quinta-feira, 10 de julho de 2008

O Mpla Suicidou a Rádio Despertar da Unita


Petróleo é preciso, livros… não é preciso.

Reino Petrolífero, algures no Golfo da Guiné.

Os Petrofamintos acessavam uma emissão de rádio, onde amiúde proclamavam, desabafavam vicissitudes incomensuráveis. Apesar dos esforços da polícia secreta para a silenciar, ela resistia bravamente.

Era o rumo dos sem rumo, assim divinizavam a Rádio Despertar. Alguns casuístas comparavam-na a Asterix o Minigaulês, que resistia arrumado, aprumado num cantinho sombreado da mafumeira. Os polícias da secreta rabulavam que a Rádio Despertar era o seu calcanhar de Asterix. Os circuitos telefónicos mais íntimos da governação, paladinavam que era o calcanhar da função real.

O reino Petrolífero propagandeava a epidemia de cólera, que militava com muitos aderentes para o interior do reino. Como praga ratada sem navios mercantes. Frechei-me com grande constrangimento: ninguém ousou, ousa explicar que a principal causa da cólera… é a fome. A epidemia cadastrou ao infinito do Ludopédio. A Rádio Despertar solicitou anuência para implementar o seu feixe hertziano a todos os ouvidos do reino, para que as populações se informassem, acautelassem, sanassem a epidemia. Os polícias da secreta liminarmente recusaram. Cartaram, selaram, pergaminharam para a Rádio Despertar:

Reverendíssimas Excelências da Rádio Despertar:
Havemos um contrato com o barqueiro Caronte. A epidemia da cólera faz as vítimas suficientes… as almas que o barqueiro necessita a contento. Sentimo-nos felizardos.
Se o sinal da vossa fé se digladiasse pela rádio e por todo o reino se espalhasse, não cairiam vítimas da cólera. Contamo-nos peremptórios firmados, e esse vosso pretenso vento é, não aceite.

Alvejamos a certa teologia do querem ir mais longe, para além das redondezas, dos limites de Delfos. As distâncias curtas por vezes tornam-se longas. Permitimos que funcionem devido à frequência democrática que nos foi imposta. Encetámo-la no compêndio das contrariedades.

Estendemos-lhes um dedo, agora querem a mão, depois o corpo. Para convencer que somos democratas, anunciámos que se realizariam eleições. Notem bem: que se realizariam… em qualquer momento, em qualquer época. Tudo depende da nossa íntima vontade. Não é a claridade de qualquer oráculo que nos leva ao cume solar, datar eleições. Uma coisa é incerta: o principio da incerteza eleitoral.

Os nossos insignes marinheiros vigiam atentamente as proas do vosso ecletismo. Pretendem entreabrir a janela da noite escura, para a missa de manhã. Fazer muita luz, para jorrar nos espíritos. Com tanta vela por aí à disposição. Estamos à vela!
Abundantes Saudações Revolucionárias.
Ludopédio, Frimário, Ano II.
Ano da Vida Incerta.

Resposta da Rádio Despertar:
Depois de consultado, o Oráculo revelou-nos:
Parafraseando o perfume opiado, marxista de Bertolt Brecht, condizemos:
Há governantes que são corruptos num dia, e são bons.
Há outros governantes que são corruptos durante um ano, e são melhores.
Há outros governantes que são corruptos durante muitos anos, e são muito bons.
Mas, há outros governantes que são corruptos toda a vida… esses são os imprescindíveis.
Mutam-se os climas, mutam-se as tempestades. Tudo é composto de ciclones.
Injectadas saudações.
O Directório.
Ludopédio, 9 Termidor.
Ano da emissão da nossa Rádio Despertar a todo o Reino.

Gil Gonçalves
Inicialmente publicado em
Portugal em Linha com o título, O Vídeo Matou a Rádio Star.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Figura da Semana. Kopelipa




O cão é um cavalheiro, eu espero ir para o céu deles, não para o dos homens. Mark Twain

Governar é comandar. A chefia não se impõe, nasce naturalmente.
Leio-o muitos livros para quê?! Os livros não me dão dinheiro, dão-me perda de tempo?! Mas eu não quero dinheiro! Somente sabedoria para saber que ganhar dinheiro ilicitamente é muito fácil. E depois fico a saber porque vocês, perdem o tempo no dinheiro!
Cidade de Luanda não! Cidade infestada de bancos.

E um terreno para construir uma biblioteca… não… já está tudo vendido!

Não se concebe viver num mundo, onde o dinheiro prevalece sobre tudo. Para vivermos em felicidade, temos que prescindir, acabar com o dinheiro. As sociedades humanas não podem continuar a existir… trabalhando à espera que uma moeda caia do céu. O mundo é nosso, não é de alguns. A areia está em todo o lado, e nós não. No entanto somos como ela, abundantes, é por isso que não temos valor.

Contudo ela está nos edifícios, fomos nós que a carregámos, e a eles não temos direitos. Somos, vivemos como as areias dos desertos. Somos um imenso mar de areia, soprados pelo vento, vamos para ali, para aqui, e assim permanecemos. Transformaram-nos em pó, com o destino, a missão única de aumentar os terrenos dos cemitérios, que já não chegam, pois que a fome e as epidemias, são a única liberdade que nos resta.

Até os cemitérios dos que nos matam à fome, são sublimes mausoléus, e nós quando a morte nos convida… os nossos familiares regateiam um pouco de terra… porque a ela, mesmo depois de mortos, a ela não temos direito. Até no além somos párias.
Gil Gonçalves



Chefe da secreta angolana compra quintas no Douro

CRISTINA FERREIRA e LUÍS VILLALOBOSO general Hélder Vieira Dias, "Kopelipa", pagou um milhão de euros por duas áreas no Douro para produzir vinho e exportar.O responsável pelos serviços secretos da Angola, general Manuel Hélder Vieira Dias Júnior, adquiriu duas quintas na região do Douro para produzir vinho destinado a exportação, designadamente para os países de língua oficial portuguesa (PALOP).


As propriedades agrícolas situam-se nas proximidades da Quinta da Leda, que pertenceu à lendária Ferreirinha e onde é produzido o emblemático Barca Velha. O negócio, concretizado há cerca de um mês, envolveu duas propriedades contíguas ainda por rentabilizar, a Quinta da Serra e a Quinta da Pedra Cavada, possuindo no conjunto cerca 400 hectares espalhados maioritariamente pelo concelho de Vila Nova de FozCôa e abrangendo a Região Demarcada do Douro e do Vinho do Porto (RDDVP). Os terrenos, de origem xistosa e marcados por elevados declives, encontram-se a dois quilómetros da Quinta da Leda.
A transacção contou do lado vendedor com produtores locais que detinham as quintas em parceria. Do lado comprador está a Superfície Vertical Investimentos Imobiliários (SVII), controlada pelo chefe dos Serviços de Inteligência Externa de Angola (SIEA). Segundo os valores registados oficialmente, Manuel Hélder Vieira Dias Júnior, conhecido por "Kopelipa", pagou pelos dois terrenos cerca de um milhão de euros.Um dos anteriores proprietários era a família de Celso Madeira (Rui e Filipe Madeira), dona da Casa Agrícola Reboredo Madeira (CARM), que desenvolve igualmente a sua actividade na zona duriense e que comercializa vinho e azeite com as marcas CARM. O primeiro contacto para a venda da Quinta da Serra e da Quinta da Pedra Cavada partiu de Celso Madeira no decurso de uma viagem a Angola.


Imobiliária mediou negócio"


Kopelipa" é desde 16 de Maio de 2007 administrador e accionista maioritário da WWC, World Wide Capital SGPS, holding que já este ano adquiriu a SVII.O recurso a uma imobiliária para realizar a transacção prendeu-se, segundo informações obtidas pelo PÚBLICO, com questões de natureza fiscais mais favoráveis. Este alto responsável do Governo angolano assumiu em 2006, por indicação do Presidente, José Eduardo dos Santos, a liderança dos serviços secretos locais, na sequência da sindicância desencadeada a este organismo e que levou à demissão do anterior responsável, general Fernando Garcia Miala.


Em Angola, "Kopelipa" está ligado a personalidades como Isabel dos Santos, a empresária filha do Presidente e sócia de Américo Amorim em negócios como o Banco Internacional de Crédito (agora também com presença em Portugal, tendo Mira Amaral como presidente).De acordo com informações do Semanário Angolense, entre os accionistas do projecto agrícola Terra Verde estão Isabel dos Santos, "Kopelipa" e um grupo de investidores israelitas. O general é também referido como tendo várias ligações a empresas da África do Sul, além de deter participações em diversas empresas angolanas em áreas como tecnologias de informação, transportes, cimentos e pescas.


No projecto vinícola no Douro, o novo proprietário da Quinta da Serra e da Quinta da Pedra Cavada pretende recuperar os terrenos baldios, reconvertendo-os em plantação de vinha, estando já a ser desenvolvidos contactos com vista à compra de licenças de plantio.Produzir vinho tintoDos quatrocentos hectares de superfície, há autorização para cultivar 150 hectares (destinados na sua maioria a gerar vinho tinto).


O plano é arrancar numa primeira fase com o plantio numa área equivalente a metade do que é permitido. Em simultâneo estão actualmente a decorrer negociações entre a SVII e Celso Madeira, o anterior dono das quintas, com vista a celebrar uma parceria para a sua exploração e que permita a obtenção de economias de escala. As conversas entre o dono da CARM e os representantes de "Kopelipa" envolvem um projecto de exportação de vinho para África, em especial para Angola, país que em 2007 importou de Portugal cerca de 50 milhões de litros de vinho.Nomeado em 1995 como chefe da Casa Militar de Eduardo dos Santos, "Kopelipa" iniciou a sua ascensão no seio da presidência através do departamento de estudos e análises, do qual era responsável. Entre as suas missões estavam a análise da situação política e do papel dos media, principalmente os de capitais privados.


A sua influência aumentou exponencialmente quando assumiu a direcção do Gabinete de Reconstrução Nacional (GRN), criado em 2004. Detendo total autonomia administrativa e reportando directamente a JoséEduardo dos Santos, o GRN tem como missão "promover, acompanhar e supervisionar a implementação de programas específicos no domínio da recuperação económica e social". Na prática, é por este organismo que passam centenas de milhões de dólares negociados entre a China e Angola, aplicados depois de diversas formas, incluindo a construção de infra-estruturas como habitações e estradas.


Mercado em alta.


Numa fase em que Angola importa cada vez mais produtos de consumo, Portugal tem conseguido aumentar a sua presença, nomeadamente em sectores como o das bebidas. No caso do vinho, cerca de 75 por centodas marcas compradas neste país são de origem portuguesa, segundo afirmou à Lusa José Costa e Oliveira, vice-presidente da associação portuguesa de produtores (ViniPortugal) no passado dia 1 de Julho. Só em 2007 foram exportados cerca de 50 milhões de litros de vinho, equivalentes a perto de dez milhões de euros, com destaque para as marcas dos grupos do Esporão e da Sogrape. No ano que vem, e de acordo com José Costa e Oliveira, o organismo de que faz parte vai investir no mercado angolano cerca de 500 mil dólares (319 mil euros), direccionados para acções de formação, provas de vinho e bolsas de estudo.


PÚBLICO – 07.07.2008
Gil Gonçalves
Foto das uvas: http://www.osmais.com/index.php?ver=NTg0Mg==
Foto general Kopelipa:
http://embangola.artedesign-net.pt/content.php?id=noticia&nid=903



Cultura Tradicional Bantu (FIM)


O bantu vive em permanente terror e entre o jogo defensivo e ofensivo da poderosa magia. Se morre uma pessoa, ao bantu não satisfaz a explicação de que um vírus ou uns micróbios o mataram. Ele tem de averiguar como, porquê e quem os introduziu no defunto. E isto só pode ser obra de um feiticeiro que utilizou práticas mágicas.

«Lançam moscas, morcegos, pássaros, animais, espíritos e objectos mágicos; o “mau-olhado” também lhes serve para lançar o mal; enterram remédios malignos por onde a vítima costuma passar; depositam objectos mágicos nas casas ou nos campos das suas vítimas».
O feiticeiro é propenso à dissolução sexual, pode mesmo atingir a perversão. De facto, as feiticeiras comportam-se como ninfomaníacas, e os feiticeiros praticam o incesto e a antropofagia.

O feiticeiro é necrófago, desenterra os cadáveres e, como os vampiros, chupa o sangue humano. Pode também tornar-se invisível para realizar impunemente as suas acções. Abandona o seu corpo e vai até junto da vítima. Veloz como o pensamento, vence distâncias enormes
Acreditam que ele se metamorfoseia em bolas de fogo, torvelinhos, fogos-fátuos e, sobretudo, em insectos, pássaros (corvos, abutres e mochos), em leopardos, hienas, serpentes, antílopes, sapos e pirilampos. Também cavalga sobre animais ou envia-os contra as suas vítimas. Consegue esconder-se debaixo da terra, transforma-se em pedras e introduz-se nas árvores.

Daí pensarem os Bantus que o feiticeiro tem de ser procurado quase sempre entre os seus familiares ou vizinhos mais próximos. Assim, o feiticeiro destrói a própria família.

Segundo lendas populares, nas noites de plenilúnio, vêem-se nos descampados das grandes florestas, círculos de feiticeiros dançando e girando com majestosa lentidão à volta do cadáver de alguma vítima. Ao fim, comem-no, cortando-o em pequenos pedaços e levando-os à boca com gestos rituais, lentos e suaves.

É muito frequente acusar mulheres, sobretudo as anciãs e esposas. É uma prova do antagonismo sexual e reacção à hipotética preponderância feminina nos grupos matrilineares. Além disso, como muitas mortes têm a sua origem em comidas e bebidas, é natural que acusem as mulheres que as prepararam.

«A mulher, considerada como a criatura mais misteriosa e insondável, está mais intimamente relacionada com a “escuridão” e a “noite”. Está, portanto, estreitamente relacionada com a feitiçaria». A mulher é enigmática devido à sua constituição física e psíquica. Os seus órgãos sexuais, o sangue menstrual, a capacidade de concepção e o poder alimentício dos seios levaram estes povos, apoiados na causalidade mística e nas leis e dinamismo da magia, a rodear a mulher de uma auréola misteriosa e ambivalente. É estimada e querida, receada e perigosa. Confirma-o o seu comportamento psíquico: uma intuição com reacções tão surpreendentes que transcendem a visão do homem, uma versatilidade incontrolável e uma capacidade de sedução até dobrar o próprio homem.

Para quem está alheio a esta cultura, não passa de uma pseudociência que se dissipará como o fumo, quando o bantu tiver conhecimento das leis da causalidade ou abraçar o cristianismo libertador e salvador.
In Cultura Tradicional Bantu. Pe. Raul Ruiz de Asúa Altuna. Edições Paulinas
Gil Gonçalves

Cultura Tradicional Bantu (XIV)


A crença na terrível feitiçaria e nos feiticeiros, apesar de enraizada na magia bantu, ganhou tais proporções e tornou-se tão obcecante, por causa das constantes acusações do adivinho que, se por um lado alivia, soluciona e inspira confiança, por outro, aumenta o terror da magia e mantém a sociedade em permanente insegurança. Basta recordar os frequentes e arbitrários ordálios.

Na África negra está muito generalizada a ideia de profetismo. O profeta negro sente que comunga com algumas das forças da pirâmide vital. Este contacto permite-lhe transmitir mensagens que podem esclarecer situações críticas. Assim se explica, de certo modo, o pulular por quase toda a África negra do profetismo-messianismo, origem dos Movimentos Profético-Salvíficos.
Os fundadores, a partir de uma visão ou êxtase em que lhes foi comunicada a sua eleição, mensagem e missão, julgam-se profetas escolhidos por Deus para salvar o seu povo, oprimido por qualquer tipo de violência.

Por exemplo, os habitantes de uma aldeia baconga têm de participar na preparação de «armas» contra os feiticeiros. Assim, ficam protegidos pelo feitiço e são controlados pelo adivinho, sempre atento à observância ritual que lhe é devida.

Nalgumas partes de Angola, destroem feiticeiros com a «arma de fogo da noite». Esta arma consiste num fémur humano, forrado ou cheio de terra do cemitério e de carne de algum cadáver. Quando o atiram ao feiticeiro, ele morre. Também se servem de armas de metal que disparam ossos de dedos humanos e bocados de metal. «Os homens das armas… não supõem, pelo menos alguns, que cometem um autêntico assassínio físico. Ao fazerem fogo contra a vítima, dizem: “Se és bruxo tens de morrer esta noite. Se não és, não deves morrer”… Acreditam misticamente que a pessoa, contra a qual dispararam, não sofrerá mal algum se não for culpada».
Também costumam apunhalar a imagem da pessoa acusada, reflectida num espelho ou na água de uma caçarola ou cabaça.

Têm, como os curandeiros, poderes parapsicológicos, às vezes notáveis e até dignos de admiração. Pessoas de confiança e testemunhas fidedignas contaram-me que alguns adivinhos colocam um boneco de madeira no chão e, depois de pronunciarem umas palavras esotéricas, o boneco começa a correr velozmente pela aldeia e só pára quando o mandam repousar a seus pés.
É quase certo que alguns praticam o hipnotismo, estão dotados para a telepatia, são ventríloquos e conhecem muitas aneiras de sugestionar e levar assembleias inteiras ao histerismo.

Usam truques, por vezes engenhosos, e uma prestidigitação eficacíssima. Como, às vezes, a consulta é feita na sua própria casa, um ajudante (ou aprendiz) ou mesmo o adivinho responde ao oráculo dentro de um subterrâneo aberto no chão. Também se esconde em troncos de árvore.

No entanto, há que distingui-lo do adivinho-feiticeiro, personagem real, conhecida e activa. Este actua livre e conscientemente. Fabrica feitiços malignos e serve-se deles nas suas actuações. Mistura veneno na comida e na bebida e assim vitima muitas pessoas. É movido por desejos de vingança e colabora na supressão dos inimigos dos seus clientes.

Acreditam que vive na comunidade, mas ninguém o conhece. Espalha um permanente medo que só o adivinho e o curandeiro podem enfrentar. O feiticeiro bantu é mito, lenda, suposição, figura, imaginação, símbolo, solução e necessidade psicológica, social e religiosa.

Nunca viram um feiticeiro, não assistiram ás suas reuniões, nunca presenciaram o seu desdobramento e metamorfoses nocturnas, mas a sua presença é uma exigência dos princípios fundamentais da cultura bantu.

Na sociedade bantu ninguém é feiticeiro, mas todos podem sê-lo. A explicação e a necessidade do feiticeiro estão no conhecimento e consciência que o bantu tem de si mesmo e da sociedade.

As palavras bantus mais comuns para o denominar são: «ndoki», «amulozi», «muloji», mloji», «moio», «ulogo», «bulozi», «buloji», «ulozi», «ndotshi», «moloi», provenientes do radical verbal «loa». Estes termos significam «malefício», «enfeitiçar». Noutras línguas dão-lhe o nome de «nganga» ou «onganga».

Este desdobramento de personalidade permite ao feiticeiro o dom da bilocação e até da multilocação. Uma parte do seu ser (o corpo) está fisicamente na cama, enquanto o seu doble (ou seu poder) actual em lugares distantes.
É este o fundamento da dura realidade, a razão que leva qualquer bantu a aceitar com resignação e passividade a acusação de ser feiticeiro, feita pelo adivinho e, então, submete-se docilmente aos ordálios. Quando estes indivíduos, inconscientes da sua maldade, são castigados, a justiça bantu subjectivamente considera-se, mas objectivamente é causa de lamentáveis injustiças, o acusado assume a responsabilidade, apesar de não ter consciência da sua maldade.

Entre ao Ambos, «aquele que quer receber esta faculdade encontra-se casual ou voluntariamente com quem a possui. Este, em determinado dia, dá-lhe “algo a comer”. Durante dois dias, o “mestre nada diz do que fez ao seu amigo noviço. Na terceira, depois de deitados, desperta-o repentinamente e confia-lhe a grande novidade:”Levanta-te, dei-te a ouwanga e quero que sejas meu amigo.” Em seguida, dá-lhe esta ordem formal: “Vai comer alguém da tua família.” E tem de cumprir esta ordem. Caso contrário, o “ouwanga” comeria o recalcitrante.
In Cultura Tradicional Bantu. Pe. Raul Ruiz de Asúa Altuna. Edições Paulinas
Gil Gonçalves

Cultura Tradicional Bantu (XIII


Como médico indispensável, douto e respeitado, consegue um nível de vida superior, pertence a uma casta privilegiada. A medicina científica ocidental, que o desprezou, reconhece hoje os seus valores e sabe que possui conhecimentos e segredos de grande utilidade. Em muitos países estão mesmo oficialmente reconhecidos.

Uma antiga curandeira narra o rito da seguinte maneira: «Tive uma doença na garganta… A adivinha consultada declarou que a causa do mal eram dois antepassados, avós maternos, que exerciam a profissão. Fui a uma mestra. A cerimónia decorreu assim: estava sentada numa esteira, no pátio da casa da mestra. Enorme assistência dançava e cantava à minha volta ao som do batuque… Pouco depois, entro em transe. Não consigo proferir uma só palavra, apesar de compreender tudo o que se passa à minha volta. Sinto-me sufocada e os meus olhos parecem lançar fogo.

Muitos doentes dirigem-se ao dispensário queixando-se de corpos estranhos que percorrem algumas partes do corpo e que incomodam com dores. Assistimos a curas de estados de saúde preocupantes, com a simples prestidigitação de simular que se lhes extraía do corpo um rato, uma rã ou uma pedra. Nestes casos, a sugestão é uma terapia eficaz.

O hospital pode aliviar a doença, mas como não a ataca pela raiz porque não descobre a causa, naquele momento fica acalmada, mas pode voltar. Além disso, muitos receiam morrer no hospital, onde a sua comunidade não pode realizar os ritos fúnebres e onde deambulam outros membros da comunidade ali falecidos, propensos à maldade por causa da desesperada solidão em que se encontram.

O curandeiro é um especialista que, com certeza, ainda vai durar muitas gerações em África.

No entanto, também é verdade que o prestígio e coacção mágica refreiam a expansão das conquistas médicas. Sofrem e morrem muitos africanos porque estes especialistas influentes impedem o seu sucesso a centros hospitalares.
A África tem necessidade urgente de se libertar das cadeias da magia. Os curandeiros, adivinhos, chefes e a gerontocracia são os mais firmes defensores desta situação.

Em muitas regiões, são denominados «m-hanga», «n-gan», «mganga», «inyanga», mas o mais comum é «nganga» cuja raiz significa «curar, tratar, rodear, acomodar, diagnosticar». «A melhor tradução parece ser a de «homem que conhece os meios de poder». Numa acepção relacionada com a sua missão, «nganga é o termo mais vulgar e mais difundido e, no contexto cultural congolês, usa-se este termo para designar o “sacerdote”». Em duala, língua bantu do sul dos Camarões, chamam-lhe «ngambi», de «ngan», o forte, e «nganja», sábio em ciência oculta e poderosa, aquele que pode adivinhar o futuro e averiguar se uma pessoa está habitada por espírito adverso.
Em Angola, são muito usados os termos «kimbanda» e «nganga». No entanto, em algumas línguas «nganga e onganga» é o feiticeiro. Na impossibilidade de empregar um termo bantu com o mesmo significado em todos os grupos, optámos pelo de «adivinho», acentuando, porém, que interessa mais o significado que lhe é atribuído que propriamente o vocábulo.

Daí, a necessidade imperiosa do adivinho, agente legalizado e consagrado nestas sociedades, para quem é o recurso supremo, nalguns casos, a última esperança. A ele devem a constante reconstrução da vida comunitária. Com os chefes, é, pois, o factor social mais contrário a qualquer evolução cultural. Com o seu poder coactivo e mágico protege a vida tradicional e opõe-se energicamente à acção missionária e às ideias novas.

Por vezes, degenera e torna-se uma pessoa temida, perversa e autora de toda a espécie de vinganças e extorsões. É fácil compreender que a posse de uma arma tão temida e certeira como a magia, dê azo a ambições, orgulhos e violências. Esta prepotência é caminho livre para a malícia, venalidade, inveja e cobiça. Como nas consultas tem de acusar algum malvado, como causa da desordem, pode muito bem castigar inocentes ou aniquilar quem lhe agrade. Basta acusá-los de feitiçaria. Deste modo, pode ocasionar mortos inocentes, que a sociedade julga justas. Tem o costume de fazer alarde das sentenças executadas, ostentando, num feitiço, tantos trapos dependurados quantas as mortes causadas.

Exige somas avultadas e, na sombra, elimina os inimigos dos seus clientes. Também extorque com ameaças, para satisfazer os seus interesses e ambições. Tem uma influência que se estende a todo o grupo. Conta com colaboradores submissos. Alguns vivem clandestinos, outros (os aprendizes e discípulos) são conhecidos de todos. São estes que habitualmente efectuam as mortes, à base de veneno, com perfeita discrição e total impunidade. É tão grande o sigilo que ninguém duvida da acção punitiva de um ser do mundo invisível, realizada directamente ou por intermédio de um feitiço. Estes discípulos recolhem informações de cada cliente e dos conflitos sociais e, assim, facilitam os diagnósticos do adivinho e confirmam a veracidade dos seus oráculos.
In Cultura Tradicional Bantu. Pe. Raul Ruiz de Asúa Altuna. Edições Paulinas
Gil Gonçalves

terça-feira, 8 de julho de 2008

Cultura Tradicional Bantu (XII)


Quando alguém quer matar um inimigo vai ao adivinho. Esse tem uma arma diminuta em cujo tubo introduz pólvora, dois bocados de agulha e um pouco da terra que o inimigo pisou ou urinou. O cliente tem de matar um gavião e um pássaro selvagem chamado «andúa». Ao primeiro tira uma unha, ao segundo, um pedaço da asa e introduz tudo no cano da arma. A asa serve para levar a carga e a unha, além de ajudar a transportar, também serve para ferir o inimigo.

Dependuram um galo de cabeça para baixo e o adivinho, com um só golpe, corta-lhe a cabeça. O queixoso acende a pólvora, saem as balas (agulhas) e espetam-se no galo. Neste momento morre o inimigo. O adivinho atira o galo ao rio, para simbolizar o enterro do inimigo e o queixoso, entretanto, amaldiçoa-o. Manda-o para casa e proibi-lhe de dormir em sua cama, durante quatro dias. Certificada a morte do inimigo, ele tem de pagar os emolumentos ao adivinho.
Para compreendermos como o jogo mágico pode conduzir a aberrações e criar uma atmosfera de terror, vamos descrever alguns feitiços preparados só para fazer mal ou para defender e vingar supostas acções mágicas maléficas. É cega a fé no poder e, embora ninguém os tenha visto, acreditam na sua existência.

Certos feiticeiros podem vivificar um cadáver com fórmulas secretas, medicamentos e invocações mágicas. Quando o conseguem, transforma-se num feitiço visível apenas a quem o fez. A uma ordem do feiticeiro, ele dirige-se à pessoa indicada e torce-lhe o pescoço até a matar. As outras pessoas apenas vêem a vítima caída no chão com o pescoço torcido e a gritar de dores. Pode-se afugentar queimando um pouco de farinha.

Em várias regiões de Angola, existe a convicção de que os chefes podem preparar um feitiço especial. Apanham uma criança e enterram-na viva. Durante duas semanas, desenterram-na diariamente e mumificam-na com lavagens e irrigações. Transforma-se num feitiço invisível que o chefe utiliza para matar os seus inimigos desta forma: aproxima-se da pessoa indicada com uma arma ao ombro e um chicote; dá-lhe uma chicotada e introduz-se no seu sangue. A vítima começa a tremer até morrer.

Também se servem de meninas para conseguir os mesmos objectivos. Mas a estas matam-nas espetando-lhes um punhal no peito, depois de seduzidas, e levadas para um lugar escondido.
O bantu teve de recorrer à magia-feitiçaria para explicar as mortes repentinas, a epilepsia, apoplexia, loucuras, qualquer manifestação espasmódica ou ataques cardíacos.

Não há dúvida que estas crenças consolidam a autoridade política e o prestígio dos especialistas. Estes confirmam-nas utilizando o veneno ou matando mesmo, através de fiéis servidores. No aspecto negativo, a magia bantu encobre manobras terríveis que satisfazem os piores instintos. Há especialistas consumados em sugestão, hipnotismo, parapsicologia e com uma experiência e com uma experiência milenária na aplicação de drogas e na propagação do terrorismo psicológico. No entanto, estes exageros, são bastantes limitados e nunca atingem as dimensões e sangue-frio dos utilizados em outras sociedades.

Certos especialistas, diz o povo, tiram o coração a um cadáver, matam um cabrito e uma galinha e também lhes extraem o coração. Perfuram uma estátua de madeira, da cabeça ao ventre, e introduzem os três corações. Em seguida, tapam o buraco para que «fermentem». Alguns dias depois, o feitiço começa a bailar. Está pronto para cumprir a sua missão, isto é, matar os inimigos do proprietário. Como é invisível, agarra a vítima pela cintura, penetra pelo ventre e vai até ao pescoço. O inimigo morre deitando sangue pela boca e pelos ouvidos.

«Depois da nomeação, máscara e dançarino são sagrados e, se são profanados, podem causar a morte do sacrílego».
O especialista da magia deve sará-las com um cerimonial especial. Por isso, são guardadas em lugares secretos e bem vigiadas. Só o especialista, os iniciados da sociedade particular ou secreta, e os homens podem vê-las e conhecer o seu significado.

Na África Ocidental, a máscara adquiriu tal expressão, estilismo, naturalidade, surrealismo, perfeição, dramatização e simbolismo que, com pleno direito, pode ser considerada como uma das notáveis obras de arte da humanidade. Assim, as mascarras bambaras, ibas, mendes, bomuns, wavegas, dogóns, ekois, batekés, bamilekés, ashantis, aguis, pangwés, balumbas, iorubas, baulés, as de Ifé, o Benim, talhadas na madeira, marfim, ouro, bronze, cobre e latão.

Há muitas mulheres dotadas para o exercício da magia. Acreditam que certas anciãs se podem converter em perigosas feiticeiras.

In Cultura Tradicional Bantu. Pe. Raul Ruiz de Asúa Altuna. Edições Paulinas
Gil Gonçalves

Unita. Rádio Despertar


Devo ter uma enorme quantidade de inteligência; às vezes até levo uma semana para a colocar em movimento. Mark Twain

Os jornalistas que reportam os factos da corrupção imobiliária seguem para o matadouro sem número. Nas garras do poder ninguém é julgado, condenado. Julgado de jornalistas transita sempre em veemente julgado.

Enquanto governantes engravatados reconstroem Angola em dois meses, todos os loucos e psicopatas universais aqui se magnetizam.

Onde não há lugar para honestos, a corrupção move-se como serpentes silenciosas, perigosamente venenosas.

Voltámos outra vez ao colonialismo. Estão lançadas as bases para outra luta de libertação definitiva.

Neste canteiro de obras psicadélicas, fecham ruas sempre com um metro nas mãos, nas medições estratégicas para construírem, destruírem terraços, frentes e especialmente traseiras de edifícios onde se escondem, se disfarçam monumentais lavandarias de dinheiros sujos.
Gil Gonçalves

Rádio Despertar abala estrutura do poder (MPLA) em Angola

Alcance geográfico da emissora da UNITA é o motivo legal para calar as verdades

A "Rádio Despertar" , uma emanação do Protocolo de Lusaka, está a incomodar sobremaneira o MPLA, transformando-se assim numa pedra no sapato do partido no poder. Os sinais deste incómodo já tinham sido manifestados publicamente pelo secretário para informação do partido no poder, Norberto dos Santos (Kwata-Kanawa), que inclusive tinha aventado a hipótese de se encerrar a referida emissora caso a mesma "continuasse a fazer propaganda a favor de um partido político (sic)". Tudo indica que o Governo vai satisfazer o desejo dos camaradas. Ou não tivessem eles o pão, a faca e o queijo na mão.

Por Jorge Eurico

O Ministério da Comunicação Social e o Instituto Nacional das Telecomunicações acaba de notificar formalmente a direcção da "Rádio Despertar" no sentido desta emissora deixar de emitir proximamente durante um período de 180 dias, apurou o NL em Luanda. Observadores atentos à situação contactados em Luanda afirmaram que, caso a notificação venha a ter efeitos práticos, a "Rádio Despertar" não vai poder emitir durante o período de campanha eleitoral, o que representaria um enorme prejuízo político para o Galo Negro. "Trata-se de uma jogada de mestre do MPLA. A (Rádio) Despertar seria um incómodo para o partido no poder durante as eleições", comentaram.

Entretanto, esforços feitos pelo NL para ouvir Adalberto da Costa Júnior, secretário para Propaganda e Marketing, no sentido deste dar mais pormenores sobre o assunto não foram bem sucedidos.

Recorde-se que o porta-voz do Governo no Mecanismo Bilateral de consulta advertiu recentemente que se a "Rádio Despertar" não mudar a sua linha editorial, será apresentada queixa junto dos organismos competentes. Na altura a UNITA, na pessoa do seu porta-voz, Adalberto da Costa Júnior qualificou de «falta de cultura democrática» a preocupação do Executivo em relação aos programas da Rádio Despertar.

Mas para o Governo, alguns programas daquela estação de rádio são de propaganda «a favor de um partido político» o que, segundo Norberto dos Santos «Kwata-Kanawa», contraria o seu objecto social. «Os acordos referem-se à transformação da VORGAN em rádio comercial e não rádio do partido. Dois cidadãos subscreveram o pedido desta rádio. O Protocolo de Lusaka não iria fazer uma coisa contrária à Lei da República de Angola. O raio de acção é de até 50 quilómetros e a Lei não pode ser para um e não para outros».

Norberto dos Santos (Kwata-Kanawa) disse que o Governo pondera notificar o Ministério da Comunicação Social, o Conselho Nacional de Comunicação Social e o Instituto Nacional das Telecomunicações.

O dirigente do MPLA não diz se este expediente pode desembocar no encerramento daquela emissora, mas denuncia também que ela passou a emitir fora do espaço permitido por lei.

Segundo Kanawa, «o raio de cobertura desta rádio passou para além dos 50 quilómetros e ouve-se no Kuanza-Norte, no Dondo e nas áreas de Nambuangongo que está acima dos 50 quilómetros».

Para o porta-voz da UNITA, Adalberto da Costa Júnior, afirmou, entretanto, ser surpreendente e estranha a atitude do Governo já que «a Rádio Despertar emana do Protocolo de Lusaka, com um alvará comercial».

O dirigente do partido do «Galo Negro» diz não fazer sentido esta interferência do partido MPLA na linha editorial daquela rádio «por não se tratar de uma estação pública.»

Para Adalberto Júnior a Rádio Despertar funciona em Luanda «e os seus programas têm sido aplaudidos mesmo por dirigentes do MPLA». As observações do Governo se referem em particular ao programa «Parlamento Público», que para a UNITA se destina a auscultação de opiniões dos cidadãos sobre temas de interesse para o país.

Adalberto Júnior disse que o que preocupa o MPLA é o tratamento imparcial das notícias, valor a que, alegadamente, os órgãos tutelados pelo Estado não permitidos a respeitar.
In
Notícias Lusófonas
http://noticiaslusofonas.com/view.php?load=arcview&article=21281&catogory=Manchete



Kitulu e Hongolo (Fim)


Baseado num facto verídico.

Chegou na maternidade e entregou-se nos cuidados intensivos. Suspirava, procurava a vida que lhe faltava, do único que a amava. No exterior, Hongolo aguardava, impacientava-se. Talvez fosse apenas mais um daqueles trejeitos, sintomas que normalmente as mulheres sentem durante a gravidez. O tempo passava, e as noticias, ele sentia, desconfortavam-no. Sentiu uma faísca no cérebro. Como se alguém lhe enviasse uma mensagem. Que estranho... era a primeira vez que sentia tal no seu pensamento. Parecia um pesadelo. Despertou sobressaltado. Não esperou, subiu as escadas empurrando, não se importando com quem lhe aparecia à frente. Sabia onde ela estava. Estacionou e perguntou:
- A Kitulu…

O semblante da médica augurava que o ser de crer não se amoldava. Sentiu-se deslocar para a época glacial. A geografia física entonteceu-o, com os seus fenómenos físicos, biológicos e humanos. A médica conseguiu descartar-se:
- Faleceu!
Infelizmente é apenas com esta palavra que as pessoas de todo o mundo, que trabalham nas áreas de saúde respondem. Habituaram-se demasiado às leis mortais. Como se comprassem qualquer produto num qualquer supermercado. Como se saboreassem com o maior à vontade um bom petisco, ao pé de um cadáver. Saborear a morte é ser profissional, é ser normal. Perderam os sentimentos… apenas sentem as pessoas como qualquer objecto. Enquanto funciona é prestável. Quando não nos serve, o destino é o caixote do lixo, a que chamam cemitério. Triste realidade e fim do perecer.

Hongolo evadiu-se, afastou-se da realidade. A querida da sua vida… sem ela? Será engano?.. Não! Viu, sentiu que ela se despediu, do muro de suporte da vida que ruiu. Não respirava. Lembrou-se que quando deixamos a dinastia da vela vivencial não respiramos. Sentiu a ténue chama que restava da alma do seu amor, já nos idos sempiternos.

Hongolo!
Sonharam-me que descobriria o Caminho
Que tudo me seria revelado
Lamento! Não consegui
Deixo-te os meus últimos suspiros
Vão para ti. Vejo tudo tão escuro
Parece noite. Que luar, neste tão estranho lugar!
E contudo tão bonito. Vejo alguém muito longe
Que se apressa. Levita para mim
Hongolo! Sinto muito medo! Ah!.. És tu!
Não te demores. Vêm meu ardor
Acolhe-te nos meus braços abertos
Ainda queria viver muito
Mas não me deixaram
Não deixam ninguém viver
Apenas nos resta o sono, sonho eterno
Da nossa infelicidade.

Um tremendo fogo interior percorreu-lhe o corpo. A decisão da morte tão cruel para expiar o sentimento de culpa que sentia… a vingança a uma sociedade desumana. Uma vingança ao mundo que não os soube acolher. Adquiriu a certeza que não adianta mais viver. Mas, não foi ele que cometeu o crime. Infelizmente no reino petrofaminto é proibido amar. Tudo é proibido. Os nobres têm autorização legal, inquisitorial. Apenas uma coisa não é proibida… a morte. No petrolífero reino da casa da mãe Joana permite-se tudo. Viver para roubar. Viver para morrer à fome. Os culpados de todas as desgraças mundiais, são os malditos especuladores imobiliários. Ninguém os consegue punir porque eles são os presidentes, os ministros, os empresários no poder que nos escravizam.

Pegou num recipiente. Foi numa bomba de combustível e encheu-o com gasolina. Entrou em casa normalmente, ninguém suspeitou das suas intenções. Fechou-se no quarto bem trancado. Ensopou o colchão com gasolina, deitou-se e pegou-lhe fogo. As chamas tomaram conta do seu corpo. Um familiar sente cheiro a fumo. Tenta abrir a porta do quarto, não consegue. Gastaram-se aí quinze minutos para derrubar a fortificação. Levaram-no rápido para o hospital. As queimaduras eram intensas. Dificilmente escaparia. Pouco depois veio o fim do que nos resta. O convite da morte foi atendido. Contente por roubar mais um jovem, transportou-o para o seu abismo eterno. Os últimos momentos foram uma mensagem de esperança, para a sua Kitulu. A quem amou, como poucos sabem fazer. Ao maior, mais puro e único amor da sua vida.

Kitulu!
Estou prestes a consumir-me
Nas chamas da gasolina no reino petrolífero
Na escuridão dos cofres públicos gelados
Onde guardam as fortunas invisíveis, insensíveis
Que nos conduzem à morte
O meu, o nosso clamor não será vão
Alguém escutará, redobrará este apelo!
Na noite mais sombria dos tempos
Voltarei, e juntos encantaremos, espalharemos
O perfume humano, da humanidade do nosso Amor
Oh!.. Querida… Voltaremos!
Para aniquilar os tiranos que extinguiram o amor
Vejo para sempre finalmente!
A tua beleza e o teu amor que me seguem
Vem! Para a nossa morada eterna!
Onde não existem noites
Apenas o nosso glorioso Amor
Se fortuna não tivemos na terra
A do céu será o nosso tesouro
O teu silêncio será como uma enciclopédia
Ó Glória! Ó Glória! Segue-nos
Acampa-nos sempre Amor Vitorioso, Virtuoso
Levo comigo o Anel dos Nibelungos
Do nosso amor do ouro em pó
Do símbolo da iniciação dos mistérios do nosso culto
Do casamento que inventaram, com a morte nos casaram
Este enlace que jamais alguém apartará
Como o Rei Leónidas e os seus trezentos espartanos
Gil Gonçalves

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Meditando. O Dia do Juízo Final


Quando se aprova o orçamento geral dum reino absoluto, vota-se a continuação da miséria na generalidade.

Alguns partidos políticos apostaram e votaram na entrega da papelada no Tribunal Constitucional, no último dia, como nos últimos dias de Pompeia. No ultimo dia… do juízo final.

No último dia… dão um bom exemplo de organização partidária. Como depois exigirem à população que seja organizada, disciplinada, com tão elementar demonstração de desorganização (!)

Relembram o crescimento insustentável democrático extremamente viável dos habituais derrames petrolíferos. Anunciam uma democracia contaminada pelas marés negras litorais, sazonais.

E para corroborar também o dia do juízo final, o secretário executivo da Anaso, Rede Angolana das Organizações de Serviço de Sida, António Coelho, falou à LAC – Luanda Antena Comercial, que a Sida em Angola está controlada. E exemplificou: há mais mortos e mais infectados.

No último dia aprazado, alguns partidos políticos legalizaram-se. Como concorrentes no dia do juízo final… sem juízo e fora dele.

Nunca pensei ver, mas vi. Uma democracia sem oposição. Na oposição do silêncio. Oposição barulhenta, actuante, só no metal sonante.

Gil Gonçalves





Kitulu e Hongolo (I)


Baseado num facto verídico.

O homem que não lê bons livros não tem vantagem alguma sobre aqueles que não podem lê-los. Mark Twain

Não são as Leis da Gravitação Universal. É a atracção universal de dois corpos humanos. Que insituáveis, permanecem nas cadeias dos regimes totalitários. As cadeias dos queridos guias imortais, que iluminam os caminhos da fome. Não há condicionantes. Há as condições aprazíveis… só para aventureiros.

Hongolo e Kitulu enamoraram-se, namoravam-se. Não como aqueles que namoram e fazem disso uma mera ocupação para passar o tempo. Amavam-se para além das montanhas aladas das suas almas. Muito para além da atracção universal de dois corpos terrenos. Os seus corações eram anormais. Estavam possuídos pela alta voltagem de Tesla, que lhes provocava curto-circuitos amorosos. Não notaram que construíram uma nave divina, e nela embarcaram num universo paralelo, longe das imutáveis leis humanas.

Hongolo de vinte e um anos e Kitulu dezasseis, vizinhavam-se, há dois anos que floresciam no namoro. O pai dela não sabia, saber não podia. Estudavam, o futuro preparavam. Hongolo vivia com um tio que o apoiava, como um mar de rosas imenso.
Distraíram-se e Kitulu engravidou. Coisa mais natural nos que se amam. Aquele que dá ao outro, o que recebe o sémen consagrado, que depois germina como vida premiada, num bonito ou numa bonita, sempre à espera dos ternos e eternos olhares fecundos de carinho, que o espreitam antes e depois do brutal contacto com os predadores humanos.

Desabrochavam-se no seu amor que já sentia maturidade. A responsabilidade que aceitavam, no infiel quotidiano. Hongolo lembrou-lhe:
- Querida… acho melhor desfazeres a gravidez.
- Sim… também já pensei nisso meu amor!
- Sabes… alguns remédios que vendem por aí… acho que são eficientes.
- Já tomo alguns… com a ajuda das minhas amigas… tudo correrá bem. Assim o espero!..
- Concordo contigo. Estudamos, e neste momento não temos condições para suportar um ser que nascerá, e para o qual não temos meios de o sustentar, alimentar. Será mais um esfomeado. Quem nos apoiará? Decerto serás escorraçada de casa. Para onde? E eu? Que estou na casa de um tio?!.. Deixaremos de estudar. Será o nosso fim… se o reino agendasse uma agenda de consenso nacional… um programa de apoio a jovens como nós, isso seria óptimo, como isso não existe, nunca existirá... até um nobre da universidade real quase a destruiu por causa de uma amante. Não concebo que o nosso ensino possa ser um passatempo enganador.
- Hongolozinho… compreendo perfeitamente. As tuas preocupações são a eternidade da fortaleza, da certeza do nosso amor. Apesar de retirar a sementeira do meu ventre, que jurei só a ti pertencer, continuará sôfrego de liberdade para nele de novo exercitares. Planta neste jardim das delícias acolhedor, a semente do nosso universo. Verás depois os frutos saborosos, acolhedores que cairão no paraíso das tuas mãos.

E a vida no laboratório da Kitulu expandia-se, sentia-se como o peixe na água, crescia, remexia, renascia. Preocupada, mas muito romantizada, como se dos seus lábios nascessem torrentes de jasmins, e o perfume incinerasse o seu amado num lago de lágrimas de amores-perfeitos.
- Hongolozinho, beneditino, bendito, bento amor, não me sinto bem. Acho que estou com paludismo.
- Vou procurar ajuda.
- Não vale a pena. Ninguém nos ajudará. Somos apenas jovens que se amam. Quem se preocupa com isso? Pensa nisso minha ternura, minha essência pura, e tudo se enaltecerá!
- Confio em ti, na tua raiz celestial, matriz de amor imperial.

Kitulu sentiu-se num mar confuso, não lhe corria de feição. Como mangais que oprimem, atapetam a margem da alma marítima, da natural protecção. A juventude do seu corpo fortalecido, sempre adequado para saltar qualquer obstáculo, em maré de rosas sempre cuidada, regada, e que no esquecimento seca-se, sem rega. Mas que depois recebe a água da vida. Reergue-se e canta a ária do Coro dos Caídos. Não esquece a representação final ao Criador do amor. A flor com e sem dor, sempre feminina, uterina, apta para a fecundação.

Kitulu sentiu a sua jasminácea flor jasmim-manga murchar-se. Apesar de muito aromatizada não conseguia resplandecer. Lançou talvez o último pedido de socorro.
- Por favor… leva-me para a maternidade.
Hongolo não sabia como obedecer. O que fazer do e no tempo, o que pensar. Sentia o sol apagar-se. Mecanizou-se como adivinho talvez ao último desejo da amada nebulosa.
- Está bem… não deixes o jasmim da nossa primavera da vida murchar.
- Não! A tua fumbalelê nunca murchará. Está rejuvenescida… já rejuvenescia a ecologia. Sempre bem desperta… para ti aberta.
Gil Gonçalves

sábado, 5 de julho de 2008

Meditando. Estilo Gótico




Em meados do século XIX, a nação é assolada por uma grande onda de fome, que mata mais de 1 milhão de pessoas e leva 2 milhões a imigrar. Ninguém quis saber, deixaram-nos morrer.
In Grande Fome na Irlanda, Vikipédia.

Geralmente levo mais de três semanas a preparar um discurso de improviso. Mark Twain


O interlúdio da pobreza, da fome, prossegue dentro de todos os momentos.

Muitos e muitos carros para poucas estradas esburacadas, permanentemente engarrafadas.

A especulação imobiliária em Luanda ultrapassou o extremo gótico de Edgar Allan Poe. Quando um edifício começar em chamas, será como a Queda da Casa Usher… as chamas acabarão com tudo. Porque não existem caminhos nem água para os bombeiros. Até ruas se encerram permanentemente para novas construções. Não é um pais que se constrói, é um castelo de cartas, de vento, no ar, gótico.

Com os exemplos recentes e o actual da era Mugabiana, assistiremos à imolação final da África negra. Tudo e todos bem preparados para o grandioso suicídio colectivo.

Decreto dos Decanos da Africana Unidade:
Alô… Angola (!) Antecipem o desastre eleitoral dos morticínios, das prisões, dos tumultos, das políticas perseguições. Não façam eleições, façam já conversações. Conforme a adequação do esquema dos nossos Mais-Velhos, asseguramos desde já: José Eduardo dos Santos, Presidente. Isaías Samakuva, Vice-presidente e Filomeno Vieira Lopes, Primeiro-ministro.

A AJPD-Associação de Justiça Paz e Democracia, enviou cartas ao Presidente americano George W. Bush e Primeiro-ministro britânico Gordon Brown, para que evitem o desastre pós-eleitoral, para que não sobreviva a passadeira da última moda Mugabiana.

Entretanto podemos iniciar: Serão válidas eleições com generais no poder (!). Podemos resumi-las em três actos:

1 Os tumultos anunciam-se, porque a violação dos actos eleitorais à Constituição pelo PMLA-Partido Marxista Leninista de Angola são infalíveis.

2 Imbambas nas cabeças e retorno aos matos, às tangas e ao arco e flechas.

3 Evacuação de estrangeiros.

Gil Gonçalves
Imagem: http://www.fpdnoparlamento2008.blogspot.com/

Cultura Tradicional Bantu (XI)


Também usam chifres de antílopes, bolsas de pano e até ossos humanos. As estatuetas costumam ter uma cavidade no centro do ventre, do pescoço ou da cabeça, onde o especialista esconde ossinhos, pêlos, cabelos, sangue e pedaços de plantas e minerais. A participação vital fica unida e activa. A força vital, que o enche, encontra os três reinos do universo. Assim, é possível a junção de forças que, em pequena escala, realiza a totalidade cósmica participante.

Hoje, é frequente encontrar dentro dos feitiços pequenos crucifixos, medalhas, contas do rosário e outros objectos cristãos. Pensam ser a melhor maneira de apropriar-se magicamente da virtualidade que proporcionou aos brancos o seu poderio. Uma cristianização superficial levou-os, por sincretismo, a utilizar imagens cristãs com a mesma finalidade. O santo cristão ocupa o lugar do antepassado, mas sem banir o sentido religioso tradicional.
Abundam as estatuetas-feitiços representando um antepassado ilustre. Como autênticos relicários, neles guardam, em qualquer cavidade, restos dos seus cabelos, unhas, crânio, ossos, dentes ou qualquer coisa, que lhe tenha pertencido. O antepassado, ali presente e actuante, protege a sua descendência porque gosta de recolher-se nessa morada, ou, então, porque os seus restos tornam presente a sua força vital.

A sugestão causa estragos. O veneno ocasiona muitas mortes. Os especialistas da magia e muitos particulares conhecem as receitas secretas para a sua preparação e a ciência empírica da sua aplicação, cujos efeitos vão desde a idiotice, paralisia ou intoxicação, até à morte quase instantânea ou lenta e dolorosa. Protegidos pela crença na acção mágica, fulminam vidas humanas com demasiada frequência e impunidade. O uso do veneno e de outros tóxicos leva as pessoas a acreditaram na eficácia da magia e a envolverem os especialistas numa auréola de poder, mistério e prestígio. As crenças mágicas originaram e mantêm estes abusos.
Apresentamos alguns exemplos de feitiços usados por grupos angolanos.

O «kissola» é um boneco de trapos, de uns 30 cm, preparado pelo adivinho. Enfeitam-no com uma cabeleira de fibra pintada com barro vermelho. O casal que deseja filhos coloca-o debaixo da cama. Em todas as Luas Novas, alimentam-no aspergindo-o com bebidas e alimentos e a mulher pinta-o com pó. Fica simbolizado por uma bananeira plantadas à frente da casa e protegida por estacas. É o sinal do «kissola».
Ninguém pode falar com a mulher que está sob a sua influência. Se não consegue engravidar, o adivinho arranca as estacas, mata uma galinha e esfrega o «kissola» com o sangue. Se, depois deste sacrifício, não consegue a gravidez, o especialista atribui à mulher a esterilidade.

O adivinho prepara o «nvunji» para o cliente que deseja descobrir um feiticeiro ou u m inimigo, autor de algum mal, especialmente doenças. Enche um chifre de antílope com pó da casca da árvore «mbambu», de onde se extrai um dos venenos mais utilizados nos ordálios. No meio do pó coloca duas balas de chumbo. Entrega também uma pequena cabaça, «ndembo», cheia de «nbambu» e de pêlos de várias partes do corpo de uma pessoa.
O dono coloca-o num cestito debaixo da sua cama. Quando quer activar a sua força, espeta o chifre junto ao fogo da lareira com a cabaça ao lado e pede-lhe uma doença para o inimigo.
Quando adoece uma criança, esfregam-na com pó de «nvunji». Tem variadas aplicações. Os chefes têm-no sempre porque o «nvunji» é como uma arma que mata tudo.
In Cultura Tradicional Bantu. Pe. Raul Ruiz de Asúa Altuna. Edições Paulinas
Gil Gonçalves

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Figura da Semana. Filomeno Vieira Lopes




Devemos ser gratos aos idiotas. Sem eles, o resto de nós não seria bem sucedido. Mark Twain

Os cães e o vento uivavam nervosos, temerosos da escuridão que agitava os sons do silêncio da noite. Tiros ouviam-se de vez em quando. Era um nocturno melancólico de uma sinfonia fantástica.

Ouvimos o miar de gato na porta da rua, seguido de arranhadelas que aumentavam de tom. Depois o ladrar de cão seguido de dois socos. Ficámos muito atentos, expectantes. Mentor esboça um largo sorriso, levanta-se e abre a porta rapidamente. Depara-se com alguém que traz um mostruário de vendas. Não demonstra surpresa, adivinhara quem chegara.
- Ulisses… não é possível… a venderes telemóveis!? Sempre com astúcia!
- Claro… depois será o disfarce de presidente de um partido político. Exigirei o dinheiro que me é devido, depois financiarei uma armada grega para atacar os Incendiários que persistem em governar-nos. Vou-lhes lançar fogo grego.
Gil Gonçalves


A FpD E A FEDERAÇÃO PELA MUDANÇA POLÍTICA
“A FpD é um partido que não pode deixar de ser levado em consideração, é um partido de oposição com política própria, um partido que representa um pensamento político alternativo para o país.”

(artigo de Filomeno Vieira Lopes, Luís do Nascimento e Nelson Pestana (Bonavena), publicado no AGORA, nº. 580, de 24 de Maio de 2008)

As eleições legislativas de 2008 estão à porta. E isto é uma coisa boa! Foram dezasseis anos à espera. Os angolanos foram impedidos de votar em 1996, em 2000 e em 2004 (mesmo depois da paz). Não devem pois deixar de participar activamente nestas eleições de 2008. Cabe a cada um dos cidadãos (e a todos) exercer o seu direito soberano de livremente de escolher os seus representantes na Assembleia Nacional, por um período de quatro anos (2008-2012).

O aproximar da data prevista para a realização das eleições começa a trazer movimentação nos partidos políticos. E, se algumas movimentações se têm pautado pela preocupação de participar da melhor forma no pleito eleitoral, trazendo novas propostas, não tem faltado a baixa política de affairistas que destratam os demais partidos, de fundamentalistas que se oferecem para a anti-campanha, de pedintes que falam alto para sentir a lata tilintar, de intriguistas e politiqueiros que não medem os meios para atingirem os seus fins e de tutti quanti de poluição da política nacional.

Os comentaristas, geralmente, são calculistas e alguns vêem na prática da crítica uma oportunidade de conversão dos ganhos simbólicos em dividendos fiduciários. Mas, também há os que preocupados com a sua imagem e seu bom-nome, procuram ser objectivos. Estes têm dito que a maioria absoluta do partido da situação vai cair e nenhum outro partido vai conseguir obtê-la. Os próprios da situação não acreditam mais nessa possibilidade e falam apenas numa “vitória confortável”. Muitos comentadores, opinion makers e outros cidadãos se pronunciaram, entre os partidos nacionais, sobre a Frente para a Democracia (FpD). As declarações deles abordam, cada um segundo o seu enfoque, aspectos particulares deste partido, o seu dinamismo, a sua acutilância, a sua capacidade prepositiva o seu posicionamento em relação ao social. Numa coisa todos concordam: a FpD é um partido que não pode deixar de ser levado em consideração, é um partido de oposição com política própria, um partido que representa um pensamento político alternativo para o país.

Esses comentaristas ao falarem da FpD, não deixam de a colocar perante o desafio das próximas eleições. Pelo que importa esclarecer a posição da Frente para a Democracia (FpD) no contexto político nacional actual.

Para a FpD, o sentido das eleições legislativas de 2008, não é o do poder. A questão que está em jogo não é uma questão de poder mas sim de mudança política. A FpD quer a mudança, sempre se apresentou como um “partido de confiança”, que quer ser “força de mudança”, ao serviço da sociedade”. A FpD não se apresenta como uma alternativa de poder mas sim como uma alternativa de política. O objectivo da FpD não é o de afastar, pura e simplesmente, do poder o partido da situação e de substitui-lo por um outro. O nosso objectivo não é o de substituir um partido-Estado por outro. A FpD não é um partido de clientelas. É um partido de quadros e militantes que interagem com os cidadãos sem lhes perguntar a sua cor política. Os partidos são apenas um dos instrumentos de realização da política nacional e não são a própria política. E muito menos de realização da Nação. A Nação realiza-se pela sua pluralidade através da realização da cidadania e os partidos são apenas um dos lugares e modos dessa realização.

A FpD quer mudar estruturalmente o país, começando por atacar, nos seus fundamentos, a actual estrutura de oportunidades extremamente desigual, através de um forte investimento na educação e no emprego. Complementados com consideráveis investimentos na saúde, água e saneamento e no fomento da habitação que são formas de reforço das capacidades (de empoderamento, como se diz hoje) da família que é um dos locus mais importantes da realização da cidadania. O combate à desigualdade social (que entre nós se confunde com a discussão do sistema clientelar e dos seus desenvolvimentos, do tipo: “agora chegou a nossa vez”) a FpD fa-lo-á através da alteração da estrutura de oportunidades do país, fazendo com que todo o cidadão em idade activa participe da produção da riqueza e, por este meio, participe igualmente da sua distribuição. Enquanto os demais estarão, uns, na escola a serem preparados para sustentar a passagem sustentada da economia de enclave para a economia produtiva desenvolvida. Outros, através do sistema de solidariedade nacional cuidarão dos netos, darão lições as mais novos, farão desporto, fruirão de várias formas de lazer e contribuirão para o desenvolvimento nacional com a transmissão da sua sabedoria e experiência. E, as formas modernas de economia solidária passarão também a ter campo de intervenção.

A FpD pretende um espaço de realização da sua política e para isso precisa de estar representada na Assembleia Nacional com um grupo parlamentar próprio que tenha a responsabilidade de implementar o seu projecto de mudança e que responda (na virtude ou no defeito) perante os seus eleitores. A FpD associa a política à responsabilidade dos representantes (os deputados, governantes e demais pessoal político) perante os representados e não aceita a perversão do princípio da representação, em que o representante passa a submeter o representado às suas vontades e diatribes.

Por isto, a FpD não entra em coligações com objecto, puro e simples, de alternância de poder. A FpD também não aceita – por inerência do projecto alternativo que comporta - a bipolarização da política entre os parceiros do GURN. A FpD tem promovido, mesmo sem que houvesse eleições, uma ampla federação de pessoas, vontades e organizações por uma mudança de política, pela mudança de cultura política, de prática de poder, de moralização da relação com os governados. Esta ampla federação está em curso desde há muitos anos, com a sociedade civil, com os independentes, notáveis, movimentos reivindicativos, sindicatos, associações e todos os cidadãos que se reconheçam na identidade-FpD e nos postulados gerais do seu propósito de “transformar Angola numa potência de dimensão atlântica para enriquecer os angolanos”, através da realização da “Liberdade, Modernidade e da Cidadania”.

Alguns - incluindo aqueles que colaboraram na trama de criar obstáculos à diferença e agora nos acenam com o lenço da pretensa salvação - pensavam que a FpD, devido as dificuldades de um processo eleitoral disputado em condições de pouca liberdade e equidade, seria coagida a abandonar o seu próprio projecto. Pensavam secretamente que essas dificuldades seriam motivo para a desistência e para justificar alianças oportunistas. Esqueceram-se que a FpD é um partido de princípios, um partido em quem as pessoas confiam, mesmo quando não estão de acordo com as suas posições. Não queremos perder a confiança e o respeito das pessoas (incluindo dos nossos adversários). Os militantes, simpatizantes e amigos da FpD sabem que em defesa das nossas causas e da nossa ética política, nós preferimos sermos derrotados nas nossas convicções do que ser eleitos na base de uma ambiguidade.

Sempre advogamos as plataformas de concertação, de diálogo mas também sempre primamos pela nossa autonomia de pensamento e de acção. Continuamos a defender o diálogo mas sem cooptação, nem arrogância. A alternância não se faz apenas com novas pessoas mas sobretudo com novas ideias, uma nova forma de olhar as questões nacionais (por exemplo, a pobreza), de as anunciar e de as resolver. Há partidos a advogar, pelo menos no discurso, a mudança mas é preciso que apresentem novas ideias numa visão de conjunto sobre o Estado, a economia e a sociedade em Angola virada para a resolução em concreto dos problemas dos cidadãos. A FpD põe o acento tónico nas novas ideias e nas novas práticas. A nossa aposta não é na alternância do poder mas na alternância da política. E, esta alternância de política é um processo e não apenas a passagem repentina a um “novo” poder. Um processo que não se faz com o aniquilamento do outro mas com a sua aceitação e integração na nova política.

A FpD quer uma mudança não apenas nos conteúdos da política nacional mas também nos métodos, nos modos de produção do político. Por isto, defende a ampliação do espaço democrático e a mudança do sistema de governação, sobretudo, a alteração da relação entre a Assembleia Nacional e o Governo. A Assembleia Nacional tem que ser valorizada como centro do poder de Estado e como câmara deliberativa que traduz a vontade geral em Lei. A Assembleia Nacional deve ser um agente activo de controlo do executivo e de interacção com a sociedade e os deputados da FpD vão estreitar relações com os movimentos sociais e reivindicativos de todo o país para que a política seja colocada ao serviço dos cidadãos.

Por isto, a FpD pretende, nas eleições legislativas de 2008, constituir um grupo parlamentar forte, como primeiro passo para impulsionar a mudança estrutural e progressiva do país. Por isto, a FpD apresenta-se como um partido que é património colectivo de todos os democratas que defendem a mudança e que pretendem protagonizar uma terceira política, ética e de valores que evite a bipolarização entre os parceiros do GURN, estimulando a parceria com as organizações da sociedade civil, colocando-se em lugar privilegiado para impulsionar, sem complexos, um processo de federação de todas as correntes democráticas em torno de um projecto de democracia participativa e solidária

A FpD considera como fundamentais a unidade do movimento democrático e a luta pela consolidação do processo de democratização, pois a restauração autoritária que se opõe quotidianamente ao processo de democratização do país, vai fazer do próximo pleito eleitoral – se os cidadãos o permitirem – o instrumento de liquidação de todas as reivindicações de liberdade, prosperidade e progresso social, colocando o país sob chantagem, em relação a continuação do poder absoluto do Príncipe.

Angola e, sobretudo, os angolanos precisam de um voto claro na Mudança, num partido de confiança que está ao serviço da sociedade.

Filomeno Vieira Lopes (Presidente da FpD)
Luís de Nascimento (Secretário-geral da FpD)
Nelson Pestana “Bonavena” (Coordenador do Conselho Nacional de Estudos e Reflexão da FpD)
In http://fpdnoparlamento2008.blogspot.com/
Gil Gonçalves
Foto: Filomeno Vieira Lopes, presidente da Fpd, Frente para a Democracia numa conferência no Senegal.
http://www.instituto-camoes.pt/senegal/conferencia-actualidade-de-angola-economia-e-sociedade.html

O Contentor


Por falta de um prego, perdeu-se a ferradura. Por falta de uma ferradura, perdeu-se um cavalo. Por falta de um cavalo, a mensagem não foi entregue. Por uma mensagem não entregue, perdeu-se a guerra. (Ditado japonês).

Adiantei-me numa rua onde se escutava uma ode ao automóvel. Buzinas estrondeavam, trombeteavam coro metálico em harmonia com vozes humanas. Realmente parecia um imenso manicómio. Tantos loucos varridos à solta! Alguns punhos erguidos agitavam-se temíveis. A explicação saltava à vista: um enorme contentor abandonado na rua obstruía os sentidos do trânsito. Nenhum carro entrava ou saía. Satisfiz a minha curiosidade num automobilista:
- Esta rua está condicionada a parque de estacionamento de contentores?
- Não! O motorista abandonou o contentor às cinco da manhã, e foi para a bebedeira com o camião.
- E!?...
- E como pertence a uma empresa de um Incendiário, não podemos fazer nada, senão levamos nos cornos.

O tugúrio de Mentor não prestou a mínima atenção quando chegámos. Parecia que as chapas onduladas que cobriam o telhado sorriam com a nossa presença. Mais chapas zincadas rodeavam o casebre. Contra elas o lixo e a água do esgoto próximo remavam, rumavam para incerto destino. Mentor abriu a porta gótica, e entrámos. Pegou numa vela, acendeu-a. As sombras dos objectos revelaram-se como fantasmas. Cuidei-me ao sentar numa cadeira tresmalhada. Tinha um calcanhar vulnerável. Precavi-me, firmei-a na parede com cuidado. Desconfiado, se a estrutura resistiria à pressão. Mentor sorri, apresenta explicações:
- Sabes, não dá para ter uma casa em condições. Só o mínimo indispensável, porque quando chegam os assaltantes, se não conseguem roubar nada, pegam-lhe fogo. Obrigamo-nos a viver no estilo gótico. Luz é impossível, à noite abundam aparições de alicates fantasmas que cortam os vultos dos imateriais cabos. Olha… temos que prestar atenção às velas, algumas parece que explodem.
Gil Gonçalves

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Dois Jasmins











Mulher é e será sempre o mais belo e poderoso sonho. Nunca saberemos como elas conseguem transformar o nirvana dos jasmins.

Dois jasmins saídos do jardim do Palácio Presidencial, para perfumarem a Assembleia Nacional, e nela deputarem, apresentarem a beleza imperial e principesca do maravilhoso exotismo, do que há de mais puro e nacional.

Duas perfumadas jasmináceas demonstrando, mostrando, embelezando com a sensibilidade feminina, as batalhas das palavras arregimentadas, ornamentadas na Casa das Leis.

Um Parlamento nacional que será revigorado, incendiado de jasmins nas sensíveis mãos e bordões dos femininos corações. Então, um intenso perfume natural derramar-se-á, anotar-se-á, igualando, superando, o parlamento dos jardins suspensos babilónicos e faraónicos.

Adoraremos estas deusas deputadas, e que o Parlamento Angolano se inunde como… muitas, e muitas mais divas.

A Primeira-dama de Angola, Ana Paula dos Santos, rejuvenescerá como rainha, imperatriz do estar uma beleza. Soraya do olhar magnificente, da estrela da manhã nascente, resplandecente. Edificará, rejubilará outro Taaj-Mahal, e nele repousará depois da retórica argumentada na Casa das Leis.

A dignificada princesa Tchizé dos Santos, o ser uma beleza, assombrosa, de puro e nacional exotismo fabricado, concebido, é a graciosidade exponencial da jovem angolana, africana. Perfeccionista, a ela se renderá, ajoelhará preso nos seus encantos, o nosso Parlamento.
Welwitschia Mirabilis que chega a viver mais de mil e quinhentos anos, é, dela será o solo que acariciará e reverdejará. Dela nascerão a força, a eloquência das dissertações patrícias no soberano Parlamento.

Bem-vindas formosas, jubilosas deputadas ao nosso sagrado jango olímpico.
Bem-vindos Jasmim-borboleta e Jasmim-azul.

São nacionais, gostosas, eu gosto!
Gil Gonçalves
Em cima à esqerda. Tchizé dos Santos, filha do Presidente de Angola, José Eduardo dos Santos.
Em cima à direita: Ana Paula dos Santos, Primeira-dama de Angola.
Imagens dps jasmins: http://www.jardineiro.net/br/geral/listao.php?letra=J&menu=pop

Sou Jornalista, Você é Árabe?







A especulação imobiliária da política prossegue a muito mau biorritmo no Zimbabué. Os presidentes homólogos apoiam-no.
A China aproveita e incendeia o que resta do Zimbabué, financiando e armando pretensos comunistas, cria grupos que a favorecem. Procura bases para se implantar, e depois a restante África negra arrasar, incendiar.
Entretanto, pedreiros-livres disfarçados de comunistas/comodistas atrelam-se nos barris petrolíferos e ofuscam-se na intensidade dos brilhos diamantíferos.

Um país que deixou de ser quem era. É um cadáver sem morgue, sem casa mortuária. Vive na incapacidade congénita governativa generalizada.
Oh, como adoro este cheiro petrolífero!
Sempre foi assim, e sempre assim será!.. Não!.. Cada vez será pior.
Já foi república das bananas, da jinguba, em breve mais um estado falhado, um novo Darfur edificado.
Sou Jornalista, Você é Árabe?
Gil Gonçalves

Livro de Ana Paula Castro será apresentado hoje (dia 3 de Julho em Lisboa.

“Sou Jornalista, Você é Árabe?” tem prefácio do Sheikh Munir, Imã da Mesquita Central de Lisboa

No próximo dia 3, quinta-feira, a Editorial Novembro e a escritora Ana Paula Castro darão a conhecer o novo romance da autora intitulado “Sou Jornalista, Você é Árabe?” que tem prefácio do Sheikh Munir, Imã da Mesquita Central de Lisboa. A apresentação estará a cargo de Eugénio Costa Almeida e de Orlando Castro. Será na FNAC, do Chiado, em Lisboa, pelas 18,15 horas.

Eis algumas passagens deste romance da escritora luso-angolana nascida na então cidade de Nova Lisboa, Huambo:
“ (…) À noite, na sala de visitas, Raquel abriu, curiosa, o canal do seu futuro emprego, TV Estrelas Notícias, para apreciar o seu funcionamento técnico. Apresentaram se dois locutores, com cerca trinta anos. Ele. Ela. Ele vestia um fato cinzento, camisa branca e gravata encarnada. O cabelo impecavelmente cortado e a postura do corpo bastante correcta. Ela vestia um casaco escuro sobre uma camisa encarnada. Os cabelos eram negros e compridos. Traziam na cara um brilho rosado e um ar pleno de responsabilidade. Os dedos remexiam levemente quando a fonética denunciavam pequenas falhas.

Ela: «A fome no Sudão. Um drama que já matou mais de sessenta mil pessoas num ano.»

Ele: «Fome é hoje a bandeira do Sudão, assombrado pelo sofrimento das crianças, com índices de desnutrição dramáticas, olhos afundados e cabelos finos sem cor, a pele enrugada como pessoas idosas.»

Ela: «As mães, desidratadas, não conseguem alimentar os filhos. As crianças são verdadeiras migalhas humanas, deitadas na poeira como se fossem nascidas de um mundo de terror.»

Ele: «O gado encontra se esquelético sobre fantasmas da morte.»

Ela: «Ao Norte do Mariel Lou, os conflitos continuam com frequência entre dois clãs do Dinka, o Aliek e o Longkpak. As pessoas fogem para sul. Há crianças desaparecidas cujo destino se desconhece.»

Ele: «O economista americano Jeffrey Sachs diz que, com a ajuda dos países ricos, em duas décadas, seria possível erradicar a miséria em todo o mundo. Seguem se imagens capazes de ferir a susceptibilidade dos telespectadores.»

As imagens eram silenciosas e horripilantes.

A mulher negra, só pele e osso, desolada, encontrava se sentada no chão poeirento. Vestia um pano de chita estampado a cobrir o corpo. Num braço, trazia uma filha cujo olhar de medo expressava o espasmo da fome. No outro braço, trazia o filho esgazeado, a lamber com sofreguidão as lágrimas grossas que lhe caíam pela cara. As crianças embalavam a esperança no fim do conflito, com os trinta e quatro anos de guerra civil. Milhões de mortes. A inércia sem resoluções de entendimento. O Sudão.

Raquel sentia se amargurada e triste. Acendeu um cigarro e suspirou. Esmaecida, ergueu se, desligou a televisão e dirigiu se à cozinha. Arranjou um copo de água com açúcar. Bebeu.

«Que mundo é este em que vivo?», perguntou se, aturdida. «Não acredito que este planeta não seja o mais atrasado do Universo! Que esperam os extraterrestres para o invadir e transformá-lo num deserto igual a Marte? Não habitado!» (…)”
Notícias Lusófonas

In
http://noticiaslusofonas.com/view.php?load=arcview&article=21268&catogory=Manchete
Gil Gonçalves

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Orlando Castro. Adriano Moreira, o Africano


Este é o paraíso dos muitos bancos, e onde os há, também há muita lavagem de dinheiro. Quando um banco abre mais uma agência, preocupo-me muito. É mais um tumulto que se aproxima.
Já não há espaço para tantos perseguidores das fragrâncias petrolíferas. Para quê livros, se o petróleo nos dá sabedoria.
Petróleo, o pilar da democracia
Gil Gonçalves


Orlando Castro. Adriano Moreira, o Africano
Mais uma lição de Adriano Moreira sobre o Zimbabué e, é claro, África
O silêncio da quase totalidade dos países da União Africana (UA) em relação à crise no Zimbabué é “altamente preocupante” para África e para o Ocidente, em geral, afirmou hoje à Agência Lusa o académico português Adriano Moreira. Académico e, diga-se em abono da verdade, uma verdadeira enciclopédia em questões africanas.

“O silêncio é inquietante e altamente preocupante, mostrando que a mobilização daqueles governos (africanos) em favor daquilo que foram os critérios e os sonhos da descolonização está numa crise tremenda”, considerou o também presidente da Academia das Ciências, à margem do I Simpósio das Marinhas dos Países de Língua Portuguesa, hoje iniciado em Lisboa.

Adriano Moreira recordou, a título de exemplo, que o regime de Robert Mugabe, após a independência do Zimbabué, em 1980, foi um “Estado exemplar” que, já na década de 1990, acabou por “descambar”.

“Ainda por cima, Mugabe é uma pessoa formada nas melhores escolas ocidentais. Agora há uma regressão. É preciso chamar a atenção para o caso dele, mas também para a situação de outros países da África”, defendeu.

“Tudo isto leva a uma crise de parâmetros dos valores que é inquietante e esse homem, Mugabe, representa actualmente a expressão mais esdrúxula da violação de tudo o que foram os sonhos da descolonização e das Nações Unidas", referiu.

A “atitude” de alguns responsáveis ocidentais, acrescentou Adriano Moreira, também não está a ajudar, uma vez que, para esses, que não especificou, “África passou a ser o lugar onde há petróleo, diamantes, matérias-primas”. “Ah, e talvez gente. Gente que passou a ser secundária”, enfatizou, uma das razões que “ajudam a esta anarquia”.

“Além disso, há ainda uma das coisas que considero mais preocupantes e importantes: o comércio das armas. Não se vê uma fotografia de um desastre humano ou de genocídios em África em que não esteja um homem com as armas mais modernas, que o seu país não fabrica mas compra a potências ocidentais”, acentuou.

Adriano Moreira foi mais longe e referenciou o actual momento tenso existente na África do Sul, onde, ao contrário do Zimbabué, a violência parece obedecer a parâmetros ancestrais, “os critérios para a onda de tensão passam pelo ser-se nacional ou estrangeiro”.

Nesse sentido, para Adriano Moreira, a transferência de poderes em África criou “ilusões” ao pensar-se, na altura, que a descolonização se traduzia em implantar regimes democráticos.

“Nenhuma gestão colonial era um poder democrático. Todas tinham concentração de poderes. Quer com os nomes de governadores, quer com os cargos de alto comissário ou de vice-rei. Portanto, a luta foi para obter aquele poder unitário a que estavam submetidos”, sublinhou.

“Mas houve, também, valores importantes, com o da negritude, que foi um apelo a valores comuns. Isso foi importante mas também foi uma ilusão. Só (o antigo presidente senegalês, Leopold Sedar) Senghor conseguiu isso, mas acho que, até isso, já entrou no crepúsculo", concluiu.
Publicada por
Orlando de Castro Alto Hama
In http://altohama.blogspot.com/2008/07/mais-uma-lio-de-adriano-moreira-sobre-o.html
Gil Gonçalves

Lírio do Amazonas. Greves


Continuo nas loucuras da semana que não tem fim, emenda-se com os finais, volta ao início de uma semana que não acaba....

Mas está tudo bem, o importante é que tenho emprego e estou querendo deixá-lo (rsrsrs). Há greves nas escolas daqui – a receita: uma educação formal com péssimo nível, todas as crianças forçadas a estarem na escola (democraticamente) e professores sem estrutura para recebê-las como deveriam... quando vamos cuidar de nossas crianças com o critério que elas precisam?

Quando essas amorosas mães irão entender que ter menos filhos é uma chance a mais delas poderem dar o melhor em atenção a eles?

Bem, mas vamos lá que o tempo urge e hoje eu quero ter tempo para os meus pequenos...

Patrícia Martinelli

terça-feira, 1 de julho de 2008

Ana Paula Castro apresenta novo livro


O escritor escreve, para exprimir o que sente no fundo da sua alma.
Não é ele que escreve, é outra pessoa, que ninguém jamais conhecerá.
Gil Gonçalves

No próximo dia 3 de Julho, a Editorial Novembro e a escritora Ana Paula Castro darão a conhecer o novo romance da autora intitulado “Sou Jornalista, Você é Árabe?” que tem prefácio do Sheikh Munir, Imã da Mesquita Central de Lisboa.

A apresentação, conforme podem constatar no convite acima, estará a cargo deste vosso escriba e do jornalista Orlando Castro.
Porque a obra é interessante e será uma excelente companhia para um momento e pausa refrescantes durante as férias aconselho-vos a irem no dia 3 à FNAC, do Chiado, com vista a não perderem este romance (podem acolher um cheirinho desta obra no
Eugénio Almeida Malambas).
In
Eugénio Almeida Pululu
Gil Gonçalves

Meditando. Desemprego


As pessoas que conheço, dizem-me invariavelmente que não têm tempo para dialogarem, porque estão exacerbadas, assoberbadas de trabalho.

Isto causa-me muita estranheza, porque o desemprego é abundante. Milhares de pessoas estão desempregadas, e aflitivamente deambulam na via subhumana do fingir viver. Portanto, não posso conceber que hajam milhares de pessoas com toneladas de trabalho… no emprego.

Muitos nos trabalhos demasiado acorrentados, enquanto milhões penam desempregados, civilizacionais adiados.

O conceito e o preconceito das leis do trabalho em vigor, devem urgentemente rever-se. É necessário, urgente acabar-se com esta hipocrisia Universal bimilenar, biomolecular.

E essas pessoas com tanto trabalho, tanta preocupação… equacionam a tuberculose aguda das nossas vivências. Porque as nossas vidas retrocedem, desencontram-se neste mundo cada vez mais absurdo, sem esperança. Reforçam cada dia o desespero da vilania. É que o mundo revivente piora quotidianamente.
Gil Gonçalves