domingo, 30 de setembro de 2012

Conferência em França analisa o legado de Neto




Paris - Realizou-se na passada sexta-feira, no salão nobre da Embaixada de Angola em França, uma conferência internacional sobre o legado político e cultural de Agostinho Neto, enquadrada nas comemorações do dia do herói nacional.

Fonte: Club-k.net
A conferência contou com a presença de membros da comunidade de angolanos radicados em França, diplomatas e funcionários da missão diplomática e outros diplomatas  convidados em representaçao dos países da lusofonia.

Ao proferir as palavras de abertura, o Embaixador de Angola em França, Miguel da Costa lembrou o papel histórico do nacionalista e primeiro Presidente de Angola. «Soube manter viva a esperança sagrada dos oprimidos porque acreditava que o fim da dominação colonial era inelutável. Com o acumular das núvens ao sopro da História, ninguém poderia impedir a chuva». 

Numa relação com a actualidade politica angolana, o Embaixador de Angola em França considerou que «a mobilização das populações angolanas de Cabinda ao Cunene e a sua participação ordeira e pacífica nas eleições gerais realizadas no passado dia 31 de Agosto, mostra a sua determinação irreversível de constituir um só povo, num país uno e indivisível».

Miguel da Costa salientou ainda a dedicação dos angolanos à causa da Patria: cabe a todos os angolanos forjarem o seu destino, juntos, de mãos dadas e sem espera, porque por eles Angola espera.

A abordagem sobre a componente histórica e política, com foco para a perspectiva de Agostinho Neto enquanto estadista foi feita pela jornalista italiana Augusta Conchiglia que fez eco e cobertura das actividades do MPLA desde o maquis.

Por seu turno, a componente cultural, com foco para a poesia ficou a cargo da critica literária e investigadora da Universidade de Coimbra, Ana Rocha. Foi moderador da conferência o nacionalista angolano e Professor de Direito na Universidade Paris V, Manuel Jorge.

«Um legado de valor inestimável, ainda desconhecido»

O nacionalista angolano Manuel Jorge lembrou que a jornalista italiana acompanha o percurso de Angola desde meados dos anos sessenta. E logo se engajou com divulgação da luta anticolonial, especialmente em Angola. E foi nesta qualidade que teve uma grande aproximação ao trabalho desenvolvido pelo MPLA.

Augusta Conchiglia afirmou que Agostinho Neto, enquanto Estadista, «desde 1962, teve que imediatamente gerir as situações mais complexas a nível nacional, mas também a nível regional e internacional. Seu caráter independente, e seu firme compromisso com os princípios foram muitas vezes postos à prova». A jornalista exemplifica com a hostilidade que o movimento passou durante o seu exilio no Congo – Kinshasa. Para ela, «foi provavelmente a primeira batalha "de fora" que ele foi confrontado após sua fuga de Portugal. Muitos outros seguiram-se a coalizão internacional que tentou bloquear o caminho para a proclamação da independência em 1975».

Durante a sua apresentação, a jornalista realçou ainda as «ameaças do poderoso apartheid Sul-Africano, bem como a pressão dos EUA na época, mais indireto, mas não menos forte, impulsionado Agostinho Neto entre os grandes líderes africanos cujo compromisso com a liberdade por seu país e seu continente que estava ainda sob dominação, enfatizou a sua importância histórica.

Do seu convivio com o Presidente, traçou-nos o seguinte perfil: Agostinho Neto foi um homem de princípios inflexíveis. Reservado mas afável e atencioso. Neto foi de contacto directo e simples. Ele era corajoso, tranquilo e sem exibicionismo.

Augusta Conchiglia destacou também outros valores da visão política de Neto, como a sua defesa por «uma concepção unitária do Estado, e lutando contra todas as formas de discriminação », permitindo com isso «a construção de um Estado moderno, longe de pretensões etnocêntricas ou de "autenticidade Africana" que alguns em Angola e em outros lugares em África defendem, na maioria das vezes com consequências desastrosas».

Poemas revelam um profundo domínio da linguagem e da poética

Ana Rocha é uma jovem investigadora portuguesa, discípula do professor Pires Laranjeira que se dedica ao estudo da literatura africana, particularmente da poesia de Neto sobre a qual tem vindo a publicar verbetes e obras mais elaboradas. Desabafa : «Tudo em Portugal estaria encaminhado para que eu nunca soubesse quem foi Agostinho Neto, pois a sua figura e o seu papel político são constantemente apagados e deturpados, através de declarações e textos ambíguos, que pretendem anular a importância que Neto teve na construção da nação angolana, bem como o seu exemplo enquanto cidadão e humanista ». E Neto consumou então a sua expectativa: «A minha dedicação ao estudo da sua obra não passa exclusivamente por uma análise literária, mas, sobretudo, por um ressalvar do exemplo de força moral, ética e humanística que o distinguiu. Conhecer a poesia e a biografia de Neto impulsionou, então, a minha demanda pelos valores que ele próprio preservava».

Tendo estudado na Europa, tal como muitos outros, Amílcar Cabral, Aimé Cesaire ou Leopold Sengor, Neto não ficou na Europa. Regressou ao seu país e viveu no musseque junto dos seus, participando na sua vida quotidiana como médico, primeiro, e, depois, na organização da guerilha. «Desta forma, podemos ter hoje a certeza de que a figura de Agostinho Neto jamais será esquecida pelo seu povo, pois o poeta foi não só o fundador da pátria angolana, mas, de igual modo, o fundador da consciência e da identidade de uma angolanidade moderna. A atenção prestada ao povo e a proximidade que manteve com ele, distingue Agostinho Neto de outros intelectuais igualmente envolvidos na luta pela libertação».

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