Em Angola julgam-se presos políticos acusados de nenhum crime. Dizem que é um regime democrático que está em pleno gozo das suas funções. A corrupção está no pódio como grande vencedora. A miséria e a fome também. As potências democráticas fecham os olhos e apontam que assim é que é bom, que assim é que se faz a estabilidade em África. Eis a receita do terrorismo do qual a Europa não se consegue desenvencilhar. Quem apoia a corrupção e as suas ditaduras, no fundo também é terrorista sem o saber.

sábado, 13 de junho de 2015

A Pilhagem de Angola (1) – contada por um jornalista do Financial Times


Um jornalista do Financial Times investigou a corrupção instalada nas capitais africanas, com Luanda em grande destaque. Aqui está o capítulo dedicado a Angola.
África é o continente mais pobre do mundo – e também o mais rico. Embora concentre apenas 2% do PIB mundial, alberga 15% das reservas de petróleo, 40% do ouro e 80% da platina. No seu subsolo jaz um terço das reservas minerais do planeta. Mas o que poderia constituir a salvação do continente é, pelo contrário, uma maldição. Tom Burgis, jornalista do Financial Times que foi durante anos correspondente em África, faz um relato poderoso das complexas teias de relações entre o crescente poder chinês, a corrupção das elites africanas e o delapidar do património natural das nações do continente. O primeiro capítulo começa por Angola, neste excerto que aqui lançamos em pré-publicação.
Pouco mais do que medo e esgotos correm pela encosta inclinada que separa o complexo presidencial de Angola do bairro de lata ribeirinho mais abaixo. Dilatado por refugiados que fugiram de uma guerra civil que durante três décadas ora estalava ora parava no interior, Chicala estendese a partir da marginal principal de Luanda, a capital. De tempos a tempos o oceano envia uma tempestade que arrasa as habitações pobres. Os barqueiros afadigamse nas enseadas, enquanto os seus passageiros se habituam ao mau cheiro que emana das águas.
Este não é o rosto que Angola prefere apresentar ao mundo. Desde o fim da guerra civil, em 2002, esta nação de 20 milhões de pessoas registou algumas das taxas de crescimento económico mais altas da década, por vezes ultrapassando mesmo a China. Os campos de minas cederam o lugar a novas estradas e caminhos de ferro, parte de uma tentativa multibilionária para reconstruir um país que um dos piores conflitos por procuração da Guerra Fria tinha desfeito quase totalmente. Hoje, Angola ostenta a terceira maior economia da África subsariana, depois da Nigéria e da África do Sul. Luanda figura consistentemente no topo das cidades mais caras do mundo para estrangeiros, à frente de Singapura, Tóquio e Zurique.Em hotéis de cinco estrelas cintilantes como o que se encontra ao lado de Chicala, uma sanduíche normal custa 30 dólares. A renda mensal de uma casa de luxo de três quartos, não mobilada, é de 15 mil dólares. Os concessionários de carros de luxo fazem negócio rápido reparando os SUVs daqueles cujo rendimento cresceu mais depressa do que se conseguem tapar os buracos das estradas congestionadas. Na Ilha de Luanda, a faixa costeira glamorosa de bares e restaurantes que fica a pouca distância de barco de Chicala, os filhos da elite deslocamse a terra saindo dos seus iates para repor os seus stocks de Dom Pérignon a 2000 dólares por garrafa.
Os caminhos de ferro, os hotéis, as taxas de crescimento e o champanhe, todos vêm do petróleo que se encontra debaixo dos solos e do mar de Angola. E o medo também.
Em 1966, a Gulf Oil, uma empresa petrolífera americana que estava entre as chamadas sete irmãs que então dominavam a indústria, descobriu reservas espantosas de petróleo em Cabinda, um enclave separado do resto de Angola por uma faixa do seu vizinho, o Congo. Quando a guerra civil rebentou após a independência, em 1975, as receitas do petróleo sustentavam o governo comunista no poder do Movimento Popular de Libertação de Angola, ou MPLA, contra os rebeldes apoiados pelo Ocidente, a Unita. Vastas novas descobertas ao largo da costa subiram a parada nos anos 90 do século passado, tanto para as fações em guerra como para os seus aliados estrangeiros. Embora o Muro de Berlim tivesse caído em 1989, a paz só chegou a Angola em 2002, com a morte de Jonas Savimbi, o líder da Unita. Por essa altura já cerca de 500 mil pessoas tinham morrido.]
O MPLA achou que a máquina do petróleo que construíra para sustentar o seu esforço de guerra podia ter outra utilidade. «Quando o MPLA deixou cair a sua ideologia marxista no início dos anos 90», escreve Ricardo Soares de Oliveira, uma autoridade em assuntos angolanos, «a elite no poder converteuse entusiasticamente ao capitalismo de compadrio». A corte do presidente — algumas centenas de famílias conhecidas como o Futungo, por causa do Futungo de Belas, o velho palácio presidencial — aventurouse na «privatização do poder».
Fundindo o poder político e económico como muitas elites póscoloniais, os generais, os manda-chuvas do MPLA e a família de José Eduardo dos Santos, o líder do partido formado na União Soviética que assumiu a presidência em 1979, apossaramse das riquezas de Angola. Isabel dos Santos, a filha do presidente, acumulou participações financeiras que se estendem desde a banca à televisão em Angola e Portugal.Em janeiro de 2013, a revista Forbes nomeoua a primeira mulher bilionária de África.
A tarefa de transformar a indústria do petróleo de Angola que era dedicada ao orçamento de guerra numa máquina para o enriquecimento da elite de Angola em tempo de paz recaiu sobre um homem baixo e forte, de cara redonda, sorriso vencedor e bigode aparado chamado Manuel Vicente. Abençoado com aquilo a que um colaborador chama «uma cabeça que parece um computador no que diz respeito a números», em jovem ensinara crianças em idade escolar para suplementar os seus magros rendimentos e sustentar a família.
Depois de um período como instalador aprendiz, estudou engenharia eletrotécnica. Embora tivesse sido criado por um sapateiro pobre de Luanda e pela sua mulher, uma lavadeira, Vicente acabou por se associar à irmã de José Eduardo dos Santos, assegurando, assim, um laço com o presidente. Enquanto outros quadros do MPLA estudaram em Baku ou Moscovo e voltaram para Angola para fazer a guerra de guerrilha contra a Unita, Vicente poliu o seu inglês e o seu conhecimento da indústria petrolífera no Imperial College, em Londres. Em Angola, começou a sua ascensão através da hierarquia do petróleo. Em 1999, quando a guerra entrou nas suas movimentações finais, o presidente nomeouo para dirigir a Sonangol, a empresa petrolífera estatal angolana que funciona, nas palavras de Paula Cristina Roque, perita em assuntos angolanos, como «o principal motor económico» de um «governosombra controlado e manipulado pela presidência».
Vicente tornou a Sonangol numa empresa formidável. Conduziu negociações duras com os gigantes do petróleo que gastaram dezenas de milhares de milhões de dólares no desenvolvimento das plataformas petrolíferas de Angola, entre eles a BP, do Reino Unido, e a Chevron e a ExxonMobil, dos Estados Unidos. Apesar das negociações duras, Angola encantou os gigantes e os seus executivos respeitavam Vicente. «Angola é para nós uma terra de sucesso», disse Jacques Marraud des Grottes, responsável pela exploração e produção africana da francesa Total, que extraiu mais petróleo do país do que qualquer outra empresa.
Durante o mandato de Vicente, a produção petrolífera quase triplicou, aproximandose dos 2 milhões de barris por dia — mais do que um em cada 50 barris extraídos em todo o mundo. Angola rivalizava com a Nigéria pela coroa de principal exportador de petróleo de África e tornouse o segundo maior fornecedor da China, depois da Arábia Saudita, ao mesmo tempo que também exportava quantidades significativas para a Europa e para os Estados Unidos. A Sonangol atribuiu a si própria participações em explorações petrolíferas de empresas estrangeiras e usou as receitas para introduzir os seus tentáculos em todos os cantos da economia nacional: imobiliário, cuidados de saúde, banca, aviação. Até tem uma equipa de futebol profissional. A entrada da torre ultramoderna no centro de Luanda que acolhe a sua sede está revestida de mármore, com assentos confortáveis para as resmas de emissários do Ocidente e do Leste que vêm procurar petróleo e contratos. Poucos conseguem acesso aos pisos mais elevados de uma empresa comparada por um estrangeiro que ali trabalhou ao «Kremlin sem os sorrisos». Em 2011, as receitas de 34 mil milhões de dólares da Sonangol rivalizavam com as da Amazon ou da CocaCola.
Quando o FMI examinou as contas nacionais de Angola, em 2011, descobriu que entre 2007 e 2010 desapareceram 32 mil milhões de dólares, uma soma maior do que o PIB de 43 dos países africanos. A maior parte do dinheiro em falta podia ser imputada a despesas não registadas da Sonangol; 4,2 mil milhões ficaram completamente por justificar.
Tendo expandido a máquina de pilhagem do Futungo, Manuel Vicente ascendeu ao círculo íntimo. Sendo já membro do comité central do MPLA, esteve durante pouco tempo num posto especial como responsável pela coordenação económica antes de ser nomeado vicepresidente de José Eduardo dos Santos, nunca deixando o seu papel como o Sr. Petróleo de Angola. Trocou a sede da Sonangol, na baixa, pelas vivendas à sombra das acácias da cidade alta, o enclave no alto da colina construído pelos colonizadores portugueses que hoje é o centro nevrálgico do Futungo.
Tal como os seus homólogos chineses, o Futungo abraçou o capitalismo sem afrouxar a sua garra sobre o poder político. Só em 2012, depois de 30 anos como presidente, é que José Eduardo dos Santos ganhou um mandato do eleitorado — e mesmo assim só depois de manipular as eleições a seu favor. Os críticos e os que protestam foram encarcerados, espancados, torturados e executados. Embora Angola não seja um estado policial, o medo é palpável. Um chefe dos serviços secretos é saneado, um avião tem uma avaria, alguns ativistas sofrem uma emboscada, e toda a gente percebe que são potenciais alvos. Há agentes de segurança a cada esquina, deixando bem claro que estão a vigiar. Ninguém quer falar ao telefone porque partem do princípio que estão sob escuta.
Na manhã de sextafeira, dia 10 de fevereiro de 2012, a indústria do petróleo agitavase em expetativa. A Cobalt International Energy, uma empresa de exploração petrolífera do Texas, tinha anunciado resultados sensacionais ao nível da extração. A uma profundidade no mar angolano equivalente a metade da altura do Monte Evereste, a Cobalt tinha encontrado aquilo a que chamou um reservatório de petróleo de «dimensão mundial». A descoberta tinha aberto uma das mais promissoras novas fronteiras do petróleo, com a Cobalt na situação ideal quer para extrair o petróleo em si quer para se vender a um dos gigantes e fazer um lucro interessante para os seus proprietários. Quando a Bolsa de Nova Iorque abriu, as ações da Cobalt dispararam. A determinada altura, tinham subido 38 por cento, uma variação tremenda num mercado onde as ações raramente oscilam mais do que dois pontos percentuais. Ao fim do dia, o valor de mercado da empresa estava em 13,3 mil milhões de dólares, mais 4 mil milhões do que na noite anterior.
Para Joe Bryant, o presidente e diretor executivo que fundou a Cobalt, uma aposta baseada na geologia préhistórica parecia ter recompensado de forma espetacular. Há cem milhões de anos, antes de as deslocações tectónicas as terem separado, as Américas e África eram um único continente — as duas costas do Atlântico Sul são muito parecidas. Em 2006, empresas petrolíferas tinham perfurado a grossa camada de sal debaixo do mar do Brasil e descoberto uma grande quantidade de petróleo. Uma camada semelhante de sal estendiase a partir de Angola. Bryant e os seus geólogos questionavamse se o mesmo tesouro estaria também debaixo da camada de sal de Angola.
Bryant trabalhara como diretor das lucrativas operações da BP em Angola, onde se relacionou com o Futungo. «Joe Bryant fezse um homem do petróleo do círculo íntimo muito depressa», disseme um perito em assuntos angolanos bem relacionado. Os executivos franceses eram conhecidos por serem «arrogantes», mas Bryant fez amigos em Luanda. «Ele sabe relacionarse com eles, sabe como falar com eles», disse o perito. Em 2005, Bryant decidiu aventurarse sozinho e fundou a Cobalt, levando consigo o diretor de exploração da BP e montando um escritório em Houston, a capital da indústria petrolífera dos EUA. «Íamos literalmente da minha garagem para a competição com as maiores empresas do mundo», recorda Bryant.
Bryant precisava de financiadores com dinheiro. Encontrouos em Wall Street. Os corretores da Goldman Sachs há muito que jogavam no mercado das matériasprimas; os banqueiros argutos da Goldman supervisionavam fusões e aquisições entre grupos de recursos. Agora, na Cobalt, teria a sua própria empresa petrolífera. A Goldman e dois dos fundos de investimento privados mais ricos dos Estados Unidos, o Carlyle e o Riverstone, juntos entraram com 500 milhões de dólares para lançar a Cobalt.
Em julho de 2008, quando a Cobalt estava a negociar direitos de exploração para testar a sua teoria sobre o potencial da fronteira petrolífera «présal» de Angola, os angolanos impuseram uma condição. A Cobalt teria de aceitar duas pequenas empresas angolanas desconhecidas como parceiras menores no empreendimento, cada uma com uma participação minoritária. A exigência era parte ostensiva do objetivo confesso do regime de ajudar os angolanos a ganhar âncora numa indústria que dá apenas 1 por cento de empregos e gera quase toda a receita das exportações do país. Consequentemente, em 2010, a Cobalt assinou um contrato em que detinha uma participação de 40 por cento no empreendimento e seria o operador.
A Sonangol, a empresa petrolífera estatal, tinha 20 por cento. As duas empresas privadas locais, a Nazaki Oil and Gás e a Alper Oil, receberam 30 por cento e 10 por cento, respetivamente. A exploração começou com determinação. Ainda antes da descoberta incrível, os geólogos da Cobalt tinham batizado o seu projeto angolano «Pó de Ouro». No auge da subida das ações da Cobalt depois de revelar a sua descoberta angolana, as ações da Goldman Sachs na empresa valiam 2,7 mil milhões de dólares. A Cobalt mudouse para o outro lado de Houston, para uma sede novinha em folha perto dos escritórios dos gigantes. Uma pessoa que foi ao escritório de Joe Bryant no Centro Cobalt chamou a atenção para a vista deslumbrante sobre a cidade. «A Cobalt», disse um mediador imobiliário local, «vai ser uma história de enorme sucesso em Houston».
Havia só um senão. O que a Cobalt não tinha revelado — de facto, o que a empresa sustenta que não sabia — era que três dos homens mais poderosos de Angola detinham participações secretas na sua parceira, a Nazaki Oil and Gás. Um deles era Manuel Vicente. Enquanto responsável máximo pela Sonangol na altura do negócio da Cobalt, ele supervisionou a atribuição das concessões de petróleo e as condições dos contratos. Os outros dois donos secretos da Nazaki não eram menos influentes. Leopoldino Fragoso do Nascimento, um antigo general conhecido como Dino, tem interesses desde as telecomunicações até ao comércio do petróleo. Em 2010, foi nomeado assessor do terceiro dono poderoso da Nazaki, o general Manuel Hélder Vieira Dias Júnior, mais conhecido como Kopelipa.
Um político veterano do Futungo que se desentendeu com Kopelipa disseme que, se chegasse o dia da queda de Kopelipa, «as pessoas na rua irão desmembrá-lo pelo que ele fez no passado». Como chefe do departamento militar da presidência, alguns até se atrevem a chamarlhe «o chefe do boss».
Mais recentemente, surgiu como o mais destacado dos «generais empresários», as figuras de proa do dispositivo de segurança que traduziram a sua influência em participações nos diamantes, petróleo e qualquer outro setor que pareça lucrativo. Entre eles, este trio formou o núcleo da sanha comercial do Futungo.
Uma lei de 1977, há muito negligenciada, proíbe as empresas americanas de participarem na privatização do poder em terras distantes. Revista em 1998, a The Foreign Corrupt Practices Act (FCPA) [Lei das Práticas Corruptas Estrangeiras] criminaliza uma empresa que opere nos Estados Unidos se pagar ou oferecer dinheiro ou qualquer coisa de valor a funcionários estrangeiros para ganhar negócios. Abrange as empresas em si e os seus funcionários. Durante anos, depois de ser aprovada, a FCPA foi mais um ideal louvável do que uma lei efetivamente cumprida. Contudo, a partir de 2000, as agências que deviam fazêla cumprir — o Departamento de Justiça, que propõe ações penais, e a Comissão de Valores Mobiliários, o regulador da bolsa de valores, que trata das ações cíveis — começaram a fazêlo com entusiasmo. Foram atrás de alguns dos nomes grandes, incluindo a BAE Systems, a Royal Dutch Shell e uma antiga subsidiária de Halliburton chamada Kellog Brown & Root. As três admitiram ter infringido a FCPA ou ter cometido infrações relacionadas com a FCPA, e os casos resultaram em multas e restituição de lucros num total de mais de mil milhões de dólares — muito embora tais quantias mal belisquem os lucros de empresas da sua dimensão.
As empresas petrolíferas e de extração mineira contam com mais processos ao abrigo da FCPA e de leis semelhantes aprovadas noutros sítios do que qualquer outro setor.12 De facto, os acordos da Halliburton e da Shell estavam relacionados com subornos na Nigéria. As empresas queriam direitos a áreas geográficas específicas com as melhores condições possíveis. Para os habitantes dos estados com recursos naturais da África subsariana, atrair algum do rendimento que algumas empresas de exploração de recursos pagam ao estado a troco de território lucrativo — ou assumir uma posição de controlo nesse território — é, de longe, o caminho mais direto para as riquezas.
Entregar uma mala cheia de notas é apenas a maneira mais simples de enriquecer os funcionários locais através de empreendimentos petrolíferos e mineiros geridos por empresas estrangeiras. Uma técnica mais sofisticada envolve empresas locais, muitas vezes com pouco conhecimento anterior nas indústrias de recursos. É dada a estas empresas uma participação no princípio de um projeto relacionado com petróleo ou minério, juntamente com as organizações estrangeiras que fazem as escavações e a perfuração. Por vezes, tais empresas são detidas por genuínos homens de negócios locais. Mas, outras vezes, são apenas empresas de fachada cujos proprietários são os próprios funcionários que influenciaram ou controlam a atribuição de direitos à exploração mineira e de petróleo e que procuram transformar essa influência numa participação nos lucros. Neste último caso, a empresa mineira ou petrolífera estrangeira arriscase a ter problemas legais no seu país de origem. Contudo, muitas vezes os proprietários máximos das empresas de fachada escondemse atrás de várias camadas de secretismo corporativo. Uma razão pela qual as empresas de recursos estrangeiras levam a cabo o que é conhecido como «diligências devidas», antes de fazer investimentos no estrangeiro, é para procurar saber quem é efetivamente dono dos seus parceiros locais.
Em alguns casos, as investigações das diligências devidas equivalem a, nas palavras de um antigo banqueiro de topo, «fabricar negação plausível». Noutros, o trabalho das diligências devidas levanta tantas dúvidas sobre o futuro negócio que a empresa simplesmente o abandona. Frequentemente, as provas que as diligências devidas reúnem sobre os riscos de corrupção são inconclusivas. Nesse caso, cabe à empresa decidir se continua com o processo.
Em 2007, quando as suas ambições angolanas começaram a tomar forma, a Cobalt contratou a Vinson & Elkins e a O’Melveny & Myers, dois respeitáveis escritórios de advogados americanos, para levar a cabo as suas diligências devidas. Não é fácil obter registos empresariais em Angola, embora o acesso de qualquer empresa aos registos dos seus parceiros deva ser autorizado. Consegui obter os documentos de registo da Nazaki, e o seu influente trio de proprietários não aparece em lado nenhum nesses documentos. Mas havia algumas pistas. Um documento nomeia um homem chamado José Domingos Manuel como um dos sete acionistas da Nazaki e o gerente da empresa. O seu nome também aparece ao lado dos de Vicente, Kopelipa e Dino, na lista de acionistas de um empreendimento petrolífero diferente. Tal facto podia ter levantado suspeitas a qualquer empresa que estivesse a considerar um projeto de negócios com a Nazaki: demonstrava uma ligação clara entre um acionista da Nazaki e três dos homens mais poderosos do Futungo. (Foime dito por duas pessoas que conhecem bem o Futungo que José Domingos Manuel tinha sido um oficial de alta patente nas forças armadas e que a sua ligação a Kopelipa era pública.) Havia outro sinal de alerta: seis dos sete acionistas da Nazaki eram pessoas individuais, mas o sétimo era uma empresa chamada Grupo Aquattro Internacional. Os próprios documentos de registo da Aquattro não nomeiam os seus acionistas. Mas são Vicente, Kopelipa e Dino.
Havia outro sinal de alerta: seis dos sete acionistas da Nazaki eram pessoas individuais, mas o sétimo era uma empresa chamada Grupo Aquattro Internacional, cujos acionistas são Vicente, Kopelipa e Dino.
Em 2010, dois anos após as autoridades angolanas terem dito pela primeira vez à Cobalt que queriam que esta assumisse uma parceria com a Nazaki, um ativista angolano que levava a cabo uma cruzada contra a corrupção chamado Rafael Marques de Morais publicou um relatório dizendo que Vicente, Kopelipa e Dino eram os verdadeiros proprietários da Aquattro e, consequentemente, da Nazaki. «Os seus negócios não fazem qualquer distinção entre assuntos públicos e privados», escreveu. A Nazaki era apenas um dente na engrenagem da pilhagem, o que significava que «os despojos do poder em Angola são partilhados por um punhado de pessoas, enquanto a maior parte da população permanece na pobreza».
Pelo menos um investigador da diligência devida sabia daquilo que a Cobalt diz que foi incapaz de determinar. Na primeira metade de 2010, um investigador — vamos chamarlhe Jones — trocou uma série de documentos com a Control Risks, uma das maiores empresas de informação empresarial. A Control Risks, mostra a correspondência, tinha lançado o «Projeto Banihana», um empreendimento aparentemente com o nome de código de uma cadeia de restaurantes japoneses da Florida, para estudar a Nazaki. Jones, um experiente trabalhador angolano, avisou o seu contacto na Control Risks de que as concessões de petróleo em Angola só eram concedidas se o MPLA e a elite empresarial daí tirassem proveito. De seguida apontou Kopelipa como um dos homens por trás da Nazaki. Nenhum cliente é nomeado na correspondência. (Na maior parte dos casos, os investigadores autónomos não sabem para quem estão, em última análise, a trabalhar). Tanto a Cobalt como a Control Risks se recusaram a dizer se o grupo do Texas era o cliente neste caso. Porém, o que é claro é que os avisos estavam lá e podiam ser encontrados. Pelo menos uma outra investigação de diligências devidas, que eu saiba, também teve conhecimento das ligações do Futungo com a Nazaki.
Em 2010, um ativista angolano que levava a cabo uma cruzada contra a corrupção chamado Rafael Marques de Morais publicou um relatório dizendo que Vicente, Kopelipa e Dino eram os verdadeiros proprietários da Aquattro e, consequentemente, da Nazaki.
Por sua conta e risco, a Cobalt avançou para um negócio num país que estava classificado, em 2010, no 168.° lugar entre 178 países no índice de perceção de corrupção anual da Transparency International, sem saber a verdadeira identidade do seu parceiro, uma empresa sem qualquer trajetória na indústria e registada num endereço numa ruela em Luanda que foi impossível localizar quando fui à procura dela, em 2012.
A Cobalt avançou para um negócio num país que estava classificado, em 2010, no 168.° lugar entre 178 países no índice de perceção de corrupção anual da Transparency International, sem saber a verdadeira identidade do seu parceiro.
Quando as autoridades americanas informaram a Cobalt de que tinham aberto um inquérito formal às suas operações em Angola, a empresa defendeu que tudo estava à vista. Sem a fanfarra que acompanhou o estrepitoso anúncio da sua grande descoberta, alguns dias antes, nesse mesmo mês, ao largo da costa atlântica, a Cobalt revelou a investigação no seu balanço anual. «A Nazaki negou repetidamente as alegações por escrito», declarou a Cobalt aos seus acionistas, dizendo ainda que tinha «levado a cabo uma investigação exaustiva a estas alegações e acreditamos que as nossas atividades em Angola cumpriram todas as leis, incluindo a FCPA». Dois meses mais tarde, quando escrevi a Joe Bryant para lhe perguntar sobre as alegações, o advogado da Cobalt respondeu e foi mais longe: as diligências «exaustivas e em curso» da Cobalt «não encontraram nenhuma prova credível da alegação central de que funcionários governamentais angolanos, e especificamente [Vicente, Kopelipa e Dino] detenham qualquer participação na Nazaki». Referindose à sua grande descoberta de há poucas semanas, o advogado da Cobalt acrescentou: «O sucesso traz naturalmente consigo muitos desafios. Um deles é responder a alegações infundadas.»
O problema para a Cobalt residia em que as alegações não eram infundadas. Eu também tinha escrito a Vicente, Kopelipa e Dino, expondo as provas de que eles eram proprietários de participações na Nazaki, que eu tinha recolhido em documentos e entrevistas. Vicente e Kopelipa escreveram cartas quase idênticas em resposta, confirmando que eles e Dino, de facto, eram proprietários da Aquattro e, dessa forma, tinham participações secretas na Nazaki, mas insistindo que não havia nada de errado nisso. Tinham detido as suas participações na Nazaki, «sempre respeitando toda a legislação angolana aplicável a tais atividades, não tendo cometido qualquer crime de abuso de poder e/ou tráfico de influências para obter vantagens acionistas ilícitas». As holdings tinham, de qualquer maneira, sido «recentemente dissolvidas». Se a lei americana fizesse com que a Cobalt tivesse de sair de Angola, acrescentavam Kopelipa e Vicente, outros estariam dispostos a ocupar o seu lugar.
Vicente e Kopelipa escreveram cartas quase idênticas em resposta, confirmando que eles e Dino, de facto, eram proprietários da Aquattro e, dessa forma, tinham participações secretas na Nazaki, mas insistindo que não havia nada de errado nisso.
No escritório de Manuel Vicente no complexo presidencial da colina de Luanda, o único som era o do aparelho de ar condicionado que mantinha as salas a uns confortáveis 21°C e as marteladas que os operários davam fazendo a manutenção na rua, bem cedo, naquela manhã. Um Mercedes e um Land Cruiser estavam preparados para abrir caminho no meio do trânsito, se o ministro precisasse de se arriscar a ir para lá do muro vermelho alto que rodeia o complexo. A única decoração nas paredes beges era o retrato de José Eduardo dos Santos numa moldura dourada.
Observador
ANGOLA24HORAS


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