quinta-feira, 22 de novembro de 2012

O economista angolano Manuel Alves da Rocha defende que Luanda deve reservar os empregos para os nacionais.


Numa altura em que governantes portugueses apontam a emigração como uma possível saída para a crise, Alves da Rocha alerta que "Portugal está a exportar o seu desemprego para Angola", o que poderá provocar "fissuras sociais", recordando que "Angola tem uma elevadíssima taxa de desemprego", estimada em 26%, e que a comunidade portuguesa no país já está avaliada em cerca de 130 mil pessoas.

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Trata-se, sublinhou, de uma comunidade "com uma componente técnica muito importante", que acaba por "barrar a entrada de quadros angolanos" no mercado de trabalho.
Defendeu que o Governo português está a tentar encontrar na emigração "uma saída para diminuir as tensões sociais" decorrentes da crise, mas alertou que Angola poderá sofrer as consequências dessa aposta.
"As relações com Portugal vão acabar por agravar a situação do desemprego em Angola", afirmou, em declarações à Lusa nas vésperas de uma deslocação do ministro da Economia angolano a Lisboa.
Professor catedrático na Universidade Católica de Luanda, Alves da Rocha afirmou que a instituição já está a sentir o problema: "Os nossos jovens licenciados não têm um leque de oportunidades junto das empresas estrangeiras e as empresas angolanas ainda são poucas e não têm capacidade para absorver a capacitação técnica que as universidades vão lançando para o mercado".
Para o economista, compete às autoridades angolanas reservar segmentos de emprego para os nacionais, porque os jovens angolanos se confrontam com uma concorrência desleal: "Estamos a concorrer com quadros portugueses com alguma experiência, o que os nossos quadros não têm".
Alves da Rocha alertou também para a grande diferença salarial entre expatriados - entre os quais os portugueses - e angolanos, recordando que os estrangeiros auferem salários "duas, três, quatro vezes superiores" aos nacionais, o que pode implicar "reacções sociais indesejáveis".
Para o economista, tudo isto "gera fissuras sociais, quando o que se pretende é que haja uma cooperação salutar, em que as pessoas que falam a mesma língua se possam entender".
Alves da Rocha criticou ainda as linhas de crédito que existem em Angola, nomeadamente a brasileira, recentemente aumentada para cinco mil milhões de dólares, a chinesa ou a portuguesa.
"São linhas de crédito que servem as empresas portuguesas, brasileiras, chinesas, e não as empresas angolanas", disse, defendendo que esta situação "tem de ser mudada".
Ressalvando que o financiamento para aquisição de equipamentos pode ser positiva, explicou que quando uma linha de crédito financia a importação de bens de consumo finais, "Angola contrai dívida e não tem património, stock de capital fixo, que possa ser introduzido para pagar essa dívida", explicou.
Trata-se de uma situação que "mesmo as autoridades portuguesas têm de rever", defendeu, apesar de considerar natural que Lisboa queira apoiar as empresas portuguesas.
"Toda a linha de crédito destinada a salvar as empresas portuguesas produtoras de bens de consumo final da situação de crise em Portugal é um canal de transmissão da crise portuguesa para a crise angolana", concluiu.
Para o especialista, compete ao governo angolano definir os limites de utilização dessas linhas de crédito.
Ainda sobre as relações económicas entre Portugal e Angola, Alves da Rocha lamentou que continue a prevalecer uma atitude comercial em prejuízo de uma atitude de investimento, embora reconheça que tem havido um aumento do investimento privado português em Angola.
O ministro da Economia de Angola, Abraão Gourgel, desloca-se na segunda-feira a Lisboa, onde deverá participar, juntamente com o homólogo português, na conferência 'Angola 2012 - Relações comerciais e de investimento', promovida pela Câmara de Comércio e Indústria Portugal-Angola.
Imagem: geomundi.org

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