domingo, 24 de julho de 2016

Angola. “a explosão de novos produtos tóxicos no nosso sistema bancário. “

  


A trepadeira: Como dizia o outro, "a melhor forma de assaltar um banco
  é geri-lo"


Noutro dia, um economista amigo, daqueles que já não se fabricam,
alertava-me para a iminência de ocorrerem no nosso mercado financeiro
novas implosões bancárias. Casos semelhantes ao do BESA. Este foi o
primeiro a céu aberto. E, oxalá, a última aventura. Mas isso, ninguém
garante. Ninguém! Nem por obra e graça do Espírito Santo!

GUSTAVO COSTA
NOVO JORNAL

Retive, por isso, com muita atenção o novo e providencial aviso do meu
amigo, porque não quero que o mercado volte a ser apanhado com as calças
na mão...E quero, sobretudo, que este professor universitário da velha
guarda, depois dos alertas que fez no passado, venha agora, finalmente,
ser levado a sério.

Porque, ouvindo-o, talvez evitemos novos terramotos financeiros. E,
desta forma, a explosão de novos produtos tóxicos no nosso sistema
bancário. Até porque este é demasiado volátil e os seus cofres estão
ensombrados com muitas teias de aranha.

Evaporam-se numa nebulosa que está a fazer com que alguns bancos, com
cheques empoeirados, andem a afugentar clientes. Angolanos e
estrangeiros. Quem vem de fora e acredita no sistema, como nós
acredita(vá)mos, sente-se desacreditado! Porque vê, como nós, os
escândalos entranharem-se nas suas artérias bancárias. Porque vê, como
nós, depois, tudo ficar na mesma...

A partir daqui, instala-se um sentimento de desconfiança dos cidadãos em
relação às instituições bancárias. O que é grave. Gravíssimo! Porque uma
boa parte dos nossos funcionários bancários não é, em muitos aspectos,
infelizmente, digna dos títulos que ostenta. Chega mesmo a ser descarada
na pretensão de ser parte de um negócio que, sendo dos clientes e dos
bancos, finge não saber que não lhe pertence!

É claro que nem toda a gente se comporta desta maneira mas, que há por
lá alguns "salgadinhos" à solta, que acham que o dinheiro dos clientes é
para ser repartido pela maralha do balcão, lá isso há! Toda a gente,
manipuladores e manipulados, sabe disso. Mas, toda a gente, finge não
saber...

Como noutras fortalezas aparentemente inexpugnáveis, por lá, em muitos
casos, também não se está a conseguir proteger o trabalho, o
profissionalismo, a honestidade e a transparência contra a ganância
financeira dalguns gangsters. Não havendo essa protecção, assim não
vamos lá...Mas, se não vamos lá nós, é preciso ter cuidado porque, eles
vêm até nós, com a ameaça de novas implosões.

É claro que o meu amigo, com acesso a informação privilegiada, não abriu
o jogo todo mas, pelo periclitante ritmo dos batimentos cardíacos
dalguns bancos, não é difícil desconfiar o que nos espera...Na mesma
medida em que, mantendo o segredo, todos desconfiam onde possa residir o
segredo da desgraça dos clientes: aqui ou lá fora, está na arte de gerir
os bancos...

Por isso é que, como dizia o outro, "a melhor forma de assaltar um banco
é geri-lo"...E, sob essa extremosa gestão, no meio da nata das nossas
finanças, que inclui economistas, advogados, juristas, professores
universitários, auditores e o próprio BNA, como entidade de supervisão,
tudo tem falhado!

Só se conhece o fim da boda, depois da falência! Mas, até aí, nunca
ninguém sabe do paradeiro do BNA, que finge nada ter descoberto a tempo
e horas.

É verdade que há sempre gente que pode perder a inocência mas, essa
gente nunca ganha a culpa... É gente que nos faz perceber que, como diz
o Henrique Monteiro, a melhor forma de contribuir para a falência de um
banco é, afinal, não saber o que lá se passa...

E porque não se quer saber? Porque alguns dos nossos banqueiros são
vistos como criaturas divinas. Acontece que essa divindade, que não é o
mesmo que virgindade, desmorona-se facilmente como um baralho de cartas.
Basta vê-los confundirem-se com artistas, que andam a tiracolo com uma
mala de cheques para os distribuir por toda a gente.

E, não julguem que esses sujeitos se parecem com gangsters. Nem pensar!
Comportam-se como ilustres CEO, que sabem muito bem como funciona a
engrenagem da "lavandaria", em Andorra, em Liechtenstein, no Luxemburgo
ou no Mónaco e, por maioria de razão, aqui...

É um mundo em que, como diz Pacheco Pereira, se sabemos mais, percebemos
menos. E se percebemos mais, sabemos menos...E saberemos cada vez menos,
se do novo governador do Banco Nacional de Angola, a imprensa
especializada e o empresariado local, não conhecer a sua visão sobre o
que é primário num banco central: a política monetária.

A banca comercial, sacudida com algumas multas, num gesto simbólico que
pode vir (ou não) a merecer crédito, aguarda o mesmo...

O que sabemos limita-se, afinal, à sua integração na geração dos
chamados "novos talentos". Sabemos, portanto, muito pouco, do muito que
se deveria conhecer de um governador do BNA, cujo perfil distingue-se
por: não bastar ser um experimentado técnico ou conhecedor dos
ziguezagues petrolíferos. Que o diga Amadeu Maurício, antigo
vice-ministro do plano, depois de uma passagem discreta pela Sonangol.

Também não bastar ser um alto funcionário do Estado com a categoria de
vice-ministro da indústria. Que o diga Abrãao Gourgel, protagonista de
uma presença algo deslocada naquele edifício pombalino.

Não bastar ainda ser Ministro das Finanças. Que o diga José Pedro de
Morais, que antes de o ser, fora Ministro do Plano e, por mérito
próprio, conquistara assento no Board do Fundo Monetário Internacional,
numa trajectória que, por si só, não constituiu, à partida, uma
"garantia soberana" para tratar "por tu" a gestão do BNA.

E, sem essa "garantia soberana", nunca conseguiremos travar o
crescimento da trepadeira e proclamar o fim da boda. Está à vista...




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