terça-feira, 22 de dezembro de 2009

A Epopeia das Trevas (81). Amarelo moribundo acastanhado igual aos corruptos e especuladores



O sol como uma gigantesca cortina afastada
entrou de rompante na cidade
As plantas suplicaram-lhe mais água
Preocupou, acalorou
Debalde nas cabeças em indianas filas
baldes vazios, suplicantes no gotejar
despótico das guardas especiais
e presidenciais
antes do próximo cacimbo

O sal valia o meu peso em ouro
O rei do Gana enriqueceu-se como os actuais
por causa do ouro dele.
Estes são reais e marginais que enriquecem
o petróleo

Conquistaram-me na primeira aventura europeia
Inauguraram o tráfico de escravos, ouro, marfim
Eram armazéns flutuantes com escravos do Senegal e Guiné
E depois no Golfo da Guiné.
Cobre, pano e armas da Europa
O rei do Congo deixou-se levar pelo Cristianismo
E as cobras e os camaleões ignoraram os meus feitiços

O silêncio nocturno invade a cidade
com nuvens de tiros antes da tempestade
Aqui e ali pressentem-se estrondos
A violência do silêncio invadiu a cidade

Num recanto da clínica a filha lutava com a vida da mãe
A filha com a vida nas mãos
A mãe deitada nas mãos da vida
A lida lutava escarpada nas mãos
Feita clamor, intentos tardios filiais
A mãe parecia, perecia uma beleza do eterno

A cidade secou-se e locupletou-se
de pó
Amarelo moribundo acastanhado
igual aos corruptos e especuladores
estupores. Aos espantalhos imobiliários
A chuva chegou, trouxe muitos baldes e vassouras
Choveu muita limpeza. Renasceu a esperança verde
Do formigar das pessoas com e sem destino
repintando o quadro milenar da divina fome

A América redescoberta demandava escravos para a Europa
Caribenhos plantados nas plantações e mergulhados nas pérolas
Índios minados nas minas de ouro e prata até à exaustão da morte
Trocados, substituídos pela resistência africana
Da magnanimidade colonial, original comércio português e espanhol
O lucro, o único aspecto atraente do incôndito humano competia
Ainda hoje não se fartaram os cofres da acumulação mundial
Dos holandeses, suecos, dinamarqueses, alemães, franceses, e ingleses
Fortificaram a África Ocidental
A fábula da minha escravidão lucrativa veio com a intolerante cooperação
Da avidez e conivência de africanos
que nos entregam aos estrangeiros
como mão-de-obra escrava
para pagar os luxos palacianos das suas guardas presidenciais
e governos de fingir

Sempre mais em frente, sempre mais em frente, estava a cana-de-açúcar
e as plantações de cravo-da-índia

Imagem: Angola em fotos

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