quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Canal de Poesia, por Carlos Cardoso. Cidade 1985


Maputo (Canalmoz) – Fez ontem 10 anos que Carlos Cardoso nos deixou fisicamente. Foi barbaramente assassinado por gente sem escrúpulos. Uma parte da justiça foi feita. Outra está por se fazer. Em memória do grande icon do jornalismo moçambicano, ontem os amigos e numerosos citadinos, nacionais e estrangeiros, designadamente a Mãe, o filho, a então esposa e demais familiares, estiveram no local do crime, agora melhorado e transformado num local mais aprazível. Esta sua poesia de 1985 mostra Carlos Cardoso e o seu amor também por Maputo, apesar de ter nascido na Beira.

Cidade 1985

De manhã quando acordo
em Maputo
o almoço é uma esperança.
Mãe tenho fome
marido tenho bicha
e mil malárias me disputando a vontade.

De manhã quando acordo
em Maputo
o jantar é uma incerteza
o serviço uma militância política
do outro lado do sono incompleto
e o chapa-cem um regulado impiedoso
no quatro barra oitenta sem contra-argumento.

De manhã quando acordo
em Maputo
o vizinho já candongou o que me roubou
a estomatologia não tem anestesia
a chuva abriu dialecticamente mais um buraco na estrada
e o conselho executivo continua desdentado de iniciativas.

De manhã quando acordo
em Maputo
Porra para a vizinha que estoirou a torneira do rés-do-chão
Porra para o guarda que não ligou a bomba quando veio a água
Porra para os cem gramas de carne apodrecidos
no silêncio desenergético de Komatipoort
mais as ó eme sede de efes
e o soldado que ainda não ouviu dizer que os passeios
são lugares públicos e os fulanizados exploradores de outrora
que se preparam para cuspir na tua campa, ó Mataca
às ordens de um Mouzinho boer.

De manhã quando me percorro
em Maputo
enfio ominosamente o cérebro numa competentíssima paciência desembainho felinamente mais uma mentira diplomática
e aguardo a lucidez companheira me leia
nas acácias em sangue
nos jacarandás estalando sob a sola epidérmica do povo
que este é ainda o eco estridente do Chai
até que Botha seja farmeiro e Mandela Presidente.

Então,
com a raiva intacta resgatada à dor
danço no coração um xigubo guerreiro
e clandestinamente soletro a utopia invicta.

À noite quando me deito
em Maputo
não preciso de rezar.
Já sou herói.

(Carlos Cardoso) 2010-11-23 05:43:00



















Sem comentários: