terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

O “fim da história” de Francis Fukuyama é conveniente. Canal de Opinião. Por: Noé Nhantumbo



África ainda tem oportunidade de acordar de sua longa hibernação…

Beira (Canalmoz) - Estrategicamente, falar e difundir a ideia de “Fim da História” tem as suas vantagens práticas e bem concretas. Uma das conclusões de muitos, após a queda do Muro de Berlim e do desmoronamento da União Soviética, terá sido que a nível mundial e no campo das ideologias já não havia novidades a anunciar ou previstas.
Há assuntos que continuamente surgem a nível do campo das ideias que preocupam cidadãos em todo o mundo. O grau de preocupação, obviamente difere e depende dos níveis de formação, educação e informação dos cidadãos.
Quando se comenta criticamente as políticas estabelecidas por determinados governos africanos raramente se menciona que na verdade estes se limitam a seguir recomendações e instruções de doadores e credores, ao invés de elaborarem algo próprio e visando potenciar suas possibilidade de desenvolvimento social, económico e político.
Os deficits de produção de estratégias de governação viáveis e que viabilizem os países em África não param de crescer.
O famoso Fukuyama, pensador e cientista político americano de origem japonesa, defendeu num dos seus ensaios que o mundo estava entrando numa fase de seu desenvolvimento que se poderia denominar de “Fim da História” conforme os conceitos convencionais. Finda a “guerra-fria” e com a adopção de modelos neoliberais pela maioria dos países do mundo, deixaria de haver diferendos de natureza ideológica que caracterizavam o mundo no passado.   
Alegadamente o mundo entraria numa era de paz universal ou pelo menos de entendimento crescente entre os governos.
Francis Fukuyama, seus mentores e colaboradores nos “think-tanks”, centros de pensamento em que estava envolvido na altura, têm o mérito de ter produzido uma ideia, defendido uma tese, escrito sobre um assunto importante para os EUA e o mundo inteiro. Pensar e elaborar ideias, teorias com mais ou menos consistência na área da Ciência Política, em si é um mérito de pessoas preocupadas com os assuntos da governação. Quem não pensa condena-se a consumir os produtos dos que pensam. Esse é o caso da maioria doa africanos. Pensar e investir em áreas científica e tecnológicas é pouco relevante para a maioria dos governos em África. É mais fácil investir em 260 carros de alta cilindrada, de luxo e de marcas sonantes, se há esse número de deputados no parlamento nacional. Não se investe na criação de híbridos vegetais que aumentariam a produção de alimentos cronicamente descrita como deficitária. Não se investe na criação de institutos de tecnologia que ensinem e disseminem conhecimentos vitais para áreas fundamentais como engenharia civil, electrotecnia, electrónica, hidráulica, microbiologia, genética e outros ramos da ciência e tecnologia.
O recrutamento de recursos humanos altamente especializados para posições de docentes de instituições nacionais não acontece por iniciativa própria. Fica-se quase sempre a espera da bondade e boa vontade do doador.
A conveniência de uma tese como a de Fukuyama é notável no quadro das pretensões de hegemonia unipolar ensaiadas pela administração americana, especialmente durante a governação de George Walker Bush coadjuvado por Dick Cheney. Nada melhor do que ter o respaldo de cientistas políticos de nomeada, colegas de proeminentes individualidades do establishment americano como Paul Wolfiwiez e outros.
Um ensaio profissionalmente elaborado, pensado e que reflecte um profundo conhecimento de história política, produzido por um académico renomado e experiente serviu para catapultar o próprio para posições cimeiras na área da assessoria política na América. Mas é necessário que se diga que Fukuyama e outros académicos que com frequência são agraciados por prémios por sua excelência e acutilância no pensamento faz parte da tradição de um país em que tanto o governo como o sector privado, universidades públicas e privadas entendem e valorizam a investigação e pesquisa em todas áreas do saber humano.
Há bastante tempo que os governantes do chamado primeiro mundo, dos países que evoluíram e que agora fazem parte dos BRICS e dos G-20, compreenderam a importância de investir pesadamente na formação de uma massa intelectual crítica, em áreas onde possam obter vantagens comparativas rápidas e duradoiras. Não se trata simplesmente da questão de se produzirem ideias interessantes e com elas entrar-se para o campo da experimentação que dê validade a ideias, muitas vezes consideradas sem importância ou mesmo disparatadas. O estágio e aperfeiçoamento das pesquisas de base e avançadas assentam na capacidade de se traduzirem em ganhos práticos e lucros aquilo que vem dos institutos de investigação e ensino como o famoso MIT ou a Stanford University de Francis Fukuyama.    
Convenhamos que se efectivamente vivêssemos o “Fim da História” nada mais restaria para fazer do que seguir viver conforme nos dissessem e instruíssem os que dominassem na arena internacional. Os EUA, com base considerada científica e legítima, politicamente conveniente, para proceder e moldar seus programas de governação, não hesitaram como se viu, em decidirem unilateralmente, por iniciarem guerras sob os mais incrédulos pretextos. As AMD ou WMD na versão inglesa, armas de destruição maciça jamais encontradas, levaram as tropas americanas a invadirem o Iraque. Os defensores da tese supracitada estavam convencidos de que assim iniciavam um ciclo de hegemonia unipolar americano.
Se houve um “divórcio” entre F. Fukuyama e os neoconservadores que se beneficiaram em termos de lucro, das guerras instigadas e concretizadas com base em percepções e teses construídas em centros de pensamento a que Fukuyama estava ligado, isso não significa que sua participação naqueles exercícios não tenha sido funesta. Ele contribuiu embora fosse de forma temporária, para que a pretensão hegemónica de uma franja política dos EUA visse sua agenda concretizada.
Falamos deste homem estudioso chamado Francis Fukuyama porque seu pensamento também serviu para anestesiar governantes e governados em África. Infelizmente, onde não se verificam cidadãos organizados e estruturados em centros de pensamento ou outras iniciativas similares, dificilmente se produzem ideias ou se comparam criticamente posicionamentos teóricos ou filosóficos.
E o pior é quendo alguns cidadãos tentam e conseguem construir plataformas destinadas a promover o estudo, pesquisa e investigação seria dos problemas nacionais os mesmos não são escutados, aceites ou recebem reconhecimento pelo seu esforço de elaboração de explicações comprovadamente úteis ao desenvolvimento. Há receios desmedidos pelos detentores do poder, a qualquer sugestão de que há razões mais do que suficientes para que se continue a lutar pelo desenvolvimento concreto dos cidadãos e dos países. Por mais resumida e bela que seja a proclamação antes que os factos a comprovem, desistir é alinhar em considerações subjectivas.     
A ofensiva consumista africana pode também ser olhada ou analisada sob esse ponto de vista. Importa ter todo um pacote ideológico, com sustentabilidade científica, filosófica, promovido pelos grandes da comunicação social internacional, com sua génese em prestigiados institutos e universidades, para que uma agenda seja aceite e digerida sem dificuldades pelos destinatários.
Todo o figurino da dominação mundial encetada por sucessivas administrações americanas tem sustentáculos ideológicos, políticos e tecnológicos provenientes de uma base definida e circunscrita de pessoas que transitam da academia para as corporações e para o governo bem como você-versa nos EUA.
O binómio “Fim da História-Hegemonia Unipolar” foi tentado e perseguido tenazmente pela administração Bush e jamais foi relegada para terceiro plano pela administração Obama.
Claro e felizmente para o mundo, esses ensaios políticos tiveram oposição firme de outros players internacionais, nomeadamente a Rússia e a China. Se para a União Europeia, ao abrigo do Tratado do Atlântico Norte, NATO, era conveniente que os EUA continuassem a pagar a “parte de leão” da sua estratégia militar e defensiva, para os países emergentes e outros com aspirações a potências essa tendência transformada em política, tinha inconvenientes e era inaceitável. Mas como sabemos, África praticamente não reagiu e como habitualmente continua a ser comandada, dirigida e condicionada pelos poderosos.
Rússia e China têm uma tradição de investimentos em pesquisa e investigação. Se antes era algo dirigido especialmente para a área militar e com vista a protegerem-se a projectarem sinais de competência e poderio, os assuntos políticos, conceptuais e económicos jamais foram esquecidos. Fundamentar e criar uma sólida cultura nacional capaz de impor seu modelo no mundo pressupõe ter alguma coisa a dizer ao mundo e meios de fazer chegar essa mensagem.
O fim da guerra-fria não significou o esfriamento das ambições bélicas e tecnológicas de países emergentes como a Índia e o Paquistão. Brasil, Argentina, Coreia do Sul, Irão e outros. O restrito clube dos países possuidores de armas nucleares não conseguiu trava a proliferação de tais armas ou conhecimentos.
Mesmo um Conselho de Segurança desfasado da actual realidade política mundial, com o seu poder de veto, não conseguiu travar que a Coreia do Norte desenvolvesse e disseminasse tecnologia nuclear. Japão, Alemanha, Brasil, Argentina já poderiam estar providos de armas nucleares se não fossem outro tipo de considerações relacionadas a regras ditadas pelos vencedores da II Guerra Mundial.
Com a luta pela supremacia plenamente em aberto e com projecções apontando para a China alcançar e ultrapassar os EUA como principal potência económica mundial, isso preocupa sobremaneira qualquer administração americana e seus “think-tanks”.             
Outro tipo de questão, posteriormente tratado por estudiosos americanos e outros, tem sido o terrorismo internacional e a luta contra o mesmo. A partir da altura em que uma equipa governamental enverada, unilateralmente, por um combate à escala global contra um inimigo móvel, as vezes invisível e volátil, refugiado e suportado por uma vasta gama de pessoas doutrinadas a hostilizar as intenções de um ”declarado inimigo”, os infiéis, todo o conjunto de tácticas, experimentadas em diversos palcos operacionais não tem surtido os efeitos desejados e os riscos mantem-se bem actuais como ficou demonstrado no deserto argelino. Islamitas alegadamente associados a rede da Alqaeda atacaram e tomaram de assalto um complexo de produção de gás natural com consequências humanas graves, pois muitos dos reféns acabaram morrendo.
Mesmo conseguindo construir coligações de dimensão razoável as linhas estabelecidas acabam por ser eminentemente de cariz de credo religiosos dos integrantes de tal coligação. Assim ganha peso a tese de que em certa medida, o combate contra o terrorismo internacional ganha cada vez a forma das antigas “Cruzadas”. Os apoios que as sucessivas intervenções americanas possam ter em países árabes ou islamizados normalmente provem dos autocratas que se mantem no poder contando com assistência militar e de segurança dos EUA.
Então conforme em certa medida o Francis Fukuyama parece reconhecer ao abandonar seus antigos colegas e aliados intelectuais neoconservadores, jamais se tratou efectivamente do “Fim da História”. Terá havido sinais que apontavam para tal eventualidade mas isso dissipou-se rapidamente.
Num cenário cada vez mais polarizado em que existe uma mistura e níveis de hegemonia aos africanos, seus governantes e governados cabe a responsabilidade inalienável de tomarem uma posição.
A dignidade de todo um continente está ameaçada por inconsistências filosóficas, por inexistência de coerência e por altas doses de falta de sentido de pátria, de pertença a uma nação.
Tristemente, temos de admitir que muitos dos que se arvoram governantes em nossos países não passam de traficantes de influências, vendedores de assinaturas de autorização de exploração de recursos naturais, de ”boladores” como se diz vulgarmente em Moçambique.  
Na presença do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional “tremem que nem varas verdes ao vento”, “encolhem o rabo entre as pernas” e cumprem com as instruções. Em termos concretos foi o que se viu e se vê Moçambique onde empréstimos monetários de vulto foram contraídos para reabilitar a Linha Ferroviária de Sena. Agora após diversos interesses se terem unido e por iniciativa de consórcios corruptores ligados ao Banco Mundial, chegou-se a conclusão de que não é possível escoar o carvão de Tete com tal linha férrea. A dívida existe e é pública. Todos os moçambicanos terão que pagar pela incompetência de um governo que aceitou de mão beijada entra num esquema em que decidem e controlam a remotos controlo, entidades estrangeiras, corporações multinacionais como a VALE e o Rio Tinto, governos e especuladores financeiros. Cada vez que governos como o de Moçambique caem nas armadilhas do Consenso de Washington maior é o lucro de quem empresta o dinheiro.
Mas a verdade é que não há “Fim da História” anunciado que justifique deixar de pensar e de agir segundo consensos nacionais e regionais. Há tanta diferença de conceitos e de posturas no mundo que permitem prever que os combates de hoje, nos diversos campos, continuarão por muitos e muitos anos…  (Noé Nhantumbo)
Imagem: Vikipedia





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