Em Angola julgam-se presos políticos acusados de nenhum crime. Dizem que é um regime democrático que está em pleno gozo das suas funções. A corrupção está no pódio como grande vencedora. A miséria e a fome também. As potências democráticas fecham os olhos e apontam que assim é que é bom, que assim é que se faz a estabilidade em África. Eis a receita do terrorismo do qual a Europa não se consegue desenvencilhar. Quem apoia a corrupção e as suas ditaduras, no fundo também é terrorista sem o saber.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

“Falhámos na criação de um país mais justo - Pepetela



 

É hoje o escritor mais profícuo de Angola, apesar de publicar de dois em dois anos. Já escreveu 20 livros, venceu o Prémio Camões. Nascido em Benguela, foi guerrilheiro, político e um dos ‘pais’ da Educação em Angola. A experiência tem-lhe inspirado a escrita que o obriga à rotina. Mas confessa detestar reuniões e fama. Não entende o consumismo da nova geração e revela que se esquece que é branco.
Tem mais de 20 obras publicadas, o que explica a cadência?
Não é assim tão grande, mais ou menos de dois em dois anos...
O ‘Tímido e a mulheres’ foi escrito em seis meses…
Sim, esse foi relativamente rápido. Eu acabo um livro e ele sai, ainda demora um bom bocado e surge-me a vontade de escrever ou tenho uma ideia e escrevo. Depende dos livros, há uns que demoram mais, sobretudo os que implicam pesquisa histórica. Podem ser uns seis meses depois há a revisão, a editora também demora uns meses a tê-lo pronto, o que dá mais ou menos os tais dois anos.
Tem algum favorito?
Nem por isso. Há períodos em que o que gosto mais é aquele, mas depois acontece gostar de outro. Passou a fase em que tenha tido um mais importante do que outros.
E um que não gostasse?
Já retirei. Foi uma peça de teatro escrita há muitos anos e que retirei do cardápio.
O ‘Lueji’ é considerado História de Angola. É assim que o vê?
Não, o Lueji não é História. É baseado num mito do qual encontrei pelo menos seis versões, conforme as etnias que o contavam e resolvi escrever a minha história. Não há elementos conclusivos que indiquem que as coisas se tenham passado dessa maneira. De todas as versões, há uma geral que conta que havia uma chefe lunda que casou com um príncipe luba a quem o pai conferiu o poder dando-lhe o ‘Lucano’ contra a vontade dos irmãos. É apresentado quase como um demónio, que é um personagem de quem gostei. É como na bíblia, um Lúcifer, um anjo que rouba a luz a Deus e é castigado tornando-se depois um diabo. Isto vem na tradição oral dos lunda e dos tchokwe.
Nos romances históricos, sente dificuldade no acesso à informação?
O ‘Lueji’ foi difícil, o ‘A Sul o Sombreiro’ foi relativamente fácil na medida que já tinha feito a pesquisa para ‘A Gloriosa Família’ que é do mesmo período. Já sabia onde ir buscar os elementos. A história é conhecida, pelo menos, a da fundação de Benguela, do Manuel Cerveira Pereira e do que se passou em Luanda com ele como governador. A história é escrita pelos inimigos dele, de maneira que fui buscar outros elementos históricos, alguns cronistas, padres, e muita coisa que já tinha encontrado. Foi preciso reler, sobretudo as partes que me podiam dar ideias. Agora livros, como ‘O Tímido e as Mulheres’, não precisam de pesquisa, estão aí nas ruas, basta ir a um mercado ou outro para se começar a imaginar as cenas e assim é mais fácil.
Quais são as suas maiores referências na literatura angolana?
Dos mais velhos, o Luandino Vieira é incontornável. Do princípio do século XX, Assis Júnior, extremamente importante, e Castro Soromenho são referências dos tempos em que me fui formando como escritor.
E da actualidade?
Há vários… Roderick Nehone. José Luís Mendonça lançou um romance muito interessante, ‘O Reino das Casuarinas’. Há mais conhecidos, Agualusa, Ondjaki, Manuel dos Santos que continua a publicar, Manuel Rui Monteiro são estes fundamentalmente os ‘prosadores’. Haverá um ou outro poeta, mas sou da outra banda, da banda da prosa, não entro na poesia.
Como é a sua rotina de escrita?
Depende. Agora não há nenhuma porque não estou a escrever, estou a fazer muitas outras coisas. Mas depois entra um momento em que tenho uma história, estou com apetite e crio as condições. Não faço mais nada, ninguém me vê em sítios públicos onde possa encontrar jornalistas ou fotógrafos, começo a recusar saídas do país, convites. Normalmente, escrevo de manhã. Se é um livro que implica trabalho, além da escrita, como leitura ou pesquisa, à tarde faço isso, de manhã é para escrever. À tarde distraio-me, faço outra coisa. Ao fim do dia, volto a pegar no livro, só para fazer uma revisãozinha e dormir tranquilo, de manhã pego outra vez nele.
Disse que gostou da personagem ‘Tshinguri’. Pode cansar-se de um personagem, ou mesmo não gostar dele?
Quando não gosto de um personagem, ou o mudo e dou-lhe uma bassula, faço-o ter uma reviravolta ou desaparecer de cena. Normalmente, mesmo os mais revoltantes são fundamentais. Não gosto dele, mas como ele deve ser assim trato-o o melhor possível. Ele é mau, realço as más qualidades, mas mantenho a mesma preocupação estética.
Quando começa um livro já sabe o fim?
Não, excepto nos livros baseados na História. Mas, por exemplo, falando do ‘Lueji’, sabia que ela iria ser a mãe do primeiro imperador, isso vem na tradição, tinha de ser assim. Agora até quase à última cena, não sabia bem como é que ia ser. Decidi que a versão em que ela é estéril era bem mais interessante, leva a história para outro caminho. A maior parte das vezes não sei como acabam. Escrevo mesmo para saber como vai acabar. Há um momento em que o livro diz “estou cansado de ti, despacha isto”. O livro é que se cansa de mim.
Como lida com a fama, com os fãs?
São óptimos. É gente simpática, mesmo quando já se está um pouco cansado de perguntas ou de pedidos para ‘selfies’ e afins. São ossos do ofício. É com todo o carinho que querem tirar uma fotografia comigo. Agora, a fama em si é horrível. Ainda bem que tenho pouca, não suportaria ser um Brad Pitt ou um Cristiano Ronaldo. Que horror!
Os seus pais já nasceram cá, sente-se mais branco ou mais negro?
Sou branco, com misturas claro, mas socialmente as pessoas consideram-me branco. A pessoa é o que é. Aqui sou branco, noutros sítios, às vezes, olham para mim a tentar perceber as misturas, se sou indiano ou talvez tenha mistura de cigano. Mas não me identifico com um grupo racial qualquer. Sou angolano e identifico-me com isso. Aliás, estou sempre a esquecer a minha cor. Às vezes, arrisco um bocado em certos sítios e dou bafos, e depois olho para o braço e penso que quem me ouve deve estar a pensar que sou um estrangeiro.
Aqui o racismo já foi ultrapassado?
Não. Mas não é um problema central em Angola. Tem até sido tratado com ponderação pelas instituições e, por isso, não há grandes problemas, embora sinta que há uma certa estratificação social que é muitas vezes acompanhada por uma estratificação racial. Na população, há o perigo de se confundir o mais claro com o mais rico, o que nem sempre é verdade. Haverá essa tendência. Realmente, não há muitas pessoas claras que sejam muito pobres. Lembro-me que depois da independência havia, mas hoje é mais raro. No entanto, uma parte da população pode achar isso mesmo. Antigamente, era muito raro alguém duvidar da minha nacionalidade angolana, hoje duvidam. Ainda por cima, o meu bilhete é daqueles primeiros amarelos, vitalício, e muitas pessoas não conhecem e depois duvidam.
Foi guerrilheiro. Este é o país por que lutou?
Nós lutámos pela independência. E conseguimos. Portanto, 50 por cento está lá. Agora nós, pelo menos um grupo significativo de guerrilheiros, particularmente intelectuais que tinham influência política no movimento, queriamos ajudar a criar um país justo, muito mais justo do que era a sociedade colonial. E mais justo do que alguns países africanos que já tinham as suas independências que conhecíamos e que mantinham as desigualdades, as injustiças. E é aí que falhámos. Criámos algumas bases, mas esse sonho ainda não foi realizado. Esperemos que as próximas gerações o consigam fazer.
O que é que é preciso para realizar esse sonho?
Fundamentalmente, maior igualdade social. Temos agora como ‘slogan’ mundial o ‘combate à pobreza’ e isso tem de ser feito, tem de se provar por A mais B que se conseguiu. É triste pensar que a mortalidade infantil é elevada, embora não seja tão elevada como dizem algumas ONG. Não acredito que estamos entre os 10 países do mundo com a mortalidade mais alta, isso podia ser há 10 anos. Durante muito tempo, a ONU, PNUD e o FMI usaram, nas estatísticas, dados de 2002. Só há dois anos começaram a introduzir dados actualizados. É por isso que sou muito desconfiado com essas estatísticas. Quando tínhamos 12 milhões de habitantes, dizia-se que cada um de nós tinha direito a uma mina. Se fosse uma mina de ouro ou diamantes seria óptimo. Agora uma mina terrestre… Tendo sido militar, é difícil acreditar. É só fazer contas. 10 minas cobrem um espaço enorme, era capaz de não haver espaço suficiente para milhões e milhões. Está a desminar-se, e ainda falta, mas não se vai chegar à quarta parte desse número, se calhar nem à décima.
Como era fazer política no seu tempo?
Ainda sou do bom tempo em que fazíamos política acreditando no que estávamos a fazer. Uma grande parte dos políticos de hoje faz política pela política. Ainda por cima temos esse hábito terrível das reuniões que duram muito tempo. Sempre tive horror a reuniões e hoje sou um homem feliz porque estou livre disso, só tenho as que quero, mas antes era complicado. Não havia os meios de comunicação que há, era preciso andar muito a pé ou em carros muito incómodos, más estradas (a pessoa ficava com a coluna virada do avesso por causa dessas coisas), mas era gratificante. Estávamos a tentar fazer o que achávamos que devia ser feito (talvez não o que podíamos, mas o que devia ser feito).
O 27 de Maio…
Esse assunto já passou do tempo e não falo sobre ele porque já falei. E porque é que devo ser sempre eu a falar? Tem muitas pessoas a quem se perguntar sobre isso…
Como antigo vice da educação, como professor, estudante, portanto um conhecedor, o que é que está bem e mal na educação?
Já não dou aulas há seis anos e quando dava era na arquitectura, um pouco à parte do que se passava no resto do ensino. Não tenho por isso uma opinião muito abalizada. Sei que se fez a reforma, que demorou, devia ter sido feita há muito mais tempo. Durante muito tempo, tivemos um sistema de ensino que foi a minha geração que implantou. Fiz parte dessa equipa que inventou esse sistema que teve o mérito de dar cabo da escola colonial e substitui-la por uma escola nacional, inventada por nós e da nossa responsabilidade. Mas esse sistema era provisório e deveria ser aperfeiçoado depois de uns anos e isso não aconteceu. Lá para o fim dos anos 1980 já se devia ter começado a mudar. Nessa altura o sistema já mostrava muitas debilidades.
E está feita?
Arrastou-se muito a reforma, demorou muito tempo a ser implementada, mas está feita, é capaz é de ser cedo para se ver os resultados. Houve uma discussão pelo facto do mesmo professor dar aulas em diferentes classes, mas isso já era assim. Um professor acompanhava um aluno da 1.ª à 4.ª classe, depois alargou-se isso para a 6.ª e aí começou a criar-se alguma confusão. Na 6.ª classe há um leque de disciplinas e conhecimentos muito largos para um só professor. Esta discussão ainda aí está. Tanto quanto ao sistema em si, que é parecido ao de outros países, e à qualidade, o nível está extremamente baixo. É verdade que até há algum tempo, não poderia ser de outra forma porque o sistema cresceu enormemente e a qualidade não poderia aumentar ao mesmo ritmo. Aumentar foi uma opção e foi a correcta. Pôr toda a gente na escola e criar escolas por todo o lado e formar professores à pressão. É claro que os professores podem não ficar bem formados. O que há a fazer agora é lutar pela qualidade. Devem manter-se professores e devem continuar a estudar, isto fazia-se desde a independência, era o chamado ‘programa de superação’. Naquele tempo, em que era tudo com o papel, os professores andavam grandes distâncias. Tinham formação enquanto davam aulas, passavam rios com livros à cabeça, mas fazia-se. Hoje há meios e plataformas espectaculares de educação como a internet que ajudam o professor a dar aulas correctamente, a chegar ao aluno e ao mesmo tempo a continuar a estudar para se superar, sem sequer sair do sítio. É claro, é preciso dinheiro e aí tem de haver investimento do Estado. O investimento número um deve ser sempre na educação e cada vez mais. O que temos agora não chega. Tem de se fazer um esforço para gastar mais na educação que tem de ter mais meios.
Identifica-se mais com os professores, por exemplo, com os grevistas, ou com a gestão do ensino?
Identifico-me sempre mais com grevistas, quaisquer que eles sejam. Quem arrisca fazer uma greve é porque tem razões profundas. Podemos discutir se essas razões podem ser realistas num dado momento ou não. O Estado tem de ter essa compreensão para haver discussão. Mas é claro que os professores têm de ser dignificados ao máximo, sobretudo os do ensino público para não dar espaço a que o ensino privado seja a referência.
Como compara a juventude da sua geração com a juventude dos nossos dias?
Há dois tipos, falando daqueles que já estudaram alguma coisa, porque os outros, coitados, lutam pela vida sofrendo muito. Nas que já têm alguma formação, há os que querem trabalhar que têm interesse em fazer coisas positivas e têm consciência do país, das dificuldades e das necessidades. E há uma parte que está absolutamente alienada ao deus das coisas fúteis (que se ainda não existe é preciso criá-lo). Estes lutam pelo último Iphone, ficam naquelas filas intermináveis para ser os primeiros a comprar. Para mim, que nunca lutei por uma camisa mais bonita, é uma coisa estranhíssima. Há, de facto, uma parte desta geração que, talvez por culpa dos pais, ou porque teve muitas facilidades e não lutou pelo que tem, é muito alienada, só pensa em diversão e, muitas vezes, o que faz nem é diversão, porque acaba na droga ou algo do género. O que é triste.
A juventude está preparada para assumir o país?
Alguma parte está. Aliás, quem já está em muitos casos a assumir o país, já não é a minha geração, há muitos jovens em cargos de direcção. Alguns bem e outros cometendo alguns erros, o que também é normal.
Que conselhos é que dá aos jovens?
Ponto número um é ler. Não se convençam que a internet substitui os livros. Também se pode ler com um ‘tablet’. Não estou desactualizado e leio muitos livros através desses instrumentos. O futuro faz-se com pessoas cultas e isso cria-se a partir dos livros. Precisam saber um pouco do passado, porque a cultura faz-se também do passado. E é importante pensarem que a realização pessoal é importante, mas que se os outros não se realizarem ninguém é muito feliz. Realizar-se sozinho não me parece ser o melhor caminho.
NG
ANGOLA24HORAS
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