sexta-feira, 20 de junho de 2014

Os Bons, os Maus e os Piores do MPLA







Rafael Marques de Morais
Em Dezembro próximo, o MPLA realizará o seu V Congresso Extraordinário. O presidente do partido no poder, José Eduardo dos Santos, deixou claro que não haverá “renovação de mandatos dos órgãos de direcção”.

Na II Sessão Extraordinária do Comité Central do MPLA, José Eduardo dos Santos garantiu que “essa renovação só acontecerá no Congresso Ordinário, previsto para o ano 2016, sob o signo da estabilidade, coesão e afirmação da liderança do MPLA na sociedade”.
Com estas afirmações, dos Santos protela, mais uma vez, qualquer discussão sobre a sua sucessão na presidência da República, cargo que ocupa há quase 35 anos.
Maka Angola tem conhecimento dos planos do presidente para alterar a composição do Bureau Político quando proceder à renovação de mandatos, de modo a garantir uma maioria de apoio a Manuel Vicente, a sua escolha pessoal para a presidência.
A esta estratégia não é alheia a nomeação recente do antigo secretário-geral do MPLA, general João Lourenço, para o cargo de ministro da Defesa. No obscuro jogo da sucessão presidencial, João Lourenço deverá ser promovido ao posto de vice-presidente de Manuel Vicente. João Lourenço tem vindo a familiarizar-se com os dossiês de defesa e segurança, de modo a garantir o apoio e controlo deste sector, assim como dos contrariados do MPLA, ou seja, aqueles que Manuel Vicente não tem poder de influenciar. Em resumo, o presidente impõe o seu sucessor e, como concessão, entrega a vice-presidência ao MPLA.
Nos últimos anos, o culto de personalidade à figura de José Eduardo dos Santos tem eclipsado qualquer análise séria sobre quem é quem no MPLA e a influência que estas figuras têm sobre a governação, sobre a sociedade e sobre o futuro do país. Apesar de o presidente do MPLA ser também o presidente da República, vezes sem conta, os poderes concentrados na presidência da República têm-se manifestado paralelos aos do MPLA. O partido tornou-se assim num mero acessório político de legitimidade para Dos Santos. O líder tem sido o principal obstáculo tanto para a democratização interna do seu partido como para o país, para além da fachada eleitoral.
Dos Santos tem assumido, com inqualificável cinismo, a função de padrinho da corrupção em Angola. Por essa via, tem sido também o principal agente da destruição dos valores morais e cívicos que devem nortear uma sociedade, tais como a integridade e a dignidade humanas.
Mas quem são os dirigentes do MPLA, o partido no poder há 39 anos ininterruptos? O que fazem e podem fazer pela sociedade, para além da manutenção do poder e dos seus interesses privados? Como podem moralizar o próprio MPLA, para que este partido reencontre a sua visão inicial de servir o povo e a nação?
Maka Angola inicia uma série sobre os bons, os maus e os piores da política e da sociedade angolana, ao nível do partido no poder, dos órgãos de soberania, da oposição, da sociedade civil, entre outros sectores e categorias.
A discriminação entre bons, maus e piores não procura atestar o carácter individual de cada cidadão seleccionado, mas sim classificar o impacto das suas acções ao nível da política, da sociedade e mesmo junto dos seus pares.
Por razões óbvias e acima explicitadas, o MPLA é a primeira instituição a passar pelo crivo do Maka Angola.
A corrupção configura hoje a matriz política do MPLA. A promiscuidade entre o público e o privado, a falta de ética, a corrupção e a incompetência transformaram-se hoje nos pilares do poder. O encobrimento e a defesa mútua dos crimes praticados passaram a ser os símbolos de camaradagem e solidariedade entre dirigentes e militantes. A corrupção passou a ser o elo de ligação mais forte entre todos, o modelo de ascensão e sucesso no seio do regime e da sociedade.
Contudo, os nossos critérios de selecção são mais modestos, e baseiam-se na capacidade de liderança, influência, defesa de interesses e sensibilidade para com o resto da sociedade.
As listas cingem-se a 10 elementos cada, e a escolha é da inteira responsabilidade do autor. De todo o modo, o que se pretende é um debate sobre as figuras que pesam na vida quotidiana política e civil.
Os Bons



1. Maria Ângela Bragança – Membro do Comité Central,  secretária de Estado para a Cooperação
É uma referência no MPLA, uma grande senhora, pela sua conduta discreta, positiva e, sobretudo, digna. É uma patriota que, para além do essencial, nunca foi propensa a discursos a favor do culto de personalidade. Tem sido muito penalizada pela sua resistência aos caprichos pessoais do presidente do partido.
2. Carlos Alberto Ferreira Pinto – Secretário para a Organização e Mobilização do BP, deputado à Assembleia Nacional
Mandatário do MPLA para as eleições de 2008 e 2012, revela grande capacidade intelectual e uma personalidade moderada no seio do Bureau Político. Sabe-se muito pouco sobre ele. É a figura mais discreta da direcção do partido.
3. Norberto dos Santos “Kwata Kanawa” – Membro do BP, primeiro secretário provincial do MPLA e governador de Malanje
Em 2009, deu o rosto à contestação interna, no seio do MPLA, contra as alterações ao seu projecto pela turma presidencial, cujo resultado foi a Constituição atípica. Sempre teve um espírito aberto. Em Malanje, é dialogante com todos os sectores, incluindo a sociedade civil. Não é dotado de criatividade política, mas é bom camarada e um digno cidadão.
4. António Pitra da Costa Neto – Membro do BP, ministro da Administração Pública, Trabalho e Segurança Social.
Preferiu renunciar à vice-presidência do MPLA em 2007, assim renunciando a ser somente a sombra do chefe. É ministro da Administração Pública, Trabalho e Segurança Social há 22 anos. É o único dirigente que se mantém no mesmo cargo ministerial há mais de 20 anos, por sinal, o que gera mais rendimentos logo a seguir às finanças. Mantém-se afastado das manifestações de demagogia populista do seu partido e do culto de personalidade ao chefe. Prefere cuidar dos seus amores, acima de tudo, o que é bom para a sociedade. No entanto, enquanto governante, não revela preocupação com os mais desfavorecidos, recusando a estipulação de um salário mínimo que permita uma cesta básica mensal e a cobertura do custo de transporte entre a casa e o trabalho. É ainda o promotor do anteprojecto de lei laboral extremamente prejudicial aos interesses dos trabalhadores.
5. Rui Falcão Pinto de Andrade – Membro do BP, governador do Namibe
Quando ascendeu ao Bureau Político e assumiu as funções de secretário do Departamento de Informação e Propaganda, partilhou com os seus funcionários os US $700,000 que recebeu como subsídio partidário de instalação. Apesar do seu radicalismo ideológico, compreendeu a política de desarticulação do Estado através das práticas de rapina da mais alta magistratura. Foi o único membro do BP a pronunciar-se em termos mais duros contra a corrupção que governa o partido. Fê-lo nas vestes de governador, cargo que assumiu contrafeito. Falou de coração e de acordo com as suas acções práticas. Espera-se mais deste antigo chefe dos escuteiros de Angola e co-fundador da defunta Associação Cívica de Angola (ACA). É de registar a sua defesa do grave espancamento que elementos do regime desferiram contra o opositor Filomeno Vieira Lopes, como um acto entre lúmpenes aos quais supostamente FVL estava associado. Na realidade, quem dirigiu o comando de operações de violência contra manifestantes e opositores que culminaram na agressão a Filomeno Vieira Lopes foi o general Manuel Hélder Vieira Dias “Kopelipa”.
6. João Baptista Kussumua – Membro do BP, ministro da Reinserção Social
Bastante polido, é a mais eficiente antena de JES junto dos Ovimbundo, grupo etnolinguístico do qual faz parte. À época de Nandó, como primeiro-ministro, e Aguinaldo Jaime, como adjunto do primeiro-ministro, Dos Santos confiava-lhe a chefia interina do governo. É competente a estabelecer pontes com outros sectores. Muito discreto, chega ao ponto de se manter afastado da má fama do MPLA e do seu líder, de cujas acções é um dos principais beneficiários. No entanto, pelo seu ministério passam avultadas verbas destinadas ao sector social, mas que acabam por ser usadas noutras operações do regime.
7.Virgílio Fontes Pereira – Membro do BP, chefe da bancada parlamentar do MPLA
Um dos elementos mais bem formados da cúpula do MPLA. É demasiado ambicioso e muito organizado. Internamente, é acusado de arrogância por fazer valer-se dos seus conhecimentos. Defende muitas ideias próprias, contrariamente às beatas políticas que simplesmente se dedicam ao culto de personalidade do chefe. Tem capacidade e articulação política para dar o seu melhor num quadro de transição. Depois da sua grande golpada no Ministério da Administração do Território, JES distanciou-se dele. Uma vez que a corrupção e o saque são encorajados pelo próprio chefe, JES reabilitou-o e VFP regressou à ribalta política como chefe da bancada parlamentar. O seu pecado terá sido o de ter comido sozinho, sem partilhar com a família presidencial ou com o séquito restrito do líder.
8. Marcolino Moco – Militante do MPLA
É o mais conhecido dos militantes de base do MPLA, depois de ter sido membro do Bureau Político, secretário-geral desse partido, deputado e primeiro-ministro. Tem demonstrado de que forma um militante do MPLA pode colocar os interesses da sociedade acima dos do seu partido. Marcolino Maco cansou-se do pretenso papel de “bailundo” submisso que terceiros lhe atribuíam. Afirmou-se como o mais corajoso dos políticos. Em 1996, Dos Santos patrocinou a criação do Movimento Nacional Espontâneo, cuja primeira actividade foi celebrar a demissão de Moco do cargo de primeiro-ministro: “carreatas” (passeatas de carro) e megafones insultaram-no publicamente como “bailundo”. Em 2002, alguns deputados do MPLA, seus colegas, visitaram-no de surpresa apenas para o “informarem” de que o chefe dos “bailundos”, e portanto do próprio Marcolino, tinha sido morto em combate. Moco é de uma humildade e integridade invulgares: preferiu fazer a travessia no deserto, o que o tem levado ao empobrecimento gradual. Abomina manter-se calado e ver o país saqueado pelos detentores do poder e seus cúmplices nacionais e estrangeiros, enquanto espezinham os direitos humanos e empobrecem cada vez mais a alma angolana. Moco pode vir a dar o passo que dele mais se espera: abandonar a militância partidária. A sociedade civil precisa dele.
9.Manuel Domingos Vicente – Membro do BP, vice-presidente da República
Actualmente, não há figura mais afortunada no MPLA do que Manuel Vicente. Sem ter feito carreira política ou partidária, tornou-se o herdeiro putativo da presidência da República. Tem como mérito uma ligação familiar ao presidente e o facto de ter servido de tesoureiro zeloso da família presidencial durante muitos anos, enquanto gestor da Sonangol. De certo modo, a sua acção partidária é positiva, porquanto demonstra quão desnecessário é o culto de personalidade a José Eduardo dos Santos de modo a merecer a sua confiança. A sua discrição partidária ridiculariza o servilismo de Roberto de Almeida, Dino Matross, Nandó, entre outros. Enquanto vice-presidente, Manuel Vicente não adula o presidente em público, o que garante dignidade ao cargo que ocupa. O congresso extraordinário do MPLA, a realizar em Dezembro, servirá para reforçar o seu poder enquanto candidato à sucessão presidencial e garantir uma composição favorável no BP, o órgão de decisão do MPLA, por forma a alcançar o apoio incondicional do partido. Todavia, sem José Eduardo dos Santos, Manuel Vicente não tem influência política. É pouco provável que se mantenha no topo da política angolana após a partida do chefe.
10. Higino Carneiro – Membro do BP, governador do Kuando-Kubango
É o mais coerente dos dirigentes do MPLA. Professa abertamente o culto à ideologia do dinheiro, que comanda a mentalidade dos dirigentes do MPLA. Não encobre os seus actos com discursos inflamados de legitimidade política, patriotismo, autoritarismo e outros ismos falaciosos. Como partidário, destaca-se pelas suas qualidades humanas. Não é adepto das práticas de intolerância política e repressão que enformam os instintos de sobrevivência política dos líderes do seu partido. Também consta que é dos que mais contribui para os cofres do partido com proventos originários, obviamente, dos cofres do Estado. O general Higino Carneiro é outro exemplo de como a lealdade para com o chefe, de quem é um dos mais fiéis operacionais, como “homem do saco”, dispensa o culto de personalidade. Este fenómeno já se tornou numa endemia no seio do MPLA e da comunicação social do Estado, capitaneada pelo extremista José Ribeiro. Com alguma regularidade, serve de bombeiro do MPLA. Sossega figuras da oposição com a sua célebre “generosidade” e propensão para distribuir parte do que vai ganhando sem humilhar os beneficiários. No entanto, é demasiado influenciável ao “diz-que-disse”. Continua como general no activo enquanto exerce política partidária, o que constitui uma flagrante violação constitucional relativamente ao apartidarismo das Forças Armadas Angolanas (FAA). Já tem dinheiro e estatuto para contribuir efectivamente para a despartidarização das FAA, requerendo a sua reforma do exército. Brada aos céus essa duplicidade de funções, incompatíveis do ponto de vista constitucional.

Os Maus



1. Bornito de Sousa – Membro do BP, ministro da Administração do Território
Nos últimos tempos, tem-se destacado como o principal comunicador do regime através do Facebook, engajando-se, de forma interessante, em debates até com críticos, particularmente jovens. É culto e de boas relações. Tem ambições presidenciais. Politicamente, é uma decepção. Enquanto chefe da bancada parlamentar, teve em suas mãos o poder de prevenir a Constituição atípica imposta pelo círculo presidencial. O anteprojecto do MPLA propunha a eleição directa do presidente por sufrágio universal. Sousa fez o jogo da avestruz e preferiu a rota mais fácil: colocou-se à disposição do círculo presidencial e abandonou os camaradas que divergiam. A posição de Bornito de Sousa sobre a Constituição reforçou a ideia interna da sua falta de solidariedade para com os próprios camaradas na hora do aperto.
2. João Lourenço – Membro do BP e vice-presidente da Assembleia Nacional
Finalmente, as suas preces foram ouvidas: depois de 11 anos “arquivado” nas prateleiras da Assembleia Nacional, Lourenço volta a ter grande protagonismo político, ao ser chamado pelo chefe para assumir o cargo de ministro da Defesa. É novamente um peão do líder. Como ministro da Defesa, deve familiarizar-se com os dossiês de defesa e segurança, de modo a preparar-se como o segundo homem na lista de candidatos do MPLA às próximas eleições, em 2017. Segundo o modelo atípico angolano, o primeiro e o segundo nomes da lista do partido vencedor das legislativas assumem automaticamente as funções de presidente e vice-presidente da República, sem serem eleitos directamente pelos eleitores ou pelo parlamento. Após as monumentais asneiras cometidas pelo anterior ministro da Defesa, Cândido Van-Dúnem, do círculo familiar da sua mão direita, o general Kopelipa, Dos Santos vê-se obrigado a entregar esse sector ao MPLA. Há um grande ascendente, capacidade de organização e de trabalho dos generais oriundos da UNITA que servem plenamente o presidente, mas que podem manifestar-se contra a partidarização das FAA pelo MPLA, no período pós-Dos Santos. Há vários generais nas estruturas de direcção do MPLA que continuam no activo, incluindo João Lourenço, em flagrante violação da Constituição e demais legislação sobre o carácter apartidário das FAA. Em 2003, Dos Santos anunciara a sua retirada da presidência. O então secretário-geral do MPLA, João Lourenço, encabeçou um segmento do partido que se propunha a insistir publicamente na retirada voluntária do presidente. João Lourenço, homem de algumas convicções, teve a coragem de reiterar aos órgãos de comunicação social que o presidente do seu partido era um homem de palavra e de honra, e que o anúncio da sua decisão era para ser cumprido. Como consequência, para além de outros conflitos de natureza íntima, Dos Santos afastou-o do cargo de secretário-geral. Com esta queda, experimentou do seu próprio veneno, usado com grande empenho no célebre “congresso da batota”. Durante o IV Congresso do MPLA, em 1998, serviu JES na sua estratégia de afastamento das estruturas do MPLA, de três ex-primeiro-ministros e incómodos políticos: Lopo do Nascimento, Marcolino Moço e França Van-Dúnem. Lopo do Nascimento passou de secretário-geral do MPLA a militante de base nesse congresso. Para seu crédito, João Lourenço é, a seguir a Bornito de Sousa, dos membros do BP que se opuseram abertamente, no conclave partidário, à indicação de Manuel Vicente para vice-presidente, feita pelo próprio Dos Santos. Este seu acto demonstra que sucumbiu à estratégia de continuidade do Eduardismo. Todavia, JL pode ter aprendido a maior lição que Dos Santos lhe deu: não honrar a sua palavra.
3. Julião Mateus Paulo “Dino Matross” – Secretário-geral, deputado à Assembleia Nacional
É das figuras mais afáveis do regime. No entanto, epitomiza a velha guarda arreigada à mentalidade e ao comportamento securitários. Dá a impressão de que não viveria sem o presidente do partido, tal é a sua dedicação ao culto de personalidade. Pretende ser o patriarca da família Dias dos Santos e rivalizar com os Van-Dúnem. Para além desse projecto, não tem ideias próprias sobre o rumo do partido. Para Matross, o país resume-se ao partido.
4.Carlos Feijó – Membro BP
Quando o chefe lhe dá luz verde, é o cérebro do regime. Infelizmente, nunca soube explorar de forma positiva a relação especial que cultiva com o Presidente. Desperdiçou a melhor oportunidade de fazer história quando teve nas suas mãos a responsabilidade de modernizar a constituição de Angola. Trabalhou de forma incansável para a “perpetuação” do JES no poder. Ficará conhecido como o pai da Constituição atípica, com os poderes absolutos legais que JES sempre almejou desde 1979. É o alfaiate dos legalismos do presidente para manter e consolidar o seu poder com aparente legitimidade jurídico-constitucional. Deu o seu melhor para conferir alguma respeitabilidade e comunicabilidade ao regime, com tentativas de reforma da administração do Estado e conferências de imprensa regulares. No entanto, mais uma vez subestimou a mestria do seu próprio chefe no jogo de intrigas palacianas. Mas também se lhe deve reconhecer que deu o seu melhor com a Lei da Probidade. Mais do que isso, empreendeu esforços na organização da administração do Estado. A sua autonomia intelectual, mais uma vez, e a capacidade de ofuscar os seus pares custaram-lhe o lugar de ministro de Estado e chefe da Casa Civil, que faziam dele o “vice-presidente” executivo. A sua influência acabou neutralizada. É o homem das grandes estratégias não-violentas e repressivas do regime. É a antítese de Kopelipa, Jú Martins e outros. Apreciador nato das intrigas palacianas, amante ávido das “discussões de infantário”, Toninho Van-Dúnem que o diga. Desperdiçou a melhor oportunidade de fazer história quanto teve nas suas mãos a responsabilidade de modernizar a Constituição de Angola.
5. Gonçalves Muandumba – Membro do BP, ministro da Juventude e Desportos
É o impensável do MPLA. O seu papel de louvaminhas do presidente raia o ridículo e dá azo a inúmeras anedotas sobre a sua incapacidade de dizer algo publicamente sem mencionar a “clarividência” do presidente. Trata-se de um indivíduo que nunca teve uma ideia própria. Para seu benefício, o seu infantilismo político tem o condão de prejudicar ainda mais a imagem do presidente, que procura endeusar. A sua influência resume-se apenas ao serviço que presta enquanto dirigente do pelouro da juventude: abafar a autoestima e a capacidade criativa dos jovens. Muandumba é uma peça importante na alienação da juventude e sua precipitação no vazio moral, intelectual e político.
6. Joana Lina – Secretária para a Administração e Finanças do BP, vice-presidente da Assembleia Nacional
É a tarefeira do radicalismo político no feminino, na defesa exclusiva dos interesses de grupo. Não tem ideias próprias.
7. Jesuíno Silva – Segundo secretário do Comité Provincial de Luanda , deputado à Assembleia Nacional
Este jovem turco é um fiel seguidor de Bento Bento e seu ideólogo. Trata-se de um intriguista de créditos firmados. Para esta nova vaga de líderes do MPLA, o culto de personalidade ao chefe está acima de tudo, é o centro de gravitação do mundo. Com este tipo de ideólogos, a nação angolana e os interesses do povo angolano resumem-se única e exclusivamente à vontade emanada pela direcção do MPLA. Jesuíno Silva tem sido um grande combatente contra as manifestações, apoiando-se na palavra de ordem de Bento Bento: “Defender com bloco e atacar com bloco!”. Foi entusiasta directo na agressão contra Filomeno Vieira Lopes, tendo merecido louvores no seio do comité provincial do MPLA por esse mesmo feito.
8. Manuel Nunes Júnior – Secretário para a Política Económica e Social do BP, deputado à Assembleia Nacional
Tem boas qualidades humanas e boa formação académica, com doutoramento em Economia na Universidade de York, em Inglaterra. O seu “crime” é a indecisão crónica e a falta de coragem para, de vez em quando, mostrar o que vale. A esse nível, é pior do que a velha guarda. Bem poderia usar o seu tempo e conhecimentos para dar aulas e renunciar à liderança de um pelouro para o qual não é tido nem achado.
9. Roberto de Almeida – Vice-presidente, deputado à Assembleia Nacional
Esperava-se mais deste veterano, até pelo seu nível intelectual. Apesar do seu difícil relacionamento pessoal, é dos poucos políticos que tinha peso, no seio do partido, para criar uma corrente reformista e a favor dos interesses supremos da nação. Esquivou-se sempre a assumir riscos. Preferiu render-se a José Eduardo dos Santos, que o domesticou, integrando-o no esquema de privilégios ilícitos. Hoje é apenas um corista. Tem no entanto um trunfo na manga, que lhe garante estar entre os bons: pode sempre jogar uma cartada de alcance político, ao anunciar a retirada voluntária da vida política activa e escrevendo a sua autobiografia. De resto, já não aquece nem arrefece.
10. Mário António – Secretário para a Informação do BP, gestor principal dos negócios do MPLA através da GEFI, um conglomerado de mais de 60 empresas
A recente nomeação do general Mário António para porta-voz do MPLA revela o quadro psicológico que comanda a liderança do partido. Mário António é um militarista pouco dado a entreter-se em diálogos. Mesmo ao tempo de comissário político das então FAPLA, era de poucas falas. A sua nomeação coincidiu com a implementação das Brigadas Comunitárias de Vigilância, que constituem a formalização da política presidencial de reabilitação das forças paramilitares e da bufaria entre vizinhos, desta vez sob o controlo directo do MPLA. Também está alinhada à ascensão do seu mentor, João Lourenço, ao cargo de ministro da Defesa. Como era de esperar, Mário António falou publicamente, pela primeira vez depois de ter assumido o cargo, sobre a intolerância política no país. Disse que “são rixas entre cidadãos”. Com a sua nomeação, está consagrada a defesa nua e crua da política de intolerância no país, desencadeada pelo próprio MPLA. Desse modo, Dos Santos mostra que o campo de João Lourenço não tem intenções reformistas, mas sim repressivas. E o jogo de baralhar para confundir continua.

Os Piores



1. Bento dos Santos “Kangamba” – Membro do Comité Central, secretário para a Mobilização Periférica e Rural do Comité Provincial de Luanda
É o símbolo maior da lúmpen burguesia que tomou conta do MPLA. Já havia sido expulso do MPLA, em 2004, após condenação por crimes de fraude, burla e falsificação de documentos. Regressou em grande à cúpula do MPLA, pela mão do presidente, desposando a sua sobrinha Avelina dos Santos. Passou a ser membro do círculo familiar íntimo do presidente, que tem mais poderes que o BP do MPLA ou outra estrutura de poder. Com tal poder, internacionalizou a lumpenagem angolana, tornando-se a figura nacional mais mediática no Brasil, por tráfico internacional de mulheres para exploração sexual. É procurado pela Interpol. Trata-se do rosto do gangsterismo político doméstico, em nome do regime. Serviu de padrinho das “milícias” conhecidas como kaenches, muitos dos quais de nacionalidade congolesa, destinadas a aterrorizar os manifestantes anti-regime.
2. Manuel Hélder Vieira Dias “Kopelipa” – ministro de Estado e chefe da Casa de Segurança do PR
Participa regularmente das reuniões do Comité Central e do BP, supostamente para garantir a segurança do presidente. Na realidade, a sua presença é sempre no sentido da coacção psicológica dos eventuais críticos do presidente. Apesar de ser general no activo, viola o apartidarismo das Forças Armadas Angolanas ao envergar abertamente camisolas do MPLA durante a campanha eleitoral. De forma prática, Kopelipa intromete-se na vida interna do MPLA para afirmar-se também como um líder-sombra desta organização política. Com as marionetas que vegetam pelos corredores da direcção do MPLA e a sua insaciável capacidade para a intriga, Kopelipa pode e manda. É a figura mais destrutiva do país, do ponto de vista político e económico, sendo o principal responsável pela “venda” de Angola à China.
3. Bento Bento – Membro do BP, governador de Luanda
Não soube influenciar positivamente o MPLA, com o poder de mobilização de massas de que dispunha. O seu populismo é despido de quaisquer princípios doutrinários ou outros que possam contribuir positivamente por uma Angola melhor. Exemplo disso é o recente encontro que teve com as quinguilas. Primeiro, patrocinou a detenção arbitrária das vendedoras ambulantes por três dias. A seguir, “por ordens do presidente”, providenciou para que as centenas de mulheres presentes no encontro consigo recebessem cada uma 5000 kwanzas. Debalde, não havia dinheiro para o efeito. É irresponsável. O presidente da Comissão Administrativa de Luanda, José Tavares, revogou publicamente a cessação de hostilidades do governo contra as quinguilas, desautorizando Bento Bento e fazendo supor que este apenas usou o nome do presidente para sua autopromoção. Tem contribuído om a sua incompetência e falta de visão para encaminhar o MPLA para o precipício. A forma como apareceu vinculado ao desaparecimento e assassinatos de Cassule e Kamulingue é um indicador dos caminhos obscuros por onde circula em busca de mais poder. Trata-se de outra figura destacada da lúmpen-burguesia.
4. João “Jú” Martins – Secretário para a Política de Quadros do BP, deputado à Assembleia Nacional
É o ideólogo do MPLA. Está intrinsecamente ligado às boas e às más estratégias do MPLA. Depois de Lúcio Lara, é a figura que acumulou mais poderes como ideólogo do partido no poder.
5. Fernando da Piedade Dias dos Santos – Membro do BP, presidente da Assembleia Nacional
Tem o sorriso mais cínico do regime. É um dos presidenciáveis do MPLA, por mérito do seu historial de repressão. É conhecido como extremamente vingativo e, por isso, o presidente e o seu círculo restrito não podem perdê-lo de vista. Têm-no feito circular entre os postos de primeiro-ministro, de presidente da Assembleia Nacional, de vice-presidente e, outra vez, de presidente da Assembleia Nacional. Quando Dos Santos decidiu apartar-se de Carlos Feijó, teve a “crueldade” de o colocar sob a chefia de Nandó, mesmo sendo o primeiro ministro de Estado e chefe da Casa Civil do Presidente da República. Dificilmente se livrará da fama de ser o protector de negócios obscuros e altamente perigosos, mesmo num país onde ser corrupto é uma honra. O seu nome apareceu também associado a negócios com os irmãos libaneses Kassim Tajideen, acusados pelos Estados Unidos da América como financiadores de um grupo terrorista, tal como é qualificado o Hezbollah.
6. José Tavares* – Membro do comité provincial de Luanda do MPLA, presidente da Comissão Administrativa de Luanda
Pai e padrinho da Constituição atípica, Carlos Feijó e Bornito de Sousa também imprimiram os seus nomes nos anais da história como os criadores da Comissão Administrativa de Luanda. Os atípicos ancoraram na Constituição a criação de “instituições e entidades administrativas independentes”, bem como a sua organização e o seu funcionamento (Art.º 199.º, n.º 3 e 4). Combinaram esse articulado com o referente à administração local do Estado (Art.º 201.º, n.º1) para o ensaio da CAL, como forma de controlo de Luanda pelo presidente, independentemente do resultado das autarquias. Para o efeito, Dos Santos usou mais esta atipicidade made in Angola para conceder poderes ao seu amigo José Tavares, que também promoveu a general. Essa indicação respondeu à necessidade de a família Dos Santos ter em Luanda um demolidor sem quaisquer encargos de consciência. José Tavares é assim o protagonista das demolições regulares de vastas áreas residenciais, em zonas valorizadas para a especulação imobiliária, remetendo dezenas de milhares de cidadãos a uma vida primitiva fora da cidade, para onde são desterrados depois de despojados. Os respectivos terrenos servem para os interesses da primeira família e dos favoritos do círculo presidencial. De administrador do Sambizanga, bairro onde o presidente passou parte da infância e adolescência, o general José Tavares foi investido da função de presidente da Comissão Administrativa de Luanda, para ser supervisor dos administradores municipais. Debalde. Com o poder do MPLA na província e a amizade do pai grande, José Tavares assumiu-se como o presidente da República de Luanda. É outra figura cimeira da lúmpen-burguesia.
7. João Ernesto dos Santos “Liberdade” – Membro do BP, primeiro secretário provincial do MPLA e governador do Moxico
Ocupa o mesmo cargo há mais de 30 anos. É e sempre foi um deserto de ideias, para além do uso da violência. O Moxico, a maior província de Angola, mantém-se imobilizado no tempo por obra desse senhor. Nunca mostrou trabalho, para além da violência. É uma grande arma na estratégia de quem não tem nem vontade nem capacidade para governar todo o país, mas precisa de o manter sob estrito controlo.
8. António dos Santos França “N’dalu” – Membro do BP, deputado à Assembleia Nacional
É a eminência parda do regime, conhecido como o general dos generais. Teve uma carreira militar extraordinária, que lhe granjeou grande prestígio. Também é um diplomata bem ao estilo do seu nome de guerra, “Puma”. O general é sempre solícito a defender interesses de certos grupos minoritários, em termos de poder e vantagens económicas. Com todo o seu prestígio e reputação, não se lhe conhecem iniciativas destinadas a honrar os antigos combatentes e veteranos de guerra, milhares dos quais serviram sob seu comando. Também não se faz ouvir sobre a necessidade de reformas nas FAA que façam chegar aos soldados, em várias zonas do país, o mínimo: uniformes, botas, capas de chuva e, acima de tudo, alimentação regular. Com tudo o que tem na vida, não se compreende a sua persistência em manter-se como general no activo. Poderia dar o exemplo, pedindo a oficialização da sua reforma como militar por respeito à exigência constitucional de apartidarismo das FAA, de que foi o primeiro chefe de Estado-Maior General. O seu poder de influência não serve a sociedade como um todo. Por isso, é um afável sectário.
9. Ernesto Muangala – Membro do Comité Central, primeiro secretário provincial e governador da Lunda-Norte
Em parte alguma de Angola os níveis de violência institucional e por parte de forças privadas de segurança contra as populações se assemelha ao terror em que vive a província da Lunda-Norte, por causa dos diamantes. Muangala é o secretário do MPLA e governador, perdendo-se sempre em justificações a favor da mortandade dos seus conterrâneos, cujo direito à vida é suposto defender. Sente-se confortável no papel de carrasco dos seus próprios irmãos. No Cuango, as camponesas continuam a ser mortas de forma macabra, e o homem assobia para o lado.
10. Kundi Paihama – Membro do BP, governador do Huambo
Orgulha-se do papel de sipaio do regime. Depois de vários anos sufocado nos ministérios da Defesa e dos Antigos Combatentes e Veteranos da Pátria, eis que o presidente o convoca para mais uma tarefa de mostrar a sua classe como velho amante da repressão. Essa é a sua missão no Huambo.

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