sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

África: novos tempos, velhas tácticas. Política externa falhada desmascara governos e alianças


Canal de Opinião. Por: Noé Nhantumbo
  
Beira (Canalmoz) - A crise no Mali e noutros cantos de África mostra até que ponto governos e seus aliados africanos bem como internacionais estão falhando na abordagem dos problemas que enfermam muitos dos países deste continente.
A febre independentista do passado teve seus resultados positivos embora efémeros. Ganhou-se uma bandeira e um hino. Ganhou-se em autoestima. Mas o panorama continental é sombrio para dizer a verdade. Os pequenos ganhos do passado foram-se diluindo rapidamente.
Assalto e domínio das potencialidades económicas nacionais tornou-se na essência a preocupação primordial do que se chama governar. 
Os desenvolvimentos políticos e económicos que se esperavam foram “sol de pouca dura”. A maioria dos países mergulhou em situação de despotismo apoiado por ex-potências coloniais e outros políticos emergentes da guerra-fria que fustigava o mundo.
Uma espiral de violência com fundamentos misturados, entre fundamentalismos político-religiosos, guerras que não tem outra explicação senão o acesso a riquezas que minerais oferecem, grupos armados, milícias, exércitos governamentais, forças mercenárias, com apoio externo determinado, movem guerras abertas e outras latentes em vários países. A instabilidade é generalizada e alguns países estão mergulhados em guerra e com crise de deslocados e refugiados relegados à sua sorte. 
Nos fóruns internacionais, na União Africana e em tudo o que sejam debates diplomáticos África aparece como problema. Mas um daqueles problemas em que as soluções tardam a aparecer e em que os interlocutores não se mostram interessados ou engajados em debates construtivos.
Alguma da inconsequência que se verifica e que caracteriza o ambiente africano, deve ser atribuída a carências ao nível da liderança nos diferentes países. Interesses díspares, agendas dúbias, compadrios e alianças baseadas em imposições estratégicas delineadas por outros, empurram o continente para desastres sociais e políticos de envergadura variável.
Já não se trata de colonialismo ou de guerras pela independência. O assunto é basicamente como os governos de países independentes governam seus próprios países. Uma agenda governamental desassociada do que muitas vezes interessa a maioria dos cidadãos dos países coloca segmentos de um mesmo país em contradição e em choques violentos.
Aqueles conflitos pós-eleitorais que aconteceram no Quénia, no Zimbabwe, em Angola, na Costa do Marfim tem uma génese e ela deve ser encontrada na intolerância com motivação política. Muitos dos problemas que surgem no dia-a-dia na governação em África são conhecidos mas escamoteados por políticos com objectivos firmes e determinados em ver suas agendas vencendo.
Não há como ignorar os constrangimentos políticos africanos. Se alguma vez houve estratégia definida pelos governos visando desenvolver seus países isso terá deixado de ser o centro das atenções pelos governantes de hoje.
Se antes era admissível determinado tipo de falhas no desempenho dos governantes alegando-se a novidade do assunto e a falta de experiência o mesmo pacote justificativo não é aceite pelos governados.        
Quando oligarcas e déspotas criam os chamados fundos soberanos e colocam seus filhos como gestores de tais fundos – como o fez José Eduardo dos Santos presidente de Angola –  estamos em face de esquemas lubrificados para defraudar fundos públicos. 
Quando equipas governamentais se especializam no negócio das comissões e na constituição de joint-ventures com entidades empresariais estrangeiras, explorando a fundo todos os recursos que o “inside trading” proporciona, é toda uma sociedade que fica inquinada com a promoção da impunidade que é indispensável para que esse tipo de situação ocorra.
Os países ficam esvaídos de seus recursos, estabelece-se uma cadeia de endividamento insustentável e a economia torna-se cronicamente deficitária.
Enquanto em alguns círculos aplaudem-se os megaprojectos e outras iniciativas económico-financeiras a verdade é que a maioria dos africanos em pouco ou nada se beneficia da avalanche de investimentos efectuados nos domínios dos minerais, pesca industrial, exploração florestas e outros.
O estranho de toda a situação em que se encontra mergulhado o continente africano é que não surgem iniciativas políticas solidas para contrariar os desenvolvimentos negativos que apoquentam a vida de milhões de pessoas.
Da academia, da sociedade civil vozes se levantam clamando por um tratamento diferentes dos dossiers espinhosos. Mas do campo político é frequente verificar-se que a preocupação é a conquista e manutenção do poder em si. Há uma cultura política fortemente enraizada de que o poder político, os cargos governamentais são as formas mais rápidas e seguras de acumular riqueza e ostentação. E a questão de ostentação em África é endémica.    
Por causa da cultura política prevalecente, em que os valores éticos e morais são colocados em último lugar, em que as convivências entre a criminalidade política, financeira e o crime organizado são tidos como perfeitamente normais, os países sofrem, sangram e são dilacerados todos os dias.
Através de uma alienação política e cultural alimentada por circuitos encobertos, do apoio a sistemas políticos que favoreçam a extração e exportação de recursos considerados estratégicos, temos vários países de África sofrendo de derrapagens nos esforços para estabelecer e promover a democracia política e económica.  
Como travar toda uma corrente de factos em cadeia explodindo no continente? Como travar a onda de saque e esbanjamento de fundos do erário público? Como estabelecer o primado da lei, do estado de direito, do respeito pelas leis? Como encorajar uma geração jovem a pactuar por práticas sadias e em prol do desenvolvimento de seu talento e possibilidades? Como romper as cadeias de tráfico de influência que acabam sendo a base para as politicas decididas e seguidas?
Não são os manuais de ciência política que vão lidar com êxito com a situação. Não são manuais de ética ou tratados de moral que vão travar a corrupção galopante em África.
Quando um ministro de Finanças de um país como o Zimbabwe afirma em público que os cofres do estado estão reduzidos a cerca de trezentos dólares americanos isso significa simplesmente que se está perante um estado falido. Guiné-Bissau é outro estado falido que nem recursos possui para reabilitar os sistemas de geração eletricidade e pagar pelos combustíveis consumidos. Somália é um estado falido e falhado. O Sudão do Sul é um arranjo geoestratégico criado para resolver ou facilitar a exploração de recursos petrolíferos e dessa forma facilitar uma solução de boa vizinhança entre sudaneses desavindos a décadas. Com a Primavera Árabe estalou o verniz em países que eram governados por déspotas “acarinhados” pelas potências ocidentais.          
África subitamente se vê no centro das prioridades internacionais não tanto pela situação política prevalecente mas por causa da soma e tipo de recursos estratégicos existentes nos diferentes países. De outro modo as forças francesas com apoio de Washington e Londres, esperando aprovação de forças alemãs não estariam no deserto combatendo islamitas. 
Grande maioria dos países africanos não funcionaria com normalidade sem uma assistência orçamental de outros países. Com raras excepções é difícil encontrar um país africano que tenha suas finanças públicas equilibradas. Botswana, Cabo Verde e Maurícias devem ser dos poucos nesse grupo.
Afinal de que cancro padecem os países africanos? Qual é o problema de raiz?
Não tenhamos receio de errar se dissermos que a raiz do mal reside no tipo de governação implementada. A cultura de governação narcisista adoptada e cultivada constituem a génese dos nossos problemas.
Quantos são os exemplos de pura ostentação de governantes africanos quando seus concidadãos nem medicamentos conseguem encontrar nos centros de saúde públicos? Como entender por exemplo que em nome da defesa da cultura um rei como o da Suazilândia se dê ao luxo de casar-se todos os anos e assim as despesas estatais com um autêntico harém? Mansões, viaturas de luxo, viagens, alimentação, saúde, tudo tem de ser aprovisionado à dimensão de uma esposa do rei à custa dos cofres estatais num que se debate com um dos mais altos índices de SIDA no mundo. Faltam recursos para socorrer e prestar cuidados básicos de saúde a milhares de pessoas mas as mordomias reais não sofrem qualquer alteração.
Para que necessita um presidente da república de avião presidencial com capacidade intercontinental quando tal pessoa mal viaja?
Alguma coisa tem de ser corrigida na mente de quem governa em África.
Antes da Primavera Árabe era comum verem-se passeatas a Sirte financiadas na sua maioria pelo regime de Muamar Kadhafi. Supunha-se que discutiam com profundidade os assuntos e problemas africanos mas na verdade tudo manda dizer que discutiam como se protegerem e fazerem valer seus interesses privados.
Está sendo difícil ver emergindo em África uma política interna e externa consistente com os valores de repúblicas democráticas perseguindo objectivos de desenvolvimento e progresso dos países e seus povos.
As elites africanas estão ávidas de copiar o consumismo ocidental da alta-roda. Querem ser elites mais pelo gozo de mordomias e de uma vida fácil do que servir de lideranças válidas e apoiando seus povos a ultrapassarem dificuldades históricas.
Reprimindo vozes dissonantes e colocando grande parte da sua intelectualidade na diáspora os governos africanos estão decepando as possibilidades de seus países saírem do ciclo de pobreza e indigência em que se encontram.
As negociatas em se configuram muitas das iniciativas associadas a exploração dos recursos naturais de África com o beneplácito tácito das chancelarias ocidentais e orientais é um indicativo esclarecedor de que África ainda não está livre nem democrática… (Noé Nhantumbo)
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