terça-feira, 13 de abril de 2010

António Setas. O casamento do Alvarenga. A Carla puxou pelo braço do Carlos d’ Almeirim


Arte final do Alvarenga

(Sem energia eléctrica, para quê insistir chamar-lhe país?!)

Saltou da pedra, correu para a mesa em que estava o bolo de casamento, empunhou o cutelo e a espátula, começou a servir os noivos e a família e fez um gesto amplo, encorajando os outros a juntarem-se a ela. Os convivas levantaram-se das cadeiras, primeiro a medo, depois cada vez mais à vontade, tomaram de assalto balcões e aparadores, e cada um deles se serviu à vontade de tudo quanto estava exposto. Os sorrisos transformaram-se em risos e estes em gargalhadas, esboçaram-se aventuras amorosas, fixaram-se encontros para o dia seguinte.

Até aí tudo tinha corrido bem.
Delicioso era a palavra mais badalada naquele improvisado palco gastronómico no momento em que o pai fez entrar os músicos, passe o paradoxo, pois eles saíram do solar com os instrumentos às costas e instalaram-se num singular estrado, a ponte romântica, da qual uma das balaustradas, amovível, tinha sido retirada à socapa enquanto decorria o serviço. Dispunham assim de espaço suficiente para albergar a orquestra: percussão, piano eléctrico, guitarra acústica e clarinete. Era a primeira surpresa do velho Alvarenga.

Os artistas instalaram-se e sem tardar atacaram melodias tipo “xarope para mais velhos ainda com sangue na guelra”, slows, rumbas, cha-cha-chás e swings da pré-história musical. Já lá iam as primeiras medidas de música e de digestivos, levantaram-se os noivos para um pé de dança. A Carla puxou pelo braço do Carlos d’ Almeirim, arrastou-o até à pista e era vê-los a dançar, agarrados um ao outro, acorreram mais dois ou três parezinhos e o ambiente ficou-se por tão parca confraria. É que o som ouvia-se mal e só se ouviam chavões “do antigamente”.

Rapidamente, o velho chegou à conclusão de que música tão mal parida – sem desrespeito pelos músicos, era uma questão de acústica -, não dava nada. Levantou-se da mesa de honra e foi ter com a Carla, nesse momento agarrada ao tenor a dançar uma “tarraxinha”, que ela tinha acabado de inventar, muito antes da que nos dias de hoje está na moda em Angola. Puxou-a pelo braço. Falou-lhe ao ouvido. E logo a moça, que embora não nutrisse qualquer apreço pelo pai lhe obedecia direitinho, despegou-se a custo do peito, do ventre, dos braços e das pernas do d’ Almeirim, fez um gesto aos músicos para pararem de tocar, subiu para a pedra que lhe tinha servido de poleiro alguns minutos antes, e anunciou, «Meus amigos, adivinhem!...Vamos ter...não! É uma surpresa. Atenção!... Fogo!! Fogoooo!!!»

A Carla tinha uma voz e uma presença que, como se diz na gíria do teatro, “irradia”. Falasse ela baixo no palco de uma boa sala, o som melodioso mas metálico da sua voz ouvir-se-ia distintamente na última fila. Em cima da pedra, de braços no ar e numa pose de Cassandra, a gritar, “Fogoooo!!!”, o que ela provocou foram arrepios na espinha de alguns convivas, «Fogo!? Meu Deus, qual fogo?!»

Sobreveio, porém, uma pausa inesperada. «Peço desculpa, um momento, por favor», pediu a Carla. Algo de anormal se passava no terraço baixo. Gente a sair e a entrar na cozinha, empunhando baldes e vassouras, a mãe Paulina a chorar, o pai a levantar-se da mesa e a acudir ao que parecia ser um desastre, gestos medrosos a apontar para o chão, e o velho, ao constatar in loco o sinistro, a largar um estridente, Merda!!!, seguido de uma boa dose de palavrões bem sentidos numa voz de barítono alemão. O finíssimo verniz da sua má educação tinha rebentado pelas costuras no momento certo, pois as suas fortes palavras resumiam por si o que se passava nesse momento . Os esgotos tinham-se entupido e as águas nauseabundas das condutas invadiam o terraço baixo, ameaçavam o alto, o lago romântico, os convidados, tudo. Urgia meter mãos à obra. O que foi feito graças às moças da cozinha, com a ajuda da mãe e dos gritos do pai, e as águas usadas foram desviadas para outros destinos menos chiques.
(continua)

Imagem: http://www.ibiblio.org/wm/paint/auth/renoir/land/dejeuner-canotiers/renoir.dejeuner-canotiers.jpg

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