segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Expectativas distintas face aos preços actuais do crude. Justino Pinto de Andrade





Contrariamente ao que afirmaram certos comentaristas, a acentuada baixa do preço do petróleo no mercado mundial terá – começou já a ter – fortes repercussões na nossa economia e na nossa sociedade. O primeiro sinal veio pelas medidas restritivas anunciadas, que se reflectirão, dentro em breve, no Orçamento Geral do Estado revisto para 2015.

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2.  Um balão de ensaio está já a ser executado no sector público, com congelamentos na entrada de novos funcionários, bem como a aplicação de travões na ascensão na carreira dos funcionários existentes. A área desportiva que se subsidia no OGE iniciou, igualmente, um plano de contensão que aponta para um corte de cerca de 50% relativamente ao Orçamento antes previsto.
3.  O sector privado da nossa economia sente já os efeitos de alguns constrangimentos de carácter financeiro. E eles irão aumentar à medida que for decorrendo o ano económico. Avizinha-se uma época difícil que poderá, inclusive, traduzir-se em instabilidade social e, mesmo até, política. Preparemo-nos, pois, todos para momentos menos bons…
4.  A crise iniciada em 2008 começou por se abater sobre as economias mais fortes do mundo. Depois, estendeu-se para todo o lado, debilitando indiscriminadamente a economia mundial. E os seus impactos políticos foram profundos, levando a queda de governos (claro, por via eleitoral) na Europa, fruto do clima de insatisfação social que, entretanto, se instalou.
5.  A crise de 2008 fez cair governos tidos como de Direita mas, igualmente, social-democracias. As razões de tais substituições não foram, pois, de cariz ideológico, mas, sim, fruto das políticas restritivas e de austeridade colocadas em prática pelos respectivos governos.
6.  Quem se distanciou dessas políticas contracionistas foi o governo norte-americano. E os resultados são hoje perfeitamente visíveis: recuperação de empresas em dificuldades, modernização das que haviam perdido competitividade, crescimento económico, criação de empregos. No domínio económico, a presente Administração americana está em alta.
7.  A presente baixa do petróleo parece vir a favor das economias mais avançadas – na sua maioria, importadoras de crude – e pode ser um factor estimulador da sua recuperação. Tal contexto, aparentemente favorável à recuperação dessas economias, deve ser visto com certo cuidado, pois as multinacionais envolvidas no negócio do petróleo, originárias dos países mais ricos, começam, elas também, a dar sinais de algum nervosismo.
8.  Um preço demasiado baixo causará constrangimentos a tais multinacionais. Pelo menos momentaneamente, elas perderão algum interesse na realização de investimentos em pesquisa e exploração. Deverão adiá-los para melhores dias, para quando os preços do crude voltarem a subir. Mas o protelar dos investimentos em pesquisa e produção pode agravar ainda mais a situação económica dos países subdesenvolvidos exportadores de petróleo.
9.  Com os actuais níveis de produção, os mercados registam um excesso de oferta, responsável pelo presente preço do crude. E um aumento da oferta resultante da entrada em exploração de novos campos de produção, faria baixar ainda mais o preço, multiplicando as dificuldades para quem já vive dias difíceis.
10.                  Acresce a isso o facto de nem todos os países exportadores terem a mesma sensibilidade aos preços. Por exemplo, o Irão declarou que um preço próximo dos usd 25/barril não lhe causará grandes perturbações. Dado o actual nível dos seus compromissos económicos e sociais, a Venezuela só poderá sobreviver com um preço rondando os usd 85/barril. Outro país-charneira neste “puzzle” é a Arábia Saudita, dos maiores produtores e o maior exportador mundial. Com custos de produção geralmente muito baixos, e enormes reservas financeiras acumuladas, a Arábia Saudita dá-se ao luxo de ficar como que indiferente aos preços agora vigentes.
11.                  A Rússia, muito dependente das exportações de petróleo e gás, é dos países mais atingidos pelos preços baixos, ao que se junta o impacto das sanções impostas pela comunidade internacional, em especial, os EUA e a União Europeia, para a castigar pelo seu envolvimento no conflito da Ucrânia. E com isso, o rublo – a moeda russa – perdeu, até agora, cerca de metade do seu valor.
12.                  A baixa do preço do petróleo está a ser acompanhada por um relativa valorização do dólar norte-americano, relativamente às outras divisas internacionais e, em particular, face ao euro. A valorização do dólar torna mais caras as exportações norte-americanas e mais favoráveis as exportações europeias – claro, as da Zona Euro – o que se traduz num facto positivo para a recuperação da economia europeia.
13.                  E aqui entre nós, que impactos terá um dólar mais valorizado? Uma desvalorização do kwanza, teoricamente, pelo menos, tornaria mais fáceis as nossas exportações. Mas, que exportações, se nós quase que apenas exportamos petróleo? E o impacto de uma tal depreciação do kwanza sobre as nossas importações? Torna-as mais onerosas, portanto, mais difíceis. A questão agora é saber qual desses dois lados afectará mais a Balança Comercial, se a redução do valor das exportações, se a contração das importações?
14.                  Haverá, igualmente, outras implicações que não cabem no restrito espaço de que agora dispomos. Possivelmente, numa próxima ocasião.
Imagem: www.sol.pt

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