Por Immanuel Wallerestein - de
Nova York, EUA
Desde 4 de julho, os maiores jornais do mundo
contam que há um “escândalo” envolvendo algo chamado Libor.
Legisladores, dirigentes de bancos centrais e autoridades judiciais dizem o
mesmo. Antes disso, poucas pessoas, fora do grupo que se interessa por bancos,
tinha ouvido falar da Libor. De repente, nos disseram que os maiores
bancos da Grã-Bretanha, Estados Unidos, Suíça, Alemanha, França – e
provavelmente um grande número de outros países – estavam envolvidos em ações
supostamente “fraudulentas”.
Além disso, explicaram-nos que não era questão de
centavos. Derivativos financeiros de centenas de trilhões de dólares oscilam de
acordo com a taxa Libor. A acusação era de que os bancos a “manipulavam”. As
consequências não foram apenas lucros astronômicos: as pessoas que fizeram
hipotecas e empréstimos pagaram mais do que deveriam. Resumindo: os bancos
obtiveram lucros enormes às custas de outros, que perderam rios de dinheiro.
Tudo isso suscitou muitas questões. Como foi
possível? Por que as autoridades reguladoras não interromperam uma prática que,
agora, dizem ser tão fraudulentas; ou seja: quem sabia o quê e quando? E (3)
alguma coisa pode ser feita para que isso não aconteça novamente?
Vamos começar com a definição da taxa Libor. É uma
abreviação de London Interbank Offered Rate (Taxa Interbancária Praticada em
Londres). Não é muito antiga: a versão definitiva é de 1986. Na época, a
British Bankers Association (Associação dos Banqueiros Britânicos) pediu que os
“maiores bancos” compartilhassem informação diárias sobre as taxas de juros que
pagariam, se tomassem empréstimos de outros bancos. Depois de eliminados os
valores extremos, uma taxa média era determinada, e modificada diariamente. A
ideia era que, se os bancos se sentissem confiantes sobre o estado da economia,
a taxa seria mais baixa; se estivessem inseguros, a taxa seria mais alta.
Quando a imprensa mundial passou a usar palavra
“escândalo” para falar sobre a taxa Libor, ficou claro que o tema havia sido
debatido muito antes, em ambientes menos visíveis. Parece que o Wall Street
Journal havia divulgado, em 28 de maio de 2008 (sim, em 2008!), um estudo
sugerindo que alguns bancos estavam minimizando os custos dos empréstimos. É
claro, imediatamente apareceu gente dizendo que o estudo era impreciso ou, se
preciso, irrelevante. Análises acadêmicas subsequentes sugeriram, portanto, que
a acusação de manipulação dos custos era de fato verdadeira.
A questão era que quando um banco está lidando com
US$ 50 trilhões em valores especulativos, uma pequena sub-notificação de taxas
gera imediatamente um aumento significativo nos lucros. A tentação era óbvia.
Acontece que, já no início de 2007, tanto o Federal Reserve Bank quanto
o Bank of England (os bancos centrais dos EUA e do Reino Unido)
suspeitaram dessa sub-notificação. Nenhum fez muita coisa sobre o assunto.
Agora nos dizem que essas taxas não são nem
confiáveis nem estáveis, mas meras “suposições”. Uma vez que o Lehman Brothers
entrou em colapso, os bancos ao redor do mundo pararam de realizar empréstimos
entre si. O New York Times diz, numa matéria de 19 de julho de 2012:
“Essa taxa não se baseia muito na realidade”. Em 2011, o Departamento de
Justiça dos Estados Unidos começou uma investigação criminal. Graças a
vazamentos, agora sabemos da troca de e-mails entre banqueiros, falando
alegremente sobre a sub-notificação das taxas, e encorajando o processo. Por
que não? Eles estavam ganhando muito dinheiro.
Em meio a tudo isso, o Independent publicou
uma matéria de duas páginas sobre os paraísos fiscais, e a soma incrível de
dinheiro que vai para esses lugares, proveniente dos países do Sul global.
Provavemente, o dinheiro retirado seria mais que suficiente para financiar as
transformações econômicas e redistribuições de renda necessárias nestas nações.
Ao contrário das manipulações da taxa Libor, os paraísos fiscais são legais.
Então, onde está o escândalo? As duas práticas –
sub-notificação da taxa Libor e transferência de dinheiro para os paraísos
fiscais – são absolutamente normais, numa economia-mundo capitalista. A
finalidade do capitalismo, afinal de contas, é a acumulação de capital. Quanto
mais, melhor. Um capitalista que não maximiza os lucros, de uma forma ou de
outra, será eliminado do jogo, cedo ou tarde.
O papel dos Estados nunca foi controlar ou limitar
essas práticas, mas fazer vistas grossas pelo maior tempo possível. De vez em quando,
as práticas – dos capitalistas e dos estados – são momentaneamente expostas.
Algumas pessoas são presas, ou forçadas a devolver o lucro ilegal. E os
políticos falam em reforma – tentando adotar, com máximo alarde, o nível mais
baixo de “reforma” que puderem.
Porém, isso não é um escândalo, porque o que se
chama de “escândalo” é, na verdade, o coração do sistema. Algum dia isso irá
mudar? Sim, claro. Um dia, o sistema não existirá mais. Claro que isso abre
outra questão. O próximo sistema será melhor? É possível, mas não é certo.
Enquanto isso, chamar a manipulação da Libor de
escândalo é ocultar que se trata, na verdade, de mais uma forma normal de
acumular capital. Em 1992, James Carville, estrategista de campanha de Bill
Clinton, que então concorria à presidência dos Estados Unidos, disse algo que
ficou famoso: “é a economia, estúpido”. Frente aos chamados escândalos,
deveríamos dizer “é o sistema, estúpido”.
Immanuel Wallerestein é um sociólogo norte-americano, mais conhecido pela sua contribuição
fundadora para a teoria do sistema-mundo. Seus comentários bimensais sobre
questões globais são distribuídos pela Agence Global para publicações
como Le Monde diplomatique e The Nation. No Brasil, seus artigos são
publicados na revista Fórum e na revista virtual Outras Palavras.
Tradução: Daniela
Frabasile
Publicado originalmente em Outras Palavras.net
Publicado originalmente em Outras Palavras.net
Imagem: As crises se
multiplicam no sistema capitalista em episódios como o 'escândalo da Libor'

1 comentário:
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