segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Inflação e salário mínimo. Carlos Rosado de Carvalho


Há cerca de oito meses defendi nesta coluna um kwanza mais fraco para uma economia mais forte.
O racional era simples: Ao tornar os produtos estrangeiros mais caros, a desvalorização do kwanza abre oportunidades de investimento aos produtores nacionais. Mais investimento gera mais emprego, além de ajudar a diversificar a economia.

Carlos Rosado de Carvalho
EXPANSÃO

A taxa de câmbio é o preço da moeda estrangeira em unidades de moeda local. Numa economia de mercado, o preço de qualquer bem ou serviço, desde as bananas, às limpezas domésticas, passando pelas divisas, é determinado pela procura e oferta. Diz a lei da procura e a oferta que, quando a procura aumenta e a oferta diminui, os preços sobem, e vice-versa. A subida/descida de preços modera/incentiva a procura e volta-se ao equilíbrio. Em Angola, no mercado cambial oficial, como o preço é administrado pelo BNA, a lei da oferta e da procura não se aplica.
Há sete anos, aquando do choque petrolífero de 2008, o banco central resistiu em desvalorizar o kwanza. O resultado foi uma sangria desproporcionada das reservas de divisas que obrigou o País a bater à porta do Fundo Monetário Internacional (FMI). Para libertar o empréstimo de ajuda à balança de pagamentos de Angola, a instituição pôs como condição a desvalorização do kwanza, e o BNA não teve outro remédio senão seguir o conselho dos homens de Washington.
Desta vez, o BNA já deixou o kwanza desvalorizar cerca de 20%. É um progresso mas não sei se chega. O enorme diferencial entre a taxa de câmbio oficial e a das kinguilas, supostamente mais próxima do mercado, sugere que o kwanza pode enfraquecer mais. Digo "supostamente" porque o mercado informal de divisas tem pouca liquidez e qualquer acréscimo de procura, ainda que pequeno, faz disparar o dólar.
O certo é que o BNA tem resistido em desvalorizar ainda o kwanza com medo que a inflação aumente. Os receios são fundados. Quando uma moeda desvaloriza, os produtos estrangeiros tornam-se mais caros. Numa economia, como a angolana, que compra fora uma parcela significativa do que consome, a subida da inflação torna-se inevitável.
Embora menos famosa do que a lei da procura e da oferta, a curva de Phillips, desenvolvida pelo neozelandês William Phillips, ensina-nos que, no curto prazo, existe um trade-off entre inflação e desemprego. Em termos simples, isso quer dizer que, para termos mais emprego no curto prazo, temos de aceitar mais inflação, e vice-versa. Parece-me ser esta a situação em que se encontra a economia angolana.
Ao tornar os produtos estrangeiros mais caros, um kwanza mais fraco abre oportunidades de investimento ao feito em Angola. Mais investimento gera mais emprego. Como esse investimento será fora do petróleo, isso ajuda à diversificação da economia e à redução da petrodependência. Cabe às autoridades angolanas decidirem o que fazer: insistir na defesa do kwanza ou deixá-lo enfraquecer ainda mais.
Como há oito meses atrás, eu já escolhi: Para uma economia mais forte, eu voto num kwanza mais fraco... Não quero com isso dizer que a desvalorização é a panaceia para todos os problemas da economia angolana. Não é. Mas pode ajudar.
Com quebra de mais de 50% das exportações, não angariamos dólares suficientes para financiarmos as exportações a que nos habituamos. Por isso não nos resta outra alternativa senão comprar produtos estrangeiros na medida das nossas capacidades e não das nossas necessidades. Nem a recente subida da inflação me fez mudar de ideias acerca dos benefícios do kwanza fraco.
Há muito que sei que em economia não há almoços grátis. Depois de três anos estacionada abaixo dos 10%, a inflação homóloga voltou a escrever-se com dois dígitos no mês passado. E não deverá ficar por aqui. Sucede que a inflação é uma espécie de imposto escondido. Quando os níveis de inflação são elevados, os aumentos dos salários não acompanham o ritmo de crescimento dos preços, corroendo o poder de compra dos trabalhadores.
Ou seja, tal como o imposto sobre os rendimentos do trabalho, a inflação acaba por reduzir o rendimento real de quem vive do salário. É precisamente este o risco que correm os trabalhadores angolanos. Mas não podemos tratar todos da mesma forma. A dieta forçada a que estão sujeitos não permite ao Estado e a um grande número de empresas aumentarem os salários. Não sendo possível repor o poder de compra a todos, creio ser de elementar justiça actualizar o salário mínimo de acordo com a inflação.


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