quarta-feira, 9 de maio de 2012

Realizador angolano sofre para contar história "ofuscada" do 27 de maio de 1977



Luanda - Com dinheiro próprio, Mutu Muxima realiza o primeiro filme sobre início de um dos períodos mais negros da história angolana, que desencadeou o assassínio e a tortura de milhares.Há quase 35 anos, no dia 27 de maio de 1977, começou um dos períodos mais negros da história angolana. Neste dia, 27 de maio, houve manifestações populares em Luanda a favor de Nito Alves, na altura ministro da Administração Interna e membro do Comité Central do partido no governo MPLA.

Fonte: DW Club-k.net
As manifestações das massas foram na altura classificadas pelo presidente de Angola, Agostinho Neto, como uma tentativa de golpe de Estado. Nos dias e meses a seguir ao 27 de maio de 1977, os apoiantes de Nito Alves, o chamados "fraccionistas", são expulsos do MPLA. Milhares são torturados e assassinados.

Mutu Muxima, jovem na casa dos 30 anos é realizador de cinema e decidiu fazer o primeiro filme/documentário sobre o “27 de Maio de 1977”. Ele vive muitas dificuldades para obter fundos para tal, ao mesmo tempo que continua a ouvir dezenas de pessoas sobreviventes da maior chacina na história de Angola, segundo relatou em entrevista à DW África.

Como surgiu o interesse pelo 27 de Maio de 1977?
Interessei-me porque penso que há muitos, muitos jovens, ou talvez até mais velhos, que não sabem o que aconteceu realmente nesta data. E porque é uma data que eu penso que está a ser ofuscada. Então, daí o interesse de investigar o que realmente aconteceu nesta data, para as pessoas saberem a verdadeira história do 27 de Maio.

Será um documentário histórico ou narrativas de pessoas individuais que terão vivido a situação do 27 de Maio?
Está interligado. Estou a entrevistar pessoas que viveram, sobreviventes do 27 de maio. Será um documentário também com muitas fotografias, porque o documentário precisa de tê-las. Estou a entrevistar pessoas que viveram realmente o 27 de maio, que é o caso do [atual presidente do partido Bloco Democrático] Dr. Justino Pinto de Andrade, que foi sobrevivente; o [advogado e ex-prisioneiro] Miguel Michel, o [General] Silva Mateus [presidente instituidor da Fundação 27 de Maio], José Fragoso, Bonavena [pseudónimo do analista político Nelson Pestana], entre outros.

Sendo um tema tão sensível, que dificuldades encontrou ao realizar o seu trabalho?
Até agora continuo a ter muitas dificuldades. É que o cinema cá, no nosso país, é complicado fazer nas condições que nós temos. E porque não estou a ter nenhum apoio. Estou a trabalhar com dinheiro saído do meu próprio bolso, bati a várias portas e ninguém quer apoiar – por medo, também, desta data. O realizador e o produtor é que tem que se adaptar [às dificuldades], porque senão não consegue fazer nada. Tinha que, este ano, eliminar os estudos para conseguir terminar o meu documentário.

Quando o documentário chegará ao grande público?
Eu penso apresentá-lo, mesmo, no dia 27 de maio. Só que cá não vejo onda, não acredito que vão me ceder um Cine Atlântico, uma sala Cefojor (do Centro de Formação de Jornalistas). Eu estou a conversar com um amigo meu, o Carlos Araújo, que tem uma sala pequena, então gostaria de fazer a apresentação mesmo no [próximo] dia 27 de maio.


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