quarta-feira, 25 de julho de 2012

Entrevista com Luaty Beirão


Numa tarde amena, em Lisboa, o Maka Angola sentou-se à conversa com Luaty Beirão, músico de hip hop, também conhecido como Ikonoklasta e como Brigadeiro Mata Frakus. Filho de João Beirão, antigo presidente da Fundação José Eduardo dos Santos (FESA), Luaty é também um conhecido participante do movimento jovem de contestação que tem vindo a crescer em Angola desde 2011.
Maka:  Você é luso-angolano [por via da dupla nacionalidade], nascido em Angola. Conte-nos um pouco sobre as suas raízes, a sua família.
Luaty: Nasci em Luanda, a 19 de Novembro de 1981. Vim para a Europa, para estudar, quando concluí o ensino médio. O meu pai era do Huambo. A minha mãe de Luanda. Do lado do meu pai nunca conheci família nenhuma porque o irmão dele faleceu antes de eu nascer. É um lado mais solitário, o lado da família do meu pai, que não conheci nem avôs, nem tios, nem primos. Do lado da minha mãe, a minha avó é de Luanda mas o meu avô é do Lubango. Já os bisavós, sei que havia uns que vinham de Aveiro, outros que já nasceram lá [no Lubango]. Portanto, já venho de uma terceira geração de angolanos, nascidos em Angola.
Maka: Onde e o que estudou?
Luaty: Escolhi a Inglaterra. Queria estar num sítio onde pudesse aprender o mais possível, onde pudesse estar em contacto com uma língua diferente, com pessoas de vários pontos do mundo. Fiz os meus três anos na Inglaterra [em Plymouth], tirei a minha licenciatura, em engenharia electrotécnica.
Maka: E como foi a sua experiência?
Luaty: Foi muito boa. Uma vez fora de Angola é que eu senti a necessidade mais de me reivindicar como angolano e de me conhecer como angolano.
Maka: Como assim?
Luaty: Lembro-me de um episódio interessante  com uma amiga do Ghana. Ela perguntou-me qual era a língua africana que eu falava e eu disse que nenhuma. Ela perguntou qual era a nossa língua e eu disse português. E ela disse: “Sim, sim, mas isso é a língua oficial. Mas depois existem as línguas de Angola. Qual é a língua que tu falas?” E eu respondi que nenhuma. E ela disse: “Como é que tu queres ser africano? Só porque nasceste lá?” Eu quis justificar que nós, em Angola, procurámos destribalizar, dar uma noção de unicidade, de identidade comum. Mas, ao mesmo tempo, não podia negar que era prejudicial relegar as nossas línguas ao esquecimento e não termos aprendido mais esse elemento cultural que nos identificasse. Senti-me um bocado diminuído perante os meus colegas africanos.
(Risos)
E ainda não corrigi isso. Mas é um objectivo de vida, aprender pelo menos uma das línguas nacionais. Eu tenho até alguma facilidade em línguas, então quero aprender Kimbundu que é da minha região, mas porque não outra também?
Maka: Para além da música, que outros interesses tinha?
Luaty: A música, para mim, sempre foi um escape, sempre foi uma maneira de libertar coisas que eu tinha dentro. Eu não queria tirar a pureza dessa coisa, dependendo dela financeiramente. Ia acabar por deturpar a minha maneira de encarar a arte  e a música.  Então sempre quis mantê-la nesse canto de não dependência financeira.
[O meu interesse] era mais no ramo da política. Comecei a interessar-me pela maneira como funcionavam as coisas. E na altura comuniquei ao meu pai que queria fazer ciências políticas e ele perguntou-me porquê. Eu disse que queria perceber o mundo. Ele disse-me: “Se queres perceber o mundo então faz economia.” E eu acatei  e não me arrependo.
Foi o que eu fiz em França, fiz outra licenciatura, em economia.
Nessa altura, os estudantes universitários, por todo o país, bloquearam as universidades [em protesto]. E, então, eu participei nesse bloqueio, mais por uma questão de solidariedade.
Maka: E foi aí que começou um pouco a sua de consciência cívica?
Luaty: Não, eu já tinha estado numa manifestação na Inglaterra, em que saímos de Plymouth para Londres. Foi a primeira grande manifestação depois do fim da Segunda Guerra Mundial, com um milhão e tal, dois milhões de pessoas nas ruas de Londres por causa da guerra no Iraque.
Maka: Isso foi em Março de 2003.
Luaty: Exacto. Aquilo despertou em mim sensações e emoções fortes. França foi a segunda experiência. Também foi assim muito intenso porque bloquear a universidade, dormir lá dentro. Fiquei lá a dormir durante duas semanas.
Maka: E então terminou a licenciatura em economia, em França, e depois voltou para Luanda?
Luaty: Exactamente. Sempre a meio do curso tem aquele… Não sei se a palavra existe em português, que é aquele homesickness
Maka: Saudades da terra.
Luaty: Pois, eu já estava a sentir a chamada, que estava na hora. Também o meu pai morreu, entretanto, em 2006. Estava já com muita vontade de voltar para o meu país.
Maka: Falemos dessa viagem de regresso a Angola. Foi a pé e à boleia de Lisboa até Luanda….
Luaty: Exacto.
Maka: Ao contrário dos milhares de emigrantes africanos que tentam alcançar a Europa, fez o percurso inverso. Qual foi a motivação?
Luaty: As limitações que me impunha eram sempre o perigo e as doenças e os animais selvagens… E eu nunca achei que nenhum desses pretextos fosse bom o suficiente para me desmotivar.
Eu saí [de Lisboa] com 115 euros, que era tudo o que eu tinha, mais quatro t-shirts, dois ou três calcões, um saco de dois quilos de frutos secos que seriam a minha refeição quando não aparecesse outra coisa. Mas fui com plena confiança que eu ia encontrar, porque eu conheço a natureza da gente simples de África, de todos os países africanos,  que é igual à gente simples um bocado por todo o mundo. E fui com plena confiança que ia encontrar essa solidariedade. E encontrei todos os dias. Ao ponto de eu não ter conseguido começar o segundo saco de frutos secos… (Risos)
Maka: E chegou a Luanda ainda com um saco de frutos secos?
Luaty: Com um saco cheio de frutos secos, depois de seis meses. Portanto foi mesmo inenarrável, a emoção de cada encontro, cada pessoa, cada personagem, cada individualidade com quem me cruzei. Logicamente que havia aqueles menos preocupados em dar-me boleia, ao ver um mulato aí maluco, de mochila, calção curto, à beira da estrada. E, só por curiosidade, deixa lá  ver o que é que esse gajo quer. Alguns tentavam pedir dinheiro. Quando eu recusava: “Sobe na mesma.”
Maka: E as pessoas  manifestavam surpresa quando dizia que viaja para Luanda à boleia?
Luaty: Sim.
Maka: Sobretudo logo ali em Marrocos…
Luaty: Quanto mais me aproximava, menos surpresa causava mas ali, longe, disseram: “Nunca vai chegar lá, aqui nunca ninguém te apanha.” Esses que diziam “Nunca ninguém vai te dar boleia” eram os que me davam boleia. Eu dizia: “Mas tu deste boleia…”. E respondiam: “Mais ninguém te vai dar boleia!” Corri os meus riscos.
Maka: Mas qual era a sua grande motivação para fazer a viagem? Não era só chegar de Lisboa a Luanda…
Luaty: Não. Era palmilhar por terra o máximo de países africanos possíveis, beber da experiência, enriquecer-me espiritualmente.  Eu não sou crente, mas acredito no ser humano, acredito que existe a bondade ainda suficiente para nos inspirar, para nos servir de combustível, para sermos também pessoas melhores. E isso para mim é que é a manifestação do divino. Porque não tenho religião, não acredito em Deus, sou ateu, mas acredito nos seres humanos. Então foi essa busca da bondade do ser humano, essa partilha, esse encontro que eu sabia que iria marcar-me de uma maneira que até hoje não percebo plenamente.
Maka: Sente-se de alguma forma dividido entre ser angolano e ser português? Se houver um jogo de futebol entre Portugal e Angola quem apoia?
Luaty: Angola! É assim, eu não me sinto nada dividido. Eu sinto-me bem aqui [Portugal], acho que este é um país lindo. Dentro do universo europeu, são das pessoas mais simpáticas. Eu, quando tenho de defender Portugal em algum sítio são estas as razões. Para além de ser um país pequeno, fácil de visitar, que tem paisagens fantásticas, tem dos povos mais simpáticos da Europa, se não for o mais simpático que eu conheço.
Mas eu nunca tive essa cena de sentir a mesma paixão e o mesmo fervor  e o mesmo  orgulho patriota por Portugal.
Não é uma coisa de recusar nada, é  simplesmente….
Maka: Onde o seu coração bate?
Luaty: Exactamente, não bate da mesma maneira.
Maka: E sendo angolano mas também português, sente que em Angola também é branco, mestiço ou mulato? Como se identifica racialmente? Sente que as pessoas olham para si de uma maneira diferente do que se fosse negro?
Luaty: Sem dúvida.
Maka: Como?
Luaty: Foi muito difícil lidar com isso durante a minha infância. Eu era chamado todo o tipo de nomes. Lembro-me de ter ouvido coisas muito feias. Mulato canga massa [milho torrado], esquebra [restos] de colono. Esses termos assim bastante ofensivos que magoavam. E que magoam.
Maka: E isso era por causa da côr da sua pele?
Luaty: Sim. Porque conotava-se o branco ao português, o branco ao estrangeiro opressor, o branco ao cooperante que, uma vez terminado o colonialismo, já tinha regressado [a Angola] para continuar a levar só os cheques de volta para a sua terra. Isso explica-se historicamente. Mas quem nasceu agora não quer saber da História, quer saber o que está a constatar. O branco continua a ser rico, continua a ter os melhores empregos, independentemente de ser angolano ou não. Foi o que o colono deixou aqui.  Isso é tentar justificar o injustificável, não é? Porque coisas  tão básicas como o racismo são só fruto da ignorância. Mas a ignorância existe.
Aprendi a lidar com isso e, finalmente, percebo. Não aceito, mas percebo. Ainda assim eu acho que é  um assunto que tem de ser tratado com a máxima urgência porque é um assunto sobre o qual se prefere fazer tabu ou guardar silêncio como se não existisse.
Maka: E sente que tem de provar, continuamente, o seu valor como angolano?
Luaty: Não, não, eu já não me preocupo mais com isso.  Quando era mais jovem sentia isso, ao ponto de omitir ou ter alguns problemas com a questão da dupla nacionalidade, que podia legitimar esse argumento… Agora não tenho o mínimo problema com isso. E  não sinto que tenha de provar mais nada. Eu faço a minha música. Na minha música eu transpareço aquilo que sou, a minha essência, o meu coração, a minha consciência. E sinto que, tornando público quem sou, através da música, estou a cumprir com o meu papel.
Maka: Neste momento a música em Angola está a ter um papel importante como instrumento de contestação, com músicos como você, o MC K  e muitos outros com quem também colabora. Como chegou ao universo da música interventiva, da música com carga social?
Luaty: A minha música sempre reflectiu o meu estado de espírito. Chateado quando estou chateado, a dizer os meus disparates quando estou muito chateado ou quando era simplesmente um jovem e… era bastante disparatado, dizia bastante mais asneiras. A música também reflectia isso.
E durante alguns anos a minha música era o hip hop, era um hip hop para rappers, era música para rappers,  não era uma música transversal que podia ser ouvida por toda a gente, era para quem percebia os códigos do hip hop. Mas depois fui amadurecendo.
Maka:  Quando começou a fazer música?
Luaty: Desde 94, eu tinha 13 anos. Comecei a rabiscar coisas, a brincar ao músico. No entanto nem o meu pai nem a minha mãe sabiam, até que uma das músicas que eu fiz, já cá na Europa, chegou ao meu pai por um amigo, um grande amigo seu.
(Risos)
E aí ele descobriu. Ligou-me para a Inglaterra: “Ouve lá, tu és o Brigadeiro Mata Ratos?” Eu fiquei muito encabulado….
Maka: Foi uma maneira boa de ele descobrir…
Luaty:  Sim, por outros.  Foi, foi bué fixe.
Sempre foram as minhas preocupações postas em papel, postas em música, que era um espelho perfeito daquilo que era a minha alma. Então, naturalmente,  quando comecei a ter essas preocupações, de descobrir… quando comecei a questionar-me [sobre] a minha existência e os meus privilégios, a minha música começou também a reflectir isso.
A consciência e a intervenção política passaram a ser cada vez mais presentes, mesmo nas músicas que supostamente são inofensivas eu não consigo deixar de ter uma piadinha, algo tendencioso.
O Cuca… O ritmo é tão para cima, mas ainda assim eu quis fazer uma história engraçada mas sem descurar a minha preocupação.  Mas lá está, não é muito consciente, é instintivo.
Maka:  Passou a tomar consciência das desigualdades sociais, dos problemas políticos quando regressou a Angola. Mas os seus amigos eram as mesmas pessoas ou passou a frequentar outros círculos por via da música?
Luaty: Sim, na verdade eu fui-me tornando cada vez mais isolado, fui-me isolando mais das pessoas. No meu processo de crescimento distanciei-me da maior parte das pessoas que eu conhecia, que eram do meu meio e que preferiram continuar a ser fechadas e tapadas e estúpidas e a viver  a sua vida despreocupadamente…
Maka: Pessoas um pouco mais privilegiadas, económica e socialmente?
Luaty: Sim, sim. Porque deixei de ter assunto para falar com elas. Deixei de me sentir próximo delas e a simpatia não chega para as pessoas serem amigas. Estar num sítio onde as pessoas só conseguem falar de coisas supérfluas e fúteis, chega uma altura que basta. Fui-me distanciando das pessoas, naturalmente.  E foram aparecendo pessoas novas, claro.
Maka: Mas voltando à música…
Luaty: A música de intervenção neste momento, nos últimos anos em Angola, é quase única e exclusivamente o hip hop, um braço dentro do hip hop. É uma corrente que existe desde o fim dos anos 90, princípio dos anos 2000. Portanto, estabeleceu-se ali uma certa corrente que ao longo de 15 anos influenciou uma boa parte daquela juventude.  Eu fui confrontado agora com os efeitos e a influência que a música pode ter na mente das pessoas e em que é que ela se materializou  com o início dos protestos em Angola.
Chegamos ao ponto de se cobrar. “Onde é que estão os revolucionários do estúdio, que nos fazem vir até aqui e nos formaram? Onde estão? É só cantar?” Houve ali aquele momento de cobrança aos artistas que não estavam presentes. E há sempre.
Então senti que, se calhar, aquilo [a música de intervenção] começou a dar os seus frutos, começou a mostrar que realmente contribuiu para a formação intelectual e cívica da nossa juventude.
Maka: Quem eram esses músicos?
Luaty: Um grupo essencial, para mim são os Filhos da Ala Este. Esse grupo foi um ponto de viragem para mim. É uma grande referência desse momento que se viveu. Eles também  eram vítimas de um bocado da falta de qualidade musical nos instrumentais mas com uma tal capacidade descritiva… Tão bem escrito, tão forte que conseguia prescindir de tudo o resto. Emocionou-me mesmo, ao ponto de me fazer sentir estúpido na minha soberba de privilegiado que sempre teve acesso a tudo e mais alguma coisa; [de alguém] que sempre teve o preconceito de que quem vive no gueto não tem acesso à educação e é estúpido, é burro, é analfabeto.
Ser confrontado com cinco (acho que eram cinco ou seis) jovens com um tal discernimento, uma tal clareza de ideias, eu senti-me um autêntico ignorante. Eles tiveram essa força com a música deles. Fizeram-me sentir estúpido e totalmente desconhecedor do país.
Depois apareceu o MC K, também influenciado por esse grupo. O MC K apareceu no fim dos anos 90, lançou o primeiro álbum em 2002 mas já vinha fazendo algumas coisinhas.
E foram aparecendo outros grupos, não tão vincados, não tão directos, desses que conseguiram ter algum nome como os Hemoglobina, Flagelo Urbano.
Ainda aparecem raros casos de grande talento individual, casos dignos de referência como o Phay Grande ou o Mona Dya Kidi, que é das últimas coisas que apareceu aí muito interessantes, muito inteligente, uma maneira de rimar muito dele e com uma mensagem consistente.
Maka: O dia 7 de Março de 2011 ficou marcado por uma manifestação que acabou por não acontecer. Foram presos logo quando se juntaram na praça. Há uma espécie de antes e depois do dia 7 de Março de 2011?
Luaty: Acho que sim. Acho que é justo dizer isso, afirmar isso dessa maneira. Não foi a primeira vez que se fez uma manifestação em Angola. Já houve outros bravos, corajosos antes deste grupo de jovens que desafiaram todas essa ameaças. Houve manifestações de estudantes, invariavelmente dispersadas a tiro. Só estavam a reclamar fins de greves, porque as greves faziam com que os estudantes que tinham cursos de cinco anos e que nunca tivessem chumbado tivessem acabado por fazer 10 [anos].
Maka: Greves de professores?
Luaty: Greves dos professores. Dispersados a tiros. Houve uma manifestação de pessoas, cujas casas foram demolidas, que tentaram chegar à Cidade Alta, também foram dispersadas a  tiro.
Esses exemplos, apesar de se tentarem abafar, foram chegando e deixaram sementes. Não podemos esquecer essas pessoas. O 7 de Março foi um momento muito particular. Estavámos a viver aquele momento especial no norte de África. As pessoas ganharam esperança, viram pessoas que estavam em situações similares com presidentes tão longevos como o nosso e, em alguns dias, conseguirem livrar-se deles. Foi uma chama, foi uma esperança que apareceu naquele momento.
Mas ninguém estava a ligar. Quem fez alarido, quem fez a confusão toda foi o próprio regime. Tanta confusão à volta daquilo. Ameaçou as pessoas, então isso teve o efeito inverso em alguns de nós.
Maka: Tem havido uma mudança na táctica do regime. Começou por organizar contra-manifestações para mostrar que o povo estava do lado do MPLA, e depois passou a reprimir apenas, com violência e o surgimento das milícias. O que se passa?
Luaty: É o que está a acontecer. [As autoridades] mudaram de estratégia.

Maka: Vocês são ameaçados, espancados e alguns raptados. Há tentativas de suborno?
Luaty: Acho que já desistiram das tentativas de suborno.
Maka: Foi-lhe feita alguma a si, em particular?
Luaty: Não. Eu estava ausente nessa altura. Foi antes da manifestação de 3 de Setembro. Foi feita pelo general Tavares que, na altura, era administrador do município do Sambizanga. Chamou-nos e tentou negociar connosco e chegou ao ponto de – eu estou a relatar o que me contaram a mim – ter despejado chaves de carrinhas à frente [do grupo] e, de uma daquelas caixas de resmas de papel, ter despejado dólares. Eram US $70 mil e disse que tinham mais US $200 mil quando concordássemos em abortar a manifestação e admitir em público que não sei o quê, e não sei o quê mais…  Os meus colegas não aceitaram. Mas a partir daí começou justamente o plano B, o recurso à violência descarada, que tem sido uma constante agora com raptos.Temos dois jovens que estão raptados, até hoje ninguém sabe deles. Ameaças às famílias… Isso já era previsível.
Maka: Tem alguma expectativa em relação ao acto eleitoral?
Luaty: A fraude já começou a ser preparada. Está bem claro aos olhos de toda a gente. Eles [o partido no poder], desde o início do processo, estão a tentar impingir a sua vontade contrariamente ao espírito da lei que eles próprios se esforçaram por fazer aprovar. Lei, Constituição, discussão na Assembleia são meros actos de maquilhagem. Eles não têm consideração nenhuma por nada disso. O MPLA vai ganhar, porque a nossa oposição é muito frouxa. Se conseguirem levar, como estão a conseguir, todas essas ilegalidades avante. E conseguem.
Maka: Recentemente, a 11 de Junho deste ano, você foi preso à chegada a Lisboa, proveniente de Angola, por ter sido encontrada cocaína na sua bagagem. O que tem a dizer?
Luaty: Sim. É conhecimento generalizado das práticas utilizadas, sobretudo com pessoas que têm esse tipo de posicionamentos, tão declarado, tão aberto, sem tabus, e que sejam contra  o poder instituído. Eu próprio, tirando esta última vez, das últimas vezes que viajei, viajei sem bagagem de porão, só com a mochila. Desta vez arrisquei-me e dei-me mal. Dei-me mal entre aspas, porque tendo sido a tentativa deles tão frustrada e a manipulação tão grosseira, acabaram por ser eles [o regime] a sair mal na fotografia e a darem um bocado mais de visibilidade àquilo que nós estamos a fazer.
Maka: Como está o caso?
Luaty: Neste momento eu tenho a liberdade de ir para onde eu quiser desde que notifique as autoridades [portuguesas] se este período for superior a cinco dias. Logicamente que me limita um bocado não ter a certeza, não puder saber… Isto tem a ver com a data de marcação do  julgamento. Tenho que poder estar disponível para estar cá quando for convocado para ser presente ao tribunal. Vou continuar a fazer a minha vida normalmente, porque isso me foi permitido, me foi dada essa possibilidade com esta medida de coação. E, neste momento, o caso está a ser investigado pelo Ministério Público.
Maka: Como foi tratado pela justiça portuguesa?
Luaty: Quando cheguei a casa e vi alguns comentários, algumas premonições por parte de alguns comentadores no ciber-espaço, achei que foram precipitados e injustos tendo em conta o tratamento que eu tive. Fiz questão de citar isso num vídeo onde explico o que se passou, porque [as autoridades portuguesas] foram exemplares, foram impecáveis. Não há nada a apontar. Não tenho razões de queixa. É sem dúvida uma sensação que fui mais do que bem tratado, com dignidade e com humanismo.
Maka: Regressa a Angola?
Luaty: Volto sim. Dia 26 de Julho.


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