domingo, 2 de março de 2014

O mistério dos raptos de crianças em Luanda



Para onde têm levado as crianças?
Desaparecimentos e raptos preocupam a sociedade
O número de crianças, adolescentes e jovens desaparecidos, em Luanda, cresce a cada dia que passa. Em quase todos os bairros de Luanda há um caso de crianças desaparecidas ou que so­freu tentativa de rapto.

Maria Kiluanji
SEMANÁRIO ANGOLENSE
A reportagem do SA efectuou uma ronda por alguns bairros periféricos de Luanda e constatou que em 10 famílias, pelo menos uma relatou um ou mais casos de tentativa de rapto de crianças e adolescentes, alguns deles con­sumados, o que deixa preocupa­do alguns pais e encarregados de educação que nada sabem sobre o paradeiro real desses menores indefesos.
António de Sousa, morador do bairro do Cazenga, disse que a sua sobrinha de oito anos foi rou­bada por uma cidadã que preten­dia tê-la em casa como sua criada (exploração de trabalho infantil).
Depois de alguns dias desapa­recida, o nosso interlocutor disse que a cidadã manteve a menina em cárcere privado por mais de um mês. A raptora foi apanha­da no aeroporto quando tentava viajar, com a criança, para a pro­víncia de Cabinda. A apreensão da mesma foi possível graças a intervenção de um vizinho que se encontrava naquele momento no local e reconheceu a criança desa­parecida e denunciou de imediato às autoridades presentes.
Segundo o senhor António, esta situação ocorreu há cerca de três meses. A família, que viveu dias bastante dramáticos com o desaparecimento da criança, está agora aliviada. «Graças a Deus, a miúda foi salva», suspirou.
O SA conversou com outros fa­miliares de vítimas desses crimes e disseram que os criminosos ac­tuam normalmente no período da tarde quando se apercebem que os seus progenitores não estão presentes. «Os principais locais de actuação são as escolas, igrejas e a via pública, aliciando os me­nores com guloseimas, brinque­dos, entre outros», afirmaram.
Recém-nascido roubado
Em Setembro do ano passado, soube o SA de fonte familiar, uma criança recém-nascida, com apenas um dia de vida, foi raptada no bairro do Sambizan­ga, por uma cidadã desconhecida que aparentava ser de nacionali­dade congolesa. A triste história comoveu, na altura, todas as pes­soas que a ouviram.
Hilário Manuel, o pai do bebé roubado, contou ao SA que tudo aconteceu na manhã do dia 9 de Setembro, um dia depois da sua esposa dar à luz, num domingo, no centro hospitalar de Cacuaco. Como não havia vacina disponí­vel, a criança teve que regressar ao hospital na segunda-feira para ser vacinada. De acordo com Hilário Manuel, a esposa pediu à uma vizinha de 17 anos para levar a criança à vacina porque encontra­va-se sozinha em casa e o esposo estava de serviço.
Depois do recém-nascido re­ceber a vacina, a menina ia em direcção ao táxi quando foi abordada por uma mulher que aparentava estar grávida. Esta explicou que precisava levantar dinheiro num banco local e pe­diu, com muita delicadeza, que lhe desse a criança no sentido de ser atendida com mais facilidade já que senhoras com bebés ao colo têm prioridade nos bancos e não só. Sem qualquer desconfiança, a menina entregou o bebé à mulher que, em seguida, se dirigiu para um dos bancos de Cacuaco.
Minutos depois a mulher saiu do banco e disse à jovem que não conseguira levantar a quantia que pretendia porque o banco não ti­nha dinheiro suficiente e devol­veu a criança. Entretanto, tentava convencer a jovem a acompanhá­-la à uma outra agência bancária mas esta recusou alegando que a criança precisava alimentar-se.
A suposta congolesa continuou a insistir até que ambas entraram no mesmo táxi. Quando chegou ao destino, a moça pediu que o ta­xista parasse mas aquele, apenas parou na paragem do entrepos­to aduaneiro no distrito urbano do Sambizanga, onde havia uma agência bancária. Ante a insistên­cia e pressão da mulher, a rapari­ga voltou a dar-lhe a criança. A raptora entrou na referida agência e não voltou.
Desleixo na investigação
Assim começou o drama da me­nina e dos familiares da criança em causa. A jovem adolescente entrou em pânico ao ver que a senhora já não estava no banco e foi directa­mente prestar queixa à esquadra mais próxima. Ali, a adolescente foi detida pelos agentes que recebe­ram o caso. Segundo informações, a jovem ficou detida durante uma semana na esquadra para interro­gatório, enquanto que a criminosa estava em fuga com o bebé alheio.
O pai do bebé roubado foi vá­rias vezes àquela esquadra de Po­lícia em que o caso estava a ser tratado, para pressionar a Polícia para que fossem aos bancos onde a raptora entrou, no sentido de colher a imagem real da mesma para facilitar as buscas, porém sem resultado.
Hilário Manuel contou ainda que depois do desaparecimento do bebé, os vizinhos do bairro e familiares ajudaram a distribuir e colar nas paredes a imagem do bebé, assim como fizeram anún­cios e andaram, gritando em me­gafones, por quase todos os bair­ros do Sambizanga e Cacuaco, na esperança de encontrar alguém suspeito ou com uma criança nova. Apesar do esforço nada conseguiram.
Só depois de 15 dias é que a polícia entrou em contacto com a direcção das duas agências ban­cárias, mas sem qualquer resulta­do porque, na primeira agência as câmaras não estavam a funcionar na altura e, na segunda, as câma­ras de vídeo são programadas de semana em semana, o que signi­fica dizer que a polícia falhou no seu trabalho de investigação pela demora.
O pai do bebé está desesperado e disse que todas as possibilidades de encontrar o seu filho foram es­gotadas. O cidadão culpa também a fraca actuação do comando da Polícia do Sambizanga que tratou um caso de roubo de um ser hu­mano, recém-nascido, com mo­rosidade e desleixo. Triste, afirma que a sua vida e principalmente da esposa, já não é a mesma desde que aconteceu o desaparecimen­to do filho, uma vez que o senti­mento de culpa reina no seio da família, com incidência para a mãe que está traumatizada.
O pai, Hilario Manuel, disse que durante estes meses a polícia nunca contactou a família para pelo me­nos dizer como anda o processo ou se já tem alguma pista da criança. Quase cinco meses depois, há cerca de duas semanas, é que teve contac­to com o retrato falado da raptora e foi-lhe informado que o caso está sob responsabilidade da Direcção Provincial de Investigação Crimi­nal que criou um departamento que cuida dos casos de crianças desaparecidas e supostamente rap­tadas. Com os sentimentos literal­mente destroçados, desesperado, o pai do bebé apenas aguarda es­perançoso que a Polícia encontre o seu rebento e a criminosa pague pelo crime e pelos danos causados à família e à sociedade.
O SA contactou o chefe de in­vestigação do comando munici­pal da Polícia Nacional no Sambi­zanga que escusou-se a falar por se tratar de um caso que está sob investigação.
Psicóloga aconselha
E a psicóloga Ana Chanu, disse que esta família, principalmente a mãe, precisa de um acompanha­mento especial e de receber um tratamento psicológico tendo em conta a situação traumática que vive. «Os familiares devem apoiá­-la de forma a não deixar que se culpe por pedir à vizinha que le­vasse o bebé à vacina, o que resul­tou no seu desaparecimento».
Ana Chanu afirma que é pos­sível ultrapassar este trauma se os familiares e a sociedade apoia­rem-na com terapias que ajudem a superar esta situação.
Jovem universitário sumiu sem deixar rastos
Eduardo de Jesus Perei­ra Vigário, de 25 anos de idade, estudante universitário, desa­pareceu desde o passado mês de Setembro de 2012.
A irmã mais velha contou que Eduardo (Edú) como é ca­rinhosamente chamado pelos seus familiares e amigos, de­sapareceu na noite do dia 1 de Setembro quando saia de um passeio com amigos e primos, no município de Viana. Desde aquela noite, o jovem Eduardo Vigário nunca mais apareceu, explicou com lágrimas nos olhos Júlia Vigário.
A irmã da vítima referiu que todas as tentativas para encon­trar o seu irmão, vivo ou mor­to, foram feitas, mas frustradas.
A família continua a per­guntar onde estará o Edú, o que fizeram com ele e se estará vivo ou morto, mas as respostas tardam.
A cidadã contou ainda que o caso foi entregue à Polícia de Investigação Criminal na altu­ra mas até ao momento há ape­nas a promessa de que estão a trabalhar para encontrar o seu irmão mais novo. A família e amigos já procuraram nas ca­sas mortuárias, valas comuns, cadeias, esquadras policiais e até viajaram por algumas pro­víncias do país com esperança de encontra-lo vivo, ou mesmo morto, para pelo menos acabar com o tormento que não deixa em paz aquela família de cinco irmãos.
Dona Júlia garante que con­fia em Deus e tudo vai fazer para trazer de volta o seu ir­mão cassula, que teve muitas dificuldades para chegar onde chegou.
Os familiares, vizinhos, ami­gos e colegas do jovem pedem às autoridades competentes que não parem de investigar este caso, uma vez que o jovem tinha tudo para contribuir no desenvolvimento do país.
Mais um caso
Quando se estava a elaborar esta matéria, chegou-nos à re­dacção o caso de uma criança do sexo feminino, de seis anos de idade, no bairro Palanca, que desaparecera de casa dos seus pais por duas semanas. Depois de tanto procurar em todos os lugares possíveis, a criança foi descoberta na casa de uma vizinha proveniente do Congo que a mantinha es­condida. A prevaricadora já se encontra a contas com a justiça.
Comandante-geral da PN
Numa conferência de im­prensa realizada esta semana pelo Comando Geral da Po­lícia Nacional por ocasião do 38º aniversário da corpora­ção, respondendo a uma per­gunta da repórter do SA em relação aos casos de crianças e jovens desaparecidos, o co­mandante-geral da PN, Am­brósio de Lemos, adiantou que «todos os casos que che­gam ao Comando Geral tem tido tratamento devido, uma vez que são casos que mere­cem muita atenção, inteligên­cia e paciência por parte dos familiares das vítimas». Para o comandante, «os números de casos de pessoas desapare­cidas e presumivelmente rap­tadas não são assustadores» e acrescentou que «muitos deles são praticados pelos próprios familiares».
SEMANÁRIO ANGOLENSE. Edição 554 de 01 de Março de 22014
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