terça-feira, 3 de março de 2015

O retorno traumático (de Angola). Eles tinham muito frio e queriam ser refugiados





Por Ana Sá Lopes

A independência das colónias levou ao êxodo de mais de 500 mil portugueses para a "Metrópole", onde muitos nunca tinham estado. Foi um choque emocional para os que perderam tudo e chegaram a uma sociedade diferente. A integração não foi fácil: Eles tinham frio, queriam tomar banho todos os dias e usar calções nas cidades pequenas do conservador Portugal dos anos 70 - onde não se tomava banho todos os dias e o resguardo no vestir tinha a máxima cotação na bolsa de valores do tempo. Alguns gritavam que não eram "retornados" mas "refugiados" - porque ninguém retorna a um sítio onde nunca esteve, como era o caso dos mais novos e das segundas e terceiras gerações de colonos.
Em 1974-1975, estes estranhos migrantes não foram recebidos com excessos de simpatia: para o português comum - que por essa altura se tinha genericamente transformado numa criatura mais ou menos revolucionária -, aqueles homens e mulheres lembravam as chagas do passado que era urgente afastar da memória: o colonialismo e a exploração de outros povos por um povo, neste caso o nosso. Na maioria dos casos eram olhados de lado - para além do uso do vestuário menos convencional. Andaram a explorar os pretos e agora querem batatinhas? Este sentimento atravessou a sociedade portuguesa, que se tinha tornado subitamente anticolonialista na sua relação com os retornados - afinal eram eles, e não o português comum, os verdadeiros colonos, os autênticos sujeitos da exploração dos povos que iriam conquistar agora a independência. O facto de muitos continuarem a manter o discurso "colonialista" - completamente contra o espírito do tempo - também dificultou a integração.
A palavra "retornado" transformou-se numa expressão utilizada com fins depreciativos. Em certo sentido, os retornados também serviram de expiação colectiva do colonialismo português: nós, os que nunca sairam do rectângulo, nunca fomos defensores do colonialismo e, acima de tudo, nunca tratámos mal os colonizados. Eles sim, eram os verdadeiros defensores do colonialismo.
De resto, nós éramos genericamente pobres, eles eram genericamente ricos - ou pelo menos tinham dinheiro para uma multidão de criados africanos. Em muitos casos, também não contribuíam para uma esplêndida integração: agora que eram pobres não eram agradecidos e continuavam, em alguns casos, a ostentar a arrogância dos terratenentes dos espaços largos e a atirar-nos pouco delicadamente à cara a nossa pobreza estrutural.
Só os retornados não brancos escaparam - parcialmente - a este conflito de culpas nesses dias do fim do império. Quando em 1984 Fernando Dacosta publica a sua grande reportagem "Os retornados estão a mudar Portugal" no semanário "O Jornal" estes problemas tinham-se desvanecido. Tinham passado nove anos sobre a grande ponte aérea do Verão de 1975 e Portugal tinha conseguido sem convulsões históricas ultrapassar o retorno traumático de mais de 500 mil pessoas, o equivalente a mais de 5% da população residente no país nesse tempo. Com apoios do Estado [o famoso IARN, o Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais], ajudas financeiras de outros países e o funcionamento da rede familiar, a situação de calamidade em que num primeiro momento viveram os retornados - que em muitos casos trouxeram mesmo só a roupa que tinham vestida e perderam todos os seus bens - foi estancada.
O IARN é criado em Março de 1975, quando já tinha começado o êxodo das ex-colónias, mas antes da grande ponte aérea. Foi fundado com o objectivo de "estudar e propor superiormente as medidas necessárias para a integração na vida nacional de todos os cidadãos portugueses [...] que se deslocassem dos territórios ultramarinos para território nacional, com o fim de nele se fixarem, qualquer que fosse a sua proveniência, assegurando a disciplina do seu afluxo e a defesa dos seus direitos".
Muitos teriam preferido ficar, mas a ideia relevou-se impossível face aos conflitos crescentes nos territórios em processo de independência. O "Expresso" cita um comunicado da 5.a Divisão do Estado-Maior General das Forças Armadas feito no início de Julho de 1975: "As populações estão tremendamente traumatizadas, pelo que se afigura extremamente difícil manterem-se aqui." O retorno foi em grande parte uma fuga.

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