domingo, 3 de fevereiro de 2013

Nampula, Moçambique. Missionárias “negam” salas de aulas a 900 crianças em Nampula


Mais de 900 alunos da 1ª a 5ª classe da Escola Primária 19 de Outubro, arredores da cidade de Nampula, Norte de Moçambique, estão privados de ter uma educação condigna porque as missionárias do Mosteiro Mater Dei, proprietárias do espaço onde seriam construídas cinco salas de aulas convencionais para aqueles petizes, decidiram, sem dó, paralisar as obras.

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Quando o empreiteiro já estava a erguer as paredes das cinco salas de aulas e um bloco administrativo onde deveria funcionar a direcção da escola, as irmãs do Mosteiro Mater Dei mobilizaram um contingente de guardas da sua residência munidos de catanas, machados, azagaias, dentre outros instrumentos, para amedrontar e obrigar os pedreiros a abandonar as obras alegando que o espaço lhes pertence e a infra-estrutura estava a ser erguida sem o seu consentimento.
Perante a situação, o governo local retirou o material de construção que disponibilizou para a concretização de um sonho das crianças de estudar numa sala de aula melhorada. Tudo foi aplicado nas obras da Escola Secundária 22 de Agosto localizada no bairro de Muahivire, arredores de Nampula.
Doze milhões de meticais que haviam sido desembolsados para suportar as obras foram para os cofres da Direcção Provincial da Educação e Cultura de Nampula.
Deste modo, a comunidade na qual as referidas salas de aulas seriam construídas continua a alimentar o sonho de um dia ver os seus filhos a estudarem numa infra-estrutura adequada. Enquanto isso, no tempo chuvoso, os professores e os alunos são obrigados a interromper as lições para se refugiarem nas casas vizinhas da escola.
A construção de salas de aulas foi oficializada em 2011, e as autoridades comunitárias e político-administrativas da Unidade Comunal Samora Machel fizeram todas as diligências junto à Direcção de Educação da Cidade de Nampula para a materialização do projecto ora inviabilizado pelas missionárias.
A própria direcção da Escola Primária 19 de Outubro funciona num apartamento de reduzida dimensão. As paredes e o tecto foram construídos com base em material precário. Esta situação está a contribuir, em grande medida, para o fraco aproveitamento pedagógico das crianças.
Informações em nosso poder indicam que no ano lectivo de 2012 estavam matriculados 865 alunos. Deste número, 760 assistiram às aulas ao fim do ano e 590 transitaram de classe.
O assunto foi, várias vezes, discutido entre as autoridades comunitárias locais, as missionárias e o governo provincial. Porém, ainda não foram reveladas as conclusões das negociações, sabendo-se apenas que as irmãs se recusam a ceder o espaço para a instalação da desejada escola.
Relativamente à inviabilização da construção de salas de aulas, o secretário da Unidade Comunal Samora Machel, Graciano Soares, explicou ao @Verdade que o bairro está a registar progressos, por isso há necessidade de ter mais infra-estruturas sociais para acompanhar o ritmo de crescimento da zona.
Os pais e encarregados de educação estão indignados por causa da atitude das missionárias. “Não entendemos porque é que as irmãs estão a proibir a construção das salas de aulas se no seu convento existem crianças que percorrem longas distâncias para estudar e que deveriam beneficiar dessas instalações”, comentou António João, presidente do Conselho de Escola 19 de Outubro na Unidade Comunal Samora Machel. Entretanto, o terreno das irmãs do Mosteiro Mater Dei, de cerca de 50 hectares, é uma mata considerada esconderijo dos malfeitores, o que concorre para a insegurança no bairro.
Há relatos de que as autoridades comunitárias registaram mais de 20 casos de agressões físicas durante o ano passado. Das vítimas fazem parte quatro pessoas encontradas sem vida e os exames realizados pela medicina legal concluíram que houve violência.
As mulheres que se dirigem àquele local com o objectivo de recolher lenha são frequentemente perseguidas pelos supostos guardas das irmãs com o intuito de proibir a extracção de qualquer recurso.
Missionárias reagem
A responsável do Mosteiro Mater Dei, Maria de Cármen, negou todas as acusações que pesam sobre a sua instituição. Porém, confirmou que proibiu a construção de salas de aulas porque as autoridades locais invadiram o referido espaço sem aviso prévio. O terreno foi-lhes atribuído há cerca de 28 anos.
“Esta invasão faz parte das acções levadas a cabo pelo secretário do bairro para nos retirar o espaço”, acusou a missionária, tendo acrescentado que há cinco anos que Graciano Soares tenta usurpar aquele terreno. Em 2010, Graciano Soares invadiu uma parte da área em causa e transformou- -a num campo de futebol.
Maria de Cármen disse à nossa Reportagem que caso a construção de salas de aulas ocorra no terreno da instituição que representa, a sua gestão estará sob responsabilidade das missionárias porque nesse mesmo espaço há diversos projectos em vista, dentre eles a edificação de uma escola secundária para beneficiar as crianças carenciadas residentes nas comunidades circunvizinhas, um centro de formação e residências para as pessoas idosas.

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