segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Quid pro quo cambial. Carlos Rosado de Carvalho




Uma grande seca assola o mercado cambial angolano. As famílias vêem-se e desejam- -se para obter notas verdes, ainda que cumpram todos requisitos exigidos para o efeito, por exemplo, bilhete de passagem e passaporte, no caso de viagem. Quem tem dólares no banco só lhe é permitido levantar a conta-gotas.

http://expansao.co.ao/Artigo/Geral/52927

Quem ganha com a escassez de dólares são as kinguilas. A nota verde disparou no mercado informal. A taxa de câmbio nas kinguilas já terá testado 180 Kz por USD.
Se o acesso à moeda física é o cabo dos trabalhos, fazer remessas ou transferências de divisas é um autêntico calvário. Má sorte para os angolanos que têm filhos a estudar no estrangeiro e para os expatriados com dependentes nos países de origem.
A utilização de cartões de débito, pré-pagos e de crédito também está a ser cada vez mais racionada.
As empresas não têm melhor sorte que os particulares. Nos bancos, amontoam-se as ordens de pagamento de firmas angolanas para fornecedores estrangeiros.
Face à escassez de divisas, os agentes económicos apontam baterias para os dois principais actores do mercado cambial, isto é, o BNA e os bancos comerciais.
O BNA coloca as divisas no mercado através de leilões semanais reservados aos bancos comerciais - mercado primário - que por sua vez colocam junto dos seus clientes - mercado secundário.
Quando pedem explicações sobre escassez de divisas os agentes económicos enfrentam o 'jogo do empurra'.
Os bancos dizem que a culpa é do BNA, e o BNA diz que a culpa é dos bancos, provocando a confusão no mercado cambial.
"Algumas instituições financeiras que operam no mercado bancário nacional têm procedido de forma inadequada e prejudicial aos interesses dos clientes, pelo facto de não darem seguimento às operações por si ordenadas e privando-os da utilização e movimentação dos recursos depositados, negligenciando a existência de um vínculo contratual estabelecido entre as partes", acusa o BNA, ao mesmo tempo que desafia os agentes económicos a apresentarem queixa - sem queixa, o BNA não pode actuar.
O BNA tem razão em acusar os bancos. As divisas depositadas nos bancos pertencem aos clientes que estão no direito de, a qualquer momento, reclamarem os valores depositados. Cabe aos bancos adoptar políticas de gestão de liquidez adequadas para responderem às solicitações dos clientes, nomeadamente constituindo reservas para acudir aos levantamentos. Só quando estão envolvidos montantes elevados é que se compreende que os bancos exijam um pré-aviso.
Se o BNA tem razão em acusar os bancos de conduta ilegal por restringirem os levantamentos de depósitos em moeda estrangeira, os bancos não têm menos razão quando se queixam de que o BNA reduziu a oferta de dólares no mercado primário e que por isso têm dificuldade em atender os clientes que querem comprar divisas.
O principal fornecedor de divisas aos bancos é o BNA - os bancos podem comprar divisas aos seus clientes, mas estas transacções são residuais.
Para ajudar ainda mais à confusão que grassa no mercado cambial, o governador do BNA veio dizer que não só não houve redução de venda de divisas aos bancos, como até houve um aumento de 34% de 2013 para 2014.
Porém, de acordo com os dados do BNA em 2013 as vendas atingiram 19.281,8 milhões USD, baixando 0,6%, para 19.174,5 milhões USD, em 2014. Em média mensal estamos a falar de 1.607 milhões USD em 2013 e 1.598 milhões USD em 2014.
Na folha de cálculo publicada pelo BNA (http://www.bna.ao/uploads/{719f3b2a- -4ac9-4912-906a-a05d145c38d3}.xlsx), consta que, em 2014, a média mensal de venda de divisas foi de 2.130,5 milhões USD, o que daria um aumento de 32,6% face a 2013. O problema é que a média das vendas mensais de divisas em 2014 que consta da folha de cálculo do BNA - os referidos 2.130,5 milhões USD - está errada, porque resulta da divisão das vendas totais de 2014 por 9 e não por 12, como deveria ser, pois o ano tem 12 meses e não 9.
Ou seja, o governador foi mal brifado pelos seus assessores. O BNA está efectivamente a colocar menos divisas no mercado, como aliás era previsível, face à queda do preço do petróleo. O ano que agora começa constitui um sinal do que pode vir por aí: em Janeiro de 2015, o BNA vendeu aos bancos comerciais divisas no valor de 1.123 milhões de dólares norte-americanos, um trambolhão de 30% face à média mensal de 1.598 milhões em 2014.
A confusão que grassa no mercado de divisas é culpa da escassez de dólares, resultante da queda do preço do petróleo, mas a comunicação do BNA também não está a ajudar nada, ainda por cima baseada em contas gatadas.

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