Em Angola julgam-se presos políticos acusados de nenhum crime. Dizem que é um regime democrático que está em pleno gozo das suas funções. A corrupção está no pódio como grande vencedora. A miséria e a fome também. As potências democráticas fecham os olhos e apontam que assim é que é bom, que assim é que se faz a estabilidade em África. Eis a receita do terrorismo do qual a Europa não se consegue desenvencilhar. Quem apoia a corrupção e as suas ditaduras, no fundo também é terrorista sem o saber.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Nova Manifestação Reprimida e Activistas




Rafael Marques de Morais,
MAKAANGOLA

Um punhado de activistas tentou manifestar-se no Largo da Independência sem sucesso.

O paradeiro de nove activistas, detidos ontem quando tentavam realizar uma manifestação em solidariedade aos 15 presos políticos, está a tornar-se num jogo do gato e do rato.
Abordado pelo Maka Angola, o comandante provincial de Luanda, comissário-chefe António Sita, começou por esclarecer que “não detivemos ninguém. [Os activistas] estavam a ser recolhidos e a ser direccionados para a casa do [activista] David Salei [no município de Viana]”.
Adão Bunga “MC Life”, Adolfo Campos, Agostinho Epalanga, Kika Delegado, Laurinda Tavares, Manuel José Afonso “Feridão”, Mário Faustino, Raúl Mandela e Valdemiro Piedade continuam incontactáveis desde a altura em que foram “recolhidos” pela Polícia Nacional no Largo da Independência.
O comandante Sita afirma que os activistas “querem criar um facto político. Estão a fazer um jogo sujo. Desligaram os telemóveis e estão escondidos no Quilómetro 30 [em Viana], em casa do Papo-Seco”. O comandante informou também que, para tirar a situação a limpo, já enviou uma patrulha policial “para vê-los”.
Ao todo, segundo o que o Maka Angola apurou, a Polícia Nacional deteve ontem – ou, nas palavras do comandante Sita, “recolheu” – 33 activistas e quatro jornalistas, que foram soltos passado algumas horas. Resta saber por onde andam nove dos libertados.
O Maka Angola apresenta aqui uma reconstituição do que se passou ontem.

A história repetiu-se. Uma tentativa de manifestação antigovernamental foi reprimida pela Polícia Nacional, enquanto outra, promovida pelo MPLA no Largo da Independência, mereceu a protecção das autoridades.
Assalto à casa de David
O primeiro acto conhecido de repressão da manifestação teve lugar em casa do activista de David Salei, na zona da Estalagem Km 14A, no município de Viana, a mais de dez quilómetros do Largo da Independência. Cerca de 15 jovens encontravam-se na referida residência a preparar cartazes de solidariedade para com os 15 prisioneiros políticos suspeitos de preparação de um golpe de Estado. A manifestação estava marcada para as 15h00, mas a essa hora já o Largo da Independência havia sido ocupado por uma contramanifestação do MPLA.
Perto das 14h00, uma coluna de quatro viaturas policiais, sob comando pessoal do comandante municipal da Polícia Nacional em Viana, Francisco Notícia, tomaram de assalto a residência e detiveram 11 activistas. Entre os detidos encontravam-se Emiliano Catumbela, Paulo Evangelista, José António Luís “Katró”, Laurindo Francisco Tomás “Tenaz”, Afonso Raúl, Baixa de Kassanje, Gildo dos Santos, Baptista, Joaquim Francisco Lugamba, Edgar Lapitia, Domingos Kandela.
“Eu consegui fugir porque estava lá fora a controlar o movimento. Vi os dois patrulheiros da polícia e dois carros brancos. Reconheci o comandante Notícia, mas não tivemos tempo de avisar os manos. Nós fomos traídos por um infiltrado no grupo, que denunciou a nossa posição”, disse Manuel José Afonso “Feridão”, de 25 anos.
“Nós fomos traídos”, vociferava Emiliano Catumbela após a sua libertação. O jovem manifestou estranheza pelo facto de David Salei, António Kissanda “Beimani Residentível” e Coronel Fuba se terem retirado da residência a tempo de escaparem à investida da polícia, por não terem dado conhecimento aos outros do seu paradeiro e por terem desligado os telefones.
“Os polícias não entraram pelo portão. Cercaram o quintal e saltaram o muro. Apontaram-nos as armas às cabeças. Tive de pedir ao comandante Notícias para que não nos torturassem. O Baixa de Kassanje já está muito mal de saúde com as pancadas da polícia”, afirmou Emiliano Catumbela. Ainda de acordo com o seu depoimento, o comandante Notícias assegurou a integridade física dos detidos. Os jovens foram então transportados até à 44ª Esquadra, no Km 9A, em Viana, onde estiveram sob custódia até às 19h00, tendo sido depois libertados.
Para além das detenções, os agentes policiais revistaram a residência de David Salei, à procura de provas de crime, assim como as casas de dois vizinhos, apenas por se encontrarem localizadas no mesmo quintal. O Maka Angola soube que os agentes policiais não exibiram quaisquer mandados de busca às residências.
Paulo Evangelista, um dos detidos, referiu que o comandante alegou ter recebido “ordens superiores” para detê-los, porque “nos preparávamos para realizar uma manifestação ilegal”.
Já na 44ª Esquadra, Paulo Evangelista sentiu alguma solidariedade por parte de agentes policiais. “Alguns disseram-nos em segredo que tinham ordens para nos maltratarem, mas que não o fariam porque têm os salários em atraso e que nós tínhamos o direito de reivindicar”, afirmou o interlocutor.
“No fim, o comandante Raúl Mandavela disse-nos que havia outras ‘ordens superiores’ para sermos libertados e pediu desculpas pelo inconveniente da nossa detenção”, acrescentou.
O mesmo activista denunciou ainda o facto de o comandante ter ordenado que quatro dos 11 detidos regressassem a casa em tronco nu, porque vestiam camisolas com “citações criminosas”. Trata-se de camisolas impressas com as inscrições “32 Anos é Muito”, alusivas às manifestações de 2011, quando o presidente celebrou 32 anos de poder, e “Zé Du Ditador Nojento”.  
“Estava frio e pedimos para virar as camisolas do avesso, para não circularmos em tronco nu, mas o comandante recusou. Perguntei-me se estávamos numa selva ou num Estado de direito”, lamentou Paulo Evangelista.
Em sua defesa e do grupo ora suspeito, Beimani Residentível disse ao Maka Angola que esse grupo restrito foi alertado sobre a existência de um infiltrado entre os activistas concentrados na residência de Salei. “Como cabeças da organização, decidimos fazer a retirada sem alarde ou denunciar o suspeito”, esclareceu.
Detidos na Unidade Operativa de Luanda
Pouco tempo depois, David Salei, Beimani Residentível e o Coronel Fuba encontravam-se já numa viatura policial quando o Maka Angola contactou o último por via telefónica.
“Fomos transportados para a Unidade Operativa de Luanda [da PN]”, explicou o Coronel Fuba.
Na referida unidade, segundo informação prestada por Beimani Residentível, o chefe da Direcção Principal de Contra-Inteligência Militar, do Serviço de Inteligência e Segurança Militar (SISM), tenente-general José Afonso Peres “Filó”, e o comandante provincial da Polícia Nacional em Luanda, comissário-chefe António Sita, conversaram com os três detidos numa sala, por meia hora.
“O tenente-general Filó apresentou-se dizendo que é o general conhecido como o ‘matador’, mas que é boa pessoa e estava ali a conversar connosco e não para mandar matar”, recordou Beimani.
De acordo com o interlocutor, o tenente-general Filó queria saber quem são os líderes das diferentes células do autodenominado Movimento Revolucionário, que congrega alguns grupos de manifestantes anti-regime. Beimani Residentível afirmou ainda que o general tinha particular interesse em saber sobre a liderança do grupo do Rocha Pinto.
“Eu disse que nós não tínhamos líderes, que desconhecia os líderes dos outros grupos. O general mostrou-nos fotos nossas de um encontro que mantivemos com o presidente da UNITA, Isaías Samakuva. Nesse encontro, só os dirigentes da UNITA tiraram fotografias”, informou.
Beimani Residentível revelou ainda que, durante a “conversa”, o tenente-general Filó atendeu uma chamada telefónica do chefe do SISM, general Zé Maria, a quem transmitiu abertamente que “a situação está sob controlo e só faltam dois”. O activista indicou Raúl Mandela como um dos dois manifestantes que a inteligência tinha todo o interesse em ver detido. “Pediram-me para telefonar ao Mandela para que ele viesse ao meu encontro para o prenderem, mas recusei. Ele acabou por ser detido à mesma.”
“Mesmo diante de nós, na cela, o general Filó dava ordens [por via telefónica] para a polícia bater nos manifestantes”, reiterou Beimani Residentível.
Por volta das 18h00, os detidos tiveram de ser transportados para a unidade policial junto ao Comando-Geral da PN. Como num livro de Kafka, o chefe de missão, desviou-se da rota, com os detidos na viatura, para recolher a sua filha, que terminara as aulas num colégio privado, junto ao Zé Pirão. “A filha [do chefe de missão], de 14 ou 15 anos, recusou-se a subir no Toyota-Land Cruiser, por ser um carro da polícia. O pai pediu-lhe então para aguardar por outro transporte, enquanto nos levava para o comando”, testemunhou um dos detidos.
Porrada frente à casa do Abel
No Largo da Independência, os efectivos policiais utilizaram a brigada canina para dispersar os manifestantes anti-regime. Líbano Albano, de 30 anos, foi um dos activistas que escaparam do largo, mas foi interceptado pela polícia a mais de um quilómetro, na zona do Alvalade. “Fui apanhado por volta das 16h30, frente à casa do Dr. Abel Chivukuvuku [presidente da CASA-CE]. Os polícias atacaram-me com porretes, pontapés e não me largavam mesmo quando sangrava”, disse Líbano Albano.
Segundo o activista, a polícia apenas cessou a pancadaria quando o líder da CASA-CE saiu da sua residência e interveio pessoalmente contra o acto de violência que testemunhava. “O Dr. Abel orientou ao motorista dele para que me levasse para o hospital, onde fui assistido e levei quatro pontos na cabeça. Graças à intervenção dele não fui detido e o pior não aconteceu.”
Jornalistas “ilegais”
Por volta das 18h00, dois agentes armados interceptaram o correspondente da Reuters, Herculano Coroado, no Largo das Heroínas, quando este caminhava para casa. Os agentes juntaram Herculano Coroado a mais três jornalistas da Rádio Despertar, Daniel  Portácio, Lacerda da Costa, detidos anteriormente no Largo da Independência, onde procediam à cobertura da tentativa de manifestação. Os jornalistas foram conduzidos para a esquadra da Madeira, no Bairro Cassequel, onde permaneceram retidos por duas horas, na companhia de sete activistas que tentaram participar da manifestação e de quatro transeuntes.
“A polícia reteve os telefones de todos os detidos para rever os conteúdos e apagar imagens da manifestação”, disse Herculano Coroado.
O jornalista anotou também a detenção de um funcionário do Ministério da Agricultura e Desenvolvimento Rural que, “ao passar pelo largo, de forma inocente, parou para ver o que se passava”.
Três turistas da província do Kuando-Kubango, que se encontravam em Luanda em visita a familiares, também tiveram azar. “Estavam a fazer selfies [fotografias] no largo sem saberem o que se passava e foram detidos”, contou Herculano Coroado.
“O comandante Pedro dos Santos, da 5ª Esquadra, apareceu no local, reconheceu os excessos da polícia, pediu desculpas aos jornalistas e transeuntes e ordenou a libertação imediata de todos os detidos por causa da manifestação”, afirmou o jornalista.

*Os nomes dos activistas então desaparecidos foram actualizados a posteriori.



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