terça-feira, 8 de maio de 2012

Católicos indignados responsabilizam Governo pela violência no País


Mais um ataque a residências de párocos. Padre católico morto por assaltantes em Maputo

“Queremos chamar a atenção do poder público, que tem o dever constitucional de promover a segurança do seu povo” (…) “e isso requer um maior comprometimento das autoridades para minimizar a situação beligerante que a sociedade civil está vivendo” – Conferência dos Institutos Religiosos de Moçambique, Conferência das Religiosas de Moçambique (Cirm-Conferemo)

Maputo (Canalmoz) – Está a acontecer uma onda de assaltos às casas de religiosas católicas em Maputo, e um padre foi morto na última quinta-feira, dia 03 de Maio, quando a residência dos padres da Consolata, na missão na Paróquia de Santa Teresinha do Menino Jesus, em Liqueleva, Matola, foi invadida por assaltantes.
“Os assaltantes agrediram violentamente o Padre Valentim Camal, que teve traumatismo craniano e veio a falecer a caminho do hospital por parada cardíaca. O funeral será realizado na sua terra natal, na província de Cabo Delgado entre terça ou quarta-feira, data a confirmar”, lê-se num comunicado da Conferência dos institutos religiosos de Moçambique, conferência das religiosas de Moçambique, enviado à nossa redacção.
O mesmo comunicado recorda que “nos últimos tempos, várias casas religiosas em todo o país tem sido vitimadas pela acção dos assaltantes. Na maioria das vezes, usam de violência para alcançarem seus objectivos, e o pior exemplo disso aconteceu na quinta-feira passada. Na busca de auxílio das forças públicas de segurança, a maioria das vítimas se deparam com problemas constrangedores”, lê-se no documento que condena estes assaltos bárbaros e responsabiliza o Governo pela violência no País.
Confira o resto do comunicado aqui:
“Nós, religiosos e religiosas, trabalhamos sem fins lucrativos, dedicando a nossa vida e serviço para o bem do povo moçambicano, tanto em nível material como espiritual; dando atenção especial aos mais desprotegidos da sociedade.
Nesta situação, levantamos a nossa voz junto com a maioria do povo moçambicano, que busca o seu sustento honestamente, dia a dia, sol a sol; e que sofre nas ruas e nas suas casas desse mesmo problema da insegurança. Levantamos a nossa voz para dizer basta! Tornamos pública aqui a nossa indignação e o nosso protesto quanto a violência que assola o país de diversas formas, vitimando pessoas inocentes e ceifando vidas. O tráfico de órgãos e de pessoas, a violência sexual, os recentes casos de sequestros, os homicídios, os latrocínios, enfim, são distintas as faces da violência em nosso país que torna o cidadão de bem em refém na sua terra, na sua própria casa.
Não podemos imaginar o desenvolvimento de um país sem levar em conta os elementos fundamentais para o desenvolvimento do ser humano; que não é descartável, pelo contrário: a vida humana é muito mais valiosa do que qualquer megaprojecto ou investimento financeiro.
E entre os vários elementos que devem colocar a dignidade da pessoa humana em primeiro lugar – e não o lucro –, a segurança pública é um deles. Queremos chamar a atenção do poder público, que tem o dever constitucional de promover a segurança do seu povo, e não apenas de forma paliativa depois dos fatos terem ocorrido, mas sim preventiva e investigativa. E isso requer um maior comprometimento das autoridades para minimizar essa situação beligerante que a sociedade civil está vivendo. Uma melhor qualificação dos agentes de segurança; uma remuneração mais justa, pois também são chefes de família; equipamentos actualizados e adequados; maior contingente de pessoal e brigadas colocadas estrategicamente nos bairros; enfim, são muitos os elementos que devem ser levados em conta para melhorar o serviço dos agentes de segurança em prol da população. Mas nada disso será suficiente se não tivermos um sistema prisional e judiciário mais eficiente e realmente justo, incluindo aí o ministério público.
Também queremos chamar a atenção de toda a sociedade civil, para que tomem atitudes pró-activas no que se refere a sua segurança pessoal e dos seus familiares, e no rompimento do ciclo da violência. Isso quer dizer que a omissão, a conivência e a justiça pelas próprias mãos só pioram a situação e devem ser evitadas. Devemos sim, como cidadãos, cobrar do poder público o cumprimento do seu dever constitucional, tendo em mente que o Estado deve estar a serviço da população, e não o contrário.
Queremos apelar aos diversos sectores da sociedade civil, instituições, organizações não governamentais, aos meios de comunicação e a todas as pessoas de bem, para somarmos forças na reflexão e no debate quanto as causas da violência, na fiscalização da acção do Estado, e na criação de mecanismos e estratégias que visem a consciencialização da sociedade quanto ao seu papel na defesa da dignidade da pessoa humana em Moçambique.
Que a morte do PadreValentim e de tantas outras pessoas, pais e mães de família, jovens e crianças vitimadas pela violência em nosso país, possam nos motivar na busca de soluções novas a velhos problemas, para construirmos um país mais justo e melhor, onde reine a fraternidade e a verdadeira paz”.
O documento é assinado pelos padres Paulo Nadolny, Presidente da Cirm-Conferemo Nacional e Ederaldo Macedo de Oliveira, Secretário-Geral da Cirm-Conferemo Nacional. (Redacção)
Imagem: Igreja da Polana Maputo
macua.blogs.com

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