Em Angola julgam-se presos políticos acusados de nenhum crime. Dizem que é um regime democrático que está em pleno gozo das suas funções. A corrupção está no pódio como grande vencedora. A miséria e a fome também. As potências democráticas fecham os olhos e apontam que assim é que é bom, que assim é que se faz a estabilidade em África. Eis a receita do terrorismo do qual a Europa não se consegue desenvencilhar. Quem apoia a corrupção e as suas ditaduras, no fundo também é terrorista sem o saber.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

O futuro Teatro Avenida. Reginaldo Silva



Para quem gosta de observar  mais atentamente as transformações que estão sendo operadas diariamente no chamado casco urbano desta cidade de Luanda que nos viu nascer já lá vai mais de meio século, o engarrafamento acaba por ser um grande aliado e um óptimo consultor, a quem não precisamos de pagar rigorosamente nada, para além do tempo que  podia ser dinheiro, mas isso é mesmo conversa para inglês ouvir.
Para o angolano que se preze e que vive em Luanda, já não é verdade que o “time” seja mesmo “money” e se for, deve ser apenas para perder muito e nunca para tentar ganhar algum. Muito menos para fazer contas à vida.
Seria efectivamente uma perda ainda maior de tempo, com a qual neste momento ninguém parece realmente interessar-se, talvez por já muito poucos de nós acreditarem que a actual tendência pode vir conhecer a medio prazo alguma inversão.
São verdadeiramente estarrecedores os números avançados por um recente estudo feito por alguém, cujo nome não me ocorre agora (sorry!), sobre o impacto negativo do engarrafamento na nossa economia.
Em Angola do ponto de vista do seu valor económico, este “produto” deixou de fazer qualquer sentido, particularmente para os luandenses que há muito viram o seu dia reduzido a vinte horas ou mesmo menos, por força do improdutivo tempo que são forçados a passar no interior das viaturas, “através” dos trajectos obrigatórios que todos os dias percorrem entre casa/serviço/escola/vadiagem/casa.
Felizmente que não estou pessoalmente afectado por este corte draconiano no orçamento do meu tempo diário, o que me tem permitido fazer uma grande economia das minhas reservas de stress.
Faço, entretanto, questão de aproveitar da melhor forma o tempo que passo nos engarrafamentos, observando particularmente a paisagem de betão armado que me rodeia, para além de outros “pormenores de reportagem” que vão fazendo esta cidade acontecer, como muito gostam os jornalistas de falar.
Gostar de observar a tal paisagem luandense não quer dizer que goste, nem pouco mais ou menos, da forma como ela tem estado a ser transformada a olhos vistos, pela mão e os interesses de alguns homens, que na economia de mercado também são conhecidos por capitalistas ou investidores, cujos valores orientadores nem sempre coincidem com os meus.
Foi num destes trajectos que faço pelos engarrafamentos da “city”, que esta semana o meu radar foi atraído por um dos muitos prédios novos que têm estado a alterar substancialmente a paisagem da baixa luandense.
Terça-feira última dei de caras com o imponente edifício que está a ser construído no local onde antes estava localizado o “Teatro Avenida”, uma herança cultural do tempo colonial que, por força do demolidor camartelo e dos interesses dos tais homens atrás referidos, desapareceu subitamente do mapa da nossa urbe.
Pela primeira vez, devo confessar, reparei nos dizeres do obrigatório placard que sinaliza a referida obra e vi que a torre que ali vai nascer se irá chamar também “Edifício Teatro Avenida”.
Devia andar mesmo muito distraído, para só agora ter reparado no nome do tal prédio, pois aquela artéria faz parte dos meus caminhos habituais quase sempre que vou até à baixa ou no meu regresso do chamado “passeio dos tristes”, que é aquele que se faz até à ponta da Ilha.
É pois com grande expectativa que aguardo pela finalização desta obra, sobretudo para ver qual será o espaço nobre que será consagrado às artes cénicas, no âmbito do que me parece ser uma parceria publico-privada, tendo em conta que aquele terreno é (ou era) público.
Por alguma a razão, o edifício se vai continuar a chamar “Teatro Avenida” e o financiamento (126 milhões de dólares) está a ser feito por um banco público, o BPC.
Depois veio-me a memória, que na altura em que se anunciou a demolição do Teatro Avenida houve efectivamente da parte das autoridades do sector, o compromisso de incluírem no novo projecto imobiliário um espaço substituto do teatro que acabava de ser “abatido” sem dó, nem piedade.
Como sei que a palavra de honra neste país também tem estado a ser desvalorizada a um ritmo preocupante para algumas referências mais sólidas do passado (que já é para esquecer), resolvi pesquisar um bocado e encontrei na Net o projecto do edifício que esta semana caiu no meu radar.
Efectivamente, esta lá tudo no papel conforme foi prometido. Luanda vai ter naquele prédio de 21 andares um moderno teatro com capacidade para mais de 500 pessoas sentadas.
Uma das preocupações que tenho manifestado em relação a demolição de edifícios em Luanda tem a ver exactamente com a salvaguarda do interesse público, sempre que haja cedência dos seus espaços para o investimento imobiliário.
Quando, usando o seu poder discricionário, o Governo cede o espaço de uma escola pública para no seu lugar ser erguida uma torre qualquer, tem de haver necessariamente uma troca vantajosa para o Estado ao abrigo da qual essa mesma escola ou continua no mesmo local ou seja construída num outro terreno, com todas as mais valias resultantes da sua modernização/ampliação.
Sem dominar o que se passou com o negócio que envolveu a construção do “Edifício Teatro Avenida”, estou em crer que ali está uma referência menos problemática,  a ter em conta neste tipo de gestão da coisa pública.
O mais certo é que me falta neste momento a necessária informação para tirar aqui outras conclusões mais definitivas, mas não me lembro de ter visto nos últimos tempos uma “parceria” com os contornos do que se passou com o aproveitamento do terreno onde estava aquele teatro que herdamos do tempo da outra senhora e que, portanto, era de todos nós, enquanto luandenses, de gema ou sem ela.
NA- Texto publicado no semanário “O País/Revista Vida/Secos e Molhados/27-09-13″
http://morromaianga.com/o-futuro-teatro-avenida#.UkkzEIjutjw.blogger

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