segunda-feira, 26 de abril de 2010

A Ocidente do Paraíso (52). Cerca de um mês depois ouvimos no rádio que a Berliet rebentou uma mina.


Passámos a noite sem problemas. A manhã surgiu com frio. Acender fogo de lenha era impossível por motivos de segurança. Como tínhamos pequenos cubos incendiários, bastava encostar-lhes a chama de um isqueiro, e aquecer uma lata de leite com chocolate da ração. Cerca do meio-dia vinha o calor abrasador. Prosseguimos a marcha e avistámos um acampamento dos guerrilheiros. Ficámos quase completamente imobilizados durante o resto do dia e da noite, muito próximos para observar se existiam movimentos.

Nada aconteceu e fomos cautelosamente em pequenos grupos para o seu interior, sempre na suspeita de que os acessos estariam minados. Eram cerca de vinte cubatas bem construídas e organizadas quase num círculo. Viam-se restos de dendê recentes espalhados pelo chão, o que significava fresca actividade. Sem dúvida que era um local de passagem, um hotel na mata. O comandante do batalhão foi informado, e de imediato ordenou que se queimasse tudo. O alferes Lopes obedeceu e mandou atear fogo. Enquanto as chamas faziam o seu trabalho destruidor profetizou: «Agora vamos ter represálias. Era melhor deixar tudo como estava». E ordenou que regressássemos a casa.

Cerca de um mês depois ouvimos no rádio que a Berliet rebentou uma mina. O condutor estava ligeiramente ferido. Devido aos sacos de areia a viatura sofreu poucos estragos e o condutor salvou-se graças a isso. Eram as represálias, o alferes Lopes foi certeiro.

Sempre gostei muito de alface. Na minha casa dos Olivais-Sul, em Lisboa, costumava comer uma grande quantidade num alguidar plástico. Dava-me um grande prazer que nunca soube explicar. Passaram a chamar-me grilo.
Quando descobri que ligeiramente afastada do nosso aquartelamento havia uma horta com alfaces bem grandes e apetitosas, estabeleci um plano para as colher. Assim, quando estivesse de serviço à noite seria o período ideal. Por volta das duas horas da manhã ausentei-me do posto de rádio, cheguei junto da sentinela e gritei-lhe que era eu. Abri a porta da horta. Ele ficou a olhar-me desconfiado e com certeza a pensar o que seria que este gajo iria fazer a uma hora destas à horta?! Escolhi quatro alfaces bem grandes, arranquei-as e afastei-me. Acho que ele não deve ter ficado bom da cabeça quando me viu sair com elas. Desconhecia como reagiriam no outro dia os que tratavam da horta, quando dessem pela sua falta.

No posto de rádio lavei-as uma a uma e coloquei-lhes algumas rodelas de cebola, vinagre, sal, óleo alimentar e comi-as inteiras.
A sentinela comentou o sucedido. A ocorrência chegou ao conhecimento do comando, que afirmou que nunca tinha visto algo semelhante, e por entre risadas convictas que eu devia ser maluco. De igual modo assim comentaram os meus colegas, quando viram o que fiz com outras alfaces, jurando que não conseguiam comer tanta quantidade.

Imagem: cortesia do furriel Luís Filipe

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