Em Angola julgam-se presos políticos acusados de nenhum crime. Dizem que é um regime democrático que está em pleno gozo das suas funções. A corrupção está no pódio como grande vencedora. A miséria e a fome também. As potências democráticas fecham os olhos e apontam que assim é que é bom, que assim é que se faz a estabilidade em África. Eis a receita do terrorismo do qual a Europa não se consegue desenvencilhar. Quem apoia a corrupção e as suas ditaduras, no fundo também é terrorista sem o saber.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Luanda. Casa dos Frescos em greve






Trabalhadores ameaçam paralisar a empresa
Os trabalhadores da rede de supermercados Casa dos Frescos e direcção, estão de costas viradas há já alguns meses, mas foi na semana finda que atingiu o clímax com a decretação de uma greve. Os trabalhadores, que bateram de frente com os patrões, são apenas os das lojas do Atlântico, à Vila Alice e da Mutamba, mas dizem defender os direitos de todos

Adriano de Sousa
SEMANÁRIO ANGOLENSE

Da lista de reclamações consta o aumento da carga laboral, más condições de trabalho e baixos salários. «No âmbito la­boral reivindicamos um ajuste de horário, exigimos a liberdade sindical no local de trabalho, re­definição de categoria, porque há pessoas que estão na mesma cate­goria com salários diferentes. No âmbito social exigimos a aquisi­ção de equipamento de refeitório, há falta de cadeiras, o que obriga os trabalhadores a sentar no chão, além da melhoria da qualidade da alimentação. A empresa tam­bém não dá os subsídios de férias. Exigimos isto e a actualização do abono de família», disse Mariano Kanga, líder dos grevistas, acres­centando que precisam igual­mente um aumento no subsidio de transporte.
«Quanto ao subsidio de trans­porte, eles nos dão 8 mil Kz. Eles pagam a razão de 150 Kz por cada viagem de casa ao local de traba­lho e nós gastamos muito mais que isso. E por fim, exigimos o aumento de salário a 200%. Nós tivemos várias negociações mas a empresa mostrou-se esquiva. No dia 15 de Janeiro fizemos uma assembleia de trabalhadores e de­cidimos entrar em greve no dia 25 de Janeiro. Comunicamos à em­presa logo após a assembleia».
Durante a conversar com o Semanário Angolense (SA), Ma­riano avançou que grande parte das exigências já foram atendidas pela empresa nas várias sessões de negociações que mantiveram com a mesma a posterior. Entretanto, o braço-de-ferro prevalece no ajuste dos horários e no aumen­to de salários. «Anteriormente os trabalhadores entravam às 8h e saiam às 20h, divididos em dois turnos. Aos feriados e domingos a carga laboral era menos porque trabalhava-se apenas um turno. Sem negociar com os trabalhado­res estipularam novo horário que vai das 7h30 às 14h30, no primei­ro turno e depois das 14h30/21h isso de segunda-feira ao domin­go, algo que não concordamos», desabafa Mariano Kanga.
Após explicar a situação, o nos­so interlocutor justificou a recusa: «O horário de domingo é que os trabalhadores não aceitaram por­que entram às 14h de domingo, saem às 21h e até fechar os cai­xas pode-se atingir às 22h, o que é muito cansativo. E no dia se­guinte têm que voltar ao local de trabalho às 7h, não dá tempo para recuperação nenhuma».
Mediante esta situação, os trabalhadores propuseram aos patrões que existisse apenas um turno, como aliás sempre existiu, mas que trabalhassem das 8h às 17h e o outro turno, que trabalhar no dia seguinte, fique a descansar. Entretanto, a questão salarial é mais delicada. Os trabalhadores exigem um aumento de 200%, algo que a empresa alega ser im­possível de satisfazer.
No dia 24 de Janeiro aconteceu uma reunião em que os trabalha­dores aceitaram o aumento em até 50%. Porém, a empresa alegou só poder dar até 5%. Feitas as contas, segundo Mariano Kanga, esse au­mento representaria um acréscimo de apenas mil Kwanzas, o que não foi aceite. Em alternativa, a empresa comprometeu-se em aumentar dois mil Kz no salário e mil no subsidio de transporte. Os trabalhadores voltaram a negar. Em vez disso, os trabalhadores propuseram um au­mento de 50% aos que ganham me­nos e os que já estão num escalão superior ou intermédio os 5%.
Os supermercados Casa dos Frescos estão já, além da sede, junto ao Atlântico, na Mutamba, duas lojas no Talatona, Projecto Nova Vida, havia também uma em Viana mas que está tempora­riamente encerrada. Há perspec­tivas de se abrir uma loja no fu­turo shopping Kinaxixe e Jika.
Segundo director da empresa
«Aumento de salários é impossível»
Ouvido pelo SA A propósito da greve, o director­-geral da Casa dos Frescos, Luís Antunes, revelou que toda direcção da empresa está preocupada e muito interessada em solucionar o problema. Revelou que a empresa aprova a iniciativa dos trabalhado­res de se organizarem e se filiarem em uma associação sin­dical, concorda e atende todas as reivindicações, excepto o aumento salarial de 200% que considera insuportável para a empresa. «Tivemos várias reuniões, a última foi há dias. Decidimos aumentar o subsídio de transporte e mais 10% no salário. Tudo que seja além dos 10% é impossível porque nós temos que aumentar a todos os 700 trabalhadores das várias lojas e não dá», explicou Luís Antunes.
O gestor adiantou ainda que, pelas suas contas, a Casa dos Frescos já paga acima da média dos outros supermer­cados. Quanto as discrepâncias salariais e as categorias, o nosso interlocutor disse que tudo está a ser feito no sen­tido de se regularizar a situação até Março. «Nós pedimos a eles só mais um mês», disse. «Os trabalhadores devem analisar que nós, na Casa dos Frescos, não valorizamos o trabalhador apenas pelo salário; damos formação, ali­mentação e transporte. Inclusive disponibilizamos viatu­ras para os colocar no ponto de táxi mais próximo das lojas, ali onde há necessidade», informou Luís Antunes.
No que diz respeito ao aumento da carga laboral, Luís Antunes confirmou os novos horários, mas disse não se tratar exactamente de aumento de carga laboral. Segundo ele, o que houve foi uma redistribuição do horário. «A lei permite que os trabalhadores funcionem, em regime de turno, até 44h por semana. E isso vai continuar. Nós temos que acompanhar o horário que o próprio sector vai adoptando para não sermos ultrapassados pela con­corrência. No fundo, trata-se da sobrevivência da própria empresa», defendeu. O horário de domingo é igual ao dos outros dias da semana e conta como hora extra», ajuntou. Até ao fecho da presente edição, decorria as negociações e encontrava-se na mesa de negociações a possibilidade de se suspender a greve até se concluir o processo de re­definição de categorias e algumas discrepâncias para de­pois voltar-se a falar em aumento salarial.
In SEMANÁRIO ANGOLENSE. Edição 550 de 01 de Fevereiro de 2014
Enviar um comentário