quarta-feira, 16 de julho de 2008

Sinais dos Tempos. Odebrecht


A existência de subsistemas profundamente diferenciados é claramente aparente no setor da construção. Particularmente significativo é o universo das grandes empreiteiras como Andrade Gutierrez, Camargo Correa, Mendes Júnior, OAS, Odebrecht e outras, especializadas em grandes obras de infraestruturas. Como este tipo de obras é em geral financiado por recursos públicos, já que se trata de mega-investimentos com retornos difusos e de longo prazo, estas empresas desenvolvem um sistema de apropriação dos mecanismos políticos de decisão, visando obter acesso privilegiado aos contratos. Não se trata aqui de uma particularidade do Brasil. Estimativas relativas ao México, por exemplo, avaliam em algo como um bilhão de dólares o que as empreiteiras transferem anualmente para os bolsos dos políticos.

No caso brasileiro, foi amplamente documentada a “folha de pagamentos” das empreiteiras, sustentando funcionários públicos, deputados e senadores, gerando na realidade um sistema paralelo de poder. Como as empresas estão estreitamente articuladas entre sí, praticando o rodízio de acesso a contratos, com regras do jogo bem definidas, as diversas proteções tradicionais como os mecanismos de licitação tornam-se inúteis. Os resultados práticos são obras cujos custos são onerados não por 10 ou 12% de dinheiro de propinas como acontece frequentemente nos próprios países desenvolvidos, mas por valores que frequentemente ultrapassam em 300 ou 400% o custo real da obra.
[1]

Os custos são absolutamente gigantescos. Para dar um exemplo, duas operações da Andrade Gutierrez com a Companhia de Energia do Estado de São Paulo, Cesp, resultaram numa dívida de US$11 bilhões: “Por trás de cada dólar que compõe essa dívida é possível encontrar histórias de relações incestuosas entre governantes, banqueiros e empreiteiros de obras públicas, pontuadas por suspeitas de corrupção, superfaturamento e privilégios negociais.”
[2] Exemplos como estes abundam nas diversas áreas, levando ao desvio de dezenas de bilhões de dólares. Os fantásticos recursos levantados permitem alavancar a nomeação de testas-de-ferro das próprias empreiteiras nos diversos departamentos do Estado, e a eleição de candidatos com campanhas milionárias, gerando um círculo vicioso extremamente difícil de se romper. E tratando-se, como neste exemplo, de uma empresa Estatal, buscar-se-á a sua quebra e ulterior privatização, gerando novos lucros.

In A Reprodução Social.
Ladislau Dowbor

[1] - Para dados sobre o México, ver Business Week, 13 de maio de 1996; as “folhas de pagamentos” e cerceamento de concorrência utilizados por empreiteiras no Brasil foram amplamente documentadas em numerosos artigos da imprensa, particularmente Folha de São Paulo.
[2] - José Casado, Arquivos mostram corrupção na Cesp, O Estado de São Paulo, 12 de maio de 1996
Sinais dos Tempos. Odebrecht. Por, Ismael Mateus.

De quando em quando, vemos o presidente da empresa Norberto Odebrecht ser recebido pelo presidente Eduardo dos Santos e, acto contínuo, falar na imprensa dos grandes projectos para Angola. O que espantou desta vez é termos ouvido muitas vezes a palavra ajuda e o anúncio de um grande investimento da empresa ao nosso país, passando-se aos menos atentos a ideia de que, na verdade, estávamos em presença de uma acção benemérita para o nosso país.

Certamente o presidente da Odebrecht terá pretendido falar de aplicação de capital em negócios que lhes permitirão ganhar o dobro, o triplo ou mais, o que nada tem a ver com a ideia passada de um investimento de 600 milhões de dólares pela grande amizade e ajuda a Angola.

Há um reconhecimento histórico que era devido àquela empresa brasileira pelo facto de se ter decidido a envolver em projectos quando todos tinham medo de cá vir. Capanda é disso exemplo. Porém, passados tantos anos e depois de tantos negócios oferecidos à Odebrecht, já não há dividas morais e o saldo financeiro e social é claramente favorável à Odebrecht.

Nestes mais de vinte anos, o nosso parceiro filantrópico galgou por mais de sete províncias do país e entrou por várias áreas de actividade, qualquer delas mais lucrativas que a outra: construção civil, diamantes, sector imobiliário, e prestação de serviços. Centenas e centenas de brasileiros fixaram residência em Angola com salários nunca imaginados no seu país ou em empresas brasileiras que prestam serviços à Odebrecht-Angola, melhorando automaticamente os seus lucros.

Em Angola, instalou-se a dúvida sobre a qualidade das obras. Centenas de postos de trabalho foram e são ocupados por estrangeiros durante anos a fio; os salários entre uns e outros que fazem o mesmo trabalho são largamente diferenciados; em mais de 20 anos nenhum angolano conseguiu pertencer aos quadros directivos da empresa e até os mais básicos produtos operacionais da empresa ou de consumo do pessoal vem do Brasil. Absolutamente tudo vem (leia-se compra-se) do Brasil, como se vê nos chamados malotes aéreos.

Os 600 milhões de “investimentos” serão mesmo uma ajuda? Quanto ganha a Odebrecht em Angola? Qual é a percentagem desse lucro gasto em responsabilidade social?

A visão filantrópica que se pretende impingir com a ideia de uma alegada ajuda a Angola é, na verdade, um insulto à nossa inteligência. Algumas das práticas da Odebrecht são armadilhas sociais e de custo não calculável. A durabilidade de algumas obras pode duplicar os custos, se tivermos em conta o tempo de vida inicialmente previsto. O sector petrolífero e empresas de maior porte internacional como a BP e com muito menos anos de Angola, conseguem dar sinais claros de angolanização, enquanto que a cada projecto da Odebrecht vêm mais cidadãos brasileiros. De que ajuda estamos afinal a falar, o essencial que é a aposta no homem, no seu know-how e na sua capacidade de se autonomizar não acontece com os quadros angolanos?

É inacreditável que, mesmo em ano eleitoral, ninguém acabe com essa farsa filantrópica de Emílio Odebrecht, e os nossos políticos. Já agora, não perguntem àqueles jovens operários vestindo fardas feitas no Brasil, se não gostariam de ser mestres de obras, directores de serviços ou directores gerais de uma empresa que já leva mais de 30 anos de chorudos negócios no nosso país.

In Ismael Mateus. Jornal, O Cruzeiro do Sul (Benguela, Angola). Ano III, Edição 135 de 21 a 28 de Junho de 2008.
Imagem: http://www.cpires.com/fotos_de_benguela.html
Gil Gonçalves

terça-feira, 15 de julho de 2008

Figura da Semana. Bettencourt Faria











Estava em Luanda com o meu amigo Carlos Alberto Tavares Ferreira, no café Paladium, na Avª dos Combatentes, quando ele me segreda: «Sabes quem morreu?» «Não!» «O Bettencourt Faria… porra meu… foi assassinado pelo Mpla.

Reviverei sempre com o nascer da Terra
Apesar de levar o meu sorriso de tristeza
No sono, no entardecer
Da mortal ideologia a fenecer
Na incerteza

Na certeza que:
Existe sempre um dia. O meu dia
Assim como existem e se ultrapassam anos
E tantos e tantos cometidos danos
E silêncios
Neste infinito nevoeiro do Tempo que se dissipa
E o Tempo se lembra de mim
Perdurará sempre um dia

Escrever é comunicar o que não pode ser dito
Não interessa nem um pouco,
se estamos vivos ou mortos
O importante é que viajámos e conhecemos o Tempo
Da vivência no circo, na feira do devo e não pago
E assim se enriquece. Viver para morrer,
viver para roubar sem exaustão
Na espera da morte, porque é a ilusão da vida
Por vezes consigo passar para outra dimensão.
Já não vejo as coisas como eram, mas como são.
Gil Gonçalves

Guardei dos tempos da faculdade – anos setenta – um recorte de jornal que fala sobre Bettencourt Faria, a propósito da sua morte. Considero um bom texto e uma boa homenagem a um Português ilustre, e por isso aqui o transcrevo; o título é "Vida e morte de Bettencourt Faria" e o subtítulo "CRIME BÁRBARO E NEFANDO PRATICADO NA PESSOA DE UM HOMEM PACÍFICO QUE MUITO AMOU ANGOLA E MUITO CONTRIBUIU PARA O SEU ENGRANDECIMENTO". É pena o texto não estar assinado, pois foi com certeza escrito por alguém que o conheceu muito bem.

«Vida e morte de Bettencourt Faria»

«Eu sou daqueles que acreditam neste país e nas suas gentes; sou dos que vieram para ficar; dos que deram os melhores anos da sua vida por um ideal ao serviço do povo angolano. As minhas actividades foram, são e serão sempre apolíticas, dedicadas ao bem comum, à elevação constante do nível cultural de toda uma comunidade». Estas palavras foram proferidas por Carlos Mar Bettencourt Faria em 8 de Dezembro de 1974, durante uma entrevista que concedeu a um jornal angolano. Ano e meio depois, é barbaramente assassinado enquanto dormia.

Quem conheceu este homem ou a sua obra sabe que este acto de selvajaria representa uma perda que vai além da morte física de um ser humano; ela é uma perda para a Humanidade porque corta cerce a vida e a realização de Bettencourt Faria que dificilmente terá continuadores para a sua extraordinária empresa.

O Centro Espacial da Mulemba, situado a 13 km de Luanda foi o sonho de um homem que nasceu génio. Construído com enormes dificuldades económicas, tornou-se uma realidade que causava a admiração e o apreço de muitos e o despeito de alguns. Carlos Mar Bettencourt Faria nasceu em Lisboa há 52 anos, em 13 de Fevereiro. Educado quase sempre pelos avós, viveu a sua infância na Ilha de S. Miguel, onde seu pai exercia medicina. O seu primeiro "êxito" científico teve-o quando um aparelho de fisioterapia de seu avô se avariou, impedindo que os doentes pudessem receber tratamentos. Na ilha não havia quem o reparasse. Isto preocupou o jovem Carlos Mar, que apesar dos seus dez ou onze anos se propôs repará-lo. Numa noite inteira de trabalho, montando e desmontando peças e mecanismos extremamente complexos, conseguiu pôr a funcionar o aparelho.

O seu espírito inventivo e a determinação que foi uma constante da sua vida, revelavam-se a par e passo nas suas brincadeiras de criança. Como gostava de música, aprendeu a tocar violino, mas o instrumento foi construído por ele. Tocava também piano, pintava e fazia pequenas esculturas. Nos primeiros anos de liceu, em que parece não ter sido muito brilhante nalgumas disciplinas, construiu uma telefonia que ofereceu ao liceu. Isto passou-se há cerca de quarenta anos, quando a rádio era uma invenção recente e complicada. Aos 14 anos o pai de Carlos Mar faleceu e ele interrompeu os seus estudos, ficando a viver com os tios. Teve empregos de ocasião, mas nas horas vagas dedicou-se intensamente ao estudo do que lhe interessava: electricidade, maquinismos, biologia, astronomia, e muitas outras coisas que formaram a sua enorme bagagem intelectual e científica. Com vinte anos vem para Lisboa prestar serviço militar, após o que ingressa no Alfeite, onde trabalha dois anos. Entretanto, prepara-se para um concurso na TAP em que se classifica em segundo lugar e é colocado nos Açores. Quatro anos depois regressa a Lisboa e aceita um convite para trabalhar na Diamang em Angola. Entretanto casara com uma sua prima afastada, Stela Maria Faria Patrício de quem teve dois filhos.

Na Diamang, além do excepcional técnico que se revela, tem ocasião de ir investigando e estudando os assuntos que mais lhe interessam: astronomia e biologia, especialmente marítima. Para o estudo de ambas as coisas necessita de aparelhagem adequada e isso fá-lo debruçar-se mais atentamente sobre o estudo da electrónica, matéria em que se torna tão competente que os dirigentes da refinaria Petrofina em Luanda o contratam para funções altamente especializadas.

Entretanto, vai arquitectando a forma de construir um observatório astronómico naquela região. Com grande esforço financeiro compra um terreno na Mulemba, num local isolado, mas que ele considerava tecnicamente de muito bem situado para os seus estudos astronómicos. O empreendimento tem por finalidade fazer estudos solares, nomeadamente: fotografias integrais diárias, contagem de manchas, heliografia, espectrografia e heliografia, recepção de ondas electromagnéticas; fazer qualquer espécie de astro-fotografia; proceder a estudos de radioastronomia e rastreios de satélites artificiais. Neste último trabalho, Bettencourt Faria foi o único português que registou e fotografou em aparelhagem apropriada os sinais emitidos pelo primeiro Sputnik russo. Note-se também que em todo o Continente Africano é este o único observatório que consegue este trabalho.

Muitos foram os países que relataram as actividades do Observatório da Mulemba e elogiaram o talento excepcional de Bettencourt Faria, mas os organismos oficiais portugueses, especialmente aqueles que mais directamente deveriam congratular-se com o êxito obtido por um cidadão português, observatórios e seus dirigentes, ficam estranhamente mudos. O triunfo de Bettencourt Faria faz sombra aos seus «colegas» de actividade. Em Angola, no Observatório Nacional os «especialistas» consideravam Bettencourt Faria uma espécie de aventureiro da ciência. Talvez o fosse, mas no melhor sentido da palavra. Há excepções muito honrosas de entidades que lhe deram apreço.

Está neste caso um dos actuais directores do Serviço Internacional da Fundação Gulbenkian, Dr. Mário António Fernandes de Oliveira, que trabalhou no Observatório Nacional de Luanda e teve oportunidade de conhecer Carlos Mar Bettencourt Faria, quando este procurava apoio nos serviços do Observatório de Luanda. «Era um homem extraordinário, tanto no aspecto humano como na sua qualidade de investigador e cientista», diz-nos o Dr. Fernandes de Oliveira – «vinha muitas vezes à biblioteca do Observatório Nacional buscar livros técnicos que ninguém ainda havia requisitado, talvez por serem "demasiado" científicos, mas para Bettencourt Faria nada era "demasiado", desde que relacionado ao saber. E ele não só os lia como os traduzia para português, pois quase sempre estavam escritos em línguas estrangeiras que ele dominava perfeitamente.

Ao traduzi-los, ia introduzindo-lhes anotações dos factos que ele próprio descobrira relacionados com a matéria. Dedicava-se a uma série de actividades que dariam para meia dúzia de sábios. Enfim era um trabalhador incansável e o seu espírito de iniciativa e a tenacidade com que lutava pelos ideais faziam dele um homem que não terá facilmente quem o substitua».

A NASA em Novembro de 1974 pede a colaboração do Centro Espacial da Mulemba, como viria ultimamente a chamar-se aquele Observatório. Baseando-se nos dados que recebe de Bettencourt Faria a NASA divulga-os a outros Centros Espaciais que se encontrem em condições de equipamento idênticas à Mulemba e que não conseguiram obter os mesmos resultados, o que surpreende agradavelmente a NASA, em relação à competência de Bettencourt.

Resta dizer que a maior parte das peças de equipamento que eram utilizadas naquele Centro provinham da recuperação de aparelhos que se consideravam incapazes e eram cedidos pelas mais diversas entidades, muitas vezes particulares e iam desde um velho frigorífico, à fuselagem de um avião abatido. O único apoio considerável recebido para equipamento, foi o de um subsídio da Fundação Gulbenkian no valor de quinhentos contos, mas que se considerava a título de empréstimo de equipamento, já que, por o Centro Espacial ser um organismo particular, a Fundação não podia conceder subsídio de outro cariz.

Recebeu também da mesma Fundação cinquenta contos para efectuar uma viagem de estudo à Alemanha, Inglaterra, Polónia e Itália. Os restantes apoios foram as palavras amigas e de encorajamento dalguns dos seus amigos e a dedicação e esforço com que a sua mulher partilhou as horas difíceis desse homem extraordinário. E nem sempre é fácil ser-se mulher de um génio. Hoje a viúva de Bettencourt Faria vive no Brasil com os seus filhos, pois seu marido obrigou-a a abandonar Angola o ano passado aquando dos tumultos sangrentos que ali se registavam.

Carlos Mar Bettencourt Faria era um português que recebeu dos estrangeiros o reconhecimento do seu mérito, enquanto os seus compatriotas o "tentavam" esquecer, amarrados à mediocridade de conceitos elitistas que se padronizaram pela obtenção de "canudos" e como Bettencourt era um autodidacta, não deveria ser reconhecido o seu mérito. No entanto, da National Environmental Satellite Service, recebeu Bettencourt Faria uma carta em que se diz: «Com o esquema do seu sistema APT, Bob Popham e Chuck Vermilliou do Centro de Voos Espaciais de GODDARD/NASA e eu, chegámos à mesma conclusão: você fez um excelente trabalho não obstante as frequentes dificuldades logísticas (de superintendência) que enfrentamos; ficámos particularmente satisfeitos em verificar a sua opção sobre elementos de lógica – usando, o que consideramos ser componentes seguros e comprovados. O seu Governo, tem muita sorte em dispor de alguém tão competente e dedicado como você na investigação tecnológica: AS NOSSAS FELICITAÇÕES».

Este foi o homem que em Luanda foi assassinado, vítima da desordem e do caos em que Angola foi lançada por inconscientes e traidores dos valores que deveriam ser a razão de ser do Homem, que em vez de Paz deixaram Guerra, que em vez de Civilização, deixaram Barbárie, em vez de Humanidade, Homicídio.

in «a ilustração» de 20 de Julho de 1976

Actualmente já há muito mais informação disponível na Internet em páginas feitas com muito gosto e empenho por um seu descendente Luís Filipe Bettencourt, por favor consulte: http://www.geocities.com/lfbettencourt/

In http://tvtel.pt/tvtel510/bettencourt_faria.html
Gil Gonçalves

Especulação Imobiliaria (II)


Dói muito mais arrancar um cabelo de um europeu

que amputar uma perna, a frio, de um africano.

Passa mais fome um francês com três refeições por dia

que um sudanês com um rato por semana.

Fernando Correia Pina, poeta português
In Democracia Económica.
Ladislau Dowbor

Os especuladores imobiliários por onde passam, corrompem governos, titanicam nações. Conseguem corromper um centímetro de terra e lá construírem um minimercado.

O rei disse ao general:
- A nossa secreta informou-me que você está envolvido no roubo das terras. Tratarei disso depois. Peço-lhe que não atente contra a vida de Job.
O general baldou-se. Quando viu o luxuoso avião particular do rei desaparecer no céu, mandou alguns dos seus homens de confiança darem uma grande sova a Job, mas de maneira que não o matassem. O corpo de Job ficou macadamizado. Job apanhou uma folha de bananeira para limpar as feridas. Tudo à sua volta parecia uma chuva de cinzas. Sentou-se nos restos da madeira queimada. A sua esposa disse-lhe:
- Ainda gostas do rei? Depois do que o general dele te fez? És muito parvo!
- As mulheres não entendem nada destas coisas. Apesar de o general me roubar tudo o que tinha, devo obediência e lealdade ao rei.
- Eu é que trabalho na terra!.. o teu fanatismo é escravidão, não é lealdade! És um grande atraso de vida! Onde estão os teus amigos, em quem tanto confiavas?
- Hão-de vir... Hão-de vir!
E chegaram alguns amigos que confortaram Job. Um disse-lhe que a sua conta bancária estava em baixo. Os outros tristemente confessaram que também lhes roubaram tudo o que tinham. Que o mal era geral. Trabalhar de verdade não era possível, porque roubar é fácil. Ficaram uns dias a acalentá-lo e sentaram-se nas sobras de algumas cadeiras. Depois cansados foram-se embora. Um deles ao despedir-se reafirmou:
- O reino da fome está combalido.

Apareceram alguns grupos de esfomeados que aproveitaram as sobras. O local ficou igual a um deserto. Job bocejou, apetecia-lhe dormir. Falou para o vento cúmplice que arrastava as cinzas:
- Tantos e tantos anos de trabalho em vão. Não dá para trabalhar na terra, porque depois vem um general e fica com ela. Finge que a trabalha à espera que surja um sócio estrangeiro. Mas eles já não acreditam nisso, e a terra abandona-se. Fica para acampamento de refugiados. As trevas dominam este reino. O rei está sempre lá em cima sentado no seu trono. Raramente desce, sobe, ou sai. Adora rodear-se de pessoas, que mais parecem lâmpadas fundidas, que dão pouca luz, ou acendem de vez em quando. A minha terra contamina-se, nunca mais nela nada crescerá. Resta-me olhar para as nuvens e para os restos das árvores, que parecem fantasmas ao luar. Tantos anos em vão que trabalhei. Agora tudo ficou igual às noites escuras. Nunca mais perderei anos, meses e dias nestas coisas.
E Job sente-se como o programa de arranque, o sistema operativo corrompido que não inicia o computador.
- Ah! Não vou ficar aqui toda a vida a olhar para a noite. Ainda me sobrou um tocador de CD portátil. Escutarei umas músicas e dançarei uns bons bocados. Chorar não adianta. Lembro-me que os colonos quando fugiram, preveniram-me que não valia a pena trabalhar na terra, porque depois de estar tudo bem, apareceria alguém que ma roubaria. Não acreditei, agora dou-lhes razão. Fui e continuo muito parvo. Pedir um empréstimo bancário? Nem pensar! Só se for para importar cerveja. Os bancos não arriscam fazer empréstimos a longo prazo. Consideram que investir na agricultura não dá lucros. Porque quando chegam as chuvas as culturas ficam destruídas. Depois há que fazer novo empréstimo. O lucro tem que ser imediato, caso contrário… não deixam nada.

Gil Gonçalves
Inicialmente publicado em: Eugénio Almeida Malambas

Vale a pena ouvir

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Mistérios da medicina. Faraós







Isto É - SP
06/02/2007 - 16:50
Em busca dos mistérios da medicina dos faráos

Cientistas ingleses iniciam expedição para entender por que os egípcios foram os melhores médicos do mundo antigo

Cilene Pereira
Divulgação
Prestigio O curso de formação dos respeitados médicos egípcios podia durar até dez anos
Na última semana, uma equipe de cientistas ingleses partiu para o Egito com uma missão especial: desvendar os segredos da antiga medicina praticada no país dos faraós. A escolha do destino é mais do que justificável.

Na Antigüidade, o Egito se destacou por sua excelência na prevenção e no tratamento das doenças. Até habitantes de outros países, como a Grécia, iam para lá em busca de respostas mais efetivas para seus problemas de saúde. Agora, chegou a vez de os pesquisadores da Universidade de Manchester desembarcarem em solo egípcio para descobrir o que tornou essa medicina tão poderosa.

Divulgação
O objetivo é encontrar no passado caminhos que ajudem a tratar as enfermidades atuais. “A medicina do Egito antigo era incrivelmente avançada para o seu tempo. Temos muito o que aprender para usarmos hoje, inclusive sobre remédios que poderiam ser úteis”, afirmou a ISTOÉ Ryan Metcalf, um dos coordenadores do projeto.

Um dos focos de estudo será o grupo de plantas terapêuticas usadas pelos médicos egípcios. Entre elas estavam a sene, utilizada como purgativo, e a romã, adotada contra infecções de garganta. A medicina dos tempos dos faraós combinava esse grande conhecimento sobre os benefícios de recursos naturais como plantas e alimentos com crenças e religião.

Os antigos egípcios acreditavam que as doenças eram provocadas por espíritos malignos, por limitações orgânicas evidentes, como traumatismos, ou teriam origem desconhecida, atribuída aos caprichos dos deuses. Por isso, o sucesso dos tratamentos dependia também da prática de rituais de magia por meio dos quais se objetivava a limpeza espiritual do paciente e se pedia a intercessão divina. Três divindades estavam associadas à saúde: Ísis, Osíris e Sekhmet.

Outro aspecto de destaque era o cuidado na formação dos médicos. O aprendizado era feito nas chamadas “casas da vida”, construídas ao lado dos templos. Nesses locais eram aceitos estudantes e médicos de outros países interessados em aprimorar seus conhecimentos.

O curso podia durar até dez anos. O esforço valia a pena. Os médicos representavam uma das categorias mais respeitadas da sociedade de então. E a maioria se especializava no tratamento de um órgão.

O sistema de funcionamento da assistência à saúde estava regulado desde a época de Imhotep (2980 a 2900 a.C.), espécie de primeiro-ministro do faraó Zoser, da Dinastia III, e considerado o pai da medicina egípcia. Além da determinação dos mecanismos de formação médica, os egípcios contavam com um razoável plano de diagnóstico. Ele consistia em fazer perguntas ao doente de maneira lógica e com paciência. Depois, o médico devia investigar o histórico dos familiares. A partir disso, traçava-se o tratamento.

Uma das áreas de maior desenvolvimento foi a oftalmologia. Isso se deveu ao fato de as doenças oculares serem muito freqüentes. Em especial a chamada “cegueira do deserto”, hoje conhecida como tracoma, mal causado pela bactéria Chlamydia trachomatis. Outra contribuição expressiva foram os conhecimentos sobre anatomia gerados a partir da manipulação dos corpos durante o embalsamamento e a mumificação.

Foi durante esses procedimentos que os egípcios descobriram detalhes de funcionamento e disposição dos órgãos até então desconhecidos. “Eles também dominaram o mecanismo de conservação dos tecidos humanos, algo até hoje não completamente desvendado”, afirma o geneticista egípcio Nagib Nassar, professor da Universidade de Brasília e radicado no Brasil desde 1974.

Parte de todo esse conhecimento está registrada em papiros guardados em museus pelo mundo afora. O mais importante é o Papiro de Ebers, assim denominado em homenagem ao egiptólogo alemão Georg Ebers, responsável por sua tradução, em 1873.

Organizado entre 1536 e 1534 a.C., o papiro é o mais representativo documento sobre a antiga medicina egípcia. Nele estão descritas diversas terapias, informações sobre anatomia, técnicas cirúrgicas e centenas de plantas usadas pelos médicos de então.

Mesmo assim, a ciência atual ainda tem muitas perguntas sobre a prática antiga. Espera-se que os ingleses consigam responder a pelo menos parte delas.

http://www.achanoticias.com.br/noticia.kmf?noticia=5771205

domingo, 13 de julho de 2008

Meditando. Exército Democrático


Esta oposição é como as rochas nas margens marítimas. Submissa, deixa-se preguiça, bater pelas ondas, que batem forte, do Mpla. Rochas passivas enterradas na areia, a apanharem banhos de sol.

A democracia é como a corrente eléctrica. Só flúi se existirem bons condutores. Quando há muitos curto-circuitos, é porque a instalação é frágil. Os fusíveis fundem a qualquer momento e a oposição extingue-se, escurece.

É também como crentes irremediavelmente ajoelhados e a rezarem interminavelmente.

A democracia no mundo é ainda muito incipiente. Não sei qual é a sua utilidade porque não consegue vencer o seu pior inimigo: a ditadura da poluição.

O vento democrático está muito frio, e a frio. Depois, num país infestado, corroído por generais, é impossível a democracia funcionar. É uma democracia motorizada, monitorizada, militarizada, sempre formada, parada militar. É um exército democrático, sem exercício.

Os remédios das ditaduras envenenam a democracia.

Gil Gonçalves

sábado, 12 de julho de 2008

Os mais ricos de Angola


Este trabalho não está actualizado, mas vale a pena rever.

Essa quizombada de defender o povo angolano, esses negros idiotas, era uma mera questão de ganharmos tempo, até atingirmos o cume das nossas transferências bancárias. Para isso, bancos não nos faltam, não nos faltarão. Podemos chamar a esta cidade, além de cidade do pó, cidade dos bancos das injustiças luandenses.

É fácil enriquecer. Basta deixar os trabalhadores três a seis meses – e até alguns anos – sem vencimentos, e investir esse dinheiro. Também com tanta promiscuidade, e com tantos engenheiros- financeiros doutorados, mais que as esquinas, não constitui nenhuma sabedoria, nem trabalho, tanto enriquecimento fácil. Afinal, do petróleo e diamantes, os dividendos distribuem-se única e exclusivamente a meia dúzia de castelãos. Pensa, quem com as mãos e os pés se recompensa. Uma banalidade: meia dúzia de ricos… porque existem milhões a morrerem de fome.
Gil Gonçalves

Lista dos homens mais ricos da «nomenklatura» angolana...
Escrito pelo Nicola Guardiola, com o título Os «novos-ricos Angolanos» apostam nos negócios.
«INVESTIR em Angola é agora a divisa dos nossos ricos» diz o «Semanário Angolense». O jornal, que causou escândalo em 2004 com a publicação da lista dos homens mais ricos da «nomenklatura» angolana, voltou à carga há duas semanas com um «retrato» dos grupos privados que proliferam em Angola, à boleia do «boom» económico e da intenção confessa do Governo de favorecer a criação de grupos privados nacionais e a sua entrada em sectores estratégicos como a banca, o petróleo ou os diamantes.

O director do «Semanário Angolense», Graça Campos, admite que a lista não é exaustiva e não se apoia numa aturada investigação. São os «negócios» que dão que falar e que ilustram a importância do lóbi político e a «apetência» dos investidores estrangeiros para formarem sociedades com figuras políticas do regime ou seus familiares. Com a devida vénia ao «Semanário Angolense», eis, em resumo e de A a Z, o retrato dos grupos privados mais «badalados» da actualidade em Luanda.·


ARMINDO CÉSAR & FILHOS·

No começo esteve a Maboque, empresa especializada em restauração, hotelaria e «catering». Diz-se que conta entre os seus accionistas com membros da família do Presidente Eduardo dos Santos e uma plêiade de generais. Mas nos últimos cinco anos o grupo cresceu e multiplicou-se.Actividade: as anteriores, mais pescas (captura e comercialização), hotelaria e turismo, imobiliário, comércio (hipermercado Interpark), formação profissional e serviços.


BANCO INTERNACIONAL DE CRÉDITO (BIC)

Isabel dos Santos, primogénita do Presidente Eduardo dos Santos, e o empresário português Américo Amorim (25%) são os principais accionistas. Criado em Junho, já abriu 13 balcões (8 em Luanda) e arrecadou mais de 165 milhões de dólares em depósitos.


BANCO COMERCIAL DE ANGOLA (BCA)

Inclui entre os seus accionistas três ex-primeiros-ministros: Lopo do Nascimento, França Van-Dúnem e Marcolino Moco. Salomão Xirimbimbi (ministro das Pescas), Augusto Tomás (ex-governador de Benguela, ex-ministro das Finanças) e o empresário Jaime Freitas (COSAL, Interauto, Tecnomat) são os outros sócios. Em 2005 vendeu 50% das acções ao Absa Bank, da África do Sul, que por sua vez foi comprado pelo Barclays Bank, do Reino Unido.


CABUTA ORGANIZAÇÕES

«Holding» criada pelo general Higino Carneiro, ministro das Obras Públicas e governador do Kwanza Sul, e família. Actividade: agricultura, agro-indústria, hotelaria, turismo, banca, seguros.


FINANGEST

Entre os accionistas figuram José Pedro de Morais, ministro das Finanças, general Pedro Neto, chefe do Estado-Maior da Força Aérea, e Kundi Paihama, ministro da Defesa. Actividade: jogos e lotarias, edição discográfica, transportes, serviços, construção, «import-export», seguros, segurança.


GEMA

Criada por Simão Júnior, o seu actual presidente é José Leitão, ex-chefe da Casa Civil da Presidência. Conta entre os seus accionistas com o jurista Carlos Feijó e António Pitra Neto, Vice-Presidente do MPLA e ministro do Emprego e Segurança Social. Actividade: supermercados, salas de cinema, clínica privada, accionista da Coca-Cola Angola, parcerias com empresas sul-africanas e chinesas.


GENI

Empresas dos sectores da banca, petróleo, diamantes e construção florescem como «boom» angolano. O FMI projecta um crescimento económico de 15% em 2005. O ponto de partida foi a criação da UNITEL (telefonia móvel) em parceria com a Portugal Telecom. Fundadores: Isabel dos Santos, brigadeiro Leopoldino Fragoso do Nascimento (chefe das Comunicações da Presidência), António Van-Dúnem (ex-secretário do Conselho de Ministros) e Manuel Augusto da Fonseca, do gabinete jurídico da Sonangol. Juntou-se-lhes o empresário franco-brasileiro Pierre Falcone. Actividade: telecomunicações, serviços.


GENIUS

Criada pelo general João de Matos (ex-chefe de Estado-Maior-General das FAA) e Mário Pizarro (ex-governador do BNA). A jóia da coroa do grupo é a GEVAL-AngolaJoint-Venture com a brasileira Vale do Rio Doce, n.º1 mundial de mineração.Actividade: minas (diamantes, manganésio, outros). Projectos: electricidade, telecomunicações. Participações: Torres do Carmo (Luanda), Belas Shopping Center


IMPORÁFRICA-IMPORCAR

Faustino Muteka ex-ministro da Administração do Território e actual secretário do MPLA para a mobilização é a figura-de-proa do grupo, a que estão associados capitais de Portugal à Índia. Actividade: construção civil, agricultura, comércio, venda de automóveis, imobiliário.


MACON

Revolucionou o transporte público em Luanda (autocarros e táxis). Hélder Vieira Dias, chefe da Casa Militar da Presidência e director do Gabinete de Reconstrução Nacional, brigadeiro Leopoldino Fragoso e Júlio Bessa, ex-ministro das Finanças, em parceria com o brasileiro Minoru Dondo são os sócios-fundadores. Actividade: transportes, comércio (o Shopping Center Kinaxixi está «encalhado» há dois anos).


MELLO XAVIER

Há muito que Jorge Mello Xavier deputado pelo MPLA em 1992 deixou de ser «o empresário do regime» mas continua activo, influente e irreverente. Actividade: construção civil, turismo, hotelaria, bebida, agro-indústria,


PECUS

Criada pelo grupo português Tecnocarro, de José Récio, foi vendida aos irmãos António e Luís Faceira. Actividade: produção e comercialização de carne, sector que lidera.


PRODOIL

Exploração e Produção de Hidrocarbonetos Associou-se à Amec Paragon (Houston, EUA). Entre os sócios angolanos citamos Marta dos Santos, irmã mais velha do Presidente da República. Actividade: petróleo, gás natural, serviços, hotelaria.


SAGRIPEK

Capital repartido entre um grupo de sócios angolanos (BAI, BPC, Banco Keve, Higino Carneiro, Mello Xavier, irmãos Faceira, Isabel dos Santos) que detém 51% e um consórcio brasileiro. Actividade: agricultura; pecuária, produção agro-industrial.


SOMOIL

Primeira empresa privada angolana a entrar na exploração de petróleo. Criada por Desidério Costa, ministro dos Petróleos, e Alberto de Sousa. Actividade: petróleo e derivados (lubrificantes) S


SUNINVEST

Dirigida por Ismael Diogo, cônsul de Angola no Rio de Janeiro e presidente da FESA (Fundação Eduardo dos Santos). Actividade: indústria farmacêutica (parceria com o Laboratório Teuto do Brasil), transportes urbanos, recolha de lixo (Luanda), comércio.


VALENTIM AMÕES

Veio para Luanda vindo do Planalto Central, onde possui um grande património imobiliário e controla boa parte do comércio. Entrou para o Comité Central do MPLA em 2004 e entre os seus sócios figura o general Fernando Miala, dos serviços de informação externos da Presidência. Actividade: transportes rodoviários e aéreos, hotelaria e turismo, «rent-a-car», comércio.


SEGURANÇA

As empresas de segurança merecem ser tratadas separadamente, pois foi por esta via que muitos generais se estrearam nos negócios e adquiriram o capital que lhes permitiu mais altos voos. São agora às centenas, mais ou menos sofisticadas, e fornecem todo o tipo de serviços, desde a segurança de instalações a escoltas pessoais, transportes de fundos e instalação de sistemas de vigilância. O «Semanário Angolense» destacou as seguintes:


ANGO SEGU

Empresa pioneira na segurança industrial. Tem como fundadores os generais Fernando Miala e José Maria e Santana André Pitra (Petroff) ex-ministro do Interior e comandante-geral da Polícia. ALFA 5 Criada pelo general João de Matos e outros oficiais generais. Controla 50% da segurança das grandes áreas de exploração de diamantes.

TELESERVICE

Monopólio da segurança dos campos petrolíferos. Os seus fundadores foram os generais João de Matos, França Ndalu, Armando da Cruz Neto, Luís e António Faceira e Hendrick. Participações na Air Gemini, Companhia do Lumanhe (diamantes) com a Escom, ligada ao Grupo Espírito Santo.


COPEBE Criada por Pedro Hendrick Vaal Neto (ex-ministro da comunicação social), Roberto Leal Monteiro «Ngongo» e Nelson Cosme, embaixador de Angola na Organização dos Estados da África Central.
Gil Gonçalves

Meditando. Democracias da Poluição


Uma coisa não entendo.
Porque é que existe poluição nas democracias e nas ditaduras?

Gil Gonçalves

Especulação Imobiliária (I)


Os especuladores imobiliários por onde passam, corrompem governos, titanicam nações. Conseguem corromper um centímetro de terra e lá construírem um minimercado.

Conheci o Job na fazenda dele. Parecia-me homem sincero, recto e temente ao seu rei. Tinha fama de muito bondoso e afastava-se dos maldosos. Proliferou sete filhos e três filhas e cabeças de gado aos milhares, e muita gente para o servir. Costumavam radiodifundir que era o mais rico do reino. Os seus filhos ultrapassavam o tempo em grandes festas. Convidavam as suas irmãs a comerem e a beberem com eles. Job escolhia algumas cabeças de gado e enviava-as para o seu rei, como prova de gratidão, vassalagem.
Um dia o rei visitou-o para lhe agradecer as ofertas. Num repente aparece um general. O rei pergunta-lhe:
- Donde vem?
O general respondeu.
- Ando a vigiar estas terras.
Disse o rei ao general.
- Já viu o meu vassalo Job? Não há ninguém no reino que se lhe compare. Muito honesto, justo, mais que vertical e detesta as pessoas maldosas.
Respondeu o general ao rei.
- Hum! Acho que ele não faz isso em vão. O meu rei concede-lhe muito apoio. É um dos poucos vassalos protegidos. O seu gado e as suas terras não param de aumentar, graças ao rei. Ele que fique na miséria, que passe fome, vai odiar o rei e demais nobres.
Disse o rei ao general.
- Parece-me que você anda com o olho nestas terras. Sei que alguns já expropriaram algumas… chegam, instalam-se… já está tudo feito.
O general fez a saudação militar e saiu da presença do rei.

Um dia, a filharada de Job estava numa festa na casa do filho mais velho. Depois chegou um mensageiro e disse a Job:
- Os bois lavravam, as tropas do general chegaram e levaram-nos. Disseram que estavam com fome. Feriram os empregados. Só eu escapei.
Chegou outro mensageiro que disse:
- Incendiaram tudo. Os empregados morreram queimados. Só eu escapei.
Ainda outro mensageiro apareceu e disse:
- Eram pelo menos três pelotões. Roubaram tudo. Só eu escapei.
Mais um mensageiro chegou e disse:
- Estava a tua filharada numa festa em casa do filho mais velho. Como agora tudo acontece, veio um tufão que arrastou a casa e todos os que lá estavam. Ninguém ficou vivo. Só eu escapei para te contar o que se passou.
Job levantou-se muito chateado, rasgou a sua manta, e rapou o cabelo porque era moda. Atirou-se para o chão e clamou:
- O meu destino é igual ao dos outros expropriados. Trabalhamos nas nossas terras, o general chega, e rouba-nos tudo. Bendito seja o nome do rei!
Mesmo assim Job não se revoltou nem amaldiçoou o rei.

Noutro dia veio uma delegação de alto nível chefiada pelo rei. O general estava presente. Então o rei disse ao general:
- Onde tens andado? Porque não proteges os bens do meu vassalo Job?
O general respondeu:
- Estou sempre vigilante, está tudo sob controlo e não notei nada de anormal.
Disse o rei ao general:
- O vassalo Job merece a minha admiração. É a única pessoa honesta que resta no reino. Tomara que houvesse mais como ele. Confesso que os corruptos ganharam o campeonato da corrupção… e apuraram-se para o campeonato mundial. Facilmente obterão a vitória final.
O general respondeu ao rei:
- A vitória é incerta. A generalização da corrupção termina em assassinatos, ajustes de contas, até à vitória final do grande terramoto político. Ainda não sabemos como isto vai acabar.

Gil Gonçalves
Inicialmente publicado com o título O Livro de Job em:
Eugénio Almeida Malambas
Imagem: http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2008/06/422325.shtml

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Petronotícias 01


Agora, em cada esquina um Estaline nos espera.
Entretanto a grande especulação imobiliária prossegue em:
http://comandantegika.net

Comité da Unita no Sambizanga vandalizado por desconhecidos, que o arrasaram, e queimaram com óleo de fritos.

Bom… os estrategas de 1975 continuam aí… e a história repete-se, porque na oposição abunda o amadorismo. Então meus nobres oposicionistas… o Mpla dá-lhes cada volta que me fazem rir.

Senhores da oposição que vivem para caçar a verba orçamentária eleitoral! O Mpla já os amarrou. Estão sem meios de comunicação, só falta a Rádio Ecclésia, e proibidos de emitirem opiniões desfavoráveis. E agora no silêncio passa-se para a fase seguinte: institui-se o terror e proclamam-se demónios a Unita, a Fpd, o Padepa. Recomeçam as prisões e os assassinatos praticados por indivíduos desconhecidos. Sem oposição, os fusíveis democráticos fundem-se.

Aqui lembro ao Mpla o seguinte: não é possível criar uma condição idêntica á do Zimbabué, mesmo com o apoio chinês. Agora a luta é diferente, é a luta final entre o teimoso comunismo/estalinismo e a democracia. É a ultima desventura do Mpla.

O ministro da Comunicação Social, Manuel Rabelais, proibiu os jornalistas privados, porque os jornalistas estatais há muito que o foram, de criticar o governo, governantes, e similares.

Podemos afirmar nas calmas assim: depois de um regresso vertiginoso que encetámos ao ano de 1975, recriámos o espelho, o grande incêndio final. Não oferecemos a Angola o petróleo e diamantes, oferecemos as chamas africanas da nossa destruição final.
Gil Gonçalves

quinta-feira, 10 de julho de 2008

O Mpla Suicidou a Rádio Despertar da Unita


Petróleo é preciso, livros… não é preciso.

Reino Petrolífero, algures no Golfo da Guiné.

Os Petrofamintos acessavam uma emissão de rádio, onde amiúde proclamavam, desabafavam vicissitudes incomensuráveis. Apesar dos esforços da polícia secreta para a silenciar, ela resistia bravamente.

Era o rumo dos sem rumo, assim divinizavam a Rádio Despertar. Alguns casuístas comparavam-na a Asterix o Minigaulês, que resistia arrumado, aprumado num cantinho sombreado da mafumeira. Os polícias da secreta rabulavam que a Rádio Despertar era o seu calcanhar de Asterix. Os circuitos telefónicos mais íntimos da governação, paladinavam que era o calcanhar da função real.

O reino Petrolífero propagandeava a epidemia de cólera, que militava com muitos aderentes para o interior do reino. Como praga ratada sem navios mercantes. Frechei-me com grande constrangimento: ninguém ousou, ousa explicar que a principal causa da cólera… é a fome. A epidemia cadastrou ao infinito do Ludopédio. A Rádio Despertar solicitou anuência para implementar o seu feixe hertziano a todos os ouvidos do reino, para que as populações se informassem, acautelassem, sanassem a epidemia. Os polícias da secreta liminarmente recusaram. Cartaram, selaram, pergaminharam para a Rádio Despertar:

Reverendíssimas Excelências da Rádio Despertar:
Havemos um contrato com o barqueiro Caronte. A epidemia da cólera faz as vítimas suficientes… as almas que o barqueiro necessita a contento. Sentimo-nos felizardos.
Se o sinal da vossa fé se digladiasse pela rádio e por todo o reino se espalhasse, não cairiam vítimas da cólera. Contamo-nos peremptórios firmados, e esse vosso pretenso vento é, não aceite.

Alvejamos a certa teologia do querem ir mais longe, para além das redondezas, dos limites de Delfos. As distâncias curtas por vezes tornam-se longas. Permitimos que funcionem devido à frequência democrática que nos foi imposta. Encetámo-la no compêndio das contrariedades.

Estendemos-lhes um dedo, agora querem a mão, depois o corpo. Para convencer que somos democratas, anunciámos que se realizariam eleições. Notem bem: que se realizariam… em qualquer momento, em qualquer época. Tudo depende da nossa íntima vontade. Não é a claridade de qualquer oráculo que nos leva ao cume solar, datar eleições. Uma coisa é incerta: o principio da incerteza eleitoral.

Os nossos insignes marinheiros vigiam atentamente as proas do vosso ecletismo. Pretendem entreabrir a janela da noite escura, para a missa de manhã. Fazer muita luz, para jorrar nos espíritos. Com tanta vela por aí à disposição. Estamos à vela!
Abundantes Saudações Revolucionárias.
Ludopédio, Frimário, Ano II.
Ano da Vida Incerta.

Resposta da Rádio Despertar:
Depois de consultado, o Oráculo revelou-nos:
Parafraseando o perfume opiado, marxista de Bertolt Brecht, condizemos:
Há governantes que são corruptos num dia, e são bons.
Há outros governantes que são corruptos durante um ano, e são melhores.
Há outros governantes que são corruptos durante muitos anos, e são muito bons.
Mas, há outros governantes que são corruptos toda a vida… esses são os imprescindíveis.
Mutam-se os climas, mutam-se as tempestades. Tudo é composto de ciclones.
Injectadas saudações.
O Directório.
Ludopédio, 9 Termidor.
Ano da emissão da nossa Rádio Despertar a todo o Reino.

Gil Gonçalves
Inicialmente publicado em
Portugal em Linha com o título, O Vídeo Matou a Rádio Star.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Figura da Semana. Kopelipa




O cão é um cavalheiro, eu espero ir para o céu deles, não para o dos homens. Mark Twain

Governar é comandar. A chefia não se impõe, nasce naturalmente.
Leio-o muitos livros para quê?! Os livros não me dão dinheiro, dão-me perda de tempo?! Mas eu não quero dinheiro! Somente sabedoria para saber que ganhar dinheiro ilicitamente é muito fácil. E depois fico a saber porque vocês, perdem o tempo no dinheiro!
Cidade de Luanda não! Cidade infestada de bancos.

E um terreno para construir uma biblioteca… não… já está tudo vendido!

Não se concebe viver num mundo, onde o dinheiro prevalece sobre tudo. Para vivermos em felicidade, temos que prescindir, acabar com o dinheiro. As sociedades humanas não podem continuar a existir… trabalhando à espera que uma moeda caia do céu. O mundo é nosso, não é de alguns. A areia está em todo o lado, e nós não. No entanto somos como ela, abundantes, é por isso que não temos valor.

Contudo ela está nos edifícios, fomos nós que a carregámos, e a eles não temos direitos. Somos, vivemos como as areias dos desertos. Somos um imenso mar de areia, soprados pelo vento, vamos para ali, para aqui, e assim permanecemos. Transformaram-nos em pó, com o destino, a missão única de aumentar os terrenos dos cemitérios, que já não chegam, pois que a fome e as epidemias, são a única liberdade que nos resta.

Até os cemitérios dos que nos matam à fome, são sublimes mausoléus, e nós quando a morte nos convida… os nossos familiares regateiam um pouco de terra… porque a ela, mesmo depois de mortos, a ela não temos direito. Até no além somos párias.
Gil Gonçalves



Chefe da secreta angolana compra quintas no Douro

CRISTINA FERREIRA e LUÍS VILLALOBOSO general Hélder Vieira Dias, "Kopelipa", pagou um milhão de euros por duas áreas no Douro para produzir vinho e exportar.O responsável pelos serviços secretos da Angola, general Manuel Hélder Vieira Dias Júnior, adquiriu duas quintas na região do Douro para produzir vinho destinado a exportação, designadamente para os países de língua oficial portuguesa (PALOP).


As propriedades agrícolas situam-se nas proximidades da Quinta da Leda, que pertenceu à lendária Ferreirinha e onde é produzido o emblemático Barca Velha. O negócio, concretizado há cerca de um mês, envolveu duas propriedades contíguas ainda por rentabilizar, a Quinta da Serra e a Quinta da Pedra Cavada, possuindo no conjunto cerca 400 hectares espalhados maioritariamente pelo concelho de Vila Nova de FozCôa e abrangendo a Região Demarcada do Douro e do Vinho do Porto (RDDVP). Os terrenos, de origem xistosa e marcados por elevados declives, encontram-se a dois quilómetros da Quinta da Leda.
A transacção contou do lado vendedor com produtores locais que detinham as quintas em parceria. Do lado comprador está a Superfície Vertical Investimentos Imobiliários (SVII), controlada pelo chefe dos Serviços de Inteligência Externa de Angola (SIEA). Segundo os valores registados oficialmente, Manuel Hélder Vieira Dias Júnior, conhecido por "Kopelipa", pagou pelos dois terrenos cerca de um milhão de euros.Um dos anteriores proprietários era a família de Celso Madeira (Rui e Filipe Madeira), dona da Casa Agrícola Reboredo Madeira (CARM), que desenvolve igualmente a sua actividade na zona duriense e que comercializa vinho e azeite com as marcas CARM. O primeiro contacto para a venda da Quinta da Serra e da Quinta da Pedra Cavada partiu de Celso Madeira no decurso de uma viagem a Angola.


Imobiliária mediou negócio"


Kopelipa" é desde 16 de Maio de 2007 administrador e accionista maioritário da WWC, World Wide Capital SGPS, holding que já este ano adquiriu a SVII.O recurso a uma imobiliária para realizar a transacção prendeu-se, segundo informações obtidas pelo PÚBLICO, com questões de natureza fiscais mais favoráveis. Este alto responsável do Governo angolano assumiu em 2006, por indicação do Presidente, José Eduardo dos Santos, a liderança dos serviços secretos locais, na sequência da sindicância desencadeada a este organismo e que levou à demissão do anterior responsável, general Fernando Garcia Miala.


Em Angola, "Kopelipa" está ligado a personalidades como Isabel dos Santos, a empresária filha do Presidente e sócia de Américo Amorim em negócios como o Banco Internacional de Crédito (agora também com presença em Portugal, tendo Mira Amaral como presidente).De acordo com informações do Semanário Angolense, entre os accionistas do projecto agrícola Terra Verde estão Isabel dos Santos, "Kopelipa" e um grupo de investidores israelitas. O general é também referido como tendo várias ligações a empresas da África do Sul, além de deter participações em diversas empresas angolanas em áreas como tecnologias de informação, transportes, cimentos e pescas.


No projecto vinícola no Douro, o novo proprietário da Quinta da Serra e da Quinta da Pedra Cavada pretende recuperar os terrenos baldios, reconvertendo-os em plantação de vinha, estando já a ser desenvolvidos contactos com vista à compra de licenças de plantio.Produzir vinho tintoDos quatrocentos hectares de superfície, há autorização para cultivar 150 hectares (destinados na sua maioria a gerar vinho tinto).


O plano é arrancar numa primeira fase com o plantio numa área equivalente a metade do que é permitido. Em simultâneo estão actualmente a decorrer negociações entre a SVII e Celso Madeira, o anterior dono das quintas, com vista a celebrar uma parceria para a sua exploração e que permita a obtenção de economias de escala. As conversas entre o dono da CARM e os representantes de "Kopelipa" envolvem um projecto de exportação de vinho para África, em especial para Angola, país que em 2007 importou de Portugal cerca de 50 milhões de litros de vinho.Nomeado em 1995 como chefe da Casa Militar de Eduardo dos Santos, "Kopelipa" iniciou a sua ascensão no seio da presidência através do departamento de estudos e análises, do qual era responsável. Entre as suas missões estavam a análise da situação política e do papel dos media, principalmente os de capitais privados.


A sua influência aumentou exponencialmente quando assumiu a direcção do Gabinete de Reconstrução Nacional (GRN), criado em 2004. Detendo total autonomia administrativa e reportando directamente a JoséEduardo dos Santos, o GRN tem como missão "promover, acompanhar e supervisionar a implementação de programas específicos no domínio da recuperação económica e social". Na prática, é por este organismo que passam centenas de milhões de dólares negociados entre a China e Angola, aplicados depois de diversas formas, incluindo a construção de infra-estruturas como habitações e estradas.


Mercado em alta.


Numa fase em que Angola importa cada vez mais produtos de consumo, Portugal tem conseguido aumentar a sua presença, nomeadamente em sectores como o das bebidas. No caso do vinho, cerca de 75 por centodas marcas compradas neste país são de origem portuguesa, segundo afirmou à Lusa José Costa e Oliveira, vice-presidente da associação portuguesa de produtores (ViniPortugal) no passado dia 1 de Julho. Só em 2007 foram exportados cerca de 50 milhões de litros de vinho, equivalentes a perto de dez milhões de euros, com destaque para as marcas dos grupos do Esporão e da Sogrape. No ano que vem, e de acordo com José Costa e Oliveira, o organismo de que faz parte vai investir no mercado angolano cerca de 500 mil dólares (319 mil euros), direccionados para acções de formação, provas de vinho e bolsas de estudo.


PÚBLICO – 07.07.2008
Gil Gonçalves
Foto das uvas: http://www.osmais.com/index.php?ver=NTg0Mg==
Foto general Kopelipa:
http://embangola.artedesign-net.pt/content.php?id=noticia&nid=903



Cultura Tradicional Bantu (FIM)


O bantu vive em permanente terror e entre o jogo defensivo e ofensivo da poderosa magia. Se morre uma pessoa, ao bantu não satisfaz a explicação de que um vírus ou uns micróbios o mataram. Ele tem de averiguar como, porquê e quem os introduziu no defunto. E isto só pode ser obra de um feiticeiro que utilizou práticas mágicas.

«Lançam moscas, morcegos, pássaros, animais, espíritos e objectos mágicos; o “mau-olhado” também lhes serve para lançar o mal; enterram remédios malignos por onde a vítima costuma passar; depositam objectos mágicos nas casas ou nos campos das suas vítimas».
O feiticeiro é propenso à dissolução sexual, pode mesmo atingir a perversão. De facto, as feiticeiras comportam-se como ninfomaníacas, e os feiticeiros praticam o incesto e a antropofagia.

O feiticeiro é necrófago, desenterra os cadáveres e, como os vampiros, chupa o sangue humano. Pode também tornar-se invisível para realizar impunemente as suas acções. Abandona o seu corpo e vai até junto da vítima. Veloz como o pensamento, vence distâncias enormes
Acreditam que ele se metamorfoseia em bolas de fogo, torvelinhos, fogos-fátuos e, sobretudo, em insectos, pássaros (corvos, abutres e mochos), em leopardos, hienas, serpentes, antílopes, sapos e pirilampos. Também cavalga sobre animais ou envia-os contra as suas vítimas. Consegue esconder-se debaixo da terra, transforma-se em pedras e introduz-se nas árvores.

Daí pensarem os Bantus que o feiticeiro tem de ser procurado quase sempre entre os seus familiares ou vizinhos mais próximos. Assim, o feiticeiro destrói a própria família.

Segundo lendas populares, nas noites de plenilúnio, vêem-se nos descampados das grandes florestas, círculos de feiticeiros dançando e girando com majestosa lentidão à volta do cadáver de alguma vítima. Ao fim, comem-no, cortando-o em pequenos pedaços e levando-os à boca com gestos rituais, lentos e suaves.

É muito frequente acusar mulheres, sobretudo as anciãs e esposas. É uma prova do antagonismo sexual e reacção à hipotética preponderância feminina nos grupos matrilineares. Além disso, como muitas mortes têm a sua origem em comidas e bebidas, é natural que acusem as mulheres que as prepararam.

«A mulher, considerada como a criatura mais misteriosa e insondável, está mais intimamente relacionada com a “escuridão” e a “noite”. Está, portanto, estreitamente relacionada com a feitiçaria». A mulher é enigmática devido à sua constituição física e psíquica. Os seus órgãos sexuais, o sangue menstrual, a capacidade de concepção e o poder alimentício dos seios levaram estes povos, apoiados na causalidade mística e nas leis e dinamismo da magia, a rodear a mulher de uma auréola misteriosa e ambivalente. É estimada e querida, receada e perigosa. Confirma-o o seu comportamento psíquico: uma intuição com reacções tão surpreendentes que transcendem a visão do homem, uma versatilidade incontrolável e uma capacidade de sedução até dobrar o próprio homem.

Para quem está alheio a esta cultura, não passa de uma pseudociência que se dissipará como o fumo, quando o bantu tiver conhecimento das leis da causalidade ou abraçar o cristianismo libertador e salvador.
In Cultura Tradicional Bantu. Pe. Raul Ruiz de Asúa Altuna. Edições Paulinas
Gil Gonçalves

Cultura Tradicional Bantu (XIV)


A crença na terrível feitiçaria e nos feiticeiros, apesar de enraizada na magia bantu, ganhou tais proporções e tornou-se tão obcecante, por causa das constantes acusações do adivinho que, se por um lado alivia, soluciona e inspira confiança, por outro, aumenta o terror da magia e mantém a sociedade em permanente insegurança. Basta recordar os frequentes e arbitrários ordálios.

Na África negra está muito generalizada a ideia de profetismo. O profeta negro sente que comunga com algumas das forças da pirâmide vital. Este contacto permite-lhe transmitir mensagens que podem esclarecer situações críticas. Assim se explica, de certo modo, o pulular por quase toda a África negra do profetismo-messianismo, origem dos Movimentos Profético-Salvíficos.
Os fundadores, a partir de uma visão ou êxtase em que lhes foi comunicada a sua eleição, mensagem e missão, julgam-se profetas escolhidos por Deus para salvar o seu povo, oprimido por qualquer tipo de violência.

Por exemplo, os habitantes de uma aldeia baconga têm de participar na preparação de «armas» contra os feiticeiros. Assim, ficam protegidos pelo feitiço e são controlados pelo adivinho, sempre atento à observância ritual que lhe é devida.

Nalgumas partes de Angola, destroem feiticeiros com a «arma de fogo da noite». Esta arma consiste num fémur humano, forrado ou cheio de terra do cemitério e de carne de algum cadáver. Quando o atiram ao feiticeiro, ele morre. Também se servem de armas de metal que disparam ossos de dedos humanos e bocados de metal. «Os homens das armas… não supõem, pelo menos alguns, que cometem um autêntico assassínio físico. Ao fazerem fogo contra a vítima, dizem: “Se és bruxo tens de morrer esta noite. Se não és, não deves morrer”… Acreditam misticamente que a pessoa, contra a qual dispararam, não sofrerá mal algum se não for culpada».
Também costumam apunhalar a imagem da pessoa acusada, reflectida num espelho ou na água de uma caçarola ou cabaça.

Têm, como os curandeiros, poderes parapsicológicos, às vezes notáveis e até dignos de admiração. Pessoas de confiança e testemunhas fidedignas contaram-me que alguns adivinhos colocam um boneco de madeira no chão e, depois de pronunciarem umas palavras esotéricas, o boneco começa a correr velozmente pela aldeia e só pára quando o mandam repousar a seus pés.
É quase certo que alguns praticam o hipnotismo, estão dotados para a telepatia, são ventríloquos e conhecem muitas aneiras de sugestionar e levar assembleias inteiras ao histerismo.

Usam truques, por vezes engenhosos, e uma prestidigitação eficacíssima. Como, às vezes, a consulta é feita na sua própria casa, um ajudante (ou aprendiz) ou mesmo o adivinho responde ao oráculo dentro de um subterrâneo aberto no chão. Também se esconde em troncos de árvore.

No entanto, há que distingui-lo do adivinho-feiticeiro, personagem real, conhecida e activa. Este actua livre e conscientemente. Fabrica feitiços malignos e serve-se deles nas suas actuações. Mistura veneno na comida e na bebida e assim vitima muitas pessoas. É movido por desejos de vingança e colabora na supressão dos inimigos dos seus clientes.

Acreditam que vive na comunidade, mas ninguém o conhece. Espalha um permanente medo que só o adivinho e o curandeiro podem enfrentar. O feiticeiro bantu é mito, lenda, suposição, figura, imaginação, símbolo, solução e necessidade psicológica, social e religiosa.

Nunca viram um feiticeiro, não assistiram ás suas reuniões, nunca presenciaram o seu desdobramento e metamorfoses nocturnas, mas a sua presença é uma exigência dos princípios fundamentais da cultura bantu.

Na sociedade bantu ninguém é feiticeiro, mas todos podem sê-lo. A explicação e a necessidade do feiticeiro estão no conhecimento e consciência que o bantu tem de si mesmo e da sociedade.

As palavras bantus mais comuns para o denominar são: «ndoki», «amulozi», «muloji», mloji», «moio», «ulogo», «bulozi», «buloji», «ulozi», «ndotshi», «moloi», provenientes do radical verbal «loa». Estes termos significam «malefício», «enfeitiçar». Noutras línguas dão-lhe o nome de «nganga» ou «onganga».

Este desdobramento de personalidade permite ao feiticeiro o dom da bilocação e até da multilocação. Uma parte do seu ser (o corpo) está fisicamente na cama, enquanto o seu doble (ou seu poder) actual em lugares distantes.
É este o fundamento da dura realidade, a razão que leva qualquer bantu a aceitar com resignação e passividade a acusação de ser feiticeiro, feita pelo adivinho e, então, submete-se docilmente aos ordálios. Quando estes indivíduos, inconscientes da sua maldade, são castigados, a justiça bantu subjectivamente considera-se, mas objectivamente é causa de lamentáveis injustiças, o acusado assume a responsabilidade, apesar de não ter consciência da sua maldade.

Entre ao Ambos, «aquele que quer receber esta faculdade encontra-se casual ou voluntariamente com quem a possui. Este, em determinado dia, dá-lhe “algo a comer”. Durante dois dias, o “mestre nada diz do que fez ao seu amigo noviço. Na terceira, depois de deitados, desperta-o repentinamente e confia-lhe a grande novidade:”Levanta-te, dei-te a ouwanga e quero que sejas meu amigo.” Em seguida, dá-lhe esta ordem formal: “Vai comer alguém da tua família.” E tem de cumprir esta ordem. Caso contrário, o “ouwanga” comeria o recalcitrante.
In Cultura Tradicional Bantu. Pe. Raul Ruiz de Asúa Altuna. Edições Paulinas
Gil Gonçalves

Cultura Tradicional Bantu (XIII


Como médico indispensável, douto e respeitado, consegue um nível de vida superior, pertence a uma casta privilegiada. A medicina científica ocidental, que o desprezou, reconhece hoje os seus valores e sabe que possui conhecimentos e segredos de grande utilidade. Em muitos países estão mesmo oficialmente reconhecidos.

Uma antiga curandeira narra o rito da seguinte maneira: «Tive uma doença na garganta… A adivinha consultada declarou que a causa do mal eram dois antepassados, avós maternos, que exerciam a profissão. Fui a uma mestra. A cerimónia decorreu assim: estava sentada numa esteira, no pátio da casa da mestra. Enorme assistência dançava e cantava à minha volta ao som do batuque… Pouco depois, entro em transe. Não consigo proferir uma só palavra, apesar de compreender tudo o que se passa à minha volta. Sinto-me sufocada e os meus olhos parecem lançar fogo.

Muitos doentes dirigem-se ao dispensário queixando-se de corpos estranhos que percorrem algumas partes do corpo e que incomodam com dores. Assistimos a curas de estados de saúde preocupantes, com a simples prestidigitação de simular que se lhes extraía do corpo um rato, uma rã ou uma pedra. Nestes casos, a sugestão é uma terapia eficaz.

O hospital pode aliviar a doença, mas como não a ataca pela raiz porque não descobre a causa, naquele momento fica acalmada, mas pode voltar. Além disso, muitos receiam morrer no hospital, onde a sua comunidade não pode realizar os ritos fúnebres e onde deambulam outros membros da comunidade ali falecidos, propensos à maldade por causa da desesperada solidão em que se encontram.

O curandeiro é um especialista que, com certeza, ainda vai durar muitas gerações em África.

No entanto, também é verdade que o prestígio e coacção mágica refreiam a expansão das conquistas médicas. Sofrem e morrem muitos africanos porque estes especialistas influentes impedem o seu sucesso a centros hospitalares.
A África tem necessidade urgente de se libertar das cadeias da magia. Os curandeiros, adivinhos, chefes e a gerontocracia são os mais firmes defensores desta situação.

Em muitas regiões, são denominados «m-hanga», «n-gan», «mganga», «inyanga», mas o mais comum é «nganga» cuja raiz significa «curar, tratar, rodear, acomodar, diagnosticar». «A melhor tradução parece ser a de «homem que conhece os meios de poder». Numa acepção relacionada com a sua missão, «nganga é o termo mais vulgar e mais difundido e, no contexto cultural congolês, usa-se este termo para designar o “sacerdote”». Em duala, língua bantu do sul dos Camarões, chamam-lhe «ngambi», de «ngan», o forte, e «nganja», sábio em ciência oculta e poderosa, aquele que pode adivinhar o futuro e averiguar se uma pessoa está habitada por espírito adverso.
Em Angola, são muito usados os termos «kimbanda» e «nganga». No entanto, em algumas línguas «nganga e onganga» é o feiticeiro. Na impossibilidade de empregar um termo bantu com o mesmo significado em todos os grupos, optámos pelo de «adivinho», acentuando, porém, que interessa mais o significado que lhe é atribuído que propriamente o vocábulo.

Daí, a necessidade imperiosa do adivinho, agente legalizado e consagrado nestas sociedades, para quem é o recurso supremo, nalguns casos, a última esperança. A ele devem a constante reconstrução da vida comunitária. Com os chefes, é, pois, o factor social mais contrário a qualquer evolução cultural. Com o seu poder coactivo e mágico protege a vida tradicional e opõe-se energicamente à acção missionária e às ideias novas.

Por vezes, degenera e torna-se uma pessoa temida, perversa e autora de toda a espécie de vinganças e extorsões. É fácil compreender que a posse de uma arma tão temida e certeira como a magia, dê azo a ambições, orgulhos e violências. Esta prepotência é caminho livre para a malícia, venalidade, inveja e cobiça. Como nas consultas tem de acusar algum malvado, como causa da desordem, pode muito bem castigar inocentes ou aniquilar quem lhe agrade. Basta acusá-los de feitiçaria. Deste modo, pode ocasionar mortos inocentes, que a sociedade julga justas. Tem o costume de fazer alarde das sentenças executadas, ostentando, num feitiço, tantos trapos dependurados quantas as mortes causadas.

Exige somas avultadas e, na sombra, elimina os inimigos dos seus clientes. Também extorque com ameaças, para satisfazer os seus interesses e ambições. Tem uma influência que se estende a todo o grupo. Conta com colaboradores submissos. Alguns vivem clandestinos, outros (os aprendizes e discípulos) são conhecidos de todos. São estes que habitualmente efectuam as mortes, à base de veneno, com perfeita discrição e total impunidade. É tão grande o sigilo que ninguém duvida da acção punitiva de um ser do mundo invisível, realizada directamente ou por intermédio de um feitiço. Estes discípulos recolhem informações de cada cliente e dos conflitos sociais e, assim, facilitam os diagnósticos do adivinho e confirmam a veracidade dos seus oráculos.
In Cultura Tradicional Bantu. Pe. Raul Ruiz de Asúa Altuna. Edições Paulinas
Gil Gonçalves

terça-feira, 8 de julho de 2008

Cultura Tradicional Bantu (XII)


Quando alguém quer matar um inimigo vai ao adivinho. Esse tem uma arma diminuta em cujo tubo introduz pólvora, dois bocados de agulha e um pouco da terra que o inimigo pisou ou urinou. O cliente tem de matar um gavião e um pássaro selvagem chamado «andúa». Ao primeiro tira uma unha, ao segundo, um pedaço da asa e introduz tudo no cano da arma. A asa serve para levar a carga e a unha, além de ajudar a transportar, também serve para ferir o inimigo.

Dependuram um galo de cabeça para baixo e o adivinho, com um só golpe, corta-lhe a cabeça. O queixoso acende a pólvora, saem as balas (agulhas) e espetam-se no galo. Neste momento morre o inimigo. O adivinho atira o galo ao rio, para simbolizar o enterro do inimigo e o queixoso, entretanto, amaldiçoa-o. Manda-o para casa e proibi-lhe de dormir em sua cama, durante quatro dias. Certificada a morte do inimigo, ele tem de pagar os emolumentos ao adivinho.
Para compreendermos como o jogo mágico pode conduzir a aberrações e criar uma atmosfera de terror, vamos descrever alguns feitiços preparados só para fazer mal ou para defender e vingar supostas acções mágicas maléficas. É cega a fé no poder e, embora ninguém os tenha visto, acreditam na sua existência.

Certos feiticeiros podem vivificar um cadáver com fórmulas secretas, medicamentos e invocações mágicas. Quando o conseguem, transforma-se num feitiço visível apenas a quem o fez. A uma ordem do feiticeiro, ele dirige-se à pessoa indicada e torce-lhe o pescoço até a matar. As outras pessoas apenas vêem a vítima caída no chão com o pescoço torcido e a gritar de dores. Pode-se afugentar queimando um pouco de farinha.

Em várias regiões de Angola, existe a convicção de que os chefes podem preparar um feitiço especial. Apanham uma criança e enterram-na viva. Durante duas semanas, desenterram-na diariamente e mumificam-na com lavagens e irrigações. Transforma-se num feitiço invisível que o chefe utiliza para matar os seus inimigos desta forma: aproxima-se da pessoa indicada com uma arma ao ombro e um chicote; dá-lhe uma chicotada e introduz-se no seu sangue. A vítima começa a tremer até morrer.

Também se servem de meninas para conseguir os mesmos objectivos. Mas a estas matam-nas espetando-lhes um punhal no peito, depois de seduzidas, e levadas para um lugar escondido.
O bantu teve de recorrer à magia-feitiçaria para explicar as mortes repentinas, a epilepsia, apoplexia, loucuras, qualquer manifestação espasmódica ou ataques cardíacos.

Não há dúvida que estas crenças consolidam a autoridade política e o prestígio dos especialistas. Estes confirmam-nas utilizando o veneno ou matando mesmo, através de fiéis servidores. No aspecto negativo, a magia bantu encobre manobras terríveis que satisfazem os piores instintos. Há especialistas consumados em sugestão, hipnotismo, parapsicologia e com uma experiência e com uma experiência milenária na aplicação de drogas e na propagação do terrorismo psicológico. No entanto, estes exageros, são bastantes limitados e nunca atingem as dimensões e sangue-frio dos utilizados em outras sociedades.

Certos especialistas, diz o povo, tiram o coração a um cadáver, matam um cabrito e uma galinha e também lhes extraem o coração. Perfuram uma estátua de madeira, da cabeça ao ventre, e introduzem os três corações. Em seguida, tapam o buraco para que «fermentem». Alguns dias depois, o feitiço começa a bailar. Está pronto para cumprir a sua missão, isto é, matar os inimigos do proprietário. Como é invisível, agarra a vítima pela cintura, penetra pelo ventre e vai até ao pescoço. O inimigo morre deitando sangue pela boca e pelos ouvidos.

«Depois da nomeação, máscara e dançarino são sagrados e, se são profanados, podem causar a morte do sacrílego».
O especialista da magia deve sará-las com um cerimonial especial. Por isso, são guardadas em lugares secretos e bem vigiadas. Só o especialista, os iniciados da sociedade particular ou secreta, e os homens podem vê-las e conhecer o seu significado.

Na África Ocidental, a máscara adquiriu tal expressão, estilismo, naturalidade, surrealismo, perfeição, dramatização e simbolismo que, com pleno direito, pode ser considerada como uma das notáveis obras de arte da humanidade. Assim, as mascarras bambaras, ibas, mendes, bomuns, wavegas, dogóns, ekois, batekés, bamilekés, ashantis, aguis, pangwés, balumbas, iorubas, baulés, as de Ifé, o Benim, talhadas na madeira, marfim, ouro, bronze, cobre e latão.

Há muitas mulheres dotadas para o exercício da magia. Acreditam que certas anciãs se podem converter em perigosas feiticeiras.

In Cultura Tradicional Bantu. Pe. Raul Ruiz de Asúa Altuna. Edições Paulinas
Gil Gonçalves

Unita. Rádio Despertar


Devo ter uma enorme quantidade de inteligência; às vezes até levo uma semana para a colocar em movimento. Mark Twain

Os jornalistas que reportam os factos da corrupção imobiliária seguem para o matadouro sem número. Nas garras do poder ninguém é julgado, condenado. Julgado de jornalistas transita sempre em veemente julgado.

Enquanto governantes engravatados reconstroem Angola em dois meses, todos os loucos e psicopatas universais aqui se magnetizam.

Onde não há lugar para honestos, a corrupção move-se como serpentes silenciosas, perigosamente venenosas.

Voltámos outra vez ao colonialismo. Estão lançadas as bases para outra luta de libertação definitiva.

Neste canteiro de obras psicadélicas, fecham ruas sempre com um metro nas mãos, nas medições estratégicas para construírem, destruírem terraços, frentes e especialmente traseiras de edifícios onde se escondem, se disfarçam monumentais lavandarias de dinheiros sujos.
Gil Gonçalves

Rádio Despertar abala estrutura do poder (MPLA) em Angola

Alcance geográfico da emissora da UNITA é o motivo legal para calar as verdades

A "Rádio Despertar" , uma emanação do Protocolo de Lusaka, está a incomodar sobremaneira o MPLA, transformando-se assim numa pedra no sapato do partido no poder. Os sinais deste incómodo já tinham sido manifestados publicamente pelo secretário para informação do partido no poder, Norberto dos Santos (Kwata-Kanawa), que inclusive tinha aventado a hipótese de se encerrar a referida emissora caso a mesma "continuasse a fazer propaganda a favor de um partido político (sic)". Tudo indica que o Governo vai satisfazer o desejo dos camaradas. Ou não tivessem eles o pão, a faca e o queijo na mão.

Por Jorge Eurico

O Ministério da Comunicação Social e o Instituto Nacional das Telecomunicações acaba de notificar formalmente a direcção da "Rádio Despertar" no sentido desta emissora deixar de emitir proximamente durante um período de 180 dias, apurou o NL em Luanda. Observadores atentos à situação contactados em Luanda afirmaram que, caso a notificação venha a ter efeitos práticos, a "Rádio Despertar" não vai poder emitir durante o período de campanha eleitoral, o que representaria um enorme prejuízo político para o Galo Negro. "Trata-se de uma jogada de mestre do MPLA. A (Rádio) Despertar seria um incómodo para o partido no poder durante as eleições", comentaram.

Entretanto, esforços feitos pelo NL para ouvir Adalberto da Costa Júnior, secretário para Propaganda e Marketing, no sentido deste dar mais pormenores sobre o assunto não foram bem sucedidos.

Recorde-se que o porta-voz do Governo no Mecanismo Bilateral de consulta advertiu recentemente que se a "Rádio Despertar" não mudar a sua linha editorial, será apresentada queixa junto dos organismos competentes. Na altura a UNITA, na pessoa do seu porta-voz, Adalberto da Costa Júnior qualificou de «falta de cultura democrática» a preocupação do Executivo em relação aos programas da Rádio Despertar.

Mas para o Governo, alguns programas daquela estação de rádio são de propaganda «a favor de um partido político» o que, segundo Norberto dos Santos «Kwata-Kanawa», contraria o seu objecto social. «Os acordos referem-se à transformação da VORGAN em rádio comercial e não rádio do partido. Dois cidadãos subscreveram o pedido desta rádio. O Protocolo de Lusaka não iria fazer uma coisa contrária à Lei da República de Angola. O raio de acção é de até 50 quilómetros e a Lei não pode ser para um e não para outros».

Norberto dos Santos (Kwata-Kanawa) disse que o Governo pondera notificar o Ministério da Comunicação Social, o Conselho Nacional de Comunicação Social e o Instituto Nacional das Telecomunicações.

O dirigente do MPLA não diz se este expediente pode desembocar no encerramento daquela emissora, mas denuncia também que ela passou a emitir fora do espaço permitido por lei.

Segundo Kanawa, «o raio de cobertura desta rádio passou para além dos 50 quilómetros e ouve-se no Kuanza-Norte, no Dondo e nas áreas de Nambuangongo que está acima dos 50 quilómetros».

Para o porta-voz da UNITA, Adalberto da Costa Júnior, afirmou, entretanto, ser surpreendente e estranha a atitude do Governo já que «a Rádio Despertar emana do Protocolo de Lusaka, com um alvará comercial».

O dirigente do partido do «Galo Negro» diz não fazer sentido esta interferência do partido MPLA na linha editorial daquela rádio «por não se tratar de uma estação pública.»

Para Adalberto Júnior a Rádio Despertar funciona em Luanda «e os seus programas têm sido aplaudidos mesmo por dirigentes do MPLA». As observações do Governo se referem em particular ao programa «Parlamento Público», que para a UNITA se destina a auscultação de opiniões dos cidadãos sobre temas de interesse para o país.

Adalberto Júnior disse que o que preocupa o MPLA é o tratamento imparcial das notícias, valor a que, alegadamente, os órgãos tutelados pelo Estado não permitidos a respeitar.
In
Notícias Lusófonas
http://noticiaslusofonas.com/view.php?load=arcview&article=21281&catogory=Manchete



Kitulu e Hongolo (Fim)


Baseado num facto verídico.

Chegou na maternidade e entregou-se nos cuidados intensivos. Suspirava, procurava a vida que lhe faltava, do único que a amava. No exterior, Hongolo aguardava, impacientava-se. Talvez fosse apenas mais um daqueles trejeitos, sintomas que normalmente as mulheres sentem durante a gravidez. O tempo passava, e as noticias, ele sentia, desconfortavam-no. Sentiu uma faísca no cérebro. Como se alguém lhe enviasse uma mensagem. Que estranho... era a primeira vez que sentia tal no seu pensamento. Parecia um pesadelo. Despertou sobressaltado. Não esperou, subiu as escadas empurrando, não se importando com quem lhe aparecia à frente. Sabia onde ela estava. Estacionou e perguntou:
- A Kitulu…

O semblante da médica augurava que o ser de crer não se amoldava. Sentiu-se deslocar para a época glacial. A geografia física entonteceu-o, com os seus fenómenos físicos, biológicos e humanos. A médica conseguiu descartar-se:
- Faleceu!
Infelizmente é apenas com esta palavra que as pessoas de todo o mundo, que trabalham nas áreas de saúde respondem. Habituaram-se demasiado às leis mortais. Como se comprassem qualquer produto num qualquer supermercado. Como se saboreassem com o maior à vontade um bom petisco, ao pé de um cadáver. Saborear a morte é ser profissional, é ser normal. Perderam os sentimentos… apenas sentem as pessoas como qualquer objecto. Enquanto funciona é prestável. Quando não nos serve, o destino é o caixote do lixo, a que chamam cemitério. Triste realidade e fim do perecer.

Hongolo evadiu-se, afastou-se da realidade. A querida da sua vida… sem ela? Será engano?.. Não! Viu, sentiu que ela se despediu, do muro de suporte da vida que ruiu. Não respirava. Lembrou-se que quando deixamos a dinastia da vela vivencial não respiramos. Sentiu a ténue chama que restava da alma do seu amor, já nos idos sempiternos.

Hongolo!
Sonharam-me que descobriria o Caminho
Que tudo me seria revelado
Lamento! Não consegui
Deixo-te os meus últimos suspiros
Vão para ti. Vejo tudo tão escuro
Parece noite. Que luar, neste tão estranho lugar!
E contudo tão bonito. Vejo alguém muito longe
Que se apressa. Levita para mim
Hongolo! Sinto muito medo! Ah!.. És tu!
Não te demores. Vêm meu ardor
Acolhe-te nos meus braços abertos
Ainda queria viver muito
Mas não me deixaram
Não deixam ninguém viver
Apenas nos resta o sono, sonho eterno
Da nossa infelicidade.

Um tremendo fogo interior percorreu-lhe o corpo. A decisão da morte tão cruel para expiar o sentimento de culpa que sentia… a vingança a uma sociedade desumana. Uma vingança ao mundo que não os soube acolher. Adquiriu a certeza que não adianta mais viver. Mas, não foi ele que cometeu o crime. Infelizmente no reino petrofaminto é proibido amar. Tudo é proibido. Os nobres têm autorização legal, inquisitorial. Apenas uma coisa não é proibida… a morte. No petrolífero reino da casa da mãe Joana permite-se tudo. Viver para roubar. Viver para morrer à fome. Os culpados de todas as desgraças mundiais, são os malditos especuladores imobiliários. Ninguém os consegue punir porque eles são os presidentes, os ministros, os empresários no poder que nos escravizam.

Pegou num recipiente. Foi numa bomba de combustível e encheu-o com gasolina. Entrou em casa normalmente, ninguém suspeitou das suas intenções. Fechou-se no quarto bem trancado. Ensopou o colchão com gasolina, deitou-se e pegou-lhe fogo. As chamas tomaram conta do seu corpo. Um familiar sente cheiro a fumo. Tenta abrir a porta do quarto, não consegue. Gastaram-se aí quinze minutos para derrubar a fortificação. Levaram-no rápido para o hospital. As queimaduras eram intensas. Dificilmente escaparia. Pouco depois veio o fim do que nos resta. O convite da morte foi atendido. Contente por roubar mais um jovem, transportou-o para o seu abismo eterno. Os últimos momentos foram uma mensagem de esperança, para a sua Kitulu. A quem amou, como poucos sabem fazer. Ao maior, mais puro e único amor da sua vida.

Kitulu!
Estou prestes a consumir-me
Nas chamas da gasolina no reino petrolífero
Na escuridão dos cofres públicos gelados
Onde guardam as fortunas invisíveis, insensíveis
Que nos conduzem à morte
O meu, o nosso clamor não será vão
Alguém escutará, redobrará este apelo!
Na noite mais sombria dos tempos
Voltarei, e juntos encantaremos, espalharemos
O perfume humano, da humanidade do nosso Amor
Oh!.. Querida… Voltaremos!
Para aniquilar os tiranos que extinguiram o amor
Vejo para sempre finalmente!
A tua beleza e o teu amor que me seguem
Vem! Para a nossa morada eterna!
Onde não existem noites
Apenas o nosso glorioso Amor
Se fortuna não tivemos na terra
A do céu será o nosso tesouro
O teu silêncio será como uma enciclopédia
Ó Glória! Ó Glória! Segue-nos
Acampa-nos sempre Amor Vitorioso, Virtuoso
Levo comigo o Anel dos Nibelungos
Do nosso amor do ouro em pó
Do símbolo da iniciação dos mistérios do nosso culto
Do casamento que inventaram, com a morte nos casaram
Este enlace que jamais alguém apartará
Como o Rei Leónidas e os seus trezentos espartanos
Gil Gonçalves