Em Angola julgam-se presos políticos acusados de nenhum crime. Dizem que é um regime democrático que está em pleno gozo das suas funções. A corrupção está no pódio como grande vencedora. A miséria e a fome também. As potências democráticas fecham os olhos e apontam que assim é que é bom, que assim é que se faz a estabilidade em África. Eis a receita do terrorismo do qual a Europa não se consegue desenvencilhar. Quem apoia a corrupção e as suas ditaduras, no fundo também é terrorista sem o saber.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Grande entrevista a Justino Pinto de Andrade. Folha 8





O entrevistado de hoje para além de ser um animal político é economista de profissão, Justino Pinto de Andrade, director da Faculdade de Economia da Universidade Católica de Angola. Por si passam muitos dossiers e tem uma noção clara sobre a vivência das relações comerciais de baixo e alto calibre. Aliás contribui para isso, a localização da própria universidade, no coração do Palanca onde a vida negocial não pára e pulsa à toda hora e momento, desde o cabrité, a bacia, aos supermercados comerciais e aos supermercados da fé, pois é o local em Angola onde existem mais igrejas por metro quadrado. Este é, na nossa ousadia, o entrevistado de hoje.

Folha 8 - Como en­cara esta pretensão do MPLA, que tanto se opôs a uma maior ponderação, surgir agora a pedir uma revisão?
Justino Pinto de Andra­de - Desde início que ficou perfeitamente evidente que o OGE 2015 seria re­visto, uma vez que alguns dos seus parâmetros esta­vam desajustados à reali­dade. Quando se discutiu o documento no Parla­mento, o preço do petró­leo já estava em queda acentuada. É evidente que ele continuou a cair e, por isso, seria muito difícil fa­zer qualquer previsão do preço médio a vigorar du­rante este ano. Até agora o preço continua a sua fase descendente, não se sa­bendo onde irá parar. Tal­vez nos usd 40/barril, tal­vez até mesmo menos. É ainda uma incógnita. Pode até suceder que o OGE revisto venha a ser nova­mente ajustado, quando se tiver uma melhor percep­ção da situação.
F8 - Quais são as conse­quências, no início do ano para os órgãos e restante máquina estatal, deste OGE retificativo?
JPA - Esta revisão, como sabemos, será uma revi­são em baixa, ou seja, far­-se-ão cortes nas dotações para as diversas unidades orçamentais, o que impli­cará a não realização de uma série de actividades antes previstas. A que­da de algumas acções irá repercutir-se, pela certa, sobre outras, inclusive, em outros sectores. Muitos projectos serão adiados ou até mesmo eliminados. Haverá uma redução no nível da actividade econó­mica e social. Quando tal sucede, registam-se per­das económicas, perdas sociais, perdas de empre­go e de rendimento das fa­mílias. Adivinho, pois, um ano mau e que poderá ser marcado por uma vasta contestação social. Espe­ro que essa contestação não seja severamente re­primida como já tem sido hábito.
F8 - O executivo de Eduar­do dos Santos poderia evi­tar esta decalage?
JPA - O Executivo tem pouca margem de ma­nobra, uma vez que as suas habituais fontes de financiamento externo também não vivem um momento muito favorá­vel. No presente momen­to, a única das grandes economias com quem temos relações é a ame­ricana, que está a cres­cer de modo sustentado. As outras, ou estão em estagnação, ou a cres­cer a ritmos mais lentos, ou mesmo em regres­são. E a sua recuperação será lenta. Os chamados BRIC´s não vivem bons momentos: a Rússia está em crise, a China e a Ín­dia crescem, mas pouco, e o Brasil quase que não cresce. Nesse memento, deixaram, pelo menos temporariamente, de ser o grande motor da eco­nomia mundial. A Europa padecia de alguma ane­mia económica e o Japão continua em estagnação.
“VIVEMOS UM MUITO MAU MOMENTO”

Folha 8 - Que reflexos haverá na economia na­cional, mais concreta­mente, na restante má­quina produtiva?
Justino Pinto de Andrade - A nossa economia con­tinua muito dependente do petróleo e dos inputs externos. Quando há crise de receitas, como é o caso actual, a economia no seu conjunto, ressente-se. Ha­verá dificuldades de im­portação quer de bens de consumo, quer de bens in­termédios e de matérias­-primas. Sem sombra de dúvidas que viveremos um muito mau momento. A projecção dos níveis de crescimento para este ano, feitas antes, está ultrapas­sado. Há que a rever com mais realismo.
F8 – Os produtos produ­zidos em Angola, ficarão mais caros, com a subida do preço do crude?
JPA - O preço do crude não subiu, antes pelo con­trário, desceu à pique... Quem subiu foi o preço dos seus derivados, aqui no nosso mercado, por força da política de alívio dos subsídios do Estado. Naturalmente que sendo os combustíveis um input importante para quase tudo, a subida dos seus preços reflectir-se-ão, inevitavelmente, sobre os produtos nacionais, e também sobre alguns ser­viços.
F8 - Que relevância po­lítica terá o parlamento, que não fiscaliza ser cha­mado para esta situação de retificação?
JPA - Como é de lei, o OGE será remetido ao Par­lamento para ser revisto. E a proposta que o governo enviar será aprovada sem qualquer dificuldade, dado que o MPLA tem maioria absoluta e, por isso, tem capacidade para fazer aprovar os documentos que quiser. Eu espero é que, agora, os seus depu­tados sejam mais cuidado­sos na análise da proposta de revisão orçamental e não a aprovem de olhos fechados, como o fizeram com o documento inicial. Têm que ter consciência que se trata de uma Lei que regula a actividade económica do Estado e se repercute sobre toda a nossa vida, durante o ano em curso.
Folha 8 – O MPLA com esta acção mostra senti­do de Estado ou trata os deputados como uma es­pécie insignificante?
Justino Pinto de Andrade - Infelizmente, a bancada parlamentar do MPLA é uma caixa de ressonância da vontade do partido. E a experiência mostra que ela faz o que o governo de­termina.
F8 – Haverá reflexos dra­máticos nos organismos sociais? JPA - A tendên­cia, em ocasiões de aperto, é sacrificarem-se os sec­tores sociais. Espero que haja muita ponderação na definição das prioridades. Há áreas onde os cortes são menos gravosos e com menores impactos no futuro do país. Há mesmo gastos supérfluos e que podem ser adiados. Temo que se continuem certas acções marcadamente eleitoralistas e se sacrifi­quem outras que reputo de fundamentais.
F8 – O povo vai ver a sua vida piorar, com a alta da inflação?
JPA – A redução da recei­ta e da despesa do Estado - sem a entrada de novos recursos - deveria ter como efeito imediato uma diminuição da actividade económica e da circulação monetária. Com menos dinheiro a circular, deverá haver uma contenção nos preços e não um aumen­to da inflação. É um fenómeno que vou observar com atenção, pois, a inflação tem mais a ver com um au­mento na circu­lação monetária não devidamente compensada com um aumento na oferta de bens e serviços.
F8 - O que acha pessoalmente, sobre toda esta forma de gestão da máquina do Estado?
JPA - A máquina do Estado, geral­mente, funciona mal. Ela está su­jeita a interesses pessoais de um grupo de dirigentes.
Folha 8 – A vida do povo, mais po­bre vai ser afectada drasticamen­te?
Justino Pinto de Andrade - Todos nós sabemos que quem sofre é sem­pre o mexilhão... Os poderosos estão sempre protegidos. O nosso poder está ao seu serviço. Disso não tenho quaisquer dúvidas.
F8 - Acredita que o aumento do preço dos combustíveis vão con­seguir equilibrar as contas do Es­tado?
JPA - Reduzindo o nível dos sub­sídios aos combustíveis, de algum modo, contribui, mas não resolve o problema, pois há outros itens que se mantêm inalteráveis e que são causadores do desequilíbrio orça­mental.
F8 – Qual a receita que apresenta­ria, neste momento, para uma me­lhor gestão da coisa pública?
JPA - A receita passa por se travar esta máquina demolidora que nos governa e desgoverna.
Folha 8. Edição 1221 de 24 de Janeiro de 2015
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