quarta-feira, 3 de abril de 2013

Os jogos políticos revelam alguns “complexos de superioridade” na “manga dos casacos”


Canal de Opinião. Por: Noé Nhantumbo


… Os complexos de Dar es Salaam não foram enterrados…

Beira (Canalmoz) - Aquele barulho que ecoa na arena política moçambicana não é saudável na medida em que sugere mistura indigesta para a maioria dos moçambicanos.
Parece que alguém está disposto a “pescar nas águas turvas” que dominarão o cenário se o “comboio político” moçambicano descarrilar.
Que ninguém se esqueça que antes, durante todo o período colonial se criou uma mentalidade baseada no complexo de superioridade e no complexo de inferioridade. Era comum que os moçambicanos negros se considerassem por eles próprios, inferiores ao colonizador branco. Foi montada uma cultura e procedimentos sociais que associavam as pessoas conforme a cor de sua pele e daí se caminhou para comportamentos racistas que estão documentados.
Outra coisa que convém não esquecer é que entre as diferentes tribos e etnias que compõem o mosaico nacional também se criaram mentalidades e comportamentos que exploravam diferenças culturais, tradições e colocavam uns moçambicanos acima de outros, com base num critério étnico-tribal. Promoveram-se classificações que remetiam e consideravam as pessoas conforme o seu lugar de nascimento.
Aqueles esforços empreendidos de maneira mecânica pela Frelimo, dizendo em comícios “Abaixo o tribalismo” ou outros “ismos” não acabaram com nada.
As pessoas que viviam concebendo-se superiores continuaram a fazê-lo. Mesmo em própria sede do comité central da Frelimo, da liderança governamental verificou-se ao longo dos anos uma tendência para dar primazia aos naturais de uns locais e não de outros em tudo que se referia a colocações e nomeações para funções em órgãos governamentais.
O que uns chamavam de confiança política para outra não passa de simples manifestação de fazer política com base na tribo. Há um exercício activo de “Acção Afirmativa” com bases étnicas, quando interessa, ao se destinarem quotas, a dirigentes provenientes de algumas províncias potencialmente com mais votantes.
Há muito que se pode dizer sobre o assunto e alguns sociólogos moçambicanos tem falado embora levemente sobre ele. Em certa e grande medida, falar de complexos de superioridade e inferioridade é tabu em Moçambique. Poucos querem e se atrevem a dizer que alguma política e a tal confiança política se fazem e se constroem com bases mais étnicas do que qualquer outra coisa. Conquistar votos eleitorais tem passado por alocar quotas no comité central e na comissão política dos partidos.
Da mesma maneira não se pode dizer que não tenha havido evolução natural e politicamente induzida nas relações entre as diferentes etnias e raças existentes em Moçambique. Hoje difere de ontem onde até o mais simples funcionário do estado tinha unicamente um só proveniência.
Mas reconheçamos que ainda há muitas desconfianças entre nós.
Quem ignora que os naturais do sul do Save muitas vezes colocam-se acima dos outros como se tivessem herdado a governação de Moçambique directamente das mãos dos portugueses? Quem ignora que por todo o país há designações pejorativas para classificar quem não seja de uma etnia? Quem não sabe que muitos negros de gerações mais velhas veem e consideram o branco um ser superior?
Mas isto tudo vem a lume a propósito da relutância de dialogar-se abertamente sem tabus sobre os problemas actuais de Moçambique?
Não haverá de algum modo alguma carga de complexos de superioridade e de inferioridade interferindo na formulação de estratégias e tácticas políticas que importa analisar?
Quem tem medo de falar sobre este assunto?
Não haverá alguns substractos visíveis de pessoas que acreditam que se vive no ”Império de Gaza”? Alguma da reacção política vivenciada em Moçambique não se baseia no insucesso em se eliminarem as assimetrias no desenvolvimento e sobretudo na apropriação dos resultados?
A quem tem beneficiado as grandes joint-ventures que se constituem cada vez que se registam descobertas de recursos minerais?
De quem são as empresas que dominam as principais áreas de procurement nacional?
A quem pertencem milhares e milhares de hectares de terra já com DUAT atribuído?
Oferecer quotas financeiras a alguns segmentos especiais não vaio resolver o problema de Moçambique.
O que dizem alguns dos que se opõem ao actual establishment é que as coisas têm de mudar pois assim não faz sentido algum se afirmar que se está combatendo a pobreza ou qualquer outra coisa.
E é necessário possuir a sensatez de reconhecer que não estão mentindo.
Antes de se tratar da grande política, da economia política do país é preciso deixar as almas dos cidadãos sossegadas….
O reducionismo e a tendência de demonizar os opositores existem e são manifestações de intolerância política antiga. Houve e resiste uma tendência de apropriação em regime de exclusividade do processo político nacional que não corresponde ao discurso oficial de democracia e combate contra a pobreza.
Quem tem medo de descentralizar as competências políticas e administrativas?
Se já tivesse sido acordado que o ordenamento legislativo contemple a eleição de governadores províncias teríamos menos atritos de natureza política ou não?
Na actual conjuntura uma abertura em direcção ao federalismo afastaria muitos demónios e seria uma forma prática e segura de concorrer para a eliminação dos potenciais de confrontação política em Moçambique.
Os opositores políticos de nomeada em Moçambique estão perdendo a oportunidade histórica de fazerem a diferença ao recusarem-se a assumir em toda a sua dimensão os problemas do país.
Os moçambicanos estão “fartos de papos furados” e procuram ver seus problemas resolvidos.
“Ganhar tempo” dialogando no autêntico “faz de conta” como tem sido feito entre o governo d a Frelimo e a Renamo não produziu até agora qualquer sinal na direcção da estabilização política.
É preciso com frontalidade dizer-se que alguns dos actores políticos mais proeminentes ontem, na sua tese de que sua permanência no poder é um “imperativo nacional”, manifestam-se abertamente contrários a qualquer diálogo ou negociação sérios, dos diferentes pontos apresentados pela Renamo. Por outro lado, da Renamo, parece surgir sinal preocupante de que a opção militar, face a um exército governamental desarticulado e sem apoios externos de relevo, seja a melhor e mais rápida solução para atacar os diferendos existentes.        
Uma coisa é certa temos falcões dos dois lados sedentos de sangue sem qualquer consideração pelos milhões de moçambicanos que não estão de acordo com sua postura.
A militarização dos partidos políticos tem o potencial de fazer desaparecer aquele diálogo democratizante. Quem se julga coberto e protegido pelas armas tem a tendência de optar pelo seu uso para a conquista e manutenção do poder.
A musculação da PRM através de aquisições de equipamentos para a repressão de manifestações apontam nesse sentido.
Quem se recusa a dialogar em que é que confia?
Os “duros” e irredutíveis de ontem, os que diziam e dizem que “não apertam as mãos a bandidos armados” não estarão colocando seu complexo de superioridade acima dos interesses nacionais?
O tempo não está para a continuação de análises do tipo académico como forma de explicar as motivações dos interlocutores no nosso processo político.
É tempo de acção no sentido de salvar uma nação que nos pertence antes de ser prerrogativa de algum político ou partido…
Sensatez e maturidade superam de longe apresentações ou tentativa de brilhantismo retórico… (Noé Nhantumbo)

Luanda: Falta de água é negócio da China


Manuel José VOA
A falta de água em Luanda pode ser problema para muitos, mas para outros é uma oportunidade de negócio.
E, quando os negociantes de água são imigrantes chineses, a irritação é maior entre aqueles que sentem o problema


"Eles vão buscar água para vender, quando a polícia aparece eles dão uma gasosa," disse Luísa Grilo directora nacional para o ensino geral.

A responsável pelo Ministério da Educacao repudia esta atitude dos cidadãos asiáticos.

"É a água que desviam das condutas, fazem furos ao longo das condutas, para comercializar a água, isto é grave e crime," disse.

"O chinês deve ser contratado para fazer outra coisa, não acho piada nenhuma um estrangeiro vir aqui pra vender água, um meio que podia ser de trabalho para um angolano," disse.

" É muito duro as pessoas comprarem 20 litros de água a 100 Kwanzas,” acrescentou.

A jurista Ana Paula Godinho também se queixou dos "preços proibitivos”, eu afirmando ter comprado  água a cisterna a 20 ou 22 mil Kwanzas.

"Tenho muita dificuldade em perceber porque não temos água em Luanda, porque tanta escassez de água?" interrogou.

Já a política Alexandra Simeão, mostrou-se indignada em ver chineses a venderem água.

"O chinês deveria vir para construir e não para vender água, para estar na zunga, nos inertes, eles estão em todos os sítios," disse.

A jurista Godinho só encontra uma razão para escassez de água potável na capital angolana.

"O problema está na ineficaz distribuição da água,"  acrescentou.

terça-feira, 2 de abril de 2013

Português orgulhoso diz: vender a nossa economia à máfia angolana é vender a nossa alma ao diabo


Na sua coluna no Expresso, João Duque deixou bem claro como vê a liberdade e a democracia neste País. A liberdade de expressão e de informação estão à venda. Vale a pena ler este naco de prosa:·
Mas não quero aqui perder mais tempo com esta personagem. Nem a excelente caricatura da ideologia dominante que ela representa. Agora concentro-me noutro tema: as nossas relações económicas com Angola.

Como se sabe, Pedro Passos Coelho foi a Luanda para vender as nossas empresas públicas. Deslocou-se a um dos mais ricos países africanos, que, sendo um dos maiores exportadores de petróleo do Mundo, permanece em 148º lugar no Índice de Desenvolvimento Humano e com dois terços da sua população a viver com dois dólares por dia.

Os crimes de sangue e económicos fazem parte da natureza da cúpula mafiosa que domina os negócios em Angola (ler "Diamantes de Sangue", de Rafael Marques). E mesmo quando a generalidade dos países europeus vive momentos de dificuldade, a entrada de capitais angolanos é vista com desconfiança, por ser um factor de insegurança.

Até no mundo financeiro, dominado pela falta de escrúpulos, a elite económica de Angola está para lá de uma fronteira que só os mais "afoitos" se atrevem a transpor.

A entrada do investimento angolano (ou seja, do investimento da família dos Santos e dos seus generais e amigos) levanta um problema grave na economia portuguesa. As grandes empresas angolanas não têm contas públicas e vivem no meio da obscuridade legal e financeira.

Onde o dinheiro do regime angolano entra acaba sempre por surgir um escândalo legal de grandes proporções. Com estes investidores, será impossível manter regras minimamente transparentes nas nossas empresas.

A ideia de ter as maiores empresas públicas, grande parte delas monopólios naturais, entregues a grupos mafiosos, que não olham a meios para conseguir os seus fins, só pode assustar qualquer pessoa séria. Sabemos que há corrupção na economia portuguesa.

Mas a "angolanização" da nossa economia levará a nossa democracia para um outro patamar de degradação. Se a máfia angolana conseguir aqui o que não tem conseguido noutros países europeus a pouca credibilidade que resta às nossas maiores empresas desaparecerá. Há muito que nos devíamos estar a preocupar, por exemplo, com o peso que já detêm na banca nacional.

A participação do regime angolano, através de empresas que ninguém sabe a quem realmente pertencem e que interesses defendem, na comunicação social portuguesa, deveria causar uma enorme preocupação a jornalistas, empresários do sector e cidadãos em geral. Trata-se de um investimento que não procura o lucro nem se comove com a liberdade de imprensa.

O regime angolano (económico e político, que é coincidente) está a comprar poder. E, para a família dos Santos e seus amigos, a conquista de poder não tem limites éticos. Quando Angola dominar a nossa imprensa e televisão, não imagino como viverão os jornalistas e comentadores portugueses que não aceitem a lógica de João Duque e queiram continuar a trabalhar em liberdade e sem se submeter à autocensura para não desagradar a amigos de ministros de José Eduardo dos Santos.

Este negócio é mau para os dois lados. Para Portugal, porque corresponde à "gangsterização" da nossa economia. E para Angola, porque significa um desvio de fundos de um País que tem quase tudo por fazer na melhoria das condições de vida dos seus cidadãos. Eles compram a nossa liberdade à custa da miséria do seu povo. Nós julgamos que salvamos a nossa economia à custa da nossa liberdade e credibilidade.

Quando ouvimos os nossos governantes falar, quase todos os dias, da importância de defender a credibilidade das nossas instituições públicas e privadas, não deixa de ser interessante vê-los a vender monopólios empresariais, a saldo, ao submundo económico. Não se julgue que não está a ser notado. Muito mais do que grande parte das nossas novelas políticas domésticas. O "New York Times", por exemplo, já escreveu sobre o assunto.

Angola parece ser uma galinha dos ovos de ouro. Mas, nesta promíscua relação com o ditador de Luanda, estamos a vender a alma ao Diabo. E quando quisermos corrigir o erro será tarde demais. Serão os seus amigos a ditar as regras. E as suas regras são sinistras. Como sabe qualquer pessoa honesta que tenha tentado fazer negócios em Angola.
Antonio Teixeira.Facebook
Fonte : expresso.sapo.pt

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Luaty Beirão: Em Angola 'mudança é irreversível e não depende de eleições ou regimes fraudulentos'


A juventude despertou e não mais estará disposta a calar-se, por mais que nos batam, que nos fraturem cabeças, que nos metam cocaína na bagagem, que nos raptem, que nos assassinem.
O jornalista Greg Scruggs entrevistou Luaty Beirão para o Diário Liberdade. Músico angolano crítico com o regime do seu país, em inúmeras ocasiões tem denunciado sofrer repressão pelo seu ativismo político. Luaty, de nome artístico 'Ikonoklasta', responde sobre as passadas eleições em Angola.
A 31 de agosto de 2012, angolanas e angolanos foram às urnas, teoricamente para escolher presidente. O atual presidente José Eduardo dos Santos (MPLA) foi vencedor.
O jornalista Greg Scruggs entrevistou Luaty Beirão para o Diário Liberdade. Músico angolano crítico com o regime do seu país, em inúmeras ocasiões tem denunciado sofrer repressão pelo seu ativismo político. Luaty, de nome artístico 'Ikonoklasta', responde sobre as passadas eleições em Angola.
Greg Scruggs - A União Africana declarou que as eleições foram "livres e justas." Você concorda?
Luaty Beirão - Não. De maneira nenhuma.
GS - Por que o presidente ganhou com tantos votos -bem acima do partido de oposição?
LB - No meu entender, o MPLA ganhou estas eleições da única maneira que sabe ganhar: recorrendo à fraude! O MPLA está no poder desde 1975 e tem controle sobre todas as estruturas de Estado e mesmo daquelas que devem por definição ser independentes. A CNE, uma dessas estruturas e por sinal a responsável pela organização e realização do processo eleitoral, esteve desde o início a revelar o seu posicionamento parcial, favorecendo o partido no poder. Para citar apenas um caso flagrante, a Presidente dessa Comissão, uma conhecida responsável do braço feminino do MPLA, foi nomeada ao arrepio da lei. Depois de manifestações exigindo a sua demissão, nomeada para ocupar aquele ca. De acordo com a Constituição imposta pela maioria absoluta do MPLA, o presidente é eleito de forma indireta, andando à reboque do partido. A explicação para os resultados é única: Fraude!
GS - Como foram manipuladas as eleições, na sua opinião?
LB - Desde o início do processo que o MPLA, usando a CNE como capa, se desviou do espírito da Lei Geral Sobre as Eleições, aprovada em Dezembro de 2011, sem que fosse chamado à responsabilidade, de forma totalmente impune. Quando os partidos da oposição denunciassem esses desvios, a CNE não só não os avaliava de forma isenta, como acusava esses partidos de má-fé e anti-patriotismo. Houve uma recolha anarquica de cartões eleitorais por todo o país meses antes das eleições, não se obedeceram os prazos para publicação dos cadernos eleitorais que permitiria aos eleitores reclamarem, não foram credenciados nem os delegados de lista dos partidos da oposição nem os próprios formandos da CNE até horas antes da eleições, os tempos de antena na televisão e rádio nacional (estatais) eram atribuídos por excesso e de forma abusiva ao MPLA, entre dezenas de outras arbitrariedades que se acumularam para facilitar a fraude. O resultado? Uma taxa de abstenção que triplicou em relação as eleições de 2008 que para ser explicada terá de se entender a influência do MPLA em todos os bairros, vilas, aldeias do país. A recolha de cartões foi feita em zonas identificadas como sendo de influência da UNITA, principal partido da oposição. Milhares de pessoas reclamaram furiosas por terem sido colocadas para votar em zonas distantes das suas residências, até em províncias diferentes, distando acima de 1500 Km das zonas de onde vivem. Isso não foi casualidade. Eu pessoalmente trabalhei com um coletivo de pessoas numa plataforma de monitoração eleitoral e recebemos centenas de telefonemas de eleitores denunciando um sem número de irregularidades. Elas podem ser acompanhadas na íntegra no site eleicoesangola2012.com
GS - Qual foi o espírito geral do povo em relação às eleições? Acredita que uma democracia de verdade está chegando ou que tem outros motivos para ter uma eleição assim agora?
LB - Eu não posso falar em nome de todo o povo angolano, mas tendo em conta aqueles que gravitam na nossa esfera, que acorreram à nossa plataforma para reclamar no dia das eleições, que têm ligado para nós no programa que temos na rádio, fica-me a impressão que os cidadãos estão profundamente magoados e insatisfeitos com as trafulhices mal dissimuladas e sentem-se defraudados, pela terceira vez. Democracia não será implementada por um governo que continua a ter maioria absoluta no parlamento e com uma oposição de brincadeira como a que nós temos, que não conseguem sequer ter ações consequentes e coerentes com os seus discursos.
GS - Qual vai ser o efeito da eleição sobre liberdade de expressão e de partidos políticos da oposição na Angola? Como foram tratadas as pessoas críticas com o governo depois dos resultados?
LB - A mudança é irreversível e não depende nem das eleições, nem dos regimes fraudulentos que deles emanam. A juventude despertou e não mais estará disposta a calar-se, por mais que nos batam, que nos fraturem cabeças, que nos metam cocaína na bagagem, que nos raptem, que nos assassinem. A democracia está a ser imposta por nós, sociedade civil, e os governos irão ter de se vergar às vozes dissonantes porque só com outro 27 de Maio (o genocídio perpretado pelo MPLA em 1977 que aniquilou duas gerações de intelectuais angolanos) poderão ter um reinado tranquilo.
Diário Liberdade
ANGOLA24HORAS