sábado, 21 de fevereiro de 2015

Angola e o futuro - Mário Soares





O atual Governo só pensa em dinheiro e não tem nenhuma ideia da importância da Lusofonia
Angola é, de entre as ex-colónias portuguesas, um dos mais desenvolvidos e ricos, onde têm estado a trabalhar e a ganhar dinheiro muitos portugueses. Sendo certo que muitos angolanos ricos têm vindo também instalar-se em Portugal, país irmão, onde adquiriram empresas, de comunicação social, telecomunicações e cimentos, entre outras. Angola é um Estado rico em petróleo, diamantes, excelentes terras de cultura, com uma costa enorme e também grandes rios como o Cuanza. Foi por isso considerado, durante muitos anos, como um país com muitas potencialidades, que atraiu cerca de 200 mil portugueses, que aí foram bem recebidos e bem tratados.
De repente os Estados Unidos puseram de parte os mercados usurários, que furavam a terra a grande profundidade para obter mais petróleo e gás. Foi algo que prejudicou o oceano Atlântico, com as consequências daí resultantes. Nesse sentido, Barack Obama achou por bem fazer baixar o preço do petróleo em todo o mundo, dificultando a situação financeira de Angola. O que teve consequências negativas para o país, que os portugueses que aí se encontram também estão a sofrer.
O primeiro Presidente de Angola, Agostinho Neto, com quem Portugal acordou no Algarve a independência e que se tornou meu amigo, morreu mais tarde na Rússia, em condições nunca esclarecidas, para onde foi a convite dos soviéticos. O Presidente José Eduardo dos Santos recebeu-me no seu país no final do meu segundo mandato como Presidente da República, na sequência de diligências do então primeiro-ministro, António Guterres. Foi comigo extremamente simpático e aprofundámos as relações dos nossos dois Estados. Mas não voltámos a encontrar-nos.
Já com o atual Governo português em funções, José Eduardo dos Santos veio a Portugal e não falou, quer com o Presidente Cavaco Silva quer com o primeiro-ministro Passos Coelho. Deu uma ampla e notável entrevista a uma televisão, em que só falou - e muito bem - do Povo Português. Foi uma entrevista longa que me impressionou imenso. Não mais o ouvi, embora tenha conhecimento de que vai todos os anos à Catalunha, ao que suponho por razões médicas.
Entretanto, como já referi, Barack Obama fez descer em toda a parte o preço do petróleo. Angola não escapou, o que a colocou numa situação bastante difícil. É nesse ponto que estamos, com os portugueses que ali vivem há tantos anos numa situação nada fácil.
Angola e Portugal são dois Estados lusófonos e grandes amigos. É tempo de Portugal ajudar Angola que já tanto nos apoiou. O atual Governo português não tem esse critério, como se viu quando o ministro dos Negócios Estrangeiros foi a Angola e não teve um gesto de solidariedade, sendo caricato o desejo de impor a Angola a austeridade. É o momento de auxiliar Angola quanto pudermos, porque os nossos compatriotas emigrados devem muito a Angola. Não o podemos esquecer.
A empresária Isabel dos Santos, filha do Presidente angolano, tem tido uma ação enorme em Portugal e, como se tem dito, ganha bastante dinheiro. Recentemente quis comprar a PT em momento de crise. Era excelente que assim tivesse acontecido, porque se trata de uma lusófona e além disso tinha um projeto articulado para as telecomunicações dos países da Lusofonia. Pois o Governo português fez o contrário, deixando que a venda da PT fosse feita, ao que parece, a uma empresa francesa. Isto é, o atual Governo só pensa em dinheiro e não tem nenhuma ideia da importância da Lusofonia.
Ao contrário da visão do atual e excelente Papa Francisco que, consciente da importância da Lusofonia no Mundo, acaba de nomear três novos cardeais lusófonos, entre eles o primeiro cardeal de Cabo Verde e mais um de Moçambique. Note-se que, na sua viagem para o Brasil, o Padre António Vieira pregou, na cidade da Praia, em Cabo Verde, tendo palavras muito elogiosas para o prelado lusófono dessas ilhas.
Sempre pensei que três grandes Estados lusófonos deviam considerar o oceano Atlântico como um espaço essencialmente lusófono: o Brasil, Angola e Portugal. Sem esquecer o papel que nele poderiam também desempenhar Moçambique, Cabo Verde, Guiné e São Tomé e Príncipe.
Por Mário Soares

VISAO
ANGOLA24HORAS
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