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domingo, 3 de Agosto de 2008

Sara Baartman, a Vénus Hotentote




Corpo de quem? Espetáculo e ciência no século XIX
Por Janaína Damasceno

Dela pouco se sabe. Nasceu no ano da Revolução Francesa de 1789 em Eastern Cape, África do Sul e podemos dizer que os ideais do Iluminismo sempre estiveram presentes em sua vida. O nome dado a ela pelos pais permanece desconhecido. Em seu lugar, o nome de batismo dado aos 10 anos por seus patrões Boer: Sarah Baartman. Em 1810, aos 21 anos, Sarah ou Saartjie como era chamada, foi levada pelo cirurgião inglês Dunlop para Londres onde iniciou uma série de apresentações, mas ali já não precisava mais de seu nome, foi sua alcunha que a tornou famosa em todo o mundo.

Seus shows no Piccadilly Circus atraíam um grande número de pessoas, sobretudo homens que se interessavam por suas fenomenais medidas: nádegas de 18 polegadas em menos de 1,50 de altura. Nessas apresentações o corpo de Sarah não era a única atração, junto dele outros “corpos desviantes” eram também apresentados: anões, gigantes, pessoas deformadas, mulheres barbadas, engolidores de fogo, indígenas, orientais. Sempre corpos que fugissem à norma e, portanto, pudessem ser dignos de escrutínio público. Mas Sarah sempre foi a principal atração do espetáculo. Sempre foi a predileta. Ela tinha um dom especial que fazia seu público sair do teatro mais confiante e consciente de si. De sua civilidade, de sua normalidade, de sua preeminência. Permaneceu em Londres por quatro anos e em 1814 troca a capital britânica pela francesa, onde reside até a morte. Seu público retribuiu àquilo que recebiam, intitulando-a ironicamente com o nome da deusa que simbolizava o ideal da beleza clássica européia: Vênus “Hotentote”.

Sarah possuía, como muitas mulheres hotentotes, nádegas protuberantes (esteatopigia) que despertaram grande fascínio entre os viajantes e colonizadores europeus. Elas eram conhecidas também pela manipulação da sua genitália tornando seus grandes lábios hipertrofiados, o que lhe rendeu o apelido de tablier, avental em francês. Se durante o período que permaneceu na Inglaterra seu sucesso estava associado a sua exibição pública nos freak shows do Piccadilly Circus, na França o fascínio pelo seu corpo assume ares de interesse científico. Saint-Hilaire, Blainville e Cuvier, uns dos maiores cientistas franceses do século XIX a exibiam seminua em reuniões científicas, para medir seu corpo e analisar sua anatomia.

Mas se Sarah não era a única atração dos freak shows, por que a exibição de seu corpo tornou-se tão importante tanto para o público em geral, quanto para os cientistas? O que uma nádega teria de tão especial que sobrepujaria os outros freaks dos espetáculos?

Para Wiss, foi pelas exibições públicas do século XIX que os europeus começaram a perceber a diferença e notam, ao escrutinizar Sarah, que esta pode assumir um caráter racializado e sexualizado através do corpo. Se no século XIX o corpo europeu masculino representa a normalidade, o que, se não o corpo de uma mulher, negra, poderia melhor representar sua radical alteridade? Eis seu dom especial. Não foi com surpresa que Jay Gould (1990, p.272) notou ao visitar o Museu do Homem de Paris no início dos anos 1980, que próximo de onde estavam expostos os cérebros de “notáveis” como Descartes e Pierre Broca, representantes do racionalismo francês, não havia um só cérebro de mulher. Como contraponto eram expostos os genitais de “uma negra, uma peruana e da Vênus Hotentote”. Se Saartjie servia no século XIX para marcar a diferença entre homens e mulheres, contribuiu também para que se construísse a identidade masculina européia. Segundo Sander Gilman (1985), foi o discurso médico que construiu o conceito de negritude. O corpo feminino negro foi pensado como anormal, desviante em relação ao corpo masculino europeu. Nele, se articulavam categorias de raça e sexo que universalizadas acabaram por criar o estereótipo de hipersexualidade da mulher negra que impera até hoje e que foi estendida aos homens negros em geral. Noções de que o tamanho dos órgãos sexuais (veja-se bem: manipulados) e das nádegas hotentotes eram, por fim, naturais a todas as mulheres negras, acabaram por criar o “mito científico” de que este tamanho era diretamente proporcional ao seu apetite sexual, o que fazia das negras mulheres devassas que não tinham domínio sobre o seu corpo, pura natureza. Através delas homens brancos se construíam como civilizados, comedidos, inteligentes. Funda-se a representação de que a sexualidade feminina, não calcada no corpo branco, controlado, é em geral patológica. O corpo de Saartjie tornou-se “ícone da diferença sexual, ela era a alteridade personificada” (Gilman, 1985).

O domínio e o enclausuramento dos significados do corpo feminino negro estavam, no Iluminismo, relacionados à articulação entre conhecimento médico e poder. Mesmo a diversão era concebida e conduzida segundo um padrão racional. Os espetáculos de freak shows, para Wiss, seriam, nesse caso, uma diversão racional, instrutiva: “A curiosidade foi crescentemente racionalizada em conhecimento do outro exótico, um conhecimento que foi organizado sobre um paradigma científico da diferença sistematizada de raça”.1 Aqueles que a observavam e tinham o poder de conhecê-la eram civilizados. E civilizado faz parte da identidade do homem europeu.

A importância de se analisar a relação entre Sarah e Cuvier, toma dimensão na análise que Foucault faz de Cuvier em As palavras e as coisas (1985). Para o autor, ao separar os homens em quatro raças diferentes, sendo a européia superior, Cuvier inscreve, no século XIX, o corpo na história. Com ele surge o racialismo e a noção hierarquizada de raça. Stuart Hall acrescenta a essa idéia alguns pontos. Para ele, Baartman tornou-se conhecida e representada através de termos binários: primitiva, selvagem, quase um animal. Essas três características se agenciam de modo a reduzir Sarah ao seu corpo e este aos seus órgãos sexuais. Ela deixara de existir como “uma pessoa”. A substituição do todo pela parte é o efeito de uma prática de representação semelhante ao estereótipo: o fetichismo. Ele é marcado pela intervenção da fantasia na representação. Ele também retira o que é essencial à noção de pessoa: sua integridade e autenticidade. Fetichismo implica também deslocamento. O interesse pela genitália de Sarah foi deslocado para seu traseiro, ela foi reduzida a isso. Não é preciso muito para ampliar essa interpretação aos dias de hoje e do tratamento dado ao corpo feminino, em especial, ao corpo feminino negro ainda hoje.

Em suas exibições Sarah nunca mostrou sua genitália. Foi apenas depois de sua morte que ela foi vista publicamente. Por isso, foi com orgulho que Cuvier após dissecá-la afirmou que tinha a “honra de apresentar os órgãos genitais desta mulher” e de que não havia “nada mais famoso na história natural que o tablier das hotentotes” (Gould, 277).

O esperado término da exibição pública da Vênus Hotentote, não ocorreu com a sua morte. Cuvier dissecou seu corpo e Sarah continuou a ser exposta publicamente desta vez no Museu do Homem de Paris até 1985. Depois “ela” foi para as prateleiras, e em 2002 seus despojos foram devolvidos à África do Sul, onde foi enterrada depois de grande mobilização do povo Khoisan e da intervenção de Nelson Mandela. Segundo o diretor do museu, foram “ordens superiores” que o forçaram a negar até então a existência dos despojos em suas estantes.

Se Saartjie servia no século XIX como contraponto à identidade masculina européia, nos parece que ao final do século XX2, aquilo que ela representava ainda tinha força, que de todo não se esvai no século XXI, vide o relato de Gail Smith, pesquisadora que documentou o envio dos restos mortais de Sarah à África do Sul, quando viu sua genitália no Museu do Homem de Paris: “Eu estava fascinada pela garrafa contendo sua genitália. Eu estava maravilhada pelos tesouros da descoberta científica que eles puderam revelar, e como George Cuvier se sentiu no momento que ele foi capaz de examinar sua vagina à queima-roupa, sem a resistência de Baartman, que tinha provado ser um espécime hostil durante sua estada no Jardin des plantes, onde ela foi exibida entre uma gama de outros exóticos da fauna e da flora. Os conteúdos do pote eram desagradáveis e meu fascínio me pôs em par com Cuvier e todos os outros homens letrados da ciência francesa, então eu parei de olhar”.3

Gail quase cai na armadilha de que em nome da ciência tudo é possível, louvável e desculpável, mas acaba refutando sua fascinação quando percebe que isto a igualava à Cuvier e aos outros homens de ciência da França do século XIX. Gail ainda aponta em seu texto que as relações de poder ainda permeiam as representações do homem europeu e da Vênus Hotentote, ao descrever que o nome de Cuvier está na base da Torre Eiffel e como no cruzamento da Avenida Cuvier com a Avenida Saint-Hilaire há uma bela fonte jorrando água e o significado meio óbvio e grosseiro deste símbolo. Enquanto o nome e o corpo desses cientistas enterrados no Père Lachaise – cemitério de celebridades francesas – s ão exibidos como triunfo de uma época em toda a cidade, pedaços de Sarah permaneciam até o momento guardados em jarros e numa caixa do Museu do Homem de Paris.

Concluindo

Não sei se no caso de Sarah, a devolução de seu corpo à África do Sul, altera de algum modo a representação de sua diferença que emergiu no século XIX e que, de certo modo, foi universalizada para as mulheres e para as mulheres negras. Não consigo, por fim, supor que essa devolução tenha restituído à Sarah sua autenticidade. Sua morte precoce por alcoolismo aos 25 anos não deixa de ser uma mostra de que de alguma maneira seu corpo não poderia ser totalmente alienado e controlado por outros.

Eu não tinha certeza sobre apresentar ou não alguma imagem da Vênus Hotentote neste texto. Não sabia até que ponto mostrar sua genitália ou suas nádegas, seria correr o mesmo risco apontado por Gail quando de sua visita ao Museu do Homem. Mas escolhi a gravura “Os curiosos em êxtase”, o que por si só já é um título irônico para ilustrar o meu texto, primeiro porque nesta figura Sarah olha para nós e depois pelo mesmo motivo de Jay Gould ao eleger a gravura para o seu livro: o cachorro, que nos lembra que ao tornar o outro nosso objeto nós mesmo não escapamos de ser um objeto de um outro! Um dos homens exclama: “Ah! Como a natureza é cômica!”.

http://www.comciencia.br/comciencia/handler.php?section=8&edicao=29&id=338

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