Em Angola julgam-se presos políticos acusados de nenhum crime. Dizem que é um regime democrático que está em pleno gozo das suas funções. A corrupção está no pódio como grande vencedora. A miséria e a fome também. As potências democráticas fecham os olhos e apontam que assim é que é bom, que assim é que se faz a estabilidade em África. Eis a receita do terrorismo do qual a Europa não se consegue desenvencilhar. Quem apoia a corrupção e as suas ditaduras, no fundo também é terrorista sem o saber.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Uma guerra sem quartel





Tudo o que hoje se passa em Luanda no que toca à informalização da ac­tividade comercial, com destaque para o que acontece com o comércio ambulante (vulgo zun­ga) - cujo combate é a nova briga que o GPL/CACL comprou, mas ainda não pagou - só pode ser o resultado de um impacto demo­gráfico exponencial, que há muito deixou de estar sob controlo das autoridades.

Reginaldo Silva (*)
SEMANÁRIO ANGOLENSE
As causas desta progressão es­tão minimamente identificadas, pelo que, mesmo que haja vontade política consequente para se inver­ter esta tendência, os resultados só se farão sentir a médio prazo, caso a «luandização» do poder e da dis­tribuição do rendimento nacional seja substituída por uma estraté­gia mais coerente de combate às profundas assimetrias regionais. De outra forma, não há solução sustentável.
Penso que esta conclusão já faz parte do domínio do óbvio, mas, num país como Angola, nunca é demais revisitar estas evidências, pois, por vezes até parece que es­tamos a ser atingidos por uma epi­demia de «autismo institucional», com todo o respeito que me mere­cem os portadores desta terrível doença sem aspas.
Estamos a falar de uma cidade que, do ponto de vista do mercado de trabalho, está a rebentar pelas costuras, que está saturada, que já não tem mais nada para oferecer aos seus habitantes.
Estamos a falar de uma cidade que continua, entretanto, a ser procurada por compatriotas nos­sos que abandonam as suas zonas de origem, por terem chegado à conclusão de que, mesmo sendo hoje um pequeno «inferno», a ca­pital ainda consegue ser melhor em matéria de oportunidades do que o «paraíso» onde nasceram ou se encontram a viver.
Luanda continua a ser um polo de «atracção fatal» para todos os angolanos que nas outras regiões do país não conseguem encontrar soluções locais para os seus pro­blemas socioeconómicos.
É a armadilha da capital.
É uma constatação grave, mas que corresponde à realidade de um país que nas décadas de 60/70 via as famílias, onde a minha esta­va incluída, a saírem de Luanda à procura de melhores condições de vida no interior.
Tenho para os meus botões que Angola só voltará a se reequili­brar, quando, novamente, as pes­soas sentirem esta necessidade de deixar Luanda voluntariamente, à procura de outros mercados por este imenso país.
O drama de Luanda, definitiva­mente, nunca será resolvido, den­tro das fronteiras da macrocéfala capital angolana, apenas com a construção de mercados munici­pais.
Há que pensar em Angola na sua imensidão e nas suas poten­cialidades.
Há que pensar em fazer outras Luandas, outras capitais, outras verdadeiras novas centralidades, que não sejam apenas dormitórios periféricos da mesma e grande ci­dade.
Definitivamente, Luanda já não tem capacidade para, ao nível do mercado formal, absorver a cres­cente procura existente, pelo que, ao excedente desta força de traba­lho, só lhe resta mesmo o recurso ao comércio de rua.
O outro recurso é morrer de fome, pois, o terceiro que seria o regresso às suas zonas de origens ou a procura de um modo de vida numa outra região do país, não nos parece que já seja uma opção com relevância estatística para ser considerada a nível nacional.
Todas as tentativas até agora feitas em Luanda para acantonar «este povo» nos chamados «mer­cados municipais» falharam re­dondamente, porque nas zonas onde eles foram implantados não existe procura suficiente nem po­der de compra, para garantir algu­ma rentabilidade (por mínima que seja) à actividade comercial, como facilmente se pode constatar no terreno, com as bancas vazias de clientes.
Antes de se pensar em atacar as consequências de um determi­nado fenómeno socioeconómico, seja com que medidas forem, qual­quer Governo que se preze tem de fazer uma avaliação o mais ob­jectiva possível da realidade, para ver se a estratégia a adoptar tem alguma possibilidade de surtir os efeitos desejados.
Mesmo que não seja coroada de êxito total, o que é sempre difícil de se conseguir em qualquer con­juntura onde as adversidades são predominantes, é preciso evitar que a estratégia seja um comple­to fracasso, o que é sempre mau para credibilidade de quem está no «poleiro».
Isto significa dizer que, por vezes, é melhor não apostar tudo numa determinada direcção, sob o risco de termos de recuar ainda mais, caso as coisas deem para o torto.
A aposta do GPL/CACL em mais esta recente ofensiva contra a zunga, pois não é a primeira e pelos vistos não será a última, tem os contornos do ou tudo ou nada, a traduzir mesmo alguma transfe­rência de tácticas militares para o domínio do confronto social que o Executivo elegeu como método para tentar erradicar o problema do comércio de rua informal.
A ideia que em tempos já defen­di, e que acho que continua a fazer todo o sentido, é que, neste com­bate, os dois «beligerantes», quer a zunga, quer o governo, estão ante­cipadamente derrotados.
A zunga está naturalmente derrotada, porque a pobreza, en­quanto for ela mesma, nunca há­-de ganhar nada, para além de alguns tostões e de algum tempo/ oxigénio para continuar a correr e a fugir dos fiscais e dos polícias, rumo ao desespero permanente de uma existência sem objectivos que ultrapassem a própria sobrevivên­cia quotidiana do ser humano.
Este é o problema maior da zunga para quem a combate, o que faz dela um «projecto» particular­mente resistente a todo o tipo de ataques e ofensivas, seja de quem for.
De facto, quem já não tem nada a perder, perdido está, sendo em consequência o seu comporta­mento muito difícil de controlar com meios convencionais, como é fácil de comprovar pela progres­são que assistimos nas ruas de Lu­anda.
Qualquer avanço do seu com­bate nas ruas de Luanda será ape­nas temporário.
Aqui não se trata bem de estar contra ou a favor.
A coisa é muito mais complica­da e sensível.
É evidente que não podemos es­tar de acordo com a transformação das ruas/passeios em mercados de levante, mas também sabemos que ninguém fica em casa, se a tiver, à espera da morte por inanição, sem lutar pela sua sobrevivência e dos seus filhos.
E a zunga é pura luta pela sobre­vivência.
A zunga (tal como as favelas) só tem uma solução e todos nós sabe­mos qual é, como resultado de um exercício simples, que tem a ver com a descoberta das razões que levam as pessoas a procurarem a sua sobrevivência no comércio de rua. A conclusão é evidente.
O que é particularmente grave na cidade de Luanda é que a zun­ga está a aumentar a olhos vistos e de forma absolutamente expo­nencial, a contrariar todas as ou­tras «evidências» oficiais de que se estará a registar uma redução na taxa de pobreza/miséria.
(*) Jornalista
In SEMANÁRIO ANGOLENSE. Edição 551 de 08 de Fevereiro de 2014
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