domingo, 22 de dezembro de 2013

Moçambique. Um país em estado de guerra


Desde o passado mês de Abril, o país vive em estado de guerra não declarada. Há mais de seis meses, a tensão político-militar que se vive no centro de Moçambique já dizimou a vida de pelo menos uma centena de pessoas, entre civis e militares.

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Cada dia que passa surgem novas vítimas desse conflito armado sem fim à vista. Ainda esta semana, além de um ataque que culminou com a morte de dois indivíduos e dezenas de feridos, o régulo Sathunjira foi morto acusado de ser cúmplice da Renamo. Enquanto cidadãos indefesos perecem na EN1, no troço Rio Save – Muxúnguè as autoridades governamentais fazem vista grossa à situação.
Desde tenra idade, José* alimentava a paixão de se tornar um membro da Polícia da República de Moçambique (PRM). Após concluir o nível médio, decidiu correr atrás do seu sonho. Em Julho do ano passado (2012), ingressou no curso de formação dos agentes da Lei e Ordem, que encerrou no dia 19 de Setembro do mesmo ano. Mais tarde, foi afecto ao Comando Provincial da PRM em Sofala como guarda estagiário. José já se considerava um homem realizado.
Mas a sua história começou a ganhar um novo rumo em Abril do ano prestes a terminar. O que para ele era uma paixão de infância, da noite para o dia transformou-se no seu pior pesadelo. Os seus sonhos começaram a ruir como um castelo de areia. Tudo começou no dia 28 de Março, quando José e um grupo de colegas receberam instruções para deixarem o Comando Provincial de Sofala para cumprirem uma missão no posto administrativo de Muxúnguè.
Foram recrutados 14 membros da Polícia de Protecção, cinco dos quais da Força de Intervenção Rápida (FIR). “Levámos o material e saímos por volta das 15h00. Não sabíamos ao certo o que iríamos fazer, tínhamos de aguardar por novas instruções”, conta. No acampamento militar, juntou-se às forças do exército moçambicano e à FIR. Durante os primeiros quatros dias, o Ministério do Interior disponibilizou mantimento necessário para o grupo constituído por membros da PRM.
“Tivemos as condições de alimentação e tudo mais, mas havia muito sofrimento”, diz. Os militares e os agentes da PRM, incluindo a força paramilitar, tinham como tarefa patrulhar a região de Muxúnguè. No dia 03 de Abril, por volta das 00h00, José saiu com alguns colegas com o intuito de fazerem a patrulha, tendo regressado ao acampamento duas horas e meia depois. Guardaram o material bélico e, quando se preparavam para descansar, às 3h00 da madrugada, ouviram disparos.
Um grupo de homens armados supostamente da Renamo atacou de surpresa. Foi o primeiro ataque que deu início à tensão político-militar no centro do país. “Foi uma acção muito rápida”, comenta. Não houve tempo para as forças governamentais reagirem. José foi alvejado por duas balas. Foi atingido na garganta, tendo o projéctil perfurado a clavícula, ficando esta quebrada, e deixando o agente sem os movimentos dos membros superiores. Quatro indivíduos perderam a vida e sete contraíram ferimentos graves.
Contorcendo-se de dores, o grupo recebeu ajuda apenas por volta das 8h00. Primeiro, foram levados para a unidade sanitária de Muxúnguè, depois transferidos para o Hospital Rural do distrito de Nhamatanda e, mais tarde, evacuados para o Hospital Central da Beira (HCB). José ficou internado no HCB durante duas semanas, com a prescrição de voltar todos os dias para fazer o controlo. Porém, o jovem abandonou o acompanhamento terapêutico porque a distância da casa à unidade sanitária consumia em transporte 20 meticais e, durante um mês, gastava mais do que aufere como membro da PRM.
Aos 22 anos de idade e abandonado à sua sorte pelo Estado, ele afirma: “Eu não nasci mutilado, o que ganho não compensa isso. Eles agem como se não tivessem filhos”. Desde o sucedido, José, assim como os seus colegas, não teve apoio do Estado. No mês de Maio, procurou o Comando Provincial da PRM em Sofala para reclamar os seus direitos e o comandante garantiu-lhe que alguém entraria em contacto com ele para uma possível solução, mas o tempo passou e ninguém o contactou. Voltou ao Comando e não teve nenhuma resposta. Para dar continuidade ao tratamento, viu-se obrigado a fazer um empréstimo bancário.
“Se eu dependesse da ajuda do Comando, eu já estaria mais mutilado do que já estou; se não fosse o meu pai, não sei onde eu estaria, pois ele é que tem sido a minha salvação e faz tudo para o meu bem-estar. É lamentável a atitude do Estado de abandonar os seus trabalhadores em situações extremamente difíceis”, desabafa. Mensalmente, tem de se deslocar ao vizinho Malawi para tratamento, onde tem de ficar duas semanas. Cada vez que lá vai despende perto de 45 mil meticais. Sem apoio social, José conta com a ajuda do seu progenitor.
“As pessoas que me mandaram para Muxúnguè não fazem nada”. Porém, o que mais deixa José revoltado não é apenas o abandono a que foi votado, mas o silêncio do Estado diante da situação. “Nunca disseram nada, nem quando é que voltarei a trabalhar. Eles fazem de conta que nós não existimos. Agora não faço nada aqui na Beira”, diz acrescentando: “O Governo moçambicano quando nos manda para este tipo de missão tinha de dar um apoio social para que a nossa saúde esteja garantida, uma vez que de missões do género raramente voltamos completos. Eu estava há dias com um colega que sofreu na perna, ele hoje já não anda. Eu pelo menos consigo caminhar”.
Guerra não declarada
O que começou como uma simples ameaça da Renamo para forçar o Governo da Frelimo a rever o pacote eleitoral, hoje transformou-se num conflito armado. Desde o mês de Abril, circular na Estrada Nacional número 1, especificamente no troço entre o Rio Save e o posto administrativo de Muxúnguè, num percurso de aproximadamente 110 quilómetros, tornou-se num acto de coragem para os moçambicanos que pretendem deslocar-se, por via terrestre, do norte para o sul, e vice-versa.
Apesar do perigo, todos os dias, para chegar aos seus respectivos destinos, centenas de pessoas fazem-se à estrada. Na verdade, os transeuntes contam com a sua própria sorte ao longo do trajecto, pois com o andar do tempo as escoltas militares têm vindo a mostrar-se ineficientes.
No último domingo (15), pelo menos dois indivíduos, um dos quais estudante da Academia Militar Marechal Samora Machel, perderam a vida e um número não especificado foi internado no Posto de Saúde de Muxúnguè. Outros cidadãos ficaram feridos na sequência de um ataque ocorrido naquele posto administrativo, na província de Sofala. O ataque, atribuído aos homens armados da Renamo, visou a viatura militar que escoltava a coluna de viaturas entre Muxúnguè e o Rio Save, porém, atingiu os autocarros de passageiros das transportadoras NAGI Investimentos e ETRAGO, que faziam o trajecto Nampula/Maputo.
Dos feridos graves, 16 são estudantes da Academia Militar que estavam de regresso à terra natal, onde iriam passar as férias. A vítima, cuja identidade não apurámos, frequentava o 5º ano do curso de Engenharia Militar, naquela instituição de ensino superior. Os estudantes pretendiam passar as férias em Xai-Xai e Maputo na companhia dos seus familiares, para depois, em Janeiro, concluírem algumas cadeiras curriculares na Universidade Eduardo Mondlane (UEM). Inicialmente, eles pretendiam viajar de avião mas, devido a questões burocráticas na Academia Militar, as passagens aéreas foram canceladas.
Depois do sucedido, aquela instituição de ensino militar cancelou todas as guias de saída de estudantes que, neste momento, se encontram naquele estabelecimento de ensino só podendo viajar assim que a situação voltar à normalidade. Apesar de o Governo providenciar escoltas militares para garantir a segurança de pessoas e bens que circulam naquela região, as colunas de viaturas continua a ser atacadas. Este foi o terceiro ataque em menos de uma semana.
*Nome fictício
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