terça-feira, 14 de julho de 2009

A Epopeia das Trevas (23)


O bairro continuava ocasional, mecânico como uma fábrica de produção em série. As mocinhas caprichavam, criavam New-look. De beleza invulgar enfrentavam a algazarra musical. Dançavam, remexiam-se, oscilavam muito elásticas. Muito distraídas, era assim que ludibriavam o tempo, porque não se lembravam da sua existência. Não se danavam com isso. As telenovelas diluviavam, e sempre luziam parvos que lhes abonavam.
O pacifismo bairrista pactuava. Clientes abasteciam a sede com sacos plásticos de água de frescura duvidosa. As sanduíches evoluíam, movimentavam a clientela. O corre-corre transeunte avolumava a facturação nas bolsinhas. As moscas esquadrilhavam reforçadas. Tudo estava composto de indícios regulares. Uma repentina pequenina chega. Lembra Fidípedes a anunciar que a batalha de Maratona foi ganha. Arfa desmedida, perdeu o jeito do caminhar. Opressiva esforça-se, respira muito fundo, a voz não sai. A mãe vê que ela está muito assustada, embargada.
- É o quê porra! Viste algum feiticeiro?
A menina assusta-se, a respiração incha, desincha.
- Estiveste outra vez a ver aquele filme de terror no vizinho?
O querubim move a cabecinha negativamente. Infelizmente a mãe não tem tempo para a aturar, pois tem cliente a piscar. Decide acabar com o mutismo da filhinha com a arma secreta das mães.
- Ah, sua aprendiza de feiticeira. Vou-te desinchar com tanta chinelada, que te arrependerás de ter nascido.
Antes da mãe iniciar as suas artes marciais a menina consegue soluçar:
- Os … os… os…
- Os quê filha de um bêbado!?
- Mamã… mamã… mamãzinha… os galos… estão ali.
- O quê!? O quê!? Ai meu Deus!
A mais velha pressiona as mãos na cabeça. Revoluteia duas circunferências, batuca os pés na terra amolecida, de barro avermelhado. Isto ajuda-a a pensar, a decidir o que fará a seguir. Parou, baixou as mãos, inchou o peito, alertou geralmente:
- Gauleses à vista!!!
A criançada maravilhou os olhos, que brilhavam intensos como holofotes.
- O Asterix vem com eles?
A menina reclama, tenta elucidar a mãe:
- Vocês trocam tudo! SÃO OS UFOLOS… OS UFOLOS, PORRA DE MÃE!
- Está bem minha filha. Fujam! Avista-se Fogo Grego ufólogo!
A calmaria tresandou, parecia mar agitado quando atira os barcos uns contra os outros. Confusa maré humana, de corpos contra corpos, de filhos enlaçados, que na atrapalhação custava pegar no sustento da insustentável fome. Rebuçados, cigarros, bolachas, pastilhas elásticas etc., sofreram a condenação do chão. Patinharam para as cubatas. Às crianças foi silenciado que se escondessem debaixo das camas, onde as havia, porque era normal dormir no chão. Eram seis Ufolos. Um, sem dúvida o chefe, mascarado de Zorro. Cópia refeita, possante, trajado de negro. A máscara negra entreabria-lhe os olhos, impunha calor vampiresco. As pistolas pendiam cinturadas, imponentes. Alaram pombos e pardais, alocaram tranquilos pombais. Montado num pau de vassoura, um varão que iludiu a mamã exclama com convicção:
- Aió… Silver!
O Zorro amuou. Apetecia-lhe rir da ousada criança, mas tinha, sentia-se obrigado a manter distância, meter medo, senão perderia o respeito, o comando do bando. Ordenou à criança que freasse a montada. Do seu hábito seleccionou voz autoritária.
- Vai para casa, dita às safadas que ponham tudo cá fora.
- Ok! Zorro mascarado.
As mães olharam longe a conversa, aprochegaram-se, lagrimaram, lastimaram.
- Não nos roubem, por favor! O pouquinho que temos foi ganho, crucificado! Somos escravas dos descolonizadores, geradas para os distrair.

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