sábado, 24 de janeiro de 2015

‘Kinguilas’ de Luanda sem dólares para alimentar o mercado e a família






De notas entre os dedos, a chamar clientes, passam os dias sentadas na rua aguardando por dólares para trocar, mas nunca a vida das 'kinguilas' de Luanda esteve tão difícil, sem divisas para alimentar o mercado informal e um negócio que cria famílias inteiras.
"Muita, muita, muita procura. E não conseguimos satisfazer a vontade dos clientes". O desabafo, feito à Lusa, é de Ermelinda Evaristo, de 31 anos, uma das centenas de 'kinguilas' tradicionais de Luanda.
Há 13 anos que fica sentada, juntamente com algumas colegas, pela zona de Alvalade, no centro de Luanda, mas agora só chegam clientes com kwanzas para comprar os dólares que os bancos não deixam levantar.
"Sempre alimentei a minha família com este negócio. Agora são eles que me ajudam e quase não dá para o pão", confessa Ermelinda.
A consecutiva quebra no preço do barril de petróleo no mercado internacional fez diminuir a entrada de divisas em Angola, desvalorizando fortemente a moeda nacional. Nos últimos dias, os bancos comerciais colocaram limitações aos levantamentos de divisas, de quantidades e nunca imediatos, aos balcões.
O resultado é que no mercado de rua, onde as ?kinguilas' - que na língua nacional quimbundo significa ?quem está à espera' - transcionam as divisas ao preço do momento, sem taxas ou outras perguntas, o valor não para de subir.
Algo que para estas mulheres está longe de ser positivo.
A 'kinguila' Ermelinda, por exemplo, compra hoje 100 dólares por 12.000 kwanzas (cerca de 99 euros), quantidade que vende a seguir por 13.000 kwanzas (108 euros), muito acima da taxa de câmbio oficial (ronda os 10.300 kwanzas para a mesma quantidade).
Neste caso compraria, porque simplesmente são poucos os clientes que aparecem para vender, em contraste com os que repetidamente surgem a pedir dólares.
Num "bom dia" consegue comprar 200 a 300 dólares. Clientes para depois vender não faltam e com uma margem de lucro maior. Há poucos meses chegava a transacionar 5.000 dólares por dia, mas mesmo com margens muito mais reduzidas diz que estava melhor.
"Ganhámos pouco, mas habituámo-nos com o nosso pouco. Agora está alto e não conseguimos nada", desabafa, por entre um sorriso que disfarça a preocupação de quem não percebe o que se passa.
"As mulheres estão a desistir do negócio", atira.
Noutro ponto da cidade de Luanda, próximo do Largo da Mutamba, a 'kinguila' Marta Gaspar, de 44 anos, vive dias de aflição. Com 19 anos de rua, socorre-se da experiência para recordar que "quando há muito kwanza" a circular, o dólar "desaparece". Algo que se sente "como nunca", por estes dias.
"O negócio não está nada bom. Todo o mundo só quer comprar dólar e o dólar não aparece. Não consigo satisfazer a procura", assegura, sem saber do "rasto" da nota norte-americana.
Marta até já subiu a "parada" e compra 100 dólares a 12.500 kwanzas (104 euros), para vender a mesma quantidade a 13.500 kwanzas (112,5 euros). E mesmo assim sem sucesso.
Por toda a capital angolana o sentimento de preocupação entre estas mulheres, e sobretudo a falta de negócio, é igual, mas o receio em dar a cara sobrepõe-se, face aos assaltos de que são alvo e à perseguição das autoridades, por concorrerem com as casas de câmbio e os bancos.
"Isto já serviu para sustentar a família antes, formámos filhos neste negócio, mas hoje estarmos aqui sentadas na rua é só para não faltar o pão. O resto já não tem nada. Às vezes nem 100 dólares conseguimos comprar durante um dia", remata, desolada, Marta Gaspar.
Lusa
ANGOLA24HORAS
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