

Perdido numa romana... selva de dor
E todas as crianças estão loucas
Todas as crianças estão loucas
Esperando a chuva de verão, sim
Tem perigo no extremo da cidade
Passeie pela estrada do rei, bem
Cenas estranhas dentro da mina de ouro
Passeie pela estrada do este, bem
Passeie pela serpente, passeie pela serpente
Para o lago, o antigo lago, bem
A serpente é longa, sete milhas
Passeie pela serpente… Ela é velha e sua pele é gelada
O oeste é o melhor
O oeste é o melhor
Vá lá, e nós faremos o resto
O ônibus azul está nos chamando
O ônibus azul está nos chamando
Motorista, aonde está nos levando?

O matador acordou antes do amanhecer, ele pôs suas botas
Ele tirou uma foto da antiga galeria
E andou pelo corredor
Entrou no quarto em que sua irmã vivia, e... então ele
Pagou a visita a seu irmão, e então ele
Ele andou pelo corredor, e
E ele veio até a porta... e ele olhou para dentro
"Pai?", "Sim filho?", "Eu quero te matar."
"Mãe... Eu quero... te foder."

Venha bem, tente conosco (3x)
E me encontre atrás do ônibus azul
Fazendo um foguete azul, No ônibus azul
Fazendo um rock triste, vamos, sim
Matar, matar, matar, matar, matar, matar

Este é o fim, belo amigo
Este é o fim, meu único amigo, o fim
Dói te libertar
Mas você nunca vai me seguir
O fim da gargalhada e das mentiras suaves
O fim das noites que tentávamos morrer
Este é o fim»

In The Doors. The End. Música do filme Apocalypse Now
http://letras.terra.com.br/the-doors/11513/traducao.html


«Pepetela: «Eu Vivo No Inferno!»


Lisboa - Angola mudou muito nos últimos anos e abraçou a ideologia capitalista e a economia de mercado. Um passo que acaba por chocar com a matriz de esquerda do partido no poder, o MPLA, ao lado do qual Pepetela combateu enquanto era um movimento de libertação de Angola e que representou enquanto governante.

Fonte: Hugo Rodrigues/Luís Ene CLUB-K.NET

Hoje, o escritor angolano não esconde o seu descontentamento pelo rumo que o seu país tomou.

Considerando existir, actualmente, «um ambiente favorável ao desenvolvimento económico de Angola», algo que se verifica «desde que houve a paz» e que leva a que comecem a surgir «infra-estruturas importantes» e até «mais algum emprego», Pepetela mostra-se preocupado com os desequilíbrios que existem na sociedade angolana.

«Não se sentem ainda as consequências sociais deste crescimento económico. Aparentemente, não está a haver desenvolvimento e sim enriquecimento de uma burguesia», que muitas vezes leva o dinheiro para além-fronteiras, disse. «Há uma diferenciação social que se tem agravado», resumiu.

Apesar de ser natural de Benguela, Pepetela fez de Luanda a sua cidade e escreveu, em tempos, sobre as belezas da capital angolana.

Mas as mudanças que a sua cidade sofreu devido aos fortes desequilíbrios sociais com que Angola se debate levam-no a ser assertivo na hora de descrever o que ela se tornou. «Eu não sou crente, mas partilho com eles uma noção: a do Inferno. Eu vivo no Inferno!», afirmou.

Luanda comporta, nos dias que correm, cerca de cinco milhões de habitantes, quando as infra-estruturas existentes foram concebidas para uma população de perto de 500 mil pessoas. «Há extensos bairros nos arredores sem água, luz ou esgotos».

Imagem: http://www.pauliddon.net/img/apocalypse%20now%20assault.png

sexta-feira, 7 de maio de 2010

ODISSEIA. Nunca quis ser primeiro-ministro


José Sócrates destruiu Portugal e os portugueses. Se continuar, demorar mais no poder, a Europa não lhe escapará, ele também a destruirá.

E a miséria está perene, como uma podre ditadura disfarçada de democracia.

É sempre assim, quanto mais miséria na população, mais riqueza na governação.

Os preços sobem, os governos caem. A democracia depende dos bancos. Como eles são uma lástima, a democracia é um absurdo. Não faz sentido, é impossível a coexistência entre democracia e bancos. A não ser que mude de nome para, democracia bancária.
São tantas as quadrilhas democráticas no paraíso.


«Sócrates: "Nunca quis ser primeiro-ministro"

José Sócrates afirmou hoje num liceu de Paris que "nunca quis ser primeiro-ministro" e que tem "mais orgulho em servir o país em momento de dificuldade".


"Nunca senti que o povo português me tivesse virado as costas", declarou também o primeiro- ministro português, que recordou as duas vitórias eleitorais que o levaram à chefia do Governo.
José Sócrates comentou também que a segunda vitória, nas legislativas de 2009, contrariou "muitos que estavam à espera que as coisas mudassem" e que, "surpresa-surpresa", foram confrontados com os 37 por cento de votação no Partido Socialista, disse o primeiro-ministro.

Em visita ao Liceu de Montaigne, no centro de Paris, José Sócrates citou vários poetas portugueses, com destaque para Fernando Pessoa, e recomendou aos alunos da secção internacional a leitura "do melhor poema do mundo", "A Tabacaria".

"Eu não sou nada. Nunca serei nada"»

Arquivos do insólito. Angola “crescimento excepcional”


Angola faz progressos na segurança alimentar.
Angola registou progressos significativos na segurança alimentar, invertendo a tendência contínua de falta de alimentos no continente africano. A afirmação foi feita pelo director-geral do Fundo da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), Jacques Diouf.

O “crescimento excepcional” da produção agrícola interna e do produto interno referiu, Jacques Diouf, estão na base dos progressos registados em Angola.

In Jornal de Angola 07 de Maio de 2010

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Cinco anos depois


Apesar da tua ausência, as florestas e os campos ainda permanecem, ainda recordam a tua presença.

Inesquecível, uma das tuas preocupações: se andares com os bons, serás bom, se andares com os maus, serás mau.

Ao abandonarmos o mundo material das ilusões, dos absurdos, a única recordação mais aprazível é a etérea.

E os ribeiros e as florestas conservam-te no nevoeiro da humidade de todas as manhãs.

Para ti, viver não é perecer. Viver é continuar sempre vivo no eterno. O meu coração e a minha mente ressuscitam-te.

Morremos e os mortos ressuscitam. O mundo dos mortos vive, e o nosso falece.

Já há muito que o mundo dos vivos é um gigantesco cemitério.

Repousa no meu espírito.

Arquivos do insólito. Não há democracias sem Estados fortes, e a legitimidade do Estado angolano


O futuro de Angola

Na semana passada, estive cinco dias em Luanda. Desloquei-me a convite do Instituto de Formação Avançada para Executivos, liderado pelo professor Mário Pinto de Andrade, para ensinar um curso de relações internacionais e fazer uma palestra sobre as relações entre a União Europeia e África.

03/05/10 00:03 | João Marques de Almeida DIÁRIO ECONÓMICO


Devo dizer que fiquei muito bem impressionado. Estava à espera de ver uma cidade em muito pior estado daquela que encontrei. Os convidados como eu são, naturalmente, poupados a verem os locais mais pobres, e há muitos numa cidade com o triplo da população da que deveria ter (cerca de seis milhões). Com excepção do transito caótico, o centro encontra-se relativamente arranjado e com obras de novos edifícios por todo o lado.

Mas o que mais me impressionou foi a vontade de aprender, a abertura para debater e a confiança no futuro. Percebe-se bem que estamos num país que saiu há oito anos de mais de vinte e cinco de guerra civil. Simultaneamente, existe uma clara consciência sobre a natureza dos problemas que Angola enfrenta. A vida política será marcada, nos próximos anos, pela necessidade de se construir um Estado eficaz, capaz de garantir a segurança e a ordem, e o desejo de mais democracia e liberdade. A longo prazo, ambos os objectivos serão compatíveis e reforçam-se mutuamente. Não há democracias sem Estados fortes, e a legitimidade do Estado angolano beneficiará se for capaz de construir um sistema democrático e pluralista. No entanto, o caminho terá tensões e até alguns choques entre o Estado e a democracia. A sensatez e a capacidade políticas serão fundamentais.

No plano económico e social, o fortalecimento das elites e de grupos empresariais terá que ser acompanhado pela formação de uma classe média importante e pela diminuição da pobreza. A legitimidade do desenvolvimento do país e a estabilidade social exigem que todos beneficiem do crescimento económico. Um aumento da pobreza e do fosso entre ricos e pobres trará instabilidade e conflitos sociais. No caso da política externa, é necessário entender devidamente o interesse nacional angolano. Em Portugal e na Europa em geral, nota-se por vezes alguma preocupação em relação à aproximação entre Angola (e outros países africanos) e a China. É uma preocupação injusta e exagerada. Injusta, porque se o governo angolano (como qualquer outro) entende aproximar-se da China, ninguém deve criticar tal decisão. A emergência de novas potências aumenta a liberdade diplomática da maioria dos países.

Como é óbvio, vão aproveitar e explorar essa liberdade. Em vez de nos queixarmos, devemo-nos habituar a esta nova realidade estratégica. A preocupação é igualmente exagerada. Em relação a Angola, nenhum outro país possui as vantagens de que goza Portugal. Basta passar cinco dias em Luanda, para se perceber que a relação entre Angola e Portugal será sempre especial. Há um bom critério para verificar a aproximação entre dois países: o número de voos entre as duas capitais. Há catorze voos semanais entre Lisboa e Luanda. Nem os vizinhos de Angola se aproximam desse número. O poder e os interesses contam muito. Mas não substituem uma história e uma língua comuns. Para o mal e para o bem.

João Marques de Almeida, Professor universitário

Comentários
Realista, Porto | 03/05/10 09:03
Fico feliz por saber que as relações Portugal Angola vão bem. Queria só acrescentar (só) 3 notas. 1- Os portugueses não devem recear (e pelo contrario devem aplaudir) os investimentos angolanos em Portugal. 2- Os portugueses ja devem recear (ou pelo menos ter certas cautelas) com as finanças públicas de Angola. 3- Angola não é só a Luanda que o autor vizitou.. O interior é muito rico e a população tem que voltar a ocupá-lo e explorá-lo. Parem lá com os arranha-ceus em Luanda. Invistam nos acessos ao interior.


Vitor Mateus, Cacém | 03/05/10 11:48
Falta falar das dezenas de milhar de laços familiares entre portugueses e angolanos.


Camões, | 03/05/10 12:31
Bom artigo realçando o optimismo do povo angolano e dos esforços que o governo angolano está a realizar para desenvolver este belo país.
Portugal devia por os olhos neste país e ao invés das greves e manifestações que os sindicalistas organizam, deviam trabalhar mais. Só com esforço e dedicação é que se mudam as mentalidades. Em Angola, e apesar da destruição horrosa que a guerra trouxe, as pessoas são simpáticas, alegres e mostram diariamente vontade de desenvolveram o seu país. Em Portugal não vemos isso. Diariamente vemos as tropelias que são feitas aí. Tive que sair de Portugal por me encontrar desempregado e pelo meu subsidio ter sido injustamente cancelado. Angola é o país onde vivo e tenciono viver nos próximos anos. Os portugueses deviam começar a abrir a pestana em vez de fazer tantas greves. Elas não alteram nada.
As melhoras para a constipação em que vive Portugal.

Imagem: http://www.chargeseditoriais.com/

Luanda. Relatório da escuridão mensal


Neste período, registámos vários acidentes, dos quais resultaram vários cortes de energia eléctrica.
O trânsito eléctrico continua muito congestionado. São estes cortes que justificam o nosso desenvolvimento económico, porque o social… para que é que ainda pronunciam esta palavra?!

E deixaram-nos três dias sem água, sem aviso prévio e sem aviso posterior. Que democracia escura e seca.


Abril 2010
30Abr 19.44-20.23. 28Abr 19.18-01.00 do dia 29. 28Abr 05.58-07.02. 21Abr 14.26-15.20. 19Abr 10.37-12.04. 16Abr 03.49-05.12. 12Abr 09.10-18.07, 21.54-22.29. 11Abr 12.15-20.4, 22.28-23.29. 07Abr 02.03-03.08, 08.48-09.00. 06Abr 11.57-12.59

quarta-feira, 5 de maio de 2010

A Ocidente do Paraíso (59). Também costumava acontecer quando ouvia um som parecido com o engatilhar de uma arma.


- Não... gosto de estar assim... gosto muito de meditar.
- Mas assim não pode ser. Uma pessoa tem que se divertir. Acho que você é muito triste. Mas apesar disso gosto de si… porque é muito sossegado.
Fiquei na defensiva e lembrei-me que o Avô me dissera que ela era divorciada. Sondei-a:
- É divorciada?
- O Avô já esteve a falar de mim, não é?! Sim… sou divorciada. Fui casada poucos meses. Ele passava a vida nas boates com mulheres e aparecia de manhã. Vi que era impossível e obriguei-o ao divórcio.
- Lamento muito…
- … Não me importo de casar novamente com alguém que me respeite, mesmo que seja pobre. Dinheiro não me falta. Sou filha única e os meus pais já estão velhos. Tenho um pretendente que mora aqui perto, mas não gosto nada dele. Bom… vamos jantar estou com fome!

Devido à intensidade do calor fui dormir no terraço. Estava num pesadelo, duas sombras aproximavam-se de mim. Levantei-me muito rápido, e já me lançava para o que pareciam serem dois inimigos, que me queriam matar. Eram a Marta e a tia que se assustaram muito com tal recepção. A síndroma do pânico tomava conta de mim. Também costumava acontecer quando ouvia um som parecido com o engatilhar de uma arma. Ou quando acordava de vez em quando em altos gritos, o que assustava as pessoas. Seria assim pelo resto da vida.

Estava no último lanche com o Avô. No outro dia seria o embarque que me levaria de regresso a casa. O Avô confidenciou-me que ouvira conversas da Marta, em que ela dizia gostar muito de mim. Para eu aproveitar, porque dificilmente arranjaria uma mulher assim. Segredei-lhe que ela e o Aurélio passavam muito tempo juntos. O Avô tranquilizou-me, que eram primos, e que esse relacionamento era apenas de amizade. Para eu evitar de pensar assim, porque não havia nada de mal.

Despedi-me de todos e intencionalmente guardei para o fim as despedidas à Marta. Pediu-me para escrever-lhe e confessou-me que também corresponderia.

Finalmente o avião chegou a Lisboa. O passaporte de disponibilidade foi-me dado no RAL1, Regimento de Artilharia Ligeira 1, a poucos quilómetros de casa. O meu pai aguardava-me. Não me despedi de ninguém. Cheguei a casa. Aproveitaria para descansar e consertar ideias. A odisseia da CCAV 3418, Companhia de Cavalaria 3418 em Angola terminara.

Missão impossível da Polícia. Contra milhões de esfomeados ninguém combate



«CRESCEM ASSALTOS NA PERIFERIA DE LUANDA
Até ao ano de 2002, quando a preocupaçao maior era acabar com a guerrilha, a questão da mitigação dos assaltos, à mão armada, em Luanda e noutras cidades do país, era tida como secundária. Os meios (humanos, técnicos e financeiros) eram quase todos eles canalizados para as "zonas quentes" e até mesmo delinquentes conhecidos eram recrutados para a "causa maior" da nação, a defesa da integridade territorial e da soberania.


Conseguida a paz, em 2002, começou-se a olhar um pouco mais distante da curva do nariz. Começou a falar-se sobre o policiamento de proximidade (o finado Isaias Chungufo foi dos primeiros a propagar entre nós o termo). A polícia viu-se apetrechada com novos meios técnicos e os homens recebem formação. Só que os defeitos "de fábrica" se mantêm. É a preguiça quando não é o carro avariado, São os charcos que impedem a circulação das patrulhas, os mesmos homens que foram parar à polícia de forma acidental, enfim, os males de sempre emperram ainda a rotação máxima e desejável da engrenagem policial, e vezes sem conta somos confrontados com informações sobre assaltos à mão armada nas ruas, nas paragens de transportes, em residências e em lugares que a priori o incauto nunca desconfia.

O bandido está em todo o lado. Excepto a prontidão da nossa polícia. Ontem mesmo (04.05) dois individuos que seguiam atrás de mim (19h30) foram assaltados em Viana por dois meliantes armados que se colocaram em fuga depois de consumado o acto. Cantinas têm sido assaltadas dias sim, dias também. Os nossos homens de farda azul sabem disso e na prática nada!

Hoje de madrugada, na zona do SEIS, em Viana, três residências foram simultâneamente asslatadas à mão armada sem que a polícia movesse alguma palha. Avisado ao telefone pela minha irmã ainda liguei para o 113. Tudo o que sei é que os bandidos levaram o que queriam e inclusive "pintaram o diabo". Apenas a polícia não se fez presente.

Que relação haverá entre os gatunos e aqueles que sendo sua tarefa combatê-los nada fazem?»

É na banca que estão agora os maiores receios.


O plano de salvação à Grécia deu aos mercados a estabilidade de uma bússola no Pólo Norte. O vírus chega agora a Espanha, deixando, em Portugal, o medo depositado nos bancos. É ainda um sussurro, mas já se ouve rodados a travar. Há dinheiro?

Pedro Santos Guerreiro Bússola doida psg@negocios.pt

É na banca que estão agora os maiores receios. Os bancos endividaram-se muito para acudir aos Estados, que se haviam endividado muito para acudir aos bancos. A dívida é transitiva mas não é transitória.

Como dizíamos há dias, Portugal não é como a Grécia: a nossa dívida privada é maior que a pública - e está nos bancos. Ora, estes precisam de se refinanciar constantemente, o que antes não era problema. Agora, em face da instabilidade global e das descidas de "rating" portuguesas, os bancos estão a financiar-se a curtíssimo prazo, ao dia, nos mercados interbancários.

O indicador mais importante neste momento para a economia é, pois, o "spread" da dívida: a diferença entre o que os credores cobram para emprestar à Alemanha e o que pedem a Portugal. E isso é tão relevante para uma PME que quer um descoberto bancário como para um consórcio que quer construir um comboio de alta velocidade.

É hoje impossível perceber em que nível estabilizarão as taxas de juro de cada país. Se for aos níveis destes dias, Portugal pagará mais 200 a 250 pontos base (taxas de mais 2 a 2,5 pontos percentuais) que os germânicos. Isso aniquila a nossa esperança de competitividade (ficaremos com custos financeiros maiores que os dos nossos concorrentes) e anuncia recessões.

É por isso que até Ricardo Salgado, o mais entusiasta dos banqueiros de grandes projectos públicos, diz que é preciso esperar: "Há uma situação nova", diz, "não se conseguem planear juros para operações de médio e longo prazo, vamos ter que ter calma e esperar até que a situação se normalize".

O país que se divide, empolgado, entre fazer ou não grandes obras não está a ver o filme: neste momento, estão em causa as grandes obras e as pequenas também, linhas de alta velocidade e carrinhos de linhas.

Os bancos vão esticar o máximo de tempo que puderem o "stock" de capital que conseguiram captar no bom tempo. Isso significa travar a sério a concessão de crédito. Quem achou que os bancos estavam a ser selectivos na concessão de crédito às economia ainda não viu nada. Porque, até aqui, o crédito concedido só cresceu menos, mas cresceu.

Portugal enfrenta, pela primeira vez, o risco de desalavancagem, de redução do volume de crédito à economia. E isso tem um nome: é destruição de economia.

O País está a partir-se entre dois tipos de economistas: os que entendem que parar com o investimento público nas grandes obras é abdicar de crescer, e assumir a derrota; e os que assumem que derrotados já estamos e que não há dinheiro a preços viáveis para continuar a investir. O que PS e PSD estão a fazer é apenas a assumir as pontas desta corda esticada.
Quem arrisca petisca ou é petisco. Até os mercados estabilizarem, não há pão para malucos. E ontem bastou um sopro sobre Espanha para iniciar uma súbita histeria colectiva.

Quem, como ontem Zapatero, desmente um boato qualificando-o de "absoluta loucura", está a agir com o coração. E ao coração, Dinis Machado chamava "bússola doida". "Hay gobierno? Hay." Está é em pânico.
http://www.jornaldenegocios.pt/index.php?template=SHOWNEWS_OPINION&id=423841


terça-feira, 4 de maio de 2010

A Ocidente do Paraíso (58). E a noite ficava muito escura. Como um piano abandonado.


Parecia-me que momentaneamente as tormentas cessaram. Eu, assim a senti, era um desejo. Será que as noites de isolamento escureceram para sempre? O amor retornou? Seria ela o vento dos pinheiros da minha infância? O vento da profunda noite, que instintivamente fazia aproximar os nossos corpos, numa deliciosa felicidade rodeada de pinheiros. Depois, os pinheiros, desapareciam no céu. E a noite ficava muito escura. Como um piano abandonado.

A prima que habitava na casa chamava-se Marta. Tinha o cabelo curto até ao início do pescoço. Olhos muito claros, pequenos e profundos. Lábios pequenos, sensuais. Queixo ligeiramente arrebitado. Seios pequenos que se não fosse o soutien passariam despercebidos. Magra e de estatura mediana, com as pernas ligeiramente arqueadas. O seu semblante era duro, triste, mas esforçava-se em apresentar um sorriso.
Num fim de tarde estava no terraço a ouvir música, saboreando camarão e cerveja. O calor incomodava, mas a frescura da sombra era muito acolhedora. Marta aproximou-se e sentou-se:
- Boa tarde, ufa que calor.
- Muito boa tarde, aqui está muito fresquinho.
- Boa vida que você leva… quem me dera… como vão essas férias?
- Já passei um mau bocado… acho que mereço um bom descanso.
- Vou-lhe roubar alguns camarões e fazer-lhe um pouco de companhia. Fale-me um pouco da sua vida passada… nos matos.
- Desculpe, mas prefiro não falar disso.
- Porquê? Sente-se muito afectado?
Preferi responder com uma pergunta.
- O que é que você faz?
- Sou funcionária administrativa na Direcção dos Serviços de Agricultura e Florestas… tratamos dos animais.
Disse-o com um largo sorriso. Desculpando-se foi buscar um refrigerante.

O Aurélio era o filho do casal. Cumpria o serviço militar como furriel na guarnição de Luanda. Não participava em nenhuma operação militar. Era futebolista, jogava a extremo esquerdo na equipa do Asa. A sua equipa foi campeã nacional de futebol. Quando jovem, faltava aos estudos para jogar futebol. O seu pai vigiava-o e quando via que ele não estava na escola, ia ao campo de futebol, arrastava-o para casa e batia-lhe com um chicote. Mais tarde, Aurélio confessou que o seu pai fazia muito bem, e que se não fosse isso hoje não seria ninguém. O pai ofereceu-lhe um Ford Capri. Aurélio tornou-se um famoso mulherengo, ao ponto da sua mãe, quando a Académica de Portugal o pretendeu para jogador, barrou-lhe a ida alegando que se perderia com as mulheres.

Aurélio e a Marta chegaram abraçados. Ele segredou-lhe algo no ouvido que a fez dar algumas risadinhas. Aurélio acabou com o resto dos camarões e lançou-me uma piada.
- Este não faz mal a ninguém!
Referia-se que eu não andava atrás de mulheres. Marta afastou-se, disse que ia ajudar na cozinha.

Nos dias seguintes passei a ter a companhia diária do Avô. Fazíamos um lanche de atum com cebola, até se tornar num hábito. Toda a família me confessava que ele gostava muito de mim. Falava, falava e ria-se muito. De tal modo que passou a assobiar algumas melodias, o que não era habitual. Quando a Marta chegava do trabalho encontrava-nos sempre no repasto. Notei que o olhar e o sorriso tinham algo de misterioso, convidativos, sensuais. Interrogou-me:
- Sempre aqui sozinho… não sai porquê?!
- Gosto de estar só… acho que são as consequências da guerra.
- E não se aborrece?

BBC noticia as desventuras da nossa polícia


Polícia Angola ameaçam mídia sobre detenção policial de estupro

Polícia em Angola ameaçou com ação legal contra a imprensa local depois que o caso de um oficial da polícia acusado de estupro foi tornada pública.

Traduzido: GOOGLE
http://news.bbc.co.uk/2/hi/africa/8659963.stm

Tiaba Jose da Costa, sub-inspector da polícia da província de Benguela transportes, está sob custódia desde a semana passada.
A polícia disse que a comunicação do suposto estupro de uma mulher de 21 anos de idade por um policial tinha prejudicado a sua imagem.

"Este é um crime comum, eo fato de que ele é um policial não é pertinente", disse um funcionário do ministério do Interior.
Branco Lima, chefe da Comissão dos Assuntos Jurídicos do Ministério do Interior em Benguela, que é responsável pela polícia, fez o alerta para estação de rádio católica Rádio Eccleisa.

"Ele estava de folga quando a ofensa teria ocorrido", disse o Sr. Lima.
Louise Redvers O correspondente da BBC na capital, Luanda, diz que a ameaça de ação legal foi uma surpresa para muitos na mídia como detalhes do caso foram passados pela notícia da agência estatal de Angola.
A história foi amplamente divulgado após a polícia entregou-se na última quarta-feira.

Ele tinha estado em fuga desde o suposto estupro ocorreu em 19 de Abril. Um mandado de prisão foi feito depois que os pais dos 21 anos de idade, apresentou uma denúncia.

A falsidade das demolições


«Sei que algumas demolições são ilegais e presididas por algumas empresas ou projectos privados maximizando o lucro decorrente do negócio imobiliário; sei ainda que se desconhecem os preços praticados porque não foi publicado o
Despacho sobre a Tabela de preços da terra.


Excerto da entrevista com Bernardo Castro, Director Executivo da Rede Terra. Activista p/ Direitos humanos na Perspectiva Fundiária

A única tabela de preços que conheço é dos serviços que o Instituto geográfico e cadastral de Angola deve praticar nos actos de demarcações e outros. Portanto, não se sabe quanto o país ganha com a venda de terrenos a essas empresas e pessoas singulares. Digo ainda não transparente porque a gestão racional e sustentável de recursos e, no caso, espaços biofísicos deve dialogar incontornavelmente com o elemento humano. As nossas estatísticas estão desactualizadas assim como o cadastro.

Portanto, o governo não tem o número exacto da sua população; não sabe, por conseguinte, quantos metros ou kilómetros ao quadrado cada um ocupa agora e daqui a 20 anos. É preciso não ignorar a densidade populacional na gestão de recursos. O ordenamento do território não foi realizado que nos termos da lei do ordenamento do território deve disciplinar as mais diversas formas de ocupação e aproveitamento dos solos segundo as suas múltiplas aptidões. Mais, não existem planos directores e a viola-se o princípio da participação popular na produção e implementação de projectos de interesse nacional, sobretudo, em matéria de terras. Caro jornalista é a tudo isso que chamo de processo não transparente.»

Imagem: arrastao.org/.../avezdopeao.blogspot.com/page/3

segunda-feira, 3 de maio de 2010

A Ocidente do Paraíso (57). Na realidade ainda me sentia traumatizado pelos sintomas da guerra. Queria ficar só, e evitava falar com quem quer que fos


Numa manhã surgiram quatro helicópteros Alouette III e um helicanhão com efectivos pára-quedistas e comandos. Tratava-se de uma grande operação de forças combinadas, afim de aniquilar os redutos da guerrilha que teimosamente insistiam em ocupar posições antes perdidas.

Os relatos posteriores falaram que o célebre comandante Enfeso, da FNLA, sentindo-se perseguido fez uma manobra de diversão. Ele e os seus homens seguiram por um caminho, os carregadores por outro, deixando para trás pessoas a ocuparem as forças portuguesas. Quando deram pelo logro já Enfeso ia longe.

A nossa comissão de serviço chegou ao fim. Os meses passavam, e a companhia que nos substituiria tardava a chegar. Isto devia-se ao défice de jovens para ingressarem no exército. Os rumores eram constantes, de que no próximo mês, no dia tal seríamos rendidos. Apreensivo via o tempo a perder-se. Sairia da tropa com vinte e cinco anos, já velho. Pelos vistos teria que recomeçar a minha vida do zero, resignado com a tristeza da espera, sem saber quando acabaria este tormento. Que no próximo mês havia a certeza confirmada que partiríamos. Desta vez era verdade. Finalmente veio a rendição.

Já estávamos no Grafanil a aguardar embarque. Iríamos no avião dos TAM-Transportes Aéreos Militares. Entretanto, o meu pai indicou-me uma família amiga em Luanda para passar lá uns dias. Era no Bairro Salazar, também conhecido pela fronteira do Golf. Era uma vivenda espaçosa com um terraço a condizer. Propriedade de um casal com um filho e um irmão do esposo, uma prima e um idoso – o Avô – pai da esposa. Eram muito boas pessoas, porque no relacionamento inicial e posterior nunca lhes vi qualquer sintoma de maldade. Vivia como peixe na água. Assediavam-me constantemente, se me faltava isto ou aquilo, se queria mais disto ou daquilo. Depois do tempo e vicissitudes porque passei, sentia-me no paraíso.

Na realidade ainda me sentia traumatizado pelos sintomas da guerra. Queria ficar só, e evitava falar com quem quer que fosse. Apesar de tudo fazia um grande esforço para manter uma conversa, e sorria com dificuldade aguardando que a conversa terminasse rapidamente. Para quebrar a monotonia – entre críticas de que não saía de casa – o irmão do dono da casa convidou-me para assistir a uma partida de futebol de salão, num campo que se situava a três ruas de distância.
Fingia-me interessado pela disputa da bola. A certa altura um pormenor chamou-me a atenção. Um jovem negro sai das bancadas e atropela tudo e todos. Imaginei-o como um inimigo, apreensivo dramatizei:
- Olha, esse aí, vão-lhe dar na cara.
- Porquê?
- Da maneira que ele trata as pessoas, acho que não vai sair daqui vivo.
- És racista?
- Não, mas acho que é tamanha má educação, que se deveria chamar a atenção ao jovem.
- Aqui ninguém liga a isso, estamos habituados, em Portugal é tudo diferente. Nós temos uma convivência mais aberta. Até no aspecto sexual, quase que não temos tabus.
Fiquei a meditar e concluí:
- Esta sociedade deve ser muito violenta.

A liberdade de imprensa



Imagem: http://www.vidaslusofonas.pt/salaz16.gif

Já o Mourinho anda por lá faz algum tempo e já tem ideias de discriminar os jogadores da selecção nacional...



Anónimo, Portugal e Allgarves. 08.01.2010 11:19
racismo?
Racismo ou pretos a mais? Nao ha paciencia, se a pretalhada nao se quer inserir na sociedade e quer viver dos subsidios e da criminalidade depois nos e que somos racistas.


1. Abu, Lixa. 08.01.2010 11:15
Motores trifásicos
Desde os anos oitenta do século passado que não compro nada que seja Italiano, nem comprarei!...só por engano.Os motores trifásicos com os fios das bobines que levam um banho de verniz do tipo faz de conta...trabalham duas, três horas e pumba!...ardeu, troca a rebobinar.Os Fiat's com peças em teflon nas caixas de velocidade em vez de "bronze" ou outro metal mais resistente que o plástico/Teflon...uma caixa de velocidades de um Fiat, dura um ano.Uma valente sucata sobre rodas, essas carripanas a que chamam Fiat's.Por isso prefiro automóveis Japoneses em que a GM não interfira em deterimento e também dos Mercedez que como sabem, é a marca dos autocarros de transporte dos mercenàrios e assassinos que assassinam crianças na Palestina..ou seja:os Judeus!

2. aaa, aaa. 08.01.2010 10:40
Regressão
Já o Mourinho anda por lá faz algum tempo e já tem ideias de discriminar os jogadores da selecção naional... Além disso os países cujo poder político anda de braço dado com a religião acaba por prolongar episódios de racismo, dissimulado ou não, pelo simples facto de que tomam por referência um livro como a Bíblia que é a favor da discriminação e da escravatura, logo em vez de resolverem problemas do século 21 com soluções do século 21 preferem tomar de chavão lendas, fantasias e episódios com 2000 anos, sem quererem saber do prejuízo social real e actual!

1. Marta, Aveiro. 08.01.2010 10:03
Para onde caminhas, Europa...
Vamos ter um apartheid em Itália, brevemente? É o degredo...
Pub

Carlos Carinhas, Stuttgart Alemanha. 10.01.2010 16:49
Na Verdade na vertente Desportiva nao sera somente as Gentes do Togo que ficaram a perder mas sim todos que gostam.Em relacao aos factos e triste que seja uma Atitude Politica e nao revidencativa como querem parecer.Angola faz muitos Anos que nao Vive em Paz,que Seu Povo como deveria ser normal nao tem existencia em todos aspectos Sociais e Humanos assim como nunca foi Verdadeiramente Independente.Sobre alguns comentarios que aqui se fazem se tem alguma razao de ser tambem deveriam de ter liberdade de expressar a Verdade em troca da mentira camufulada do Viver na Paz possivel.Muito triste que o mal esteja a minar o Mundo e Sua Gente.

Zé da Ilha, luanda. 10.01.2010 15:56
Março de 1961: "Toerroristas da UPA, Unita e MPLA massacraram inocentes civis em Angola", escrevia o regime português. Janeiro de 2010: "Terroristas da FLEC massacraram inocentes atletas em Angola", escreve o regime de Luanda. Onde está a diferença?

Manuel António (Cabinda), Cabinda. 10.01.2010 15:51
Os Cabinda têm direito a sua independência…Cabinda é um país ocupado por Angola…a elite angolana vive a custa das riquezas de Cabinda…O Ditador de Angola e a suas filhas, são dos dirigentes mais ricos do Continente Africano… em Luanda não há saneamento básico, não há habitação social, mas o pesidente Dos Santos comprou um iate de luxo, para navegar nas águas do mussulo, as suas filhas compram nas capitais europeias,roupas de marca e jóias, mas o povo em geral passa miséria

Sérgio Resende, Linda-a-Velha, Portugal. 10.01.2010 15:47
Criticam o MPLA e José Eduardo dos Santos, mas estes tiveram 87% nas últimas eleições, percentagem que é impensável nas democracias ocidentais... e não é só por isso. Grande recuperação que Angola está a fazer, com crescimento económico acima dos dois dígitos... E estou com o Luís, de Almada: quem perde é o Togo!

domingo, 2 de maio de 2010

A redescoberta da África


*Artigo publicado em 15 de agosto de 1982, em Folhetim, (Folha de São Paulo) por ocasião do lançamento do primeiro dos oito volumes da História Geral da África (Ática/Unesco, 864pág) na Bienal do Livro de São Paulo.
Tudo indica que a África, berço da humanidade, seja a mãe de todos nós. No entanto, com que prepotência o Ocidente tem tratado este continente de prodigiosa riqueza cultural. Quem de nós conhece as civilizações africanas?

Ladislaw Dowbor. Agosto 1982 Ladislau Dowbor

Lembro-me da minha surpresa ao descobrir, na África, através da grande obra Panarias da Guiné, que a primeira relação entre Europa e Guiné foi a exportação de tecidos - da Guiné para a Europa - no século 15, já que as técnicas de tecelagem e de tinturaria eram ali adiantadas para a época. No Mali, encontrei fornos antigos para a fabricação de aço, que os historiadores afirmam ter produzido metal de qualidade só atingida na Europa na segunda metade do século 19.
Estes retalhos de civilização técnica de um continente que globalmente é apresentado como primitivo, deixam-nos um tanto céticos: serão imagens que buscamos para contrapor à negação da cultura africana que predominou durante séculos nos nossos países?

Aos poucos, e somente nos últimos 20 anos, começa a busca por respostas científicas e organizadas, e se levanta lentamente o véu sobre o passado de um continente massacrado, mutilado, explorado. E que ainda por cima, viu-se roubado do seu passado, como se tivesse começado a existir apenas com a violência européia. Porque a história da África ainda é, fundamentalmente, a história do branco na África.
Em Bissau, na costa ocidental do continente, conversei com o motorista que guiava o nosso miserável Land-Rover da cidade para o Ministério, sobre o passado da sua terra. Descobri repentinamente outro universo: nos seus momentos livres, este homem de condição evidentemente precária estava trabalhando na transcrição em “ajami” para o crioulo, da história da guerra dos fulas e dos mandingas, consignada em tabuletas de madeira com ajuda do alfabeto árabe.
Em aldeias do Gabu, vi estas tabuletas preciosamente conservadas pelos velhos, os “homens grandes”, para transmissão dos conhecimentos às novas gerações.

TECNOLOGIA PRÓPRIA
A África, outrora sangrada pela caça aos escravos, mais tarde pilhada nas suas riquezas naturais, hoje esmagada pelos tratores tecnológicos que chegam do Norte, conserva uma espantosa capacidade de sobrevivência cultural. Na zona Leste de Bamako, região que é um dos berços de um vasto império africano, centenas de artesãos recortam e desmontam equipamento caríssimo importado no quadro dos projetos de desenvolvimento, como tratores e caminhões, para produzir charruas, panelas, foices, enxadas, carroças.
O mais espantoso ainda é ver estes trabalhadores, diariamente acusados pelos assistentes técnicos europeus de incapacidade e de irresponsabilidade, realizarem proezas técnicas fora do comum quando se trata de responder a necessidades vistas e sentidas como próprias.
Não é por gostar de curiosidades que descrevo estas imagens. É que ao visitar esses cemitérios de ferro velho, gigantescos depósitos do lixo tecnológico internacional, não se pode deixar de ver o fato cultural e político que existe por trás da problemática do desenvolvimento econômico que tanto batalhamos em promover.

Esta prepotência tecnológica multinacional, reduzida aos pedaços, digerida e transformada por um povo pobre, mas de prodigiosas tradições, aponta simplesmente para uma nova ignorância. No próprio Mali, uma casta, os “griots”, transmitem oralmente, de geração em geração, os feitos da sua nação e das nações vizinhas. No Congresso Internacional de Historiadores que se reuniu em maio último [1982] em Bamako, os que desprezavam estes “griots” como contadores de história sem fundamento científico, viram-se humilhados ao ter que aceitar correções básicas nas suas teorias, feitas por um analfabeto. Como não lembrar [do filme] “Fahrenheit 451”, em que homens de cultura perseguida se escondem nas matas, e aprendem de cor as obras do seu passado, agarrando-se a ele como a um bem dos mais preciosos.

CULTOS TRADICIONAIS
Nas ruas de Bamako, uma das cidades mais pobres do mundo, o trânsito vive engarrafado pelo excesso de automóveis, pontas de lança da nossa civilização. No entanto, o luxuoso gravador, pendurado na porta de um barraco, cobre os ruídos com os cantos tradicionais que relatam os feitos de Sundiata. Não é possível entender nada da África se não se entender este dilaceramento cultural permanente, que resulta de uma agressão sempre renovada. As recusas de modernização, quando não a sua sabotagem consciente, o técnico as interpreta como ignorância, analfabetismo, primitivismo. Trata-se, muito mais, de uma necessidade de sobrevivência. Ninguém faz história como objeto.
O trabalho dos historiadores que buscam a realidade do passado africano tem assim um sentido profundo e o caráter de uma urgência particular. Um dos maiores historiadores africanos, Ki-Zerbo, constata em História Geral da África que, nas últimas décadas, “milhares de pesquisadores, muitos de grande ou mesmo de excepcional mérito, vêm procurando resgatar porções inteiras da antiga fisionomia da África. A cada ano, aparecem dezenas de novas publicações cuja ótica é cada vez mais positiva. Descobertas africanas, por vezes espetaculares, questionam o significado de certas fases da história da humanidade no seu conjunto.”

“A história geral da África – escreve Ki-Zerbo – como a de toda a humanidade, é a história de uma tomada de consciência. Nesse sentido, a história da África deve ser reescrita. E isso porque, até o presente momento, ela foi mascarada, camuflada, desfigurada, mutilada. Pela força das circunstâncias, ou seja, pela ignorância e pelo interesse. Abatido por vários séculos de opressão, esse continente presenciou gerações de viajantes, de traficantes de escravos, de exploradores, de missionários, de prepostos, de sábios de todo tipo, que acabaram por fixar sua imagem no cenário de miséria, de barbárie, de irresponsabilidade, do caos. Essa imagem foi projetada e extrapolada ao infinito ao longo do tempo, passando a justificar tanto o presente quanto o futuro. Não se trata aqui de construir uma história-revanche, que relançaria a história colonialista como um bumerangue contra os seus autores, mas de mudar a perspectiva e ressuscitar imagens “esquecidas” ou perdidas. Torna-se necessário retornar à ciência, a fim de que seja possível criar, em todos, uma consciência autêntica. É preciso reconstruir o cenário verdadeiro. É tempo de modificar o discurso.”

SOLIDEZ CIENTÍFICA
É difícil superestimar a importância do trabalho que hoje é apresentado, no seu primeiro volume, ao público brasileiro, a História Geral da África. Trata-se do resultado de mais de 15 anos de trabalho de algumas dezenas dos melhores historiadores africanos e outros, por iniciativa da UNESCO.
O vulto do empreendimento assusta – no total, são oito volumes de quase mil páginas cada - , mas a solidez científica da elaboração, a importância das informações trazidas e a simplicidade de estilo fazem com que sua leitura seja apaixonante. É uma enorme parte do nosso próprio passado que se descortina, capítulo por capítulo, sob a pena de diversos autores, mas numa unidade de método e orientação impressionante.
Rompendo com o elitismo pseudocientífico, os historiadores vão diretamente aos fatos importantes, encarando claramente a função política que desempenham: “A atitude história africana não é uma atitude vingativa afim da auto-satisfação, mas um exercício vital de memória coletiva que varre o campo do passado para reconhecer suas próprias raízes. Após tantas visões exteriores que têm modelado a marca registrada da África a partir de interesses externos (até nos filmes contemporâneos), é tempo de se resgatar a visão interior da identidade, de autenticidade, de conscientização: volta “repatriadora” como diz Jacques Berque para designar esse retorno às raízes. Ao considerar o valor da palavra e do nome na África, ao pensar que atribuir nome a uma pessoa é quase apoderar-se dela – a tal ponto que os personagens venerados (pai, esposo, soberanos) são designados por perífrases e cognomes – compreenderemos porque toda a série de vocábulos e conceitos, todo o arsenal de estereótipos e de esquemas mentais relativos à história da África, situam-se no contexto da mais sutil alienação. É preciso aqui uma verdadeira revolução copernicana, que seja primeiramente semântica, e que sem negar as exigências da ciência universal, recupere toda a corrente histórica desse continente, em novos moldes.”
O primeiro volume, centrado na metodologia e na pré-história da África, mostra o gigantesco salto que está sendo dado na recuperação do passado africano: em 1950, não havia nenhum historiador africanista profissional exclusivo; em 1970 eram cerca de 500 historiadores com doutorado ou equivalente, dedicando-se com exclusividade a esta pesquisa.

TRIBOS DE HOLLYWOOD
O mito da ausência de fontes, que durante tanto tempo serviu de desculpa oficial para os historiadores europeus e americanos, é desfeito, ao se analisar a fundo as possibilidades das fontes escritas, com enormes arquivos ainda não pesquisados, das tradições orais tão desprezadas e que hoje se sabe constituirem fonte preciosa de informação, da lingüística, da antropologia, da etnologia.
O trabalho dos historiadores que elaboraram esta História Geral da África obedece a princípios claros: interdisciplinaridade, permitindo a visão da sociedade; a busca de uma história “enfim vista do interior”, uma história de conjunto dos povos africanos, e não dos retalhos criados pelo colonialismo. Uma história dos povos e dos seus usos, incluindo técnicas, artes, circuitos comerciais, e não um relato das elites.

Desaparece o conceito de “tribo”, rejeitado como termo não científico e, na realidade, bem mais próximo de Hollywood do que da África. Também desaparece o conceito de unidades fechadas sobre si mesmas: os povos africanos sempre conheceram um importantíssimo comércio internacional em nível do continente, com especializações bastante marcadas. Desaparece igualmente a concepção estática da história da sociedade africana, como se antes da colonização, a África não estivesse submetida a um processo de transformações históricas, como todos os continentes: é o mito de um estado “natural”, primitivo e atemporal, que dominou tantos estudos sobre a África.
Aparece também na sua dimensão real a “violência” africana, tão associada ao conceito de “lutas tribais”, lutas que não foram tribais e nem chegaram nunca aos pés, em termos de violência, das que os europeus exerceram contra a África ou entre si.

Página por página, respiramos o ar puro de verdades enfim ditas, de um trabalho científico sério que nunca cede ao “folclore” ou ao falso “típico”, e que se dá ao luxo de definir claramente o seu caminho frente à reação anti-colonial de certos historiadores ocidentais, que passaram a criticar os colonialistas mas, nem por isso, souberam analisar o peso que o próprio africano teve no processo, mudando os seus valores, mas guardando o sujeito.
Para nós, no Brasil, a importância da edição desta obra é óbvia. E os historiadores africanos não deixam de mencionar esta curiosidade de dois países, onde a população africana teve papel fundamental no desenvolvimento econômico e cultural, como o Brasil e os Estados Unidos, estarem praticamente na estaca zero em termos de estudo do passado africano: “Por mais importantes que fossem os vestígios culturais africanos, nem o Brasil, nem as Caraíbas deram a atenção merecido ao assunto... O interesse era anda menor nos Estados Unidos...”
Isso mostra, sem dúvida, a que ponto o colonialismo cultural ainda pesa entre nós, e a que ponto a história ainda é uma ciência colonizada.

Num país de mais de 40% de população de origem africana, contam-se nos dedos as iniciativas científicas. Em São Paulo, temos conhecimento de três trabalhos de importância entre 1977 e 1979: teses de doutorado dos professores Carlos Henrique Serrano, sobre o poder político no reino Ngola, Kabengele Munanga sobre os Basanga do Shaba, e do Kazadi Wamukuna sobre a contribuição bantu à música popular brasileira.
Os esforços não faltam, como podem testemunhar o trabalho do professor Fernando Mourão e a criação de alguns centros como o Centro de Estudos Africanos na USP, o Centro de Estudos Afro-Asiáticos na Bahia, o Centro de Estudos Afro-Asiáticos na Bahia, o Centro de Estudos Afro-Asiáticos na Cândido Mendes do Rio de Janeiro, as iniciativas de Abdias Nascimento da PUC de São Paulo.

O fato é, no entanto, que frente à importância do tema, as iniciativas e os apoios são nitidamente insuficientes. A promoção da Ática, com este início de publicação, reveste-se assim de particular importância. Tanto pelo valor da obra apresentada, como pelo fato que permitirá modificar substancialmente e reforçar o ensino da realidade africana em todos os níveis.
A história oficial africana se descoloniza. Até quando a nossa permanecerá na Casa Grande?

sábado, 1 de maio de 2010

Finalmente, os nossos corações fundiram-se


Há dois anos que não te vejo. Mas sei onde estás. Perdi os teus carinhos para sempre. Mas navegas no mar do meu espírito.

Enquanto descansas eternamente, estou sempre ao teu lado, teu companheiro também sempre eterno.

A morte é a separação eterna. Perde-se o viver material, mas ganha-se o espiritual. É apenas uma mudança de estado, de dimensão.


«Minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem de grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite.»
Clarice Lispector