sexta-feira, 25 de abril de 2008

SEM DESTINO E SEM FUTURO



A minha longa jornada sucedia cuidada. Moscas, lixo, poças de águas sujas, buracos e assaltantes Ufolos à espreita. A Rádio Oráculo actualiza o numeral colérico: Quarenta mil infectados, e mil e quinhentos mortos.
Apercebi-me, afastei-me, segurei-me. Vi alguém assomar-se num terceiro andar, e zás! O conteúdo dum alguidar é atirado. Que assomo! É água com restos de peixe. Remiro para cima, vejo o deserto. As atiradoras são mais rápidas que um rato. Fazem lançamentos como no jogo das escondidas. São finas como ratos na madrugada. Desalentam-se saber bem ou certo, é mais fácil assim. Nas varandas preparam a comida, desajeitam-se em deitar a água suja na pia. Escolhem o caminho preguiçoso. O entupimento séptico está na Média. Tudo porta a fora.
Revejo as lâmpadas acesas dia e noite. A energia parece gratuita, ninguém assume pagar, ou os Abdéritas têm cegueira diurna. Estudam o manual de como desperdiçar energia facilmente, que é distribuído gratuitamente. Há intenção de não querer saber, ninguém requerer atenção ao outro. O chamamento de antemão é entonado, destoado: «não chateia pá!» na insistência segredam: «deixa-o falar, vai-se cansar!».

- Maremoto conduto!!!
- Não! É de moto-próprio!
Assustei-me e desassustei-me. Mais uma conduta de água quebrou-se. A água liberta da prisão jaz caudalosa, persegue os interstícios do solo desestabilizado. Concebe uma via rápida com cratera. O rio chegado arreda coisas e pessoas. A visita líquida é desejada pelas crianças, que se fantasiam de rãs e sapos. Atiçam-se:
- Vamos brincar no rio das condutas!
Um mais crescido, taciturno, explica solenemente á criançada:
- Chama-se rio das condutas, porque tem nascentes em todo o lado. Mas, ninguém sabe explicar onde nasce.
Um poeta de última geração é rimado pelo ritmo caudal. Refaz-se, impoluto rebrilha o cabedal dos sapatos nos intervalos da calçada. Processa cantante:

Nesta planície de petróleo jorrante, jactante
De sol e solo exuberantes.
Descontraídos novos-ricos cativantes
De desconstruídos, expectantes
Currais eleitorais errantes
Requisitados, mal abençoados
Pela natureza Humana
De festeiros participativos 24 sobre 24 horas
Que fortaleza tem esta tristeza!
Viver na extrema pobreza!

Muitos… muitos jovens deambulam. A facturação dos biliões petrolíferos sobe, o desemprego também. Novas ruas novos nomes: ruas dos desempregados, apinhados. Futuros continuadores da involução Abderita. Sem estudos, sem ciências humanas, morais, e sociais. Apoiados por pretensa ciência, lentes na ciência penitenciária. Futuros trapeiros patriotas, neófitos vendedores de tralhas para aquecer. Os cavaleiros andantes nas justas pela libertação descuidaram brechas da neocolonização. Olvidaram o buraco negro da aldeia global, a senda triste da eterna escravidão neocolonialista.
Pode-se ruminar que não há emprego para ninguém. É constante noticiar mais desemprego. Despedidos porque a empresa faliu, ou há trabalhadores a mais. Mil e umas estratégias sem lei nem rei para trabalhadores autónomos, que do pé para a mão, são pregadores no deserto. Os Abderitas lixados emparceiram com rebuçados, bolachas, cigarros, e cacarecos que as esposas remendam. No mar de lama da magnitude da globalização empresarial, peixe graúdo abocanha peixe a miúdo.

O polícia, monta guarda num mercado de rua. De vez em quando volteia, passeia, pára. De olhar frouxo repara, enquanto descansa o peso dos braços nas mãos enlaçadas, nas costas coladas. Está armado e equipado. O telemóvel espalha sem som nem tom o seleccionado timbre horripilante arquivado. À velocidade de cágado dormente desenlaça uma mão, solta o telemóvel da cintura, petrifica-se. Está colocado pelos Ufolos.
- Passa o telemóvel!
É um dia de juízo para a polícia. Chegou um carro patrulha com seis polícias diligentes. Apeados, encafuam-se nas ruelas. Um tenro Ufolo alarma a combinação. Culpados e inocentes dão nos cascos. A terra freme como cavalos de corrida num hipódromo. Os incansáveis vigilantes dos dias e das noites, polícia não dorme, aprofundam-se, aferram-se nos labirintos. A missão seja ela qual for, é sempre para repor a legalidade. Enquanto aguarda pelo restabelecimento da lei, o motorista afunda-se no assento com as mãos na nuca. Ficou pachorrenta sentinela na viatura. Atira uns réditos para uma donzela bem nutrida de carnes frescas. Ela não dá cavaco. O vencimento de polícia está num escalão tão baixo que não dá para comprar um sutiã. Ela pisca-lhe os olhos com tal intensidade, que parece que o circuito de voltagem óptico se desregulou. Ele não entende a mensagem semafórica, acredita que ela está no ponto nevrálgico. A carne quente dele rejubila, solta o verbo.
- Estamos muito quentes, vem, vamos arder!
- Burro! Os bombeiros chegaram….
Os Ufolos chegaram, cercaram-no à má cara. Crianças com armas de guerra aperradas, e armas brancas afiadas, dos filmes imitadas, cópias de segurança efectuadas. Ainda não tem noção do matar, do coração parar. Por isso matam, como se fosse a brincar. No abandono da inocência pedem meças:
- Sai daí, vamos dar uma volta, depois regressamos.
E foram passear, dar umas voltas pela cidade com as deselegantes da mesma idade.
- Mentor, este conflito entre Ufolos e Fulanos permanecerá por milhares de anos.
- Dou o meu acórdão. Nalguns bairros os Ufolos disputam a invisível força armada da defesa civil militarizada. Sem abrir concurso, os Ufolos impõem soirée até à matina.

Gil Gonçalves

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